EntreContos

Detox Literário.

Dr. Exxxquizito (Bruxa Keka)

 

Raniel reclamava de stress para sua colega de trabalho, Telma.

– Nossa, Telma. – Raniel começou. – Esses dias cheguei até a descontar na minha mulher, a Silvia. Levantei a voz e briguei por causa de um sabonete que ela tinha guardado e que eu não encontrava de jeito nenhum.

– Uhum. – Telma o olhava penetrantemente, tentando entender a situação.

– Ando perdendo a paciência muito fácil, sabe? O trânsito também me estressa demais. Outro dia fiquei mais de uma hora na Av. Alexandrini. É sério. Os carros não andavam de jeito nenhum.

– Sei. – Telma era uma ótima ouvinte.

– Oito horas de trabalho é demais pra mim, e ainda ficar trancado aqui nessa sala o dia todo. Preciso de um trabalho que  tenha menos rotina, mas na nossa profissão, isso basicamente não existe.

– É verdade. – Concordou a outra. Ambos eram programadores e passavam o dia  todo na frente do computador.

Quando Telma percebeu que Raniel não ia mais falar, começou.

– Olha, Rani, eu poderia te indicar um massagista, ou um terapeuta, ou qualquer coisa assim. 

Raniel acenou a cabeça, em concordância. Telma continuou:

– Mas eu conheço algo melhor do que isso. – Ela sorriu. Então, começou a vasculhar a bolsa. – Te aviso: caso queira seguir minha sugestão será preciso que você tenha a mente aberta.

– É, eu tenho… acho. – Ele parecia não saber direito. – Estou curioso, o que é?

– Bem, eu conheci um doutor… ele é muito bom, sabe? Eu tava com um problema  que ninguém dava jeito, e ele resolveu pra mim. Mas… – Ela achou o que procurava na bolsa, um cartão. Pegou e o segurou no ar. Olhou em dúvida para o colega de trabalho. – Alguns podem se assustar com seus métodos.

– Pode me dar o cartão, garanto que não me assustarei. – Disse meio sem confiança, depois deu uma risadinha sem graça enquanto estendia a mão.

Telma entregou o cartão.

– Bem, aqui está então… Espero que, caso você entre em contato com ele, as coisas saiam bem…

– Mas o que é que ele é? Um médico? Porque tanto aviso? O que pode ter demais..

– É, bem… – Telma olhou pra cima, pensativa. – Ele é um tipo de…. médico alternativo. Acho que não é formado em medicina. Os métodos dele são…

– Exxxquizitos? – Raniel terminou a frase por ela, lendo o nome no cartão.

Telma riu:

– Exatamente. Espero que goste. – Dito isso, ela se virou pra tela do seu computador e voltou a trabalhar.

 

“Doutor Exxxquizito – Telefone: (33) 9110-0666”, dizia o cartão. 

 

————————————————————————————

O escritório do estranho Doutor ficava num local ermo em meio a fazendas e chácaras numa cidade próxima a Capital, mas longe o suficiente para ser considerada interior.

A mistura de ansiedade com curiosidade o fez chegar 30 minutos antes da hora.

Avistou a porta de entrada e encaminhou-se até lá. Ao aproximar-se da entrada, notou uma movimentação do lado direito com sua visão periférica.

Ousou olhar, e depois não sabia se se arrependia de ter feito isso, se fugia ou o que. Não conseguiu nem dar mais um passo ao ver a cena, ficando paralisado:

Um homem rolava num pequeno campo de barro, nu. Era branco e tinha curtos cabelos escuros, ele observou. Possuía estranhas tatuagens nas costas e braços. Formas geométricas com estrelas de várias pontas, círculos, quadrados, serpentes.

Rolava de cá pra lá como um porco no chiqueiro, se cobrindo de terra a cada movimento.

Raniel ficou tão embasbacado com a cena que demorou para ouvir uma moça chamando-o da porta de entrada.

– Senhor? Senhor Raniel? Olá? Olá? – ela dizia.

– Ah, sim. Sou eu! – “Tarde demais pra fugir”.

– Pode me seguir, por favor?

– Claro! – “Ainda dá tempo de sair correndo!”

Mas não saiu. Ao invés disso, seguiu a mulher até dentro do escritório.

– Pode sentar aqui, fique a vontade enquanto termino uma coisinha ali dentro e em seguida venho fazer sua ficha. Você chegou adiantado, ainda estamos com um cliente.

– Ah, sim, ok! Sem problemas!- Sorriu forçosamente.

A mulher saiu por um corredor e desapareceu da sala.

Enquanto esperava, começou a ouvir ruídos que vinham de dentro do local.

– Ai, ai!! Assim! Isso, continua! – era a voz de uma mulher. Raniel arregalou os olhos de espanto. “O que será que tão fazendo?”, e logo começou a se preocupar. “Eu sou um homem casado, não posso trair minha esposa…” . Mas foi quando outra ideia passou pela sua mente que ele quase levantou e foi embora sem olhar pra trás: “E se eles mandarem eu rolar nu na grama também? Ah, não. Sinto muito, Telma, mas não vai rolar!”, pensou.

De repente, os estranhos gemidos mudaram de tom e a mulher lá dentro começou a gritar. Queria sair correndo, mas seu corpo pesava como uma pedra na cadeira. “Telma, Telma, onde você foi me meter?”, já se sentia arrependido, se perguntando se sairia vivo dali.

Deu um pulo de susto  quando sentiu um toque inesperado em seu ombro. O toque era congelante, quase como se estivesse recebendo uma queimadura gelada. 

– Olá! – o homem nu que rolava na grama estava ali, a seu lado, com um sorriso branco de dentes perfeitos. Raniel jamais percebera ele entrar na saleta.

– O..olá… – gaguejou estupefato enquanto observava o bingulim do homem balançar na sua frente.

– Sou o Dr. Exxxquizito, muito prazer. – Estendeu a mão. – Cuidado pra não apertar no lugar errado, hein? 

Raniel estendeu uma mão tremelicando de nervoso para o doutor. 

Percebendo a reação de Raniel, o Dr. apressou-se a dizer:

– Ah, você deve estar achando estranho eu estar pelado…

Pela primeira vez, o Doutor havia soado coerente. Raniel concordou:

– Você não vai me mandar rolar na grama pelado, vai?

 Exxxquizito sorriu:

– Descobriremos isso após sua avaliação. Cada pessoa recebe um diagnóstico e um tratamento. Se bem que rolar na terra pelado é indicado a qualquer pessoa… Você irá receber as energias quânticas de Gaia e se sentirá renovado após.

————————————————————————————-

Por um momento pensou que tinha entrado numa daquelas tendas de ciganas. A sala do Dr. era cheia de penduricalhos, como cristais, plantas, velas, incensos, miniaturas de estátuas diversas e tapetes multicoloridos. Só faltava uma mulher com um lenço na cabeça e uma bola de cristal na frente.

“Onde fui parar…”, pensou.

– Sente-se, por favor – pediu o Dr.

Uma mesinha cheia de coisas os separava.

– Conte tudo, não esconda nada. 

Raniel contou.

– Hum… – Exxquizito acendeu um fumo desconhecido. Logo o cheiro denunciou o que era… Cannabis! – Entendo, entendo… Acho que sei qual é o remédio certo pra você. 

Clicou num botão do telefone a sua frente. A secretária atendeu.

– Vamos pra Sala 66X.

O olhar do “médico” mostrava que ele estava se divertindo por dentro. Raniel não sabia se isso era bom ou ruim.

– Siga-me.

 

——————

 

Saindo da sala, entraram em um corredor branco. Raniel seguiu o Dr. até outra porta no fundo deste corredor. A secretária abriu a porta, que estava trancada.  Deram de cara com um salão circular cheio de outras portas numeradas e uma escada que descia.

Enquanto seguiam em direção a escada, uma ratazana enorme passou correndo pelo lugar. Parecia ter vindo lá de baixo. 

O caminho estava escuro, os degraus e a parede pareciam não ser limpos há décadas.

Não se via o fim da escada, que era circular e de metal pintado de vermelho. A tinta estava descascada.

– Pra onde estão me levando?- Raniel tentava se manter calmo, mas não aguentava mais descer. Uma apreensão foi inevitável.  

Não obteve resposta. Sua respiração acelerou.

Alguém poderia dizer “fica calmo, Raniel. Não tem nada demais…” mas ninguém disse.

Era só o que ele queria ouvir.

 

———–

 

Um cheiro ruim preenchia o lugar, forte, tóxico. A secretária passou  acendendo velas, única fonte de iluminação. 

O chão estava imundo. Havia uma camada de sujeira impedindo de se saber qual era a cor do chão. Raniel foi orientado a se sentar numa pequena cadeira velha e torta de madeira no centro. 

“Cobra tão caro pela consulta, e não tem dinheiro nem pra comprar uma cadeira decente?”, pensou.

O Dr. abriu a gaveta de uma escrivaninha velha num canto escuro. De dentro, tirou um livro enorme, de capa grossa  e preta. Uma estrela vermelha de ponta cabeça enfeitava a capa.

Distraído pela situação, Raniel só percebeu tarde demais quando a secretária/enfermeira passou uma corda rapidamente três vezes pelo seu corpo, o prendendo a cadeira de supetão.

– Ei, o que está fa… – foi calado por uma fita adesiva.

A coisa fora tão inesperada que ele apenas se sentiu paralisado por tudo aquilo. Não conseguia se mexer de tão estupefato. Olhou pro Dr, que parecia mais tranquilo do que nunca enquanto folheava o imenso livro negro.

– Ah, sim, aqui está… Vera, por favor.

A mulher acenou. Pegou uma vassoura no canto, e limpou a imensa camada de sujeira que se acumulava no chão. O Dr. mostrou uma figura a ela, e ela pegou uma lata de spray branca e começou a desenhar no chão.

Aos poucos, uma forma branca feita de círculos e linhas foi surgindo.

A cadeira com Raniel foi arrastada até o centro da figura.

Exxxquizito mostrava os dentes. Vera acendeu uma espécie de incenso que exalava um cheiro de enxofre.

Raniel queria gritar, queria perguntar o que estavam fazendo com ele, mas tudo que conseguia era emitir grunhidos.

– Que comece a sessão. – disse o Dr.

A ajudante saiu da sala por alguns minutos. Quando retornou, trazia consigo um porco. 

O animal parecia nervoso, possuía os olhos arregalados demais para um porco normal. O olhar se movia de forma estranha, como se o porco tivesse consciência do ambiente. Era rosado com manchas pretas, e não parava de babar. 

O bicho foi colocado no colo de Raniel. O porco olhou pra ele de forma penetrante e obscura. Havia algo de errado com aquele bicho.

Exxxquizito começou a fazer uma espécie de reza macabra, enquanto sua ajudante segurava o porco no colo de Raniel. 

A língua da reza era estranha, não parecia deste mundo.

Logo o porco começou a gritar de forma gutural, e uma espécie de sombra  negra começou a sair de suas narinas, boca e olhos. O som de os gritos era como o de alguém morrendo. Horripilante. 

Raniel, que já suava em bicas, começou a tremer quando percebeu que aquela bizarra sombra negra vinha em sua e direção. Seu ateísmo desapareceu na hora. Começou mentalmente uma oração a Jesus. A ajudante tirou a faixa que cobria sua boca e antes mesmo que pudesse gritar, a sombra negra entrou pela sua garganta.

Ao fundo, o Dr. continuava a rezar. Quando a transmissão da sombra acabou, o porco desmaiou e escorregou para o chão. 

Raniel sentiu algo muito estranho. Era como se estivesse possuído por uma energia maligna. Os níveis de adrenalina explodiram completamente em sua veia sanguínea. 

De dentro dele saiu uma risada incontrolável. Era como se ele agora fosse um bicho, não mais um ser humano. A ajudante o desamarrou, e ele sentiu vontade de se jogar nas paredes do lugar. Tinha algo para ser extravasado de dentro dele, ele sentia isso.  

Exxxquizito e a mulher saíram da sala e o trancaram ali, sozinho, ou, com ele e mais a sombra. Levaram o porco junto.

Gritou. Se jogou. Pulou. Berrou com o vento. Se descabelou. Puxou os próprios cabelos. Bateu a cabeça na parede e parecia se divertir com a dor. Sangrou. Quebrou três ossos. A cadeira voou, se espatifou. Ele rolou no chão, ficou sujo. Quebrou tudo que conseguiu. Empurrou a escrivaninha. Socou a porta. Achou uma caneta, quebrou o plástico e cortou e arranhou com força os próprios braços. 

Três horas depois o Dr e sua ajudante retornaram com o porco. O animal parecia renovado quando entrou na sala. 

Raniel estava num estado deplorável. Cheio de hematomas, sangue e sujeira.  Os olhos vermelhos, com as veias saltadas. Tinha perdido até um dente.

Não foi difícil amarrá-lo de volta na cadeira.

O porco foi colocado de novo frente a frente com ele. 

Uma reza invertida fora recitada.

Uma sombra negra retornou de onde viera.

Um homem desmaiou.

 

———————————————————

 

O cheiro de churrasco chegava até a casa dos vizinhos. Era Domingo, e o forró animava a festa.    

Cerveja na mão, Raniel conversava animadamente com dois amigos numa rodinha à parte.

– Nossa, não sei como você consegue beber tanto, Guguinha. – disse Viriato.

Raniel concordou.

– Esse é o nono ou décimo copo seu? Vai falir o dono festa, olha que ele nunca mais te convida, hein?

Guguinha se explicou.

– Eu não queria dizer, porque fere minha virilidade, mas… a verdade é que desde que a Jussara me deixou, não consigo parar de beber. Nossa, eu ando muito mal…

– Sério? – disse Viriato. – Você tá muito triste?

– To é deprimido demais… nada mais tem graça.

– Quem mandou trair? – a verdade escapou dos lábios de Raniel. 

– Pois é, cara. Nem a amante tem graça mais.

– Você tem que parar de beber, cara.. isso tá te fazendo mal. – recomendou Viriato.

– E vou fazer o que, cara? Se eu não beber, acabo me suicidando de tanta tristeza.

Raniel ficou pensativo por um momento. Depois pegou sua carteira no bolso da calça e começou a fuçá-la.

– Olha, eu acho que sei como você pode sair dessa… – tirou um cartão de dentro da carteira e o entregou a Guguinha. 

– O que é isso? – o outro perguntou.

– É um Dr. muito bom. Ele resolve qualquer problema. Eu tava com um problema de estresse muito grande esses tempos, andava com muita raiva do mundo, e depois de ser atendido por ele  isso passou. Saí de lá super leve e light.

– Mas meu problema é outro.. 

– Tenho certeza que ele dará um jeito no seu problema também.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.