EntreContos

Detox Literário.

Listando Desejos (Maria do Carmo)

Corri até o ponto do ônibus, bem, correr é só uma expressão mesmo, caminhei o mais rápido que minhas pernas e fôlego permitiam, e cheguei bem a tempo, ainda bufava quando seu Joaquim, o motorista, disse todo animado:

─Guardei lugar pra senhora, não precisava vir tão depressa. ─ Apontou o assento preferencial para idosos bem atrás de sua cadeira, de onde podia me espiar pelo retrovisor.

─Obrigada, Joaquim. Sempre muito gentil.

O motorista devia ter uns quinze anos a menos do que eu, mas toda vez que o via minha certeza de que ele estava flertando comigo aumentava. 

─Vai pra aula de dança, dona Maria? ─Perguntou depois de colocar o ônibus para andar.

─Vou sim, é zumba para a melhor idade. Faz o corpo desenferrujar um pouco. ─ Disse, encafifada com as atenções do “jovem”.

Tentou puxar outro assunto, mas desistiu quando tirei meu caderninho da bolsa. Olhei para minha lista, pensando em qual item iria me esforçar para riscar. Faltava muito ainda, graças a Deus! E os itens riscados já davam quase dez páginas! Vi minhas opções e uma me chamou a atenção. 

Transar com um estranho

Olhei para o Joaquim, olhei para o caderno… Sorri incrédula para a ideia que se aninhou em minha mente.  Não precisava ser um completo estranho, já que seria praticamente impossível… quem em sã consciência iria querer uma velha assim do nada?  E não valia ter que pagar pelo serviço! O Joaquim era um completo desconhecido fora daquele ônibus, não sabia nada sobre ele. Era estranho o suficiente e parecia estar “me dando mole”, como dizia minha neta.

O frio na barriga que antecipava a execução do meu plano me lembrava que eu ainda estava viva! Por isso comecei a lista, pra voltar a sentir essa emoção, de tentar coisas novas, me desafiar, e esse seria um baita desafio! Fazia tanto tempo que nem lembrava mais como era, e seria um desaforo morrer “na seca”. Bati o lápis no caderno e tomei a decisão. Aquela seria minha próxima missão.

Fechei o caderno e guardei na bolsa, peguei um batom vermelho e passei dando batidinhas leves sobre os lábios. O espelhinho me mostrava os olhos afogueados e as bochechas avermelhadas pela decisão. Nada mais rejuvenescedor do que emoções intensas na velhice. O ponto em que desceria chegou e levantei com alguma dificuldade, aproveitei para segurar no ombro do Joaquim, deixei minha mão mais tempo do que precisava e antes de descer disse:

─Até amanhã então, Joaquim, guarda o meu lugar. ─Sorri da maneira mais coquete que me lembrava e pisquei um olho.  

O motorista ficou vermelho como um pimentão e acenou com a cabeça repetidas vezes.

─Pode deixar, dona Maria! 

Entrei na academia ainda com o coração palpitante, tudo bem que um pouco era por conta da subida que vinha logo depois da parada do ônibus, mas também pela possibilidade de um flerte na minha idade! 

Entrar na academia já era um de meus projetos, um dos primeiros, que dava doces frutos de maior vitalidade, flexibilidade e também  a companhia e amizade das pessoas que conheci. Era um momento sagrado, todos os dias havia uma atividade diferente, natação, zumba, aeróbica, alongamento e dança do ventre, nessa última jamais teria entrado há alguns anos, mas a vida vai nos amadurecendo. Imagino o que mais eu perdi só por medo ou preconceito de tentar. 

Quando saí da academia, Stella já me esperava. Era minha confidente e ajudante nos projetos. Influenciar sua vida para que se amasse em primeiro lugar e cuidasse sempre de si era um item da minha lista também, no qual já estava obtendo grande êxito. 

─Oi Vó, vamos fazer compras para a viagem? ─Disse, antes que eu entrasse no carro.

─Claro né, menina, essa vai ser uma grande aventura! Será que vou conseguir?

─Consegue sim! Ainda não acredito que me convenceu a ir junto! 

─Você também precisa de aventuras, meu bem. Só vive trabalhando…  

Stella era uma mulher forte que trabalhava duro e conseguia tudo o que queria, mas quase nunca se divertia, preparei essa viagem um pouco por ela, iríamos para um parque aquático onde havia o maior toboágua do mundo, logo alí na Barra do Piraí, aqui no Rio de Janeiro. Apesar de morrer de medo de altura, tinha que experimentar uma coisa dessas antes de morrer, ou até, quem sabe acelerar a minha morte naquele troço. E se sobrevivêssemos, aproveitaríamos o resto das delícias não perigosas do parque.

─A senhora decidiu se vai comprar biquíni ou maiô?

─Misericórdia menina, maiô, é claro! Deus me livre de ter que mostrar mais do que devia, ainda mais naquela descida, vai que a parte de cima do biquíni some? Toplles na minha idade não dá! 

─Ai, Vó, o que que tem? Com todo o exercício que a senhora faz, tá com o corpo melhor que o meu!

─Até parece né, corpo de setenta nunca será melhor que de trinta. Quer trocar? Bem que eu queria mesmo… 

Depois de comprar um maiô, mais cavado do que gostaria, uma saída de praia toda florida, um chapéu bem charmoso, protetor solar e óculos de sol, fomos fazer um lanchinho. Aproveitei para contar sobre o meu novo projeto.

─Seu Joaquim? Tá mesmo dando mole pra senhora? 

─Parece que sim… o que você sabe sobre ele?

─Ouvi dizer que é viúvo, sem filhos, e não é tão mais novo que a senhora não, com certeza já passou bem dos sessenta.

─Perfeito! Vai ser ele mesmo!

No dia seguinte me arrumei mais do que de costume, refiz a tonalização dos meus cabelos brancos em um tom de lilás, que adotei há algum tempo e que mudou radicalmente minha aparência, me deixando mais “maneira” e “descolada”. Caprichei no perfume e no batom. Fazia tempo que não me sentia tão ansiosa, quase todos os itens da minha lista, apesar de desafiadores, como tirar a habilitação de moto ou pular de bungee Jumping, não eram de caráter tão íntimo e não dependiam de outras pessoas, só de mim mesma, agora, iria ter que seduzir um homem! Confesso que não estava muito segura de que conseguiria.

Cheguei ao ponto de ônibus alguns minutos adiantada e respirei fundo.  Precisava acalmar as batidas do coração, não queria ter um infarto logo ali, e nem na hora H, se chegasse tão longe, é claro. Mas isso era coisa para se preocupar outra hora, uma coisa de cada vez, primeiro arranjar um encontro para a semana seguinte, porque naquele final de semana iria para a Aldeia das águas descer no bendito toboágua, que agora nem estava me preocupando mais.

A porta do ônibus abriu bem na minha frente e me arrancou de meus pensamentos descontrolados, olhei para o Joaquim, que sorria de uma orelha até a outra. Camisa bem passada, os fiapos restantes do cabelo bem esticados tentando cobrir a careca. Subi os degraus e assim que me aproximei pude sentir o perfume, discreto e elegante. Ponto para ele!

─Boa tarde, dona Maria! Como está hoje?

─Muito bem, seu Joaquim, e o senhor?

─ Vou indo como Deus manda… A senhora está muito bonita hoje… ─disse meio sem jeito.

Me acomodei na “minha” cadeira antes de responder:

─Ah, obrigada! O senhor também, gostei do perfume! ─ Pisquei um olho para o espelho. Até o pescoço dele ficou vermelho. Parece que eu ainda sabia como seduzir um homem, afinal.

Teria que agir rápido, queria decidir aquilo logo, antes da viagem, para poder me preparar mentalmente para o que viria. Passei o trajeto todo ensaiando e assim que meu ponto se aproximou já levantei e perguntei:

─Estava pensando, Joaquim, o que acha de jantarmos juntos um dia desses?

Ele me olhou assustado e  voltou a atenção para a direção, estacionou perfeitamente no ponto e olhando para mim novamente, disse:

─É uma ótima ideia, dona Maria! Quando?

Passei o resto do dia camuflando sorrisinhos nervosos, sem acreditar que tinha mesmo um encontro marcado. Imaginar que devia tudo àquela lista que fiz há mais de dez anos. Na época, não imaginava que teria a proporção que tem hoje na minha vida. Acho que ainda estou viva por ela, ela me impulsiona, faz meu coração acelerar, faz minha mente se reinventar e meu corpo testar seus limites. Olhei todos os itens já riscados, coisas que jamais achei ser capaz  de executar, cada um me dava uma sensação de dever cumprido, um sentimento de estar vivendo e não apenas existindo. 

E o grande dia chegou, não O grande dia, mas o dia de descer o Kilimanjaro. Olhando para ele percebi que o subestimei.

─Nem morta vou descer nisso daí, Vó!

─Ah, mas você vai descer sim senhora! Se eu posso descer, você também pode, nem precisa me olhar com essa cara.

Tentava parecer segura e calma, mas por dentro estava apavorada! Eu até sabia nadar, graças a minha lista, mas o “trem” era muito alto mesmo, não tinha certeza se conseguiria subir até lá, e depois ter a coragem de descer! Misericórdia!

Subimos todos os milhares de degraus até chegar ao topo do mundo, pelo menos era o que parecia, e agradeci aos céus por estar de certo modo “em forma”. E a sensação de estar lá no alto era sensacional! Via o parque todo, tudo minúsculo lá em baixo, dava um sentimento de como somos pequenos e vulneráveis e como a natureza é grandiosa. 

À medida que a fila ia seguindo e chegando a nossa vez, o medo ia falando mais alto nos tentando nos fazer desistir.

─Ainda dá tempo de voltar, Vó. A senhora pode ter um treco aí dentro, sabia?

─Não finge que está preocupada comigo não. Encara o medo de frente e não deixa ele te vencer. Sinta a adrenalina, menina. Faz um bem danado pra alma.

Stella foi na frente, se estivesse sozinha com certeza tinha desistido. Eu não desistiria. Faria isso pela jovem que fui que nunca provou nada parecido na vida. Ainda era tempo de sentir, de viver. O empregado do parque baixou a cordinha que me separava do cano e sentei na água fresca, nem precisei de muito impulso, quando percebi já estava despencando. Era água pra todo lado e a sensação da queda, cinco segundos de queda, gelou minha espinha e fez meu coração quase parar. Assim que senti meu corpo caindo na piscina, soltei a respiração que nem percebi estar prendendo. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida!

─A senhora tá bem, Vó? ─Stella me ajudou a sair da piscina.

─Estou ótima e você? ─ Perguntei enquanto tirava água do ouvido.

─Foi demais! Eu quero ir de novo! Vamos?

─Vai você, meu bem, pra mim já foi emoção suficiente por hoje.

Aproveitamos o resto do dia no parque e foi um dos dias mais felizes da minha vida. Queria muito que meus filhos estivessem lá. Queria ter vivido esse dia quando ainda era jovem, minhas crianças estando todas ao meu redor e meu marido ainda vivo. Teria sido absolutamente perfeito. Pena que naquela época, um dia assim não estava nas minhas prioridades. Agora todos estão ocupados demais com suas vidas cheias e chatas. Por sorte tenho Stella, e ela ainda é jovem o suficiente para adotar um estilo de vida mais leve e prazeroso.

Já em casa, risco com prazer mais um item da lista.

Descer no maior toboágua do mundo

Olho para outros itens ainda por riscar:

Escalar uma montanha

Visitar outro país

Fazer uma viagem longa de moto

Transar com um estranho

Aprender mandarim

Aprender a tocar bateria

Ainda colocarei muitos outros na lista, não sei se terei tempo e saúde para riscar todos, mas seguirei  riscando um por um enquanto puder. 

Daqui a alguns dias será o meu encontro com o Joaquim, e só as emoções conflitantes que a antecipação me fazem sentir, já faz valer a pena ter encarado esse projeto. Existe um ditado que diz que para morrer, basta estar vivo. Eu prefiro pensar que para viver e sentir, basta estar vivo!

 

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.