EntreContos

Detox Literário.

Um Papel Achado Na Rua (Lino Parmam)

Li, certa vez, num papel achado numa rua mais ou menos isso: “Justos são os loucos.”. Até hoje não consegui entender ou até mesmo comprovar para mim mesmo essa ideia. O que discerne uma pessoa lúcida de um louco? Talvez eu até mesmo seja uma espécie de; lendo um escrito que achei numa rua e tentando entender… Pffff. Pensar é custoso, não só nisso, mas como em todas as outras coisas…  Krishnamurti disse certa vez em uma de suas audições ou numa entrevista, não me lembro: “É impossível controlar os pensamentos, então o melhor que tem a se fazer é observá-los.”, o que é um trabalho custoso também. Eu tentei, e em certa altura deste exercício que durou alguns dias, talvez semanas, porém espaçado por tentativas de controlar (o que cheguei à conclusão de que é realmente impossível) e até mesmo por tentativas de criar um pensamento o que não consegui; penso que um pensamento vem precedido de outro, que teve origem sabe-se lá quando, talvez alguém consiga domar, ou até mesmo criar um pensamento, não eu. Talvez tudo venha de Deus, se existir, inclino-me pro sim nesta questão. Em certa altura, dessas pratica, me perguntei, qual o objetivo dela? Não achei resposta, mas percebi que é uma pratica que dá muita paz de espirito quando praticada, porém pacificadora? Não sei. É difícil entender a mente humana já que você, e de maneira, talvez muito primitiva, tem a sua como laboratório e o que você tem sobre a dos outros são impressões causadas por eles em sua própria (mente). Acho que quem escreveu isso foi Proust e em Busca do Tempo Perdido. E foi pensando nisso tudo que resolvi sair pra dar uma volta.

Andando pelo bairro, e pensando ainda, veio-me essa ideia: talvez não seja possível criar um pensamento, mas de alguma maneira, não criar, já que todos vem precedidos, mas como num livro muito bem escrito, surgir uma quebra de narrativa, por assim dizer, e aquilo tudo que foi você se traduz nesse parêntese mental. É só uma ideia e, talvez, isso seja o que chamam amadurecer.

 Pus-me numa situação de cínico, porém, também penso que se pode chegar a conclusão de alguma coisa mesmo que num futuro próximo ou distante eu mude de ideia, afinal isso sempre acontece, é bastante confortável e custoso ao mesmo tempo pensar assim. Eu realmente não sei, e repare, eu não sei mesmo; eu não sei tanto que até duvido, às vezes, que não sei. É confortável não saber. E pensava mais ou menos isso: “A verdade pra ser real  não pode conter um mínimo erro, o que pra mim invalida toda a obra que diz descrever qualquer coisa que seja.”, minha cabeça doeu, foi quando ouvi alguém me chamar: – Ô rapaz, acorda! viajando, é?

Era André, eu estava realmente viajando, mas respondi: 

  – Estava pensando na morte e ai cara, beleza?… Ah pode crer… vou sim, vamo lá – ele estava indo comprar cigarros para o pai, e me perguntou se eu iria até a venda com ele, eu disse que sim.

– E ai qual vai ser a desse réveillon? Viajar? – perguntou-me com entusiasmo.

– Cara, não sei ainda, e você?

– Sei não vèi … 

A conversa seguiu nesse tom trivial o que me desagradou na hora e fiquei aéreo, este julgamento que tive sobre a conversa, num futuro próximo, pouco depois que me despedi dele, se juntou a outros alto-julgamentos que tenho guardados em mim sobre minha personalidade e me fez me perguntar: “sou uma pessoa detestável?”… E escrevendo essas linhas agora percebi, sei mais ou menos o que quero ser, só não sei ainda como chegar lá.

Segui andando e percebendo ao mesmo tempo o que me cercava e o que pensava, era como se as duas coisas estivessem juntas numa só, era noite, luzes dos postes, o vento, a calçada e a rua… Carros, pessoas, pensamentos vagos sobre mim mesmo… “O que eu sou? O que eu quero ser, o que serei?”, abateu-me uma melancolia… “justos são os loucos” pensei nisso, faltam-me dados para realizar essa ideia, por quê justos? E o que discerne um louco dum lucido? Porém o que me deteve, no momento, a esse pensamento foi menos a validade do que o que pensou a pessoa ao escrever isso, mas sim perceber que era outra história, outra vida, não consegui pensar muito, desisti de traçar uma personalidade em minha mente para esta pessoa, não que não me importe, importo-me, mas me pareceu inútil no momento, porém agora vejo a importância disso, é uma história, uma existência… Uma vida. Tocou-me o que ele ou ela escreveu, fez-me sentir e pensar e sentir, num torvelinho incessante, aonde me levaria?… Penso que todas as coisas são feitas para um bem maior, um objetivo, como escreveu Hegel sobre a história, não me lembro ipsis litteris, mas foi a respeito do que ele chamava o Espirito Absoluto e que ele dizia que ao fim da história se efetiva e se justifica, pensar nisso me traz esperança, mas às vezes penso que isso é tudo uma grande bobagem.

Andava e me dei conta de que passaria por um bar, o que me fez lembrar de uma conversa entre amigos, à proposito num boteco, falávamos sobre e de várias coisas, foi mais ou menos à dezoito anos atrás e se tinha muita expectativa sobre as eleições presidenciais em que Lula concorreria à presidência com Fernando Henrique Cardoso, era esperado que se Lula ganhasse romperia com o FMI e faria, sabe-se lá como, o Brasil virar uma potencia mundial… Céus! Como estávamos esperançosos! Não aconteceu… Lembro-me agora que eu era cheio de certezas, o que me fez rir do meu eu do passado, um riso ao mesmo tempo cansado e compreensivo… As vicissitudes da vida me separaram destes amigos e lembrando disto fiquei bastante triste, pensei em beber, mas não estava no clima e era uma terça-feira… Queria só andar a esmo como às vezes faço. Subia uma pequena ladeira, não muito íngreme, então, e delineei o meu destino, iria sentar numa praça, num quiosque, onde havia um banco, era perto. Imaginava que lá encontraria paz, pensei em algo que um psicólogo me falou sobre sentir e decidi que lá pararia para apenas isso: sentir a brisa, ouvir os sons e perceber quais sensações e sentimentos eles me trariam. Uma lembrança da minha adolescência  modificou o meu humor, e até sorri.

Cheguei ao quiosque, sentei, o vento soprava manso, era um pouco mal iluminado, do banco se via um parque, estava vazio, era um tanto tarde, passava das nove e meia, não havia muito barulho, senão o dos carros que passavam numa rua próxima. Detive-me no meu exercício delineado antes. O vento soprando, os carros passando, o parque… Algo aconteceu:… Não sei descrever; foi como tocar numa ferida e a infecção se espalhasse para depois se dissipar, mas não completamente. Senti alivio, mas me caiu uma lágrima dolorosa e com espinhos; foi como se encontrar desarmado perante uma ofensa. Maltratar quem me fez mal? Maltratar a mim mesmo? Não… Prefiro perdoar e seguir meu caminho… O que me espera? Não sei… Nem a morte é certa

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.