EntreContos

Detox Literário.

Até o Inferno (Juan Brujo)

 

Estávamos de tocaia há três dias. A informação fora passada pelo coronel Perpétuo: Elano Grundelmann receberia uma carga de armas ali, no depósito abandonado da Vila Conceição. Eu não me sentia nada confortável com aquela ajuda – todo mundo sabia que o coronel andava traficando.

Além disso, ouvi as piores histórias sobre ele: Perpétuo e o esquadrão pregando os pés de devedores inadimplentes em tábuas e depois os obrigando a desfilar; Perpétuo na adolescência matando o próprio pai num incêndio suspeito; Perpétuo e seu pacto com o coisa ruim.

Não que eu fosse um exemplo de virtude – longe disso. Na verdade, o motivo de eu estar naquela situação era ter moído um vagabundo na porrada. Mereceu: era um estuprador. O trabalho foi tão bem-feito que a própria mãe não o reconheceria. Só não matei o animal porque me seguraram antes. E quer saber? Faria tudo igual de novo. Quero dizer, igual não – desta vez completaria o serviço.

Perpétuo é diferente. Ele massacra esses coitados que se arrastam na rua feito zumbis, pessoas que ajuda a destruir entupindo a cidade de crack. Traficantes são gente da pior espécie – enriquecem com a desgraça dos outros.

Mas, encarando de forma realista, se sou obrigado a andar no meio da merda, o jeito é tampar o nariz e seguir em frente. Foi o que fiz. Depois do gancho sem remuneração por ter dado àquele filho da puta o que ele merecia, precisei arrumar outro jeito de levar dinheiro para casa: além dos gastos com comida, luz, água, a deficiência do meu filho, o Bruno, me obrigava a pagar uma cuidadora. E então apareceu o Fagundes, propondo essa parceria. Não tinha como recusar, ainda mais considerando que acabou sobrando para o coitado também no caso do estuprador, por tentar aliviar a barra para mim. 

– Quando a gente vai entrar? -perguntei para o Fagundes. 

– Tem que ter paciência, caralho – ele respondeu.

Na noite anterior tínhamos visto um pequeno caminhão-baú entrando no depósito. A ideia era esperar o melhor momento, entrar, pegar a carga, colocá-la na van, sair. 

Agora passava do meio dia. O ar abafado de dentro do carro foi me deixando sonolento: resolvi dar uma cochilada num dos bancos traseiros.

Algum tempo depois, fui despertado pela voz do Fagundes:

– O Grundelmann tá saindo.

Rapidamente me endireitei; passei para a frente. O velho observava a cena com um binóculo.

– Esquisito não ficar ninguém pra vigiar-comentei.

– Excesso de confiança. Ele acha que ainda tem proteção da milícia. Mas se o Perpétuo deu o serviço, é porque isso aí acabou.

Saímos da van, nos esgueiramos até a entrada. Meu colega começou a trabalhar no cadeado com um clipe de papel e meio minuto depois, como num truque de mágica, o portão estava aberto.

Lá dentro, grandes caixas de papelão dispostas nas prateleiras de um arquivo de aço, atrás de uma escrivaninha de madeira equipada com um laptop.

Checamos o conteúdo das caixas: revistas de pornografia artística hardcore fotos de orgias em cemitérios e campos abertos, onde homens usando máscaras de bode penetravam mulheres pálidas.

Nos entreolhamos, surpresos. Reviramos as caixas: mais e mais revistas de sacanagem. Fui até o laptop, em busca de alguma informação útil. Na tela, um vídeo pausado. Chamei o Fagundes, cliquei para rodar.

E então nos deparamos com o inferno.

Círculos de velas negras. Um cântico sinistro, vozes monótonas. Pessoas trajando capuzes com capas, seus rostos encobertos por máscaras de bode. Um menino nu cambaleia, conduzido por um dos encapuzados, até o centro dos círculos. O homem coloca o garoto de quatro e….

A cena seguinte me fez enxergar tudo em vermelho. Soquei com força a tela, depois arremessei o laptop na parede. Quando meu acesso de fúria passou, havia pedaços de plástico e metal espalhados no chão, e filetes de sangue em meus punhos cerrados. Eu me sentia como se estivesse anestesiado. Voltei à escrivaninha, abri a gaveta. Ao revirar a confusão de papéis que encontrei lá dentro, um pequeno cartão preto chamou minha atenção: no alto dele estava impresso um símbolo, formado por dois triângulos contrapostos ligados pela base, a qual se alongava dos dois lados, dividindo-se em três linhas terminadas em círculos. Logo abaixo dele lia-se, em letras rebuscadas: MISSA NIGER. O texto também era em latim.

– Vamos arrancar a verdade desse bosta – falei, mostrando para Fagundes o cartão.

Ele assentiu com a cabeça. Seu rosto estava tenso.

Saímos por uma porta lateral e colocamos o cadeado de volta; depois, esperamos cerca de meia hora até Grundelmann voltar. Após rendê-lo na entrada, o arrastamos até a cadeira, à qual Fagundes o algemou.

– De onde saiu aquela putaria? Quem filmou? Responde, seu viado! —rosnei.

Ele me encarou, confiante:

– Esses são os sinais. Hoje é o dia da chegada do rei, de nosso Redentor.

Esmurrei seu queixo, fazendo alguns dentes voarem para longe. Em seguida, um soco no estômago. Grundelmann se dobrou, cuspindo sangue.

– É…. Uma honra…. Fazer parte disso…. – ele balbuciou, exibindo um sorriso rubro.

– Do que você tá falando? Desembucha, porra! —eu disse, arremessando ele e a cadeira contra a parede. A cadeira caiu de lado, soltando lascas. Elano uivou de dor, depois murmurou:

– É hoje…. Está escrito….

Fagundes fez um sinal para que o seguisse até o canto. Sussurrando:

– É óbvio que esse cara tem uns parafusos a menos. Mete uma bala na cabeça dele e vamos sair daqui

– Não, eles precisam pagar pelo que fizeram. Eu vou até o inferno atrás dessa escória. 

Fagundes balançou a cabeça.

– Escuta: isso também não me agrada, mas duvido que a gente consiga botar a mão nesses caras. O Perpétuo nos sacaneou. Deve ter dado a informação errada de propósito, talvez pra tirar algum rival da jogada.

– Tudo bem. Esse trabalho eu faço de graça – eu disse, com a impressão de que minha voz vinha de muito longe. Dei as costas a ele, fui até Grundelmann, saquei a pistola. Atirei em cada um de seus dedos, e com muito gosto os vi explodindo. A ideia era fazê-lo implorar, mas isso não aconteceu: Elano apenas guinchava e sibilava, repetindo a ladainha sobre o redentor. Quando cansei daquilo, passei a dar-lhe violentos pisões na cabeça, prensando-a contra o piso, até que o crânio se partiu com um estalo. O corpo se contorceu como o de um verme por algum tempo, e então seus movimentos cessaram de vez.

Fagundes, branco feito papel:

– Merda. Pra que isso? Tá ficando maluco? 

Eu me mantive em silêncio, ofegante, olhando fixamente para o cadáver. Então, meu colega suspirou e disse, virando-se para a porta:

– Vem, vamos dar um jeito nisso.

Antes de segui-lo, revistei o morto. Encontrei um celular, que guardei em meu bolso. Em seguida Fagundes conduziu o carro de Elano para dentro. No porta-malas havia uma capa com capuz e uma máscara de bode. Levei tudo comigo.

Saímos. Rodamos por um tempo, até encontrar um lugar deserto, perto de uma reserva florestal. Juntamos galhos de árvores, fizemos uma fogueira. Joguei nela minhas roupas ensanguentadas, as quais troquei por uma muda que tinha trazido na van. Fiquei um tempo olhando para as chamas, hipnotizado por elas.

No caminho de volta para casa, peguei o cartão e fiz uma tradução porca, usando um aplicativo do celular. Li para Fagundes:

– “Você está convidado para participar da cerimônia de celebração do advento de nosso rei.” A data é hoje, na antiga siderúrgica Sideris, 4º pavilhão, no velho distrito industrial, às 23 horas. A gente tem que acabar com isso, cara.

– Se tu não percebeu ainda, já acabou. Já era. O negócio agora é ficar na moita por um tempo.

– Porra nenhuma. Vou arrebentar esses filhos da puta.

– Isso é maluquice, cara. É suicídio.

– Você não precisa entrar comigo. Só me deixa lá que eu resolvo.

Fagundes respirou fundo, balançando a cabeça:

– Não, nem pensar. Pra mim já deu. Tenho uma família. E tu devia pensar no teu filho também. 

– Tudo bem. Vou sozinho.

 

Cheguei em casa agitado. Do lado de fora ouvi Bruno resmungando alguma coisa. Ao abrir a porta dei de cara com ele e Lígia, a cuidadora. Bruno me abraçou e começou a se queixar de Lígia:

– Ela não me deixa ir brincar com o Matias, papai!

Meu filho falava sobre o menino que viera morar no prédio há uma semana. Ele tinha medo do Bruno: se encolhia todo ao ver aquele adolescente de voz arrastada e anasalada, que por vezes se babava ao falar.

Pobre do meu garoto.

– É que o Matias deve estar na escola, filhão. Mas não fica triste: hoje vou te levar pra casa da vovó.

– Êeeeee…. – ele saiu com os braços erguidos na direção da sala, festejando. Agradeci a cuidadora e a dispensei, pensando na sorte de tê-la encontrado – o salário estava quase um mês atrasado e Lígia não reclamava; na verdade, ela nunca reclamava. Em alguns momentos ficava esquisita, soturna, olhando fixamente para algum canto da casa. Mas, tirando isso, ela era excepcional: cuidadosa, responsável, e de uma paciência infinita.

Passei a chave na porta, fui até a sala. Bruno brincava com sua espada de plástico. Senti uma lágrima brotando, ao lembrar da mãe dele. A imagem na minha cabeça era de Simone murchando dia após dia, corroída pelo câncer, até que só restasse o brilho daqueles olhos grandes e lindos: eles se mantiveram acesos até o último momento.

– Papai, vem brincar comigo – disse meu filho. Imediatamente corri em sua direção, grunhindo como um dos monstros da série japonesa preferida dele, e simulamos uma luta. Depois de algum tempo, deixei que acertasse uma sequência de golpes, me joguei no chão; Bruno disse: “lâmina flamejante,” fez alguns floreios com a espada e finalizou arremetendo-a contra meu peito; o movimento foi acompanhado por uma onomatopeia de explosão: “buuuum”.

Após fazermos um lanche, arrumamos suas coisas numa mochila e o levei para a casa da minha mãe. Voltei para o apartamento, tomei um banho de água fria; em seguida preparei café, bebi três xícaras.

E então, o celular de Elano tocou. 

– Alô? – atendi, simulando o jeito de falar dele.

– A senha é manoroc – disse uma voz masculina.

– Entendi.

Desliguei. Ele nem tinha desconfiado.

No relógio da parede, dez e vinte e cinco.

Desci, peguei o carro, e parti em direção à antiga área industrial.

Vinte minutos depois, cheguei à fábrica abandonada da Sideris. As ruas estavam desertas: aquele bairro era uma zona fantasma controlada pela milícia; ninguém se aventurava por lá. Nem mesmo a polícia, que tinha acordo com eles.

Estacionei na rua em frente ao prédio, vesti a capa com a máscara, e entrei pelo portão da velha siderúrgica. Segui para o lado direito, onde encontrei placas indicando os pavilhões. Uns 100 metros adiante, dois sujeitos enormes guardavam o portão do pavilhão 4. Fui na direção deles, respirando fundo. Vozes graves vinham lá de dentro, cantando palavras ininteligíveis.

– Manoroc – eu disse, estendendo aos guardas o convite para a missa.  Eles deram uma olhada rápida no cartão e liberaram minha passagem.

Entrei no pavilhão. Enfileiradas ao longo da parede, viam-se grandes velas pretas. A congregação vestia capas e máscaras de bode; contei ao menos vinte deles, todos entoando aquela ladainha. Atrás do altar baixo, coberto com um pano preto, três sacerdotes recitavam as orações. Vestiam, além das máscaras, casulas pretas bordadas com símbolos cabalísticos.

Um deles estava sentado diante de um órgão, no qual começou a executar uma melodia soturna. Ao mesmo tempo, das sombras no fundo do salão surgiu um ajudante, trajado com uma bata sacerdotal, conduzindo uma linda adolescente loura; iluminada pelas luminárias do teto, ela era como um raio de sol dispersando as sombras. Estava nua, e avançava em movimentos lânguidos e vagarosos—eles a tinham drogado.

A estranha música prosseguiu, num crescendo, com suas notas graves; algo nelas me perturbava. Era como se meu corpo e todo o universo pulsasse no ritmo delas. Flashes de um estranho mundo em chamas começaram de súbito a espocar em minha mente enquanto, ao redor, todos se contorciam, fazendo ruídos animalescos. Suas máscaras pareciam ter criado vida própria, fundindo-se aos rostos. No altar, um brilho prateado na mão do ajudante: ele estendia uma faca para o sacerdote.

FODA-SE, pensei, e saquei a pistola. O primeiro disparo atingiu o ajudante. Ele caiu, com uma mancha vermelha no peito; os outros encapuzados começaram a grunhir feito porcos, movendo-se ao meu redor. Antes que me cercassem, distribuí mais algumas balas, derrubando meia dúzia de mascarados, e corri para o lado oposto. Eles vieram atrás. Encontrei uma porta de ferro, testei a maçaneta: estava aberta. Deslizei rapidamente para dentro, e vi, num relance, iluminada por um facho da luz vinda do pavilhão, uma cadeira de ferro. A arrastei até a entrada e bloqueei a porta. Meu coração martelava no peito.  

Nesse momento, chegou aos meus ouvidos o som de disparos de fuzil. Vinha lá de fora: só podia ser o Fagundes. 

Estava prestes a sair para ajudá-lo, quando ouvi passadas rápidas atrás de mim se aproximando. Algo rosnou nas trevas; me virei e disparei. A coisa soltou um guincho e atacou, chocando-se contra mim, me fazendo perder a arma. Apanhei o canivete no bolso e a golpeei uma, duas, três vezes. A besta uivou de um modo que não lembrava nem um ser humano, nem um animal: o som parecia vir do mais profundo abismo do inferno. Me desequilibrei e caí com ela. A lâmina continuou a subir e descer, implacável, até que os grunhidos da criatura cessaram. Um longo sibilar marcou seu fim.

Então, de repente, ouvi um rangido alto. Levantei rapidamente, e vislumbrei um estreito facho de luz alguns metros adiante, que foi se expandindo até iluminar todo o pavilhão: era um portão sendo aberto.

Do lado de fora, havia uma imensa fogueira. Diante dela, os mascarados. Estremeci ao ver aos pés deles o corpo ensanguentado e imóvel de um homem. Por que você veio, Fagundes?

No centro do grupo, erguia-se uma imensa cruz de madeira, virada de ponta cabeça. A garota loura tinha sido pregada lá; seus pulsos sangravam. Possuía a expressão de uma criança dormindo.

Respirei fundo, e os encarei. Estava disposto a lutar até o fim.

Foi quando os três sacerdotes começaram a bater palmas. Os demais logo os acompanharam.

Atônito, recuei alguns passos, quando tropecei nele. Olhei rapidamente para baixo, e o que vi fez meu coração parar por um instante.

Um fio de baba escorria de sua boca. Estava coberto de sangue, os olhos muito abertos parecendo me fitar. Por um instante fiquei feliz por Simone já ter partido: ela não teria o desgosto de ver o que eu tinha feito com nosso filho.

Fiquei paralisado, me sentindo vazio, como se de fato eu não estivesse ali. Tudo parecia um pesadelo. Não reagi ao ver os três sacerdotes tirarem suas máscaras, revelando quem eram.

Perpétuo.

Lígia.

Grundelmann.

Não fazia sentido. Nada fazia sentido. Perpétuo aproximou-se com uma coroa dourada nas mãos e a colocou sobre minha cabeça.

Eu continuei imóvel, e voltei meus olhos para a fogueira. Fiquei observando as chamas por um longo tempo, até parecer que não existia mais nada no mundo.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.