EntreContos

Detox Literário.

Ignacius (Homero)

 

O choque constante das espadas. Os gritos de dor e raiva dos guerreiros. O clamor da multidão. Esse turbilhão de sons ressoava com tanta força na antecâmara do coliseu que Ignacius sentia seu corpo vibrar.

Nunca iria se acostumar com aquele odor acre e a presença constante da morte, mas, naquele dia em especial, ele conseguia, pela primeira vez, ignorar o desconforto da pré-batalha.

Cássio estava do outro lado preparando-se para o combate de equipe.

Era sua chance, finalmente.

Sentiu o alvoroço nas vozes dos homens que se alinhavam à sua direita quando o silêncio reinou no coliseu.

— Boa sorte, companheiros — desejou um dos gladiadores. — Hoje lutamos lado a lado.

— Deixem o brutamontes para mim — avisou Ignacius. — Se alguém cruzar meu caminho, qualquer um, irá sentir o fio da minha espada.

A mera ameaça não seria capaz de balançar aqueles homens, tão endurecidos pela realidade vivida, mas o tom usado, carregado de ódio, esse sim poderia quebrar a determinação do mais valente lutador da arena.

Quando o rufo dos tambores anunciou a batalha e os portões se levantaram deixando o sol invadir a antecâmara, Ignacius deixou escapar algumas lágrimas. 

Uma mistura sutil da tristeza e raiva que sentia por ter perdido a coisa mais importante de sua vida.

 

 

Parecia que seu corpo tinha se ajustado naturalmente. Ignacius sempre acordava primeiro. Sempre. E permanecia deitado, quieto, olhando para ela. Não era a mulher mais bela da vila, tampouca a mais formosa e sensual, mas era tudo o que queria.

Doce Lívia.

Conheciam-se desde a infância. Filho do único ferreiro do vilarejo, Ignacius aprendeu desde cedo o ofício de sua família, sempre acompanhando seu pai. Assim, frequentou a casa de muitas pessoas, incluindo de Lívia, filha da única florista do povoado. Cresceram, olhando um para o outro, de longe, timidamente, e assumiram o lugar de seus parentes. E o inevitável aconteceu. 

Numa manhã fria de primavera, dentre as flores que enfeitavam os campos da vila, eles deram o primeiro beijo.

 

 

Um combate de equipe entre gladiadores sempre começava devagar. E, no terreno escolhido da semana, uma simulação mal feita de um ambiente arenoso e desértico, todos precisavam se acostumar com o solo instável. Então, pouco a pouco, aproximavam-se, com armas em punho e escudos em riste. Algumas ofensas eram lançadas ao ar, em vão, pois o clamor do povo, exigindo mais sangue, sobrepujava qualquer outro som.

Com exceção, claro, do coração de Ignacius, que batia ferozmente.

No momento que pisou na arena, mesmo longe e distorcido pelo calor intenso, reconheceu Cássio. Não seria capaz de confundi-lo. Dois metros de altura e um corpo colossalmente musculoso. Mesmo no coliseu, sua presença contrastava com qualquer outro gladiador.

Recuado, aguardou o melhor momento para avançar, mesmo quando a batalha finalmente começou. Ignorando tudo e todos, contornou o conflito, aproximando-se do gigante por detrás. Esse, por sua vez, com uma alabarda enferrujada, acabava de acertar um golpe horizontal noutro combatente, decapitando-o parcialmente. Resmungou algo inaudível e riu grotescamente alto.

Ignacius ficou paralisado. Naquele dia, quando lhe roubou a vontade de viver, teria agido daquela forma? Dando risada?

Não pensou em mais nada. Avançou com tudo, com precisão, mas entregando sua posição. Era rápido. E ágil. Quando Cássio se virou, tentando pegar uma espada que estava no chão, sentiu a lâmina penetrar o vão do peitoral de ferro, bem na altura do ombro esquerdo.

Seu berro, de uma dor há muito tempo não sentida, alegrou Ignacius.

 

 

Helena tinha os olhos amendoados da mãe e os cabelos ondulados e negros do pai.

Nasceu num inverno estranhamente quente. E, ao invés de chorar no parto, sorriu deliciosamente. Quando tinha três anos, sentava na soleira da casa e observava seu pai, um homem forte, trabalhar na forja. 

Não entendia muito bem o que ele fazia, recebendo dinheiro para ficar batendo em coisas, mas adorava o som metálico constante.

Sua mãe, num poético contraste, trabalhava com flores, brincando com cores e formas de um jeito que encantava a pequena. Helena também gostava de acompanhá-la, não apenas com os olhos, mas também com as mãos.

Era feliz e vivia sorrindo.

Mas tudo mudou quando tinha cinco anos. Homens cruéis invadiram as casas e machucaram as pessoas que faziam parte de seu mundo. Foi levada embora. Foi vendida como escrava. Teve a inocência roubada aos sete anos.  Conseguiu fugir aos onze anos e ficou perdida por muito tempo. Um dia, passeando por um campo de flores, atraída por um odor conhecido, mas de origem nebulosa; reconheceu, ao longe, o jardim de sua infância. Encontrou, deitado perto de uma lápide, um homem despedaçado que lembrava seu pai.

Ele viajou na véspera de seu quinto aniversário. E desde então, mesmo quando reunidos novamente, permaneceu distante. 

 

 

Cássio sempre se destacou naquilo que gostava de fazer: matar.

Desde os tempos que liderava um grupo de bandidos até seus dias de glória como gladiador, nunca fora ferido seriamente. E gostava disso. Gabava-se sem parar. Tinha orgulho de ser o homem de aço da arena. Aquele que pisava no campo de batalha e todos tremiam.

Então, naquele momento, no fervor do combate, diante o pequeno homem que, por fim, tinha-lhe roubado sua unanimidade, tudo o que sentiu foi raiva, muita raiva. 

Agarrou a espada que estava fincada em seu ombro com toda a força que tinha, mas, para sua surpresa, o gladiador conseguiu retirá-la, cortando profundamente sua mão direita. Isso nunca tinha acontecido. Ele era mais forte? Não, aquilo era algo diferente, uma coisa que desprezava: habilidade.

Acabou caindo de joelhos, tateou o chão atrás da espada do homem que tinha matado há pouco, mas levou uma forte pancada na cabeça que o deixou ainda mais desnorteado. E, então, sentiu outra espetada, agora na região do pescoço. Quase se engasgou com seu próprio sangue. Uma poderosa onda de dor envolveu seu corpo. Nunca sentira aquilo em toda sua vida.

Iria morrer daquela forma ridícula? 

Olhou para cima, para seu algoz, e percebeu que falava algo que não conseguia entender. Conhecia aquele olhar. Já tinha visto muitas vezes. O gosto salgado daquele tipo de lágrima era maravilhoso.

E, num segundo que o homem abaixou a cabeça, viu a oportunidade de contra-atacar.

 

 

Dentre todas suas habilidades como ferreiro, a confecção de armas era seu destaque. Espadas, lanças, machados. Seu pai costumava falar sobre isso com muito orgulho.

— Você pode se tornar um ferreiro oficial de Roma, filho. Isso te trará honra e fortuna — falava com empolgação.

Mesmo gostando de todos os elogios, Ignacius não queria isso. A única coisa realmente importante era sua família. Lívia e Helena. Estava satisfeito em fazer ferramentas ordinárias e algumas poucas armas para os soldados da vila.

Porém, uma grande guerra eclodiu no Império Romano. Interna e externamente. E a demanda por armas cresceu tanto que foram obrigados a recrutar mais ferreiros. Foi numa passagem do exército pelo povoado que tomaram conhecimento da habilidade de Ignacius. Não se recusava um “convite” de um dos famosos legionários de Roma.

Foi embora com seu pai, prometendo retornar na próxima estação. 

— Não se preocupe, meu amor, nossos guerreiros são bons. Treinados pelo próprio Legionário Félix. Acha mesmo que um grupo de bandidos qualquer irá derrotá-los? — tranquilizou sua esposa, um dia antes da viagem, dando-lhe um forte abraço em seguida e indo brincar com Helena.

Porém, o conflito se intensificou e a demanda não parava de crescer. Quando soube que um grupo de bandidos estava aterrorizando os povoados de sua região, sentindo-se apreensivo, começou a trabalhar dia e noite.

Precisava retornar para casa o mais rápido possível.

Foi num outono frio que viu Lívia sorrir pela última vez. E foi numa primavera que viu seu corpo pálido nas ruínas de sua antiga e amada casa.

 

 

Seu coração batia tão rápido…

Viu a confusão nos olhos do gigante ajoelhado. Aproveitou-a com gratidão, usando seu escudo, companheiro de muitas e muitas batalhas, para acertar sua cabeça.

Sentia-se eufórico…

Posicionou-se, um pouco para a direita, e desferiu uma estocada no pescoço de Cássio. Não foi tão forte, mas o suficiente para submetê-lo. Tropeçou levemente para trás, sentindo a adrenalina diminuir um pouco e o cansaço, muito mais mental do que físico, aparecer maliciosamente.

Ele venceu. Derrotou o monstro que destruiu sua vida.

— E então, maldito, como é essa dor? Espero que seja grande, tão grande quanto essa que sinto todos os dias desde que matou minha Lívia! Morra, morra mil vezes, seu desgraçado.

Tateou a cintura, em busca do punhal, mas não encontrou a arma. Abaixou a cabeça, procurando-a, e, num segundo, sentiu uma poderosa mão agarrar seu pé esquerdo. Era Cássio. Não conseguiu reagir, foi puxado com tanta força que perdeu o equilíbrio, caindo no chão.

A areia o cegou por instantes, tentou se levantar, mas foi acertado com um chute no peito.

— Fica no chão — ordenou Cássio com voz rouca e cansada.

Horrorizado, assistiu o gigante arrancar a espada do pescoço.

 

 

Quando voltou para o vilarejo, encontrou-o em ruínas. O ataque aconteceu alguns dias antes de sua chegada. Sua esposa estava morta, jogada como lixo nos escombros de seu antigo lar, completamente nua. Sua filhinha, pequena Helena, foi levada embora.

Afundou-se no desespero.

Seu pai, que também perdera tudo que tinha, tentou convencê-lo a voltar para Roma. Recomeçar.

— Eu sei o que sente, filho. Perdi sua mãe também…

— Cala a boca… Minha dor é diferente da sua.

Enterrou sua flor no jardim que ela construiu. E acampou ao seu lado, por anos, vivendo como um verdadeiro ermitão. Até que, num belo dia de sol, reencontrou-se com sua filha. Ela tinha retornado, agora como menina grande, conhecedora de dores que ele sequer imaginava que existiam.

Quando a viu daquela forma, com o sorriso destruído, sentiu aquela tristeza, aquela melancolia, transforma-se em puro ódio.

Retornou para Roma com Helena.

— Pai, por favor, cuide dela. Não fui capaz, mas você me criou com tanto amor que sentia-me, por vezes, afogado. Cure-a, pois também não sou capaz disso — suplicou Ignacius ao seu pai.

Conhecia o grupo de bandidos que invadiu seu vilarejo. Cássio. Esse era o nome do líder. Sabia, também, que foram capturados e enviados ao coliseu, como acontecia com qualquer inimigo do Império.

Precisava matá-lo.

Entregou-se aos gladiadores. Sofreu por anos. Endureceu seu corpo. matou muitas pessoas, algumas boas, outras ruins. Aprendeu a lutar de verdade. Vendeu sua liberdade.

 

 

Um, dois, três,

Esse foi o número de vezes que foi golpeado com a espada. Cássio jogou-a de lado e ficou observando-o por alguns segundos. Devia estar sentindo prazer. Sabia disso, pois, um minuto atrás, era ele que estava naquela posição.

Quando o gigante se afastou, cambaleando, e agarrou a alabarda, Ignacius virou o rosto. Não queria ver aquilo. Na verdade, não queria morrer. E foi então que, no meio da multidão, viu aqueles olhos amendoados que tanto amava.

Helena…

Quantas vezes, escondida de seu avô, ela deve ter ido ao coliseu assistir suas lutas?

Percebeu, então, que falhara mais uma vez como pai. Abandonou-a quando mais precisava de sua presença. Chorou, chorou tudo o que tinha para chorar, pedindo perdão, com o olhos, para sua menina.

Tudo o que sentiu, depois disso, foi um amargo pesar. E o fio enferrujado da alabarda em seu pescoço.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.