EntreContos

Detox Literário.

Nossa Senhora (Anônima)

É mentira que o tempo afasta as pessoas. No que me diz respeito, percebo que o passar do tempo me tornou saudosa e carente de vozes familiares. Isto explica minhas repetidas peregrinações entre parentes, amigos e até lugares de um passado que teima em ficar presente. E ainda mais prova meu prazer em escutar estas vozes. 

Quero refletir sobre nossa vida, sobre como ela sabe ser debochada e irônica. No tempo em que o vigor físico permitiria façanhas incríveis, a gente é tomada por interesses que nos levam alhures, perseguindo sonhos e quimeras ou lutando contra realidades impiedosas. E nestas batalhas em que tanto faz sair ganhador ou perdedor, se desenrola o novelo da vida. 

De repente, Nossa Senhora Velhice. 

Todo mundo conhece, por ter muito ouvido falar dela, mas por que se preocupar com algo acintosamente desagradável, quando ainda não nos diz respeito?

Logo um susto, e eis ela aqui, na nossa casa, na nossa cama, na nossa pessoa, para provar que tudo o que se ouve, o que se sabe dela, são apenas palavras, pois é outra a verdade que nos cabe experimentar. 

A verdade é que esta Senhora nos abre a mente, nos dá a medida e o perfil do que é importante; aguçando nosso ouvido, escutamos atentos, comovidos, partícipes, o som de vozes antigas que não nos alcançavam no tempo da juventude. Nos torna cientes de que hoje não temos espaços vazios. O luxo do tédio passa muito longe. Até a aparente inércia de uma hora estática numa poltrona, nada mais é do que um ativo ruminar…

Então o que dizer da suposta banalidade cotidiana? Continuar com compromissos intensamente familiares, moderadamente mundanos, esta orgulhosa autonomia solitária (até quando? não precisa saber, sabendo que vai acabar), e até projetando viagens. Dar-se conta que se precisa desse tipo de projeções para sentir-se vivo e ativo. Descobrir que é fundamental, nesta fase da vida, ter datas que não permitam ao tempo de passar desapercebido, espalhando apenas perdas, limitações, poeira e gastura. Ciente do dever de viver, não vegetar, para demonstrar para si mesmo, antes do que aos outros, que ainda não se é uma ruína oferecida à piedade alheia, ou ao interesse eventual de quem se possa interessar. 

E sabendo que até o tempo da ruína vai chegar, a não ser… 

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.