EntreContos

Detox Literário.

Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada (Paulo Luís Ferreira)

 

Correu o boato em Serra do Alto de que Petrônio de Augusto ia à festa na casa de Mariano de Tibúrcio. A notícia ganhou pernas e invadiu todo o arraial. E o pior que se soube: Petrônio prometeu que ia dançar com a mulher e a filha do dono da festa. Bastou Mariano ficar sabendo, para o sangue lhe correr quente pelas veias e subir prá cabeça. Logo de chofre disse: “Nunca fui homem de sair por aí caçando briga, mas também num rejeito parada.” E esparramou por tudo quanto foi canto de lugar, que era pra chegar nos propósitos dos ouvidos de Petrônio de Augusto de que ficasse sabendo que em seu terreiro ele num pisava. Quando Petrônio passou a saber a coisa começou feder a desgraça, pois quase que ninguém vai a festa que o Petrônio cria desavença com gente da casa.

Os pensares iam e vinham em busca da razão, de saber e falar, permitindo a todos a alegre liberdade de comentar o que quisesse, como quisesse, procurar, indagar, achar isso ou aquilo, tudo se dizia em Serras do Alto. O povo logo tomou as rédeas da história, enfiando os fatos contados pela memória e guardando. Os mais chegados a Petrônio sabiam do modo que ele era: não era homem de muitas alegrias, mas falador, de língua solta, falava o que bem queria e sempre muito arreliento, criador de encrencas por quase nada. Alto e robusto, do tipo claro avermelhado, olhos esverdeados. E como se diz, tinha uns desacertos na cabeça. Como é dito por aquelas bandas: fardo que trazia de outras encarnações, pagador de outras vidas. Petrúquio de Aquino que conheceu ele desde menino é que sabia contar direito o desatino que é a vida de Petrônio. Quer dizer tinha sinas pra cumprir.

Já, Mariano de Tibúrcio, era quieto, bom filho, bom pai de família. Era um homem miúdo, mas bom de serviço. Era também uma sina que carregava viver sempre numa meia miséria, embora sempre com o que do-de-comer. Um dia cismou de trabalhar diferente, de modo a ver se mudava um pouco de vida. Largou de banda o trato com a terra, inventou de cuidar de abelhas, fazer mel e cera. Hum, cum, cum!.. Foi dessa vez que se deu o mal: um enxame de abelhas traiçoeiras pregou-lhe o ferrão nos olhos. Quase que o cegando completamente dos dois olhos. Foi dona Amélia, sua mãe, quem lhe acudiu na hora certa. Fez promessa com Santa Luzia para que lhe salvasse nem que fosse um olho. Foi assim que Mariano ficou com um olho apagado, outro aceso. D’aquele dia diante teve de cumprir a promessa: fazer uma festa todo dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, a gloriosa protetora das vistas.

Promessa pedida, promessa alcançada, promessa paga! Mandou avisar, mundo, remundo e todo mundo prá festa. Essa era especial fazia dez anos da graça alcançada. O convite foi feito casa por casa, sítio por sítio, de a-cavalo e de a-pé. Os recados de boca a- boca corria todos os povoados sobre a festança. E festa em casa de Mariano tinha de tudo: rega-bofe de buchada de bode, cachaça de quartinha, biscoito de goma e forró até o sol raiar; com cantador de coco, sanfona e zabumba, que não era de faltar. Foi Mariano chamar pessoalmente, de corpo presente, convidar Petrúquio de Aquino, Marcelino, Quintino de Moura, Quincas de Amélia. Todos foliões de Santo Reis. Sem esquecer os sanfoneiros: Zezinho de Zefinha e João de Maria.

Não houve moça donzela que não tenha preparado um vestido cintado, broches, água de cheiro e sapato de sarto alto e bico fino; nem mulher que não brigasse com o empeiticado do marido prá deixar elas irem também. Nem houve rapaz solteiro que não arrumasse sua camisa de manga comprida e brilhantina pros cabelos. Tião de Marçal comprou até chapéu novo.

   No dia exato da festa, Mariano acordou cedo, fazia só meia hora do primeiro canto dos galos. O dia amanheceu ensolarado como era de sempre. Começou por varrer todo o terreiro, pra depois enfeitar com as bandeirolas, mas antes já soltou uns foguetes que era para acordar todo povo da roça, anunciado que o dia ia ser comprido. E deixando avisado que naquele dia e noite o mundo todo ia ser ali, no seu terreiro. Dona Josefa, sua mulher, e dona Amélia, a mãe, já estavam preparando o andorzinho com o retrato de Santa Luzia com o olhar caído em tom de piedade; na mão esquerda um raminho verde de oliveira; na mão direita um prato com dois olhos de vidro, claros e vivos; ao derredor dos pés, cercado de flores: acácias, cravos, rosas e fitas multicoloridas de azuis, brancos, amarelas e encarnadas. 

O dia ia passando, os comentários crescendo. Aquele dia 13 já começava a se pintar de história. Petrônio Augusto num era homem de tratar e num fazer. Quem dele não ouvira falar? Ser causador de muitos tiroteios, com dezenas de mortes nas costas, era de igual maneira os pistoleiros dos oestes americanos, dizia uns. Acostumado a acabar com baile por simples repelão que alguma mulher lhe passasse, ou qualquer disse me disse. Já Mariano é do tipo de valente que num alardeia. É sem fanfarronice. Sangue de Tiburtino, infiticado igual de cobra, frio. Era só mexer com ele. 

Dona Josefa, sua mulher, nova e bonita pra danar, mãe de Luzia, de mesmo nome e beleza de santa que, por aqui num se sabe d’onde é que vem esse costume de igualar boniteza de santa com a lindeza das mulheres, estavam todas, prá lá e prá cá arrumando o que ainda faltava para arrumar: o terreiro liso passado e repassado na vassoura de assa-peixe, coberto na frente da casa com folhas de bananeira verde e folha de eucalipto para dá cheiro a festa. Um bando de candeias só esperando ser acesas. Elas cuidavam de tudo. Quando já começavam a correr os boatos pelo mundão de Deus: Petrônio já vinha vindo estrada adentro com sua cambada, mas num era não. A tarde vinha se debruçando, caindo lenta. Petrônio de Augusto também tinha as posses dele: nessas horas tava dando do de- comer a seus porcos, suas galinhas, mas logo, logo ia botar suas calças, vestir suas botinas, carregar sua pistola, afiar o facão, tomar de-banho, passar uma brilhantina cheirosa, pentear os cabelos prá trás; tava só esperando a boca-da-noite chegar. 

A noite já tinha engolido o dia, quando Mariano pipocou mais três dúzias de foguetes relampejantes que era para estrelar os céus, prá depois irem caindo rápidos e abertos, sumindo no espaço, uma beleza. A noite se mostrava fresca. A fogueira monstruosa no meio do pátio, as labaredas indo pro alto, tinindo, estralando de lenha queimada, o alarido do povaréu já chegado. A cada instante aparecia mais e mais gente no finito da estrada. E as conversas no terreiro só se falava no Petrônio, do seu corpo fechado. Disso todo mundo sabia: nem tiro de escopeta podia com ele. Até lembravam de quando deram dois tiros no tampo da cara dele, mas que passou raspando, indo fazer um rombo na parede, por ele só passou o vento da bala.

Daí em diante já vinha chegando os sanfoneiros e cantores de coco, aquela era uma grande reunião de tanto repentista. Bem antes de começar o arrasta-pé os músicos forrozeiros esquentavam os instrumentos: Zezinho de Zefinha e João de Maria afinavam as sanfonas, Do Carmo limava o triângulo e esticava o couro da zabumba, Amaro chacoalhava o maracá, Zé de Riba o ganzá. 

Ao começar os primeiros acordes, as moçoilas já dançavam no meio do salão de terra batida, com a plateia assistindo sem comentários o rebolar delas, mostrando os fundilhos da calcinha por baixo da saia rodada. E já se ouvia o vozerio do ladairo que se aproximava lentamente entoando as orações, os ora-pro-nóbis e as invocações de respostas curtas e repetidas. Era a procissão que se organizava para dar a volta pelo povoado. Era o prenúncio da festa.

Nisso um tropel de animais afobados foi maior que o barulho das zabumbas: trac a troc, trac a troc, trac a troc… Parecia ser muitos pela latomia dos cachorros, e eram mais de vinte. De longe avistados, os cavalos marchadores de anca mole, num tipo de dança. Vinha que vinha comendo poeira, afoitos. Até que chegaram, apearam e amarraram a cavalhada empareada um com os outros num lado da casa. Já entraram no pisando do xaxado. 

Mariano aproveitou o rebuliço para soltar mais um tanto de fogos. As rezas já se principiava e a procissão ia sair. Foi daí a pouco que a notícia correu: o homem vinha vindo. O rebuliço foi geral, mas o sanfoneiro não quis parar de tocar não, emburrou detrás da sanfona. O do triângulo aprumou o ritmo. Mas por um tempo não se pensou em Petrônio. Até chegar outro boato, quando o corre-corre atrapalhou as gentes lerdas! O tinhoso podia chegar dando tiros a torto e a direito, de desmiolado que era. Antes disso se assuceder o terceiro boato correu depressa. Ele vinha vindo dessa vez, e era verdade. O homem trazia uma cambada mais ele. Aí sim: o povo frifriou. Os músicos dando fé logo parou.

As mulheres trataram logo de pegar os meninos e sumir com eles dali, Josefa arrastou os filhos pelos braços terreiro a fora atrás de Mariano. Mas sem encontrá-lo, pois já estava amuquecado, na espreita, para o que desse e viesse.

Quando é fé Petrônio mostra a certeza da chegada no alarido que trazia. E o pior mesmo: ele num vinha sozinho, parecia que tinha era um cangaço. A festa se desnorteou. O povo se bulia igualmente formiga, pois a iminência era de que ali iria ocorrer a peleja de Deus e o Diabo no terreiro de Santa Luzia! O mistifório de gente era grande. De longe ainda, mas já se ouvia o tropel: trac a troc, trac a troc, trac a troc se aproximando cada vez mais, quando apareceram na ponta da estrada empoeirada: Dandão dum lado, Bentivi do outro, no meio, o homem montado num alazão chapeado a quatro-pé, já sem muita pressa. Pressentiram o espírito da festa de longe. Quando gritaram para acordar a afoiteza, mas é como lá se diz, formiga quando quer se perder,  cria asas. Vinha vindo os três cavaleiro da frente desfrutando do vento, mas segurando os chapéus, se contorcendo conforme a andança da cavalariça, trac a troc, trac a troc… Ao adentrarem o terreiro deram três voltas na fogueira, de chicotes para o alto, açoitando o ar. 

Acalmaram-se e se aproximaram. Os sopros dos cavalos cansados de tanto desatino chegaram à frente da casa, no cercado, próprio para os animais. Petrônio em pose impressionante, espigado na sela, assim, meio tombado prá trás, deu umas esfregas no cavalo, prá lá, prá cá, pracolá, fazendo o alazão rodopiar nos cascos. E arrastando as esporas e batendo na coxa direita com o rebenque, foi logo dizendo: 

Buenas eu agora me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! 

Fez bonito, cheio de imponência. Pulou do alto da montaria. Caindo de pé. Dava pra sentir o peso da arma no cinturão, meio prá baixo, no ponto da mão. Dandão e Bentivi imitaram o chefe, os olhos vermelho de cachaça, Petrônio, então, gritou bem alto, com sua voz rouca:

— Êta belezura de festa minha gente! Que Deus Nosso Senhor esteja nesta casa!

Ele era mesmo desse jeito, às vezes, alegrão!

Foi quando Mariano veio se achegando dos fundos, uma mão segurando o chapéu, a outra por perto da garrucha de dois tiros, e disse sem rodeio bem de frente pro homem:

— Petrônio de Augusto, diz que vosmecê tem o corpo fechado, mas isso é por parte do capeta. E eu tenho um olho aberto por conta de Santa Luzia, entonce infeliz, cê  num pisa no meu terreiro não, que cê fica estendido nele… 

Nisso vem se chegando dois camarada de Mariano, cada um com um pedaço de pau e uma foice em cada mão. E se defrontaram prá os cabras de Petrônio.

Petrônio num deu nem trela para os cabras que se achegaram. Mas no resguardo se fez de bem educado, e se expressou dessa forma:

— Ô meu senhor dono da casa, o senhor falou bem bonito, mas se aquete seu Marianin, eu num vim prá briga, não. Tô aqui com espírito de brincante, pois fiquei sabendo que era festa pra Santa Luzia que, se prá vosmecê lhe deu a luz dum olho, pra mim ela alumia os caminhos, e que por tanto muito boa é prá mim, vim aqui só da minha parte de devoto. Por isso lhe peço que sem má querença aceite meu respeito e possa, com meus camaradas adentrar sua casa e com cês participar dessa festa tão belíssima, porque eu também trouxe uma coroa de flores e um pacote de vela, pois que tenho também uma promessa devida. Aceite, porque é de muito gosto e devoção.  

Com essas adocicadas palavras, o povo não tinha mais do que desconfiar, e logo começou a voltar aos poucos, os músicos um tanto desconfiados, principiaram a tocar. 

A noite se passou de madrugada adentro e, com o sol já saindo, a sujeira da festa no chão, eles todos juntos numa camaradagem só tomando café quente com leite de cabra, biscoito de goma, broa de milho, manguzá e cuscuz no leite de coco, mais Mariano de Tibúrcio e Petrônio de Augusto, tudo na paz dos homens. Ficando Deus e o Diabo apartados num canto. 

E todo esse afrontamento ficou só na memória de cada um.

45 comentários em “Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada (Paulo Luís Ferreira)

  1. Regina Ruth Rincon Caires
    17 de dezembro de 2019

    Caro Paulo Luís, cadê o comentário do meu texto?! Procura aí… Abraços…

    • Paulo Luís
      21 de dezembro de 2019

      Está logo após ao seu comentário, não viu? É que seu comentário foi tão emocionante que fiquei quase sem palavras para dizer mais. Veja-o abaixo.
      E parabéns para nós, fomos agraciados pela LtreraLivre entre os melhores conto do ano, você recebeu seu certificado?

      Ufa, Regina! Que belo cometário, e tanta singeleza ao meu conto. Isso é o bastante para nos manter ativo nessa prazerosa lida da escrevinhação, Grato!

  2. Fabio Baptista
    14 de dezembro de 2019

    RESUMO:
    Depois de ter o olho salvo por Santa Luzia, Mariano se comprometeu a dar uma festa todo ano, no dia da santa.
    Numa dessas ocasiões, correu o boato de que Petrônio, famoso por arrumar brigas e estragar festas, compareceria à comemoração. Mariano mandou espalhar a notícia de que em seu terreiro, Petrônio não pisava.
    Todo um clima de tensão para o encontro é criado. No final, descobrimos que Petrônio era devoto da Santa e veio à festa em paz. Todos comem, bebem e conversam até o sol raiar.

    COMENTÁRIO:
    Não é o conto de técnica mais apurada, muitas vezes o regionalismo se confunde e não dá pra saber o que é proposital e o que é erro.
    Mas a história contada, apesar de muito simples, é muito boa. A ambientação é excelente, a leitura nos transporta para o cenário, com todas suas cores, detalhes e cheiros.
    Também o clima de tensão criado para o encontro é muito bom. O final acaba sendo um anticlimax, mas também tem seu charme e sua inocência, escolhendo o caminho da amizade ao da esperada violência.

    NOTA: 4

    • Paulo Luís
      21 de dezembro de 2019

      Olá, Fábio, grato por seu comentário, mesmo não gostando tanto, mas sensível na compreensão. Quanto ao regionalismo, sim pode haver alguns erros, pois eu mesmo fiquei em dúvida e, também, me faltou um pouco mais de tempo para lapidá-lo, mas com certeza, 99% é regionalismo puro, sem os costumeiros clichês que se põem na linguagem dos nordestinos.
      Desculpe-me pelo lapso de não fazer menção ao seu comentário antes, não havia me apercebido do ato falho.

  3. Leo Jardim
    14 de dezembro de 2019

    🗒 Resumo: Mariano, que quase perdeu os olhos no passado, prepara a décima festa em homenagem à Santa que ele acredita que salvou sua visão. Petrônio, que tinha fama de corpo fechado e arruaceiro, disse que ia na festa e isso gerou um grande rebuliço. No fim, ele queria apenas homenagear também a Santa e tudo ocorreu bem.

    📜 Trama (⭐⭐⭐⭐▫): a história tem aquele gostinho regional que deixa tudo mais saboroso. Gostei também da forma como o autor contou a história de forma não-linear, das quase chegadas do Petrônio e, finalmente, da resolução anticlimática. O povo e o título anunciavam uma tragédia, mas acabou não sendo nada disso. Esse é um recurso que, quando funciona, é bem legal.

    Como ponto de melhoria, registro apenas os excessos da trama: várias partes poderiam ser cortadas sem prejudicar a trama principal, principalmente pelo menos uma das quase chegadas do Petrônio.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): é um texto muito gostoso de ler, com uma técnica refinada de quem sabe o que está fazendo. Fiz, porém, algumas anotações para ajudar na revisão:

    ▪ pois quase que ninguém vai a festa que o Petrônio cria desavença com gente da casa. (Precisei reler várias vezes para entender)

    ▪ sabiam do modo que ele *era*: não *era* homem (repetição próxima)

    ▪ Bem antes de começar o arrasta-pé *vírgula* os músicos forrozeiros esquentavam os instrumentos

    🎯 Tema (🆓️): regional 🎇🎆

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): na média para textos do tipo.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐⭐▫): a solução anticlimática ficou legal, porque desmente o título, mas eu já imaginava. Mesmo assim é um texto bastante divertido de se ler. Uma leitura agradável.

    🔗 Links úteis:

    ▪ Vírgula no adjunto adverbial deslocado: https://www12.senado.leg.br/manualdecomunicacao/redacao-e-estilo/estilo/adverbio-deslocado

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Leo, grato pela sua análise tão bem ponderada. Apenas para clarear seu entendimento: essa é a forma de falar das pessoas daquele lugar. Que, aliás, é muito grande, trata-se da região norte de Minas Gerais; tire pelas falas: do de-comer, do de-a-pé, do de-a-cavalo. (Precisei reler várias vezes para entender). Se você teve dificuldade para entender esta fala, difícil vai ser quando se confrontar com um “Grande Sertão Veredas” Longe de mim tal identificação.

  4. Daniel Reis
    14 de dezembro de 2019

    Resumo: um baile na cidadezinha do interior, Serra do Alto, no qual Petrônio de Augusto diz que vai na casa de Mariano de Tibúrcio pra dançar com a mulher e a fihla dele. O conflito é iminente, e o dono da festa se prepara para enfrentá-lo mas sem deixar de cumprir a promessa de festejar a santa. Antípodas, os dois se complementam e se enfrentam, mesmo sem saber ter a fé em Santa Luzia como ponto comum. Ao final, depois dos preparativos, que Petrônio chega e explica que não veio para confusão mas para festejar. E a festa transcorre sem maiores incidentes.

    Método de avaliação: “Análise Jacquiana”
    Receita: uma história simples, de enfrentamento entre duas personalidades, com ambientação agreste e rústica.

    Ingredientes: o dono da casa, o desafiante, a festa, a comunidade, o ponto em comum.

    Preparo: o autor preparou o terreno para o enfrentamento, com uma magnífica descrição do modo de ser e viver do nordestino – mas colocou um dito gaúcho na boca de seu antagonista. Ficou bem estranho um cabra da peste falando “buenas”, num dito gauchesco da fronteira com Uruguai e Argentina.

    Sabor: cuscuz de festa e arroz doce. Mas tudo que poderia aconteceu, acabou não acontecendo.

    Frases motivacionais (quase aleatórias) do Eric Jacquin (ou coisas ele possivelmente diria) : “Pelo menos você não é a vergonha da profisson, como otros aí…”

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Caro, Daniel, grato por sua análise tão bem ponderada. Mas,só para clarear: me parece que você não conhece o Brasil tão bem assim, porque no nordeste também se fala “Buenas” sim!. E eu falo como conhecedor de causa, pois eu também sou de lá. Mais é para quem vive, e ou viveu, não para quem ouviu falar.

  5. rsollberg
    13 de dezembro de 2019

    Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada (Malaquias Seraim)

    Resumo: O anúncio do desastre, a montagem da festa e um final inesperado.

    Uma das coisas que mais gostei nesse texto foram as apresentações. Primeiro observamos o problema ser criado. Depois encaramos os personagens, suas características e personalidade. Tudo isso numa tensão crescente, revelando a fórmula da explosão. Adiante, somos inseridos na ocasião, os motivos, os envolvidos e a atmosfera. Não demora e estamos no centro do evento; “o terreiro liso passado e repassado na vassoura de assa-peixe, coberto na frente da casa com folhas de bananeira verde e folha de eucalipto para dá cheiro a festa. Um bando de candeias só esperando ser acesas.”, o que é uma grande virtude do autor. Sensação semelhante tive quando descobri as peculiaridades de Macondo. (Será que o título é uma homenagem ao Gabo? Sera? Buenas, por óbvio Vicario…)

    A angústia vai crescendo, no ideário do leitor a briga já está se desenvolvendo e as apostas já estão sendo cobradas. Ocorre que por muita ousadia e coragem do autor, um balde de água fira é lançado sobre a estória, o que efetivamente não deixa de surpreender quem olha ou lê. E no final das contas e do conto parece que essa era a intenção primordial do escritor. Arriscado, sem dúvidas. Nem sempre a quebra de expectativa é bem respeitada nos certames, embora acredite que Malaquias não está nem ai pra isso. Ao contrário, apenas projetou o que foi sentido no evento justamente nos leitores, “bem pensado e executado” diria quem foi enganado, reconhecendo a engenhosidade.
    Parabéns!

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Sollberg, Grato por sua análise tão esmerada. Essa é a satisfação que dá em participar desses desafios do Entrecontos, Sendo ela positiva ou negativa, desde que fundamentadas, o que aniquila por terra o tão almejado pódio.

  6. fabiodoliveirato
    13 de dezembro de 2019

    O regionalismo que falhou…

    Resumo: O causa que aconteceu entre Mariano e Petrônio na festa do primeiro, em promessa para Santa Luzia, que lhe deu a luz no olho quando parecia que a escuridão iria dominar.

    Querido autor, admiro sua coragem. Trabalhar um conto num tom de crônica, emendando uma narrativa regionalista, requer muita habilidade. Infelizmente, o conto parece que tropeça várias e várias vezes. Não foi pelos termos. Creio que falou habilidade na construção de frases e como aplicar esse regionalismo. Faltou naturalidade. Faltou harmonia.

    A trama não foge daquilo que é abordado em contos ou romances regionalistas. Treta entre dos homens, o pistoleiro malandro, o homem de família de respeito, o povo que abre caminho quando os vagabundos chegam, etc, etc. Tudo muito ensaiado, muito artificial.

    Quando esperamos um trabalho dessa natureza, esperamos algo que inove, que quebre o clima que tanto conhecemos. É um bom exercício seguir uma trama resenhada e fácil, mas nota-se que você poderia entregar algo muito melhor que isso. Inclusive, o final foi tão ruim, tão sem graça, que parece meio sem propósito toda a preparação no decorrer do conto para o confronto. A solução foi simples demais, uma conversinha e pronto. Só isso. E as ameaças iniciais? E toda aquela pompa de chegar armado? E o título que instiga? Desculpe, mas o final foi preguiçoso demais…

    Continue escrevendo, sempre!

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Fábio, aconselho você a procurar outra coisa para fazer, menos o fazer literário, porque essa, não é definitivamente sua praia. Você já deu uma olhada nessas baboseiras que você escreveu? Quanto tem de erros, gráficos e concordâncias?

      • fabiodoliveirato
        16 de dezembro de 2019

        Se mordeu, hahaha.

      • fabiodoliveirato
        16 de dezembro de 2019

        Relaxa, meu caro. Eu não gostei do seu conto, da mesma forma que você não gostou do meu. Isso é natural. Acontece, oras. Tanto tempo de vida e ainda não sabe lidar com divergências dessa natureza? Tudo de bom!

      • Paulo Luís
        16 de dezembro de 2019

        No seu caso não é divergência, você não entende nada mesmo de literatura. Além do mais é grosso. Não sei qual seu conto, posso até não ter gostado, mas provavelmente fiz uma crítica ponderada. Dê uma olhada em outros comentários ao meu texto. Há divergências, mas com fundamento e respeito.

      • fabiodoliveirato
        16 de dezembro de 2019

        Tanto faz, Paulo. Sua resposta ao meu comentário te define melhor do que qualquer outra coisa. Fique em paz!

  7. Fernando Amâncio (@fernandoamancio)
    12 de dezembro de 2019

    Em Serra do Alto, a tradicional Festa de Santa Luzia, promovida por Mariano de Tibúrcio, é alvo de um boato: o de que Petrônio de Augusto, famoso por inúmeras confusões, irá na festa dançar com a mulher e a filha do anfitrião. O comentário, tomado como afronta, enche os moradores de expectativa, temendo que a festança termine em desgraça.

    Malaquias Seraim, seu texto está bem escrito, em linguajar condizente como tipo de história e os personagens de sua trama. Acredite, há muita gente que erra nesse aspecto, escrevendo história rural com linguagem acadêmica. O texto é rico em detalhes, você descreve bem os bastidores e tudo que cerca a festa, bem como a tensão do evento, a expectativa da tal tragédia anunciada.

    Eu não diria que a história é inédita, o tema é simples e fácil de reconhecer. Narrativamente, seu conto tem um problema: a tensão é anunciada no título, delienada no primeiro parágrafo e é desenvolvida por todo o texto. Não há oscilações. O leitor, de cara, sabe o que pode acontecer e fica o texto todo esperando para ver se vai acontecer mesmo.

    Longe de mim querer um derramamento de sangue, mas não deixa de ser um pouco frustrante, ainda por cima, a tal tragédia anunciada ser um blefe. Eu acho que ficaria mais surpreendente se, quando a história parecesse ter um final feliz, meses depois a filha do Mariano revelasse ter engravidado do Petrônio na festa. Bom, acho que eu tenho predileção por ver as coisas acabarem mal… Enfim, Malaquias, você é um escritor habilidoso e escreveu uma boa história. Boa sorte no desafio!

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Fernando, grato pela bela análise ao meu texto. Quanto ao final que você projetou, achei bem interessante; vou pensar no assunto, quem sabe numa nova releitura. No que diz respeito ao clímax criado e a frustração do prometido e não acontecido foi o propósito do conto. Inclusive a expectativa que o título já anuncia.

  8. Fil Felix
    12 de dezembro de 2019

    Resumo: a história da rixa entre dois homens, um com fama de bandido e outro que retomou a visão (parcial, digamos) graças à uma Santa. E o dia em que eles ficam cara a cara.

    Costumo gostar de contos mais regionais, com linguajar próprio e mais pesado. O autor utilizou um vocabulário bem específico, como tenho origem pernambucana eu peguei muitas coisas, como os instrumentos, comidas, o repente ou os nomes “compostos”, o pessoal ainda tem essa mania de chamar o “joão de fulano”, lembrando de quem é filho ou parente. Outras coisas não peguei assim e alguns pontos não identifiquei se o erro de gramática era proposital ou não, principalmente de concordância. O contexto do conto é muito interessante e consegue apresentar bem os dois personagens principais que, mesmo sem ter uma rixa épica entre eles (algo clássico em narrativas assim), vai criando uma tensão com a aproximação dos dois na festa. Também são apresentados de maneira caricata, mas de um jeito bom. O final, porém, achei um pouco fraco. Se por um lado a briga já anunciada fecharia sem surpresas, a lá Bang Bang americano, eles meio que fazerem as pazes e terminar com um final feliz também foi meio anti-clímax. Fiquei com a impressão que foi criado muito suspense e tensão para não acontecer nada.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Fil, Grato por sua tão bem ponderada análise, ops, somos de lá, da terrinha.. Pois sim, a forma da escrita é propositada, como haveria de ser. Só procurei não fazer uso do linguajar clicherizado que é comumente usado nesses tipos de textos. Quanto ao final, é esse o propósito do conto; a antítese dramática.

  9. Catarina Cunha
    12 de dezembro de 2019

    O que entendi: Caolho devoto de Santa Luzia patrocina festão em homenagem à santa que lhe poupou um dos olhos. Um caboclo enxerido e matador espalha na cidade que, mesmo sem ser convidado, não só vai à festa como também vai dançar com mulher e filha do caolho, o que deixa o cabra brabo. Lá pelas tantas, depois de muuuuitos preparativos, o caboclo chega à festa e, antes que o leite azede, deixa claro que só veio como respeitoso devoto da santa. E viveram em paz, ao menos, até o fim da festa.

    Técnica: Embora eu goste muito de prosa regional, aqui houve uma confusão das expressões matutas com o uso correto das palavras. Ex: a contração “pra” não tem acento; e a pontuação não ajudou.

    Criatividade: A riqueza está nos detalhes dos preparativos para a festa, o que aumenta a tensão provocada pelo título. Aqui não ouso dizer que cabe uma enxugada no texto porque essa fartura de informações compõem a obra.

    Impacto: O fato de tudo acabar em paz foi uma boa surpresa.

    Destaque: “Ao começar os primeiros acordes, as moçoilas já dançavam no meio do salão de terra batida, com a plateia assistindo sem comentários o rebolar delas, mostrando os fundilhos da calcinha por baixo da saia rodada.” – Cena ótima!

    Sugestão: Rever pontuação, ora carente de vírgulas, ora caótica, o que trava o texto. Exemplos: “Quando Petrônio passou a saber a coisa começou feder a desgraça, pois quase que ninguém vai a festa que o Petrônio cria desavença com gente da casa.”; e também: “Petrúquio de Aquino que conheceu ele desde menino é que sabia contar direito o desatino que é a vida de Petrônio.”

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Catarina, grato pela sua análise tão bem ponderada. Olha, o cara é cego mesmo, e não caolho. Quanto ao prá, eu sei que não leva assunto. Nesse linguajar, é para acentuar a fala carregada do nordestino, inclusive a construção frasal faz parte do universo em que os fatos acontece. O que você deve ter achado estranho é que eu não usei o famigerado linguajar clicherizado que se põe na boca dos nordestinos.

      • Catarina Cunha
        17 de dezembro de 2019

        Sou nordestina, conheço bem o linguajar do litoral e do interior. Grata pelo retorno.

  10. Carolina Pires
    11 de dezembro de 2019

    Resumo: Petrônio de Augusto, homem bravo, conhecido por causar tiroteios, afirma presença na festa de Santa Luzia, organizada por Mariano de Tibúrcio. Ao contrário do que todos pensaram, Petrônio de Augusto não compareceu à festa para causar confusão, mas sim porque também era devoto da Santa Luzia.

    A sensação que tive ao ler esse conto foi como se eu estivesse ouvindo de um contador de histórias. Os termos escolhidos na narrativa, a forma de contar, algumas rimas encaixadas, tudo isso me causou uma sensação muito agradável. O final, embora simples, foi inesperado, já que eu tinha quase certeza que a confusão seria enorme no terreiro do Mariano de Tibúrcio. Também fiquei encantada com as falas dos personagens, divertidas e com rimas. Enfim, um conto leve e divertido. Parabéns! 🙂

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Carolina, grato por tão sensível e esmerada análise ao meu conto.

  11. Priscila Pereira
    10 de dezembro de 2019

    Resumo: Um clima de tensão corre pela cidade por conta de um desentendimento com dois cabra macho, o que podia trazer tragédia para a festa mas tudo não passa de exagero e os dois terminam a festa em paz.

    Olá, Autor!
    Nossa, você tem muito conhecimento da linguagem regional… confesso que não entendi grande parte das expressões usadas, mas a leitura valeu a pena, muito interessante esse jeito de narrar, tão diferente… a ambientação está realmente muito boa e a linguagem peculiar ajuda na imersão… me senti quase assistindo um filme estrangeiro, na linguagem original que ia decifrando pelas imagens e por algumas palavras que conhecia…rsrsrsrsr essas “imagens” mentais foram muito fortes e deram vida e cor ao texto. A trama é muito simples, o que trás brilho ao conto é justamente a escrita, não sei se está certa ou errada, se tem técnica ou não, só sei que é muito interessante e original. Parabéns pela ousadia e boa sorte!!

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      oh, Priscila, sua alegria é a minha, ao ler tão belas palavras, de tão singela análise. Grato!

  12. Gustavo Araujo
    6 de dezembro de 2019

    Resumo: em Serra do Alto, Mariano de Tibúrcio dará sua tradicional festa para comemorar o milagre de Santa Luzia que lhe devolveu a visão (ao menos de um dos olhos); ocorre que o temível Petrônio de Augusto vem aí, o que significa encrenca certa. A cidade se prepara para o confronto inevitável, mas na hora H, quando Mariano chega, não há briga nenhuma, morte nenhuma. Tudo fica bem e todos ficam felizes.

    Impressões: conto de temática regionalista. Assim como o conto “A Onça do Sertão”, aqui também se busca na antecipação de um confronto o suspense para conduzir o texto adiante. A inspiração, tanto aqui como lá, parece vir dos clássicos faroestes americanos (embora não dê para saber quem se inspira em quem afinal de contas), como “Matar ou Morrer” ou “Os Brutos Também Amam”. Neste caso, vemos a preparação da pequena Serra do Alto, que vive à sombra do medo, o medo de Petrônio de Augusto. A linguagem usada pelo autor condiz com a construção dessa atmosfera, mergulhando em termos interiorianos, com a supressão (intencional) de plurais, como se o narrador, ele próprio, embora onisciente, também pertencesse àquele contexto.

    O problema, a meu ver, é que o texto é excessivamente descritivo, não deixando espaços ao leitor para completar lacunas. Como diz-se por aí, há muito contar e pouco mostrar. Uma exceção a essa regra que infelizmente domina o texto, é a alusão à fala de “Um Certo Capitão Rodrigo”, do Veríssimo, como o famoso “buenas e me espalho…” No entanto, é pouco para cativar.

    O conto poderia ter se salvado no fim, quando Pterônio finalmente chega à festa, mas o que se vê é um anticlímax, porque o tão esperado duelo não acontece. Bom para uma questão de vida real, mas não tão bom para a literatura, já que toda aquela antecipação se esvai pelo ralo.

    De todo modo, o conto tem seus méritos, seja pela ideia, seja pelas referências. Um trabalho a meu ver mediano, interessante mas que poderia ter marcado mais. Parabéns ao autor e boa sorte no desafio.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Gustavo, grato por sua análise tão bem abalizada, Só faço uma ressalva a favor do enredo: acredito que ruim seria se o final se realizasse como anunciado. Quanto as imagens criadas, acredito que sejam campo para o leitor criar outras mil imaginações.

  13. Pedro Teixeira
    1 de dezembro de 2019

    Muito bom conto. Tem aquele sabor regional que até lembra um pouco o Rosa, e a referência ao Capitão Rodrigo na fala de Petrônio. Há uma grande riqueza descritiva,uma tensão bem construída, e um bom desenvolvimento dos personagens. O final surpreende pela resolução pacífica do conflito. A única coisa que me incomodou um pouco foram as repetições do pronome que nos primeiros parágrafos, mas é um detalhe muito pequeno que de modo algum compromete o resultado final.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Pedro, grato por seu parecer lisonjeador. É para nos deixar com vontade de não parar mais de escrever.

  14. Leila carmelita
    27 de novembro de 2019

    Sinopse
    No interior do Brasil, onde sertão é pasto, e pra diminuir a fome de justiça se alimenta de fé, Mariano de Tibúrcio, devoto de Santa Luzia, realiza todos os anos uma festa em sua homenagem. Bom motivo o homem teve: teve um dos olhos curados de ferroada de abelha depois de promessa feita. Mas, a brincadeira esse ano vai se estragar com a chegada do maloqueiro das redondezas.

    Comentário
    É o oitavo conto que leio, e um dos que mais gostei. Parabéns pela prosa cheia de regionalismo. São tantas riquezas de detalhes que é impossível para o autor(a) não ter tido ao menos uma experiência dessa. Me senti transportado ao interior da festa, com todas as suas representações, religiosidade e sociabilidade interiorana. Como a opressão no sertão se dá de várias formas, inclusive, entre os próprios moradores dessas localidades que ainda resolvem as coisas por meio da violência. Me lembro dos causos do cantor Amazan, e as músicas da banda Mastruz com Leite. Sertão também é realidade, mas é portador de variados mitos. É um lugar com sua mitologia própria. Me emocionei com o conto, porque quando meu pai narra sua juventude, é muito semelhante a essa festa crônica. Alguns erros de ortografia, mas, comparado ao conteúdo, é coisa pouca.

    Notas de Leila Carmelita
    – A Gata de Luvas – 4,0
    – A Hora da Louca – 4,5
    – A Onça do Sertão – 3,6
    – A Pecadora – 5,0
    – App Driver – 1,0
    – Estantes – 5,0
    – Famaliá – 3,5
    – Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada – 5,0
    – Lágrimas e Arroz – 1,0
    – Muito Mais que Palavras – 1,5
    – Na casa da mamãe – 3,5
    – O Legado da Medusa – 4,5
    – O que o Tempo Leva – 1,8
    – O Regresso de Aquiles – 4,0
    – O Vírus – 2,5
    – Suplica do Sertão – 5,0
    – Trilátero Ourífero – 4,5
    – Uma História de Amor Caipira – 1,0

    Contos favoritos:
    Melhor técnica – Estantes
    Mais criativo – Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada
    Mais impactante – A Pecadora
    Melhor conto – Suplica do Sertão

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Leila, grato por sua lisonja ao meu trabalho. É quando se ler um parecer como este,que a gente não quer parar de fazer essa besteira de continuar escrevendo.

  15. Luis Guilherme Banzi Florido
    26 de novembro de 2019

    Bom dia/tarde/noite, amigo (a). Tudo bem por ai?
    Pra começar, devo dizer que estou lendo todos os contos, em ordem, sem saber a qual série pertence. Assim, todos meus comentários vão seguir um padrão.
    Também, como padrão, parabenizo pelo esforço e desafio!

    Vamos lá:

    Tema identificado: regional, humor

    Resumo: a história da festança de Mariano em homenagem a Santa Luzia, em que muitos pensavam que haveria luta com Petrúquio, mas no fim, o Petrúquio só queria festejar e fazer sua homenagem à Santa.

    Comentário:

    Olha, seu conto tem muito valor pela riqueza regional, o que eu gostei bastante, mas a escrita em si me atrapalhou um pouco, por ser bastante truncada e confusa. Mas vamos por partes.

    Pra começar, gostaria de elogiar o regionalismo riquíssimo do conto. Apoiado numa ambientação excelente, o autor tem muita habilidade em nos fazer mergulhar na vida e nos costumes do local, mesmo não sabendo exatamente onde se trata. Talvez o autor seja natural de alguma região como essa, pois você sabe falar perfeitamente sobre os costumes, tradições, expressões, linguagem, etc.

    Ou seja, o conto é muito gostoso de ler, pois eu, pelo menos, mergulhei de cabeça na situação, e senti um certo aconchego enquanto lia.

    Além disso, os personagens são carismáticos e muito convincentes. Toda a construção da personalidade dos dois rivais, bem como de todos ao redor deles, foi muito eficiente, e assim, a tensão pela luta eminente vai num crescente.

    Foi uma belíssima surpresa que no fim, não tenha havido briga. Achei uma bela decisão.

    Assim, posso dizer que o enredo me agradou bastante, e que fiquei totalmente imerso nos acontecimentos.

    Por outro lado, a escrita me incomodou um pouco. Apesar de muito hábil na ambientação e no tipo de linguagem condizente com o enredo, em muitos momentos a escrita ficou muito truncada e confusa, e eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, tendo que voltar e reler o parágrafo. Isso atrapalhou um pouco o ritmo de leitura.

    Um exemplo disso:

    “Os pensares iam e vinham em busca da razão, de saber e falar, permitindo a todos a alegre liberdade de comentar o que quisesse, como quisesse, procurar, indagar, achar isso ou aquilo, tudo se dizia em Serras do Alto.”

    Essa frase me soou bem estranha, e deu uma travada na leitura.

    A gramática, também, merece um cuidado mais atento, pois existem muitos erros de concordância verbal e nominal, além da pontuação.

    Uma última questão é que, apesar de a ambientação e descrições serem bem interessantes, eu achei que você abusou um pouco das descrições, o que tornou a leitura um pouco cansativa já na parte final.

    É isso. De forma resumida, é um conto muito interessante, com muito valor pelo regionalismo, com um enredo interessante que ganha muito com o carisma dos personagens, mas que acabou perdendo um pouco pela linguagem truncada e com muitos erros técnicos/gramaticais. Assim, minha atenção acabou se perdendo um pouco, e acabei não desfrutando toda a beleza que o conto poderia possuir. Acho que, com um trabalho de revisão e cortes mais apurado, você teria um excelente conto.

    Parabéns e boa sorte!

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Luís, grato pela análise tão bem abalizada do meu texto. Quanto aos tantos erros que você mencionou, sim, pode haver alguns, mas de certa forma esse linguajar faz parte daquele cenário e daquele povo, portanto algumas incompreensões fica por conta do regionalismo que foi necessário para contar essa “estória”.

  16. Fernanda Caleffi Barbetta
    26 de novembro de 2019

    Resumo
    Todos os anos, no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, Mariano de Tibúrcio realizava uma festa em homenagem à santa por conta de uma promessa que a mãe de Mariano havia feito em troca da cura dos olhos do filho, picados por abelhas. No dia da décima festa, correu pela cidade a informação de que Petrônio de Augusto, certamente seu inimigo, compareceria à festa e havia prometido dançar com a esposa e a mãe do anfitrião. A cidade se colocou em polvorosa quando Petrônio realmente apareceu na festa, mas não houve briga e foi permitido que ele também prestasse homenagem à santa da qual era devoto.

    Comentário

    O texto é bom, mas algumas coisas me incomodaram, como o uso de uma linguagem mais coloquial e regionalista somente em alguns momentos da narração, não sendo uma constante. O uso do prá também me incomodou.
    Não sei se compreendi muito bem o final. Houve ou não houve briga? Entendi que não houve porque talvez a promessa de Petrônio tenha sido justamente a de não brigar com Mariano, já que ele fez questão de participar do evento para pagar também sua promessa. Mas como a última frase diz que a briga ficou na memória dos dois, fiquei confusa.

    Logo de chofre disse: “Nunca fui homem de sair por aí caçando briga, mas também num rejeito parada.” (como a aspa não abre o parágrafo, esta que fecha deve vir antes do ponto.
    feder a (à) desgraça
    pois quase que ninguém vai a (à?) festa que o Petrônio cria desavença com gente da casa – achei essa frase confusa:
    permitindo a todos a alegre liberdade de comentar o que quisesse (quisessem), como quisesse (quisessem)
    um enxame de abelhas traiçoeiras pregou-lhe o ferrão (os ferrões) nos olhos.
    de a-cavalo e de a-pé (?)
    Os recados de boca a- boca (boca-a-boca) corria (corriam) todos os povoados sobre a festança.
    dá cheiro a (à) festa.
    Petrônio já vinha vindo estrada adentro com sua cambada, mas num era não – confuso
    As rezas já se principiava (principiavam)
    Os músicos dando fé logo parou (pararam)

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Fernanda, grato pela bem abalizada análise ao meu texto. Pelo visto, estou diante de uma fundamentalista da gramática, seria bom que você também tivesse um pouco de cuidado com a linguística própria de um povo. Como deveria prestar mais atenção no que ler, pois o final não entendido por “você”, foi devido que você leu mal. O vocábulo que ficou na memória de cada um não foi “Briga”, mas “afrontamento”.

  17. Evandro Furtado
    23 de novembro de 2019

    Car(x) autor(x)

    Estou aproveitando esse desafio para desenvolver um sistema de avaliação um pouco mais técnico (mas não menos subjetivo). No geral, ele constitui nas três categorias propostas no tópico de avaliação: técnica, criatividade e impacto. A primeira refere-se à forma, à maneira com a qual x autor(x) escreve, desde o uso de pontuação, passando por ortografia e mesmo escolhas de estruturação. A segunda refere-se ao conteúdo, ou seja, a que o conto remete e quais as reflexões que podem ser levantadas a partir disso. Por fim, a terceira refere-se ao estilo, quais as imagens construídas e as emoções que elas evocam. Gostaria de pontuar, também, que, muitas vezes, esses critérios têm pontos de intercessão entre si, sendo que uma simples palavra pode afetar dois ou mesmo três deles. A pontuação final é dada, portanto, pela média dos três critérios, sendo que uma nota elevada em um deles pode elevar a nota final. Dito isso, prossigamos à avaliação.

    Resumo: Durante uma festa feita por motivo de promessa, um sujeito descobre que seu inimigo mortal está vindo, e prepara-se para o confronto.

    Técnica: Há, sem dúvidas, um controle da pena muito grande por parte dx autor(x). A narrativa é muito bem estruturada criando suspense, as descrições são bem feitas compondo cenário e os diálogos são bons o suficiente para caracterizar os personagens. Talvez a falha esteja na falta de balanceamento da trama no conto, já que a construção é longa mas a conclusão breve. Por fim, a resolução parece abrupta demais.

    Criatividade: Os personagens são lentamente construídos, com suas personalidades desvelando-se aos poucos. O foco da trama é em torno do conflito dos dois sujeitos. Os motivos são claros, mas sinto que perdeu-se a oportunidade de trabalhar o macro no micro, ou seja, usar esse conflito local pra descrever metaforicamente algo mais universal.

    Impacto: Gostei do conflito profano/secular no qual a fé serve para resolver os conflitos humanos. No entanto, como já mencionei, acho que o final peca por ser abrupto demais. Gostaria de ter visto um pouco mais de suspense com esse tema em questão melhor desenvolvido também.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Evandro, grato pela pela ponderada análise ao meu conto.

  18. angst447
    18 de novembro de 2019

    RESUMO:
    Todo ano,no dia 13 de dezembro, havia festa na casa de Mariano de Tibúrcio em homenagem à Santa Luzia, que lhe salvara um dos olhos. O arraial já contava com a festa, quando se soube que Petrônio de Augusto também queria participar da comemoração. Com fama de homem que falava sempre o queria e criador de encrencas, Petrônio não era bem-vindo no território de Mariano. A festa começou, com todos os seus pitorescos detalhes, e o boato da vinda de Petrônio de Augusto foi se espalhando, causando pavor aos convidados. Eis que ele surge com sua comitiva- quase um cangaço- e se apresente alegre, desejoso de participar do festejo em homenagem à santa. Mariano, contrariado, diz que apesar do corpo fechado, era melhor Petrônio não pisar no seu terreiro ou acabaria sendo morto. O outro responde que também era devoto da santa que lhe iluminava os caminhos e tinha também uma promessa a cumprir. Assim, a festa prossegue, “ficando Deus e o Diabo apartados num canto.”

    AVALIAÇÃO:
    Conto com ares de causo caipira, cheio de referências populares. Os costumes descritos, falando das tradições do povo de Serra do Alto, fazem o papel de pano de fundo para o confronto entre dois personagens: Petrônio de Augusto e Mariano de Tibúrcio. O contraste dos dois, tanto fisicamente como de caráter e personalidade dá a ideia final exposta no penúltimo parágrafo: “ficando Deus e o Diabo apartados num canto.”
    A linguagem empregada é coloquial, mas com característica bem regional, modo próprio de uma gente falar. Por isso, não me prendi a falhas de revisão, pois não dá para saber o que é proposital ou meramente a fala do personagem e do narrador.
    O ritmo do conto não é lento, mas também não é ágil, fica no meio do caminho, pois há pouco diálogo e a narração apoia-se em descrição dos usos e costumes, além da ornamentação da festa. Não há muita ação, embora o autor crie uma expectativa de um clímax com o confronto dos dois personagens. A tensão se desfaz nos últimos parágrafos quando Petrônio afirma não querer guerra. O que pode deixar alguns leitores frustrados, e outros encantados com o final feliz.

    Parabéns por participar deste último desafio de 2019. Feliz Natal e que 2020 seja generoso e traga muita saúde e paz para todos nós.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Angst, Grato pela graciosa e fundamentada análise ao meu texto.

  19. Regina Ruth Rincon Caires
    13 de novembro de 2019

    Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada (Malaquias Seraim)

    Resumo:

    É a história que envolve: Petrônio de Augusto (encrenqueiro), Mariano de Tibúrcio (bom pai, bom filho, quieto), Dona Josefa (mulher bonita de Mariano) e Luzia (filha de Mariano e Josefa). Numa festa, em homenagem a Santa Luzia, na casa de Mariano, havia expectativa de que seria uma catástrofe. Esperava-se um embate colossal entre Petrônio e Mariano, mas nada disso aconteceu.

    Comentário:

    Um texto regional, escrito bem à moda antiga, dentro do meu gosto. A leitura é tão prazerosa que dá a impressão que a narrativa é cantada. A fala regional traz isso em seu bojo. Internamente, tem a zoada da cantoria. Uma delícia! Alguns deslizes, principalmente de concordância, mas, como os diálogos usam proseado caipira, os deslizes na escrita se confundem com eles. Destaco que há expressões bem pitorescas, daquelas que contribuem para abrilhantar o texto:

    “Foi assim que Mariano ficou com um olho apagado, outro aceso.“

    “Foi Mariano chamar pessoalmente, de corpo presente,…”

    “… fazia só meia hora do primeiro canto dos galos.”

    “… de mesmo nome e beleza de santa que, por aqui num se sabe d’onde é que vem esse costume de igualar boniteza de santa com a lindeza das mulheres,…”

    “A noite já tinha engolido o dia,…”

    “De longe avistados, os cavalos marchadores de anca mole, num tipo de dança.”

    “Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!“

    “Tô aqui com espírito de brincante,…”

    “… mais Mariano de Tibúrcio e Petrônio de Augusto, tudo na paz dos homens. Ficando Deus e o Diabo apartados num canto. “

    Busquei o significado de latomia:
    substantivo feminino[Brasil] Pop. Assuada, ruído, barulho.

    Enfim, um conto apaixonante, espetáculo de escrita e criatividade.

    Parabéns pelo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Ufa, Regina! Que belo cometário, e tanta singeleza ao meu conto. Isso é o bastante para nos manter ativo nessa prazerosa lida da escrevinhação, Grato!

  20. Angelo Rodrigues
    7 de novembro de 2019

    Festa de Santa Luzia: Crônica de uma Tragédia Anunciada
    Resumo:
    Dois desafetos que se deparam, dois homens diferentes na postura, embora iguais na possível violência. Uma festa para Santa Luzia. O bicho vai pegar, só que não, e tudo acaba bem. Segue a festa que Santa Luzia não gosta que os homens se desentendam.

    Comentários:
    Caro Malaquias Saraim,
    Conto caipira típico, quase um “causo”. Bem contado, num ritmo agradável.
    Em alguns pontos se excede um pouco na citação de nomes que, a rigor, não têm importância, às vezes confundem, dado que são muitos.
    O autor usou uma linguagem “regionalista” que em muitos pontos não permite saber se frágil na escrita ou se representando um seguimento linguístico. Isto pode ser visto no trecho: “As rezas já se principiava[m]…”.
    Em alguns pontos imaginei um regionalismo inventado. Não é mal, mas recomendaria um refinamento, localizando o conto em uma dada região, pois, se num ponto, por exemplo, me pareceu Nordeste, no outro, com um “Buenas”, me pareceu no Sul.
    No aspecto redacional notei a pouca importância às crases, que ficaram de fora seguidas vezes. Há pontos em que ocorre o uso do “pra”, em outros o “prá”. Durante praticamente todo o texto; o tempo utilizado é o pretérito imperfeito do indicativo, em outro o texto fica no presente do indicativo. Ajustar, como por exemplo, em : “Já Mariano é [era] do tipo…”
    No que diz respeito ao texto em si, achei interessante não haver o “duelo” final entre os dois contendores. Isso foi legal, uma vez que toda a construção textual levou a leitura a aceitar que isso iria acontecer, só que não. Isso não é mal, mas é um risco, pois o texto faz murchar a expectativa construída durante a leitura. Isso, por óbvio, é apenas uma opinião.
    Boa sorte no desafio.

    • Paulo Luís
      16 de dezembro de 2019

      Olá, Ângelo, grato pela análise tão bem fundamentada ao meu texto, Quanto aos erros gramaticais, é possível mesmo que haja alguns deslises, em virtude do linguajar pitoresco da região. Para tanto, eu privilegiei mais a linguística à gramática formal. Portanto, no geral, ficou de fato proposital. O “pra”, por exemplo, era para ser todos acentuados, mas na hora de repassar o texto alguns ficaram despercebidos.

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Informação

Publicado às 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B e marcado .