EntreContos

Detox Literário.

Velhice e memória (Desconhecido)

Achei uma foto antiga de um homem bem parecido comigo. Deve ser um primo ou um sósia. O curioso é que no verso da foto estava escrito meu nome (André, 25/05/1976).

Algum engano, pensei. Carla, minha segunda mulher, deve ter colocado meu nome, achando que era eu. Quando viu a foto, meu psiquiatra veio com suas teorias. Disse que é normal sermos diferentes do que fomos no passado. As fotos não correspondem exatamente ao que vemos no espelho. Fotos são espelhos do passado, ele disse, como que citando um poeta famoso. É uma idéia interessante, mas sei que aquele André que está lá não sou eu. Existe qualquer coisa nele, uma ingenuidade, um otimismo, um brilho que já não tenho mais. Sou outra pessoa, compreendo isso perfeitamente. Disse isso ao meu psiquiatra. Ele me receitou algumas caixas de Quepsia, e pediu para me ver em duas semanas.

Em casa tudo que sinto é uma absurda solidão. Lembro nitidamente da minha primeira mulher, a Juliana, seus ombros largos, seus seios firmes, seus cabelos levemente anelados, perfeitos para um cafuné. Fico sempre angustiado quando penso nela e não lembro por quê terminamos.

Minha segunda mulher me deixou também algumas boas lembranças. Era mais magra, mais baixa, tinha cabelos lisos, um pouco mais ralos. Mas, para falar a verdade, era uma mulher sem graça. Transar com ela era como transar com uma empregada ou como uma amante de bairro pobre. Havia um certo alívio, mas faltava alegria, faltava paixão.

Nos fins de semana íamos para as casas dos parentes dela, os tios, os primos, os avós. Às vezes eu trocava o nome deles, sem querer, e eles diziam: ora, tudo bem, Afrânio.

Tudo isso me divertia, me relaxava, e eu adiava o momento do divórcio. Mas eu só pensava em me separar. Que sentido havia em ficar com uma mulher que não me inspirava, não me dava um bom sexo, não me levava a lugares interessantes, enfim, não me fazia sentir vivo?

Às vezes eu me trancava no quarto e ficava pensando em Juliana. O que faríamos se ainda estivéssemos juntos? Uma viagem à Itália, talvez, ou mesmo à Argentina, para aprender a violência ritmada do tango. Sei de casais, muito felizes, que pagam escritores para contar suas histórias. Não seria má idéia localizar um desses homens de Letras e perguntar seu preço. O problema é que não recordo como terminamos. Não consigo entender como tanto amor pode ter gerado uma despedida tão cabal. Meu psiquiatra, mais uma vez, não me ajuda com isso. Segundo ele, nunca existiu Juliana; ela foi apenas um sonho que alimentei durante anos, para não enxergar meu casamento ordinário, minha mulher medíocre, minha vida insípida e sem sentido.

Tudo que eu queria era achar uma foto, pelo menos uma foto, em que estivéssemos frente a frente numa mesa, sorrindo, ou nos beijando; ou abraçados, grudados um no outro como dois adolescentes. Queria ver o que meu psiquiatra diria. Aí sim, talvez ele alegasse que o homem da foto era apenas alguém muito parecido comigo. Um sósia ou um primo. Alguém que teve uma esposa ou namorada bela e inacreditável como Juliana. É assim que esse paspalho pensa. Já entendo a mentalidade dele. Mas no fundo não ligo. Não dou a menor confiança. Se ele estiver certo, se eu estiver perdendo paulatinamente a memória, um dia me esquecerei dele e de tudo que ele diz. Aí poderei acreditar tranquilamente na realidade. E a realidade é Juliana, a vida que tive com ela, seu corpo quente, seus seios perfeitos, que se chocavam com meu rosto quando fazíamos amor. Carla, minha velhice, minha suposta doença neurológica, são apenas as mentiras banais que o psiquiatra  tenta me impor. Em breve não terei que pensar mais nelas.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.