EntreContos

Detox Literário.

Casa de Contrição (Arthur Laura)

O terreiro amarelo e bem varrido parecia-me agigantado assim como são todas as coisas na infância. Poeira que subia nas tardes de todo dia, nas peladas com menino homem, de pé no chão, habilidosíssima, para contrariedade do meu pai e da natureza de menina moça. Ela, entre o vai lá, vem cá das panelas, do alho que sempre feria-lhe o dedo, do pilão à espera das mãos acostumadas (…) procurava-me com os olhos e velava-me, entre um chute e outro, um grito e outro, nas nossas tardes de meninice e pouco banho.

Cheguei por último, aos quarenta e três do nono tempo, quando nossa mãe, já velha para as dádivas maternas, não esperava por mais ninguém. Embaraçada, amenizava o algum constrangimento abstendo-se das novenas, das muitas missas e dos convites para a merenda. Mais coisa dela do que dos outros, pois amaram-me como a um último florescer da roseira num tempo em que as folhas já ousavam arriscar-se para longe do caule. 

Da altura de criança, vi os cabelos que branqueavam, as pintas do tempo trabalhadas no dorso das mãos, o curvar das costas, o andar mais demoroso e o queixar-se cada dia mais ausente. Acompanhei o formar das veias que saltavam, azuladas, a cada subida na trilha apertada e pedregulhenta que levava à lavoura de café. Subia cansada, suportando meus muitos reclames de preguiçosa. Apressada, pra não deixar esfriar a marmita com os pedaços de frango contados, tal pra qual, cujo pé que é sem carne e ela jurava preferir, mas que sabíamos, até eu, na minha túrbida percepção das coisas, que era pra conta do frango ficar igual.  

A comidinha, carinhosamente guardada sobre a trempe, na tigelinha de alumínio batido, para o chegar faminto da escola. Por vezes sem carne, razão dos meus desprezos e desaforos. Sinto. Ainda hoje. Na comidinha ficava o gosto da tigela. O gosto. 

Via, com a compreensão faltante de quem vivera uma década, o despencar do rosto dela no fim das férias dos netos da minha idade. O sofrer calado de quem, por designação originária, fora ensinada a suportar o mundo inteiro. 

Dos tempos dispensáveis da juventude, a adolescência é mesmo a maior patetice que nossas vistas já viram. Pois que nada senti, lembro-me bem, além da repulsa por um choro que não era meu e por uma porta trancada, em que esbofeteei sem qualquer respeito, a procura de uma peça de roupa qualquer. Num daqueles dias que a casa não esquece, nos foi entregue a notícia. Após sepultamento já feito, soubemos da tia Joana, a última irmã perdida, a derradeira do seu sangue, que não via pra mais de trinta anos esquecida pelas bandas do norte do país. Desolação lançada na mesa da cozinha, sem tato, como quem joga uma chave qualquer.

Com a enfermidade da irmã já por todos sabida, minha mãe foi proibida de fazer a viagem, ainda que as condições de dinheiro lhe fossem favoráveis. Meu pai, homem de incontestável honestidade e cotidiana rudeza, nunca fora dado a sentimentos fraternais. Restou-lhe um lamuriar sufocado, coibido pelas nossas necessidades infindas. O almoço por fazer, a roupa limpa para o trabalho dos filhos, meus arroubos mimados de caçula protegida. “Chega, mãe! Morreu, morreu…fazer o quê.” Lembro-me de ter dito, sob o silêncio de todos, enquanto assistia na TV as mesmas idiotices de sempre.

Nosso pai costumava nos ensinar sobre o comportamento dos animais do pasto. De como reuniam-se em torno da morte. “Parece que até sai lágrima…” dizia ele muito interessado. A ela, a afasia do silêncio.

O muito jovem mais parece bicho tolo destinado ao arrependimento. Na última vez em que ela pode avistar-me, pouco depois de os meus braços mal tocarem seus ombros, veio até a porteira, na entrada do terreiro amarelo, a fitar-me com olhos repletos, sem deixar escorrer, enquanto o carro abarrotado de malas partia para o meu primeiro trabalho e muitos meses de ausência. Não era olhar que eu conhecesse. Era olhar como quem soubesse. Ela sabia. Olhos de quem pedia pra voltar, o tempo, um minuto, um abraço que fosse o maior de quem o desse. 

Descobri, por ocasião dessa minha sempre lembrança dela aos pés da porteira, que os olhos não falam. Ao menos não gritam o suficiente. 

Meus filhos brincam no terreiro. Parece-me tão pequeno e coberto por uma detestável grama verde que deixaram esconder o amarelo da minha infância. O primogênito Arthur num esforço diligente, desajeitado, em aprender a empinar pipa com o tio Sérgio. Minha pequena Laura, pouco afeita a bonecas, desenha estradas com os pés, cuidadosa para não sujar em demasia as mãos, enquanto brinca, para desassossego do pai, com os carrinhos e tratores que encontrou na maleta do irmão. Eu a busco de longe, com os olhos entre os vãos da antiga varanda, enquanto nós, tal qual folhas caídas, reunidas pelo tempo aos pés da roseira, preparamos o almoço a muitas mãos.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.