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Detox Literário.

Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada (Malaquias Seraim)

 

Correu o boato em Serra do Alto de que Petrônio de Augusto ia à festa na casa de Mariano de Tibúrcio. A notícia ganhou pernas e invadiu todo o arraial. E o pior que se soube: Petrônio prometeu que ia dançar com a mulher e a filha do dono da festa. Bastou Mariano ficar sabendo, para o sangue lhe correr quente pelas veias e subir prá cabeça. Logo de chofre disse: “Nunca fui homem de sair por aí caçando briga, mas também num rejeito parada.” E esparramou por tudo quanto foi canto de lugar, que era pra chegar nos propósitos dos ouvidos de Petrônio de Augusto de que ficasse sabendo que em seu terreiro ele num pisava. Quando Petrônio passou a saber a coisa começou feder a desgraça, pois quase que ninguém vai a festa que o Petrônio cria desavença com gente da casa.

Os pensares iam e vinham em busca da razão, de saber e falar, permitindo a todos a alegre liberdade de comentar o que quisesse, como quisesse, procurar, indagar, achar isso ou aquilo, tudo se dizia em Serras do Alto. O povo logo tomou as rédeas da história, enfiando os fatos contados pela memória e guardando. Os mais chegados a Petrônio sabiam do modo que ele era: não era homem de muitas alegrias, mas falador, de língua solta, falava o que bem queria e sempre muito arreliento, criador de encrencas por quase nada. Alto e robusto, do tipo claro avermelhado, olhos esverdeados. E como se diz, tinha uns desacertos na cabeça. Como é dito por aquelas bandas: fardo que trazia de outras encarnações, pagador de outras vidas. Petrúquio de Aquino que conheceu ele desde menino é que sabia contar direito o desatino que é a vida de Petrônio. Quer dizer tinha sinas pra cumprir.

Já, Mariano de Tibúrcio, era quieto, bom filho, bom pai de família. Era um homem miúdo, mas bom de serviço. Era também uma sina que carregava viver sempre numa meia miséria, embora sempre com o que do-de-comer. Um dia cismou de trabalhar diferente, de modo a ver se mudava um pouco de vida. Largou de banda o trato com a terra, inventou de cuidar de abelhas, fazer mel e cera. Hum, cum, cum!.. Foi dessa vez que se deu o mal: um enxame de abelhas traiçoeiras pregou-lhe o ferrão nos olhos. Quase que o cegando completamente dos dois olhos. Foi dona Amélia, sua mãe, quem lhe acudiu na hora certa. Fez promessa com Santa Luzia para que lhe salvasse nem que fosse um olho. Foi assim que Mariano ficou com um olho apagado, outro aceso. D’aquele dia diante teve de cumprir a promessa: fazer uma festa todo dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, a gloriosa protetora das vistas.

Promessa pedida, promessa alcançada, promessa paga! Mandou avisar, mundo, remundo e todo mundo prá festa. Essa era especial fazia dez anos da graça alcançada. O convite foi feito casa por casa, sítio por sítio, de a-cavalo e de a-pé. Os recados de boca a- boca corria todos os povoados sobre a festança. E festa em casa de Mariano tinha de tudo: rega-bofe de buchada de bode, cachaça de quartinha, biscoito de goma e forró até o sol raiar; com cantador de coco, sanfona e zabumba, que não era de faltar. Foi Mariano chamar pessoalmente, de corpo presente, convidar Petrúquio de Aquino, Marcelino, Quintino de Moura, Quincas de Amélia. Todos foliões de Santo Reis. Sem esquecer os sanfoneiros: Zezinho de Zefinha e João de Maria.

Não houve moça donzela que não tenha preparado um vestido cintado, broches, água de cheiro e sapato de sarto alto e bico fino; nem mulher que não brigasse com o empeiticado do marido prá deixar elas irem também. Nem houve rapaz solteiro que não arrumasse sua camisa de manga comprida e brilhantina pros cabelos. Tião de Marçal comprou até chapéu novo.

   No dia exato da festa, Mariano acordou cedo, fazia só meia hora do primeiro canto dos galos. O dia amanheceu ensolarado como era de sempre. Começou por varrer todo o terreiro, pra depois enfeitar com as bandeirolas, mas antes já soltou uns foguetes que era para acordar todo povo da roça, anunciado que o dia ia ser comprido. E deixando avisado que naquele dia e noite o mundo todo ia ser ali, no seu terreiro. Dona Josefa, sua mulher, e dona Amélia, a mãe, já estavam preparando o andorzinho com o retrato de Santa Luzia com o olhar caído em tom de piedade; na mão esquerda um raminho verde de oliveira; na mão direita um prato com dois olhos de vidro, claros e vivos; ao derredor dos pés, cercado de flores: acácias, cravos, rosas e fitas multicoloridas de azuis, brancos, amarelas e encarnadas. 

O dia ia passando, os comentários crescendo. Aquele dia 13 já começava a se pintar de história. Petrônio Augusto num era homem de tratar e num fazer. Quem dele não ouvira falar? Ser causador de muitos tiroteios, com dezenas de mortes nas costas, era de igual maneira os pistoleiros dos oestes americanos, dizia uns. Acostumado a acabar com baile por simples repelão que alguma mulher lhe passasse, ou qualquer disse me disse. Já Mariano é do tipo de valente que num alardeia. É sem fanfarronice. Sangue de Tiburtino, infiticado igual de cobra, frio. Era só mexer com ele. 

Dona Josefa, sua mulher, nova e bonita pra danar, mãe de Luzia, de mesmo nome e beleza de santa que, por aqui num se sabe d’onde é que vem esse costume de igualar boniteza de santa com a lindeza das mulheres, estavam todas, prá lá e prá cá arrumando o que ainda faltava para arrumar: o terreiro liso passado e repassado na vassoura de assa-peixe, coberto na frente da casa com folhas de bananeira verde e folha de eucalipto para dá cheiro a festa. Um bando de candeias só esperando ser acesas. Elas cuidavam de tudo. Quando já começavam a correr os boatos pelo mundão de Deus: Petrônio já vinha vindo estrada adentro com sua cambada, mas num era não. A tarde vinha se debruçando, caindo lenta. Petrônio de Augusto também tinha as posses dele: nessas horas tava dando do de- comer a seus porcos, suas galinhas, mas logo, logo ia botar suas calças, vestir suas botinas, carregar sua pistola, afiar o facão, tomar de-banho, passar uma brilhantina cheirosa, pentear os cabelos prá trás; tava só esperando a boca-da-noite chegar. 

A noite já tinha engolido o dia, quando Mariano pipocou mais três dúzias de foguetes relampejantes que era para estrelar os céus, prá depois irem caindo rápidos e abertos, sumindo no espaço, uma beleza. A noite se mostrava fresca. A fogueira monstruosa no meio do pátio, as labaredas indo pro alto, tinindo, estralando de lenha queimada, o alarido do povaréu já chegado. A cada instante aparecia mais e mais gente no finito da estrada. E as conversas no terreiro só se falava no Petrônio, do seu corpo fechado. Disso todo mundo sabia: nem tiro de escopeta podia com ele. Até lembravam de quando deram dois tiros no tampo da cara dele, mas que passou raspando, indo fazer um rombo na parede, por ele só passou o vento da bala.

Daí em diante já vinha chegando os sanfoneiros e cantores de coco, aquela era uma grande reunião de tanto repentista. Bem antes de começar o arrasta-pé os músicos forrozeiros esquentavam os instrumentos: Zezinho de Zefinha e João de Maria afinavam as sanfonas, Do Carmo limava o triângulo e esticava o couro da zabumba, Amaro chacoalhava o maracá, Zé de Riba o ganzá. 

Ao começar os primeiros acordes, as moçoilas já dançavam no meio do salão de terra batida, com a plateia assistindo sem comentários o rebolar delas, mostrando os fundilhos da calcinha por baixo da saia rodada. E já se ouvia o vozerio do ladairo que se aproximava lentamente entoando as orações, os ora-pro-nóbis e as invocações de respostas curtas e repetidas. Era a procissão que se organizava para dar a volta pelo povoado. Era o prenúncio da festa.

Nisso um tropel de animais afobados foi maior que o barulho das zabumbas: trac a troc, trac a troc, trac a troc… Parecia ser muitos pela latomia dos cachorros, e eram mais de vinte. De longe avistados, os cavalos marchadores de anca mole, num tipo de dança. Vinha que vinha comendo poeira, afoitos. Até que chegaram, apearam e amarraram a cavalhada empareada um com os outros num lado da casa. Já entraram no pisando do xaxado. 

Mariano aproveitou o rebuliço para soltar mais um tanto de fogos. As rezas já se principiava e a procissão ia sair. Foi daí a pouco que a notícia correu: o homem vinha vindo. O rebuliço foi geral, mas o sanfoneiro não quis parar de tocar não, emburrou detrás da sanfona. O do triângulo aprumou o ritmo. Mas por um tempo não se pensou em Petrônio. Até chegar outro boato, quando o corre-corre atrapalhou as gentes lerdas! O tinhoso podia chegar dando tiros a torto e a direito, de desmiolado que era. Antes disso se assuceder o terceiro boato correu depressa. Ele vinha vindo dessa vez, e era verdade. O homem trazia uma cambada mais ele. Aí sim: o povo frifriou. Os músicos dando fé logo parou.

As mulheres trataram logo de pegar os meninos e sumir com eles dali, Josefa arrastou os filhos pelos braços terreiro a fora atrás de Mariano. Mas sem encontrá-lo, pois já estava amuquecado, na espreita, para o que desse e viesse.

Quando é fé Petrônio mostra a certeza da chegada no alarido que trazia. E o pior mesmo: ele num vinha sozinho, parecia que tinha era um cangaço. A festa se desnorteou. O povo se bulia igualmente formiga, pois a iminência era de que ali iria ocorrer a peleja de Deus e o Diabo no terreiro de Santa Luzia! O mistifório de gente era grande. De longe ainda, mas já se ouvia o tropel: trac a troc, trac a troc, trac a troc se aproximando cada vez mais, quando apareceram na ponta da estrada empoeirada: Dandão dum lado, Bentivi do outro, no meio, o homem montado num alazão chapeado a quatro-pé, já sem muita pressa. Pressentiram o espírito da festa de longe. Quando gritaram para acordar a afoiteza, mas é como lá se diz, formiga quando quer se perder,  cria asas. Vinha vindo os três cavaleiro da frente desfrutando do vento, mas segurando os chapéus, se contorcendo conforme a andança da cavalariça, trac a troc, trac a troc… Ao adentrarem o terreiro deram três voltas na fogueira, de chicotes para o alto, açoitando o ar. 

Acalmaram-se e se aproximaram. Os sopros dos cavalos cansados de tanto desatino chegaram à frente da casa, no cercado, próprio para os animais. Petrônio em pose impressionante, espigado na sela, assim, meio tombado prá trás, deu umas esfregas no cavalo, prá lá, prá cá, pracolá, fazendo o alazão rodopiar nos cascos. E arrastando as esporas e batendo na coxa direita com o rebenque, foi logo dizendo: 

Buenas eu agora me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! 

Fez bonito, cheio de imponência. Pulou do alto da montaria. Caindo de pé. Dava pra sentir o peso da arma no cinturão, meio prá baixo, no ponto da mão. Dandão e Bentivi imitaram o chefe, os olhos vermelho de cachaça, Petrônio, então, gritou bem alto, com sua voz rouca:

— Êta belezura de festa minha gente! Que Deus Nosso Senhor esteja nesta casa!

Ele era mesmo desse jeito, às vezes, alegrão!

Foi quando Mariano veio se achegando dos fundos, uma mão segurando o chapéu, a outra por perto da garrucha de dois tiros, e disse sem rodeio bem de frente pro homem:

— Petrônio de Augusto, diz que vosmecê tem o corpo fechado, mas isso é por parte do capeta. E eu tenho um olho aberto por conta de Santa Luzia, entonce infeliz, cê  num pisa no meu terreiro não, que cê fica estendido nele… 

Nisso vem se chegando dois camarada de Mariano, cada um com um pedaço de pau e uma foice em cada mão. E se defrontaram prá os cabras de Petrônio.

Petrônio num deu nem trela para os cabras que se achegaram. Mas no resguardo se fez de bem educado, e se expressou dessa forma:

— Ô meu senhor dono da casa, o senhor falou bem bonito, mas se aquete seu Marianin, eu num vim prá briga, não. Tô aqui com espírito de brincante, pois fiquei sabendo que era festa pra Santa Luzia que, se prá vosmecê lhe deu a luz dum olho, pra mim ela alumia os caminhos, e que por tanto muito boa é prá mim, vim aqui só da minha parte de devoto. Por isso lhe peço que sem má querença aceite meu respeito e possa, com meus camaradas adentrar sua casa e com cês participar dessa festa tão belíssima, porque eu também trouxe uma coroa de flores e um pacote de vela, pois que tenho também uma promessa devida. Aceite, porque é de muito gosto e devoção.  

Com essas adocicadas palavras, o povo não tinha mais do que desconfiar, e logo começou a voltar aos poucos, os músicos um tanto desconfiados, principiaram a tocar. 

A noite se passou de madrugada adentro e, com o sol já saindo, a sujeira da festa no chão, eles todos juntos numa camaradagem só tomando café quente com leite de cabra, biscoito de goma, broa de milho, manguzá e cuscuz no leite de coco, mais Mariano de Tibúrcio e Petrônio de Augusto, tudo na paz dos homens. Ficando Deus e o Diabo apartados num canto. 

E todo esse afrontamento ficou só na memória de cada um.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.