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Detox Literário.

O Gato de Schrödinger – Conto (Jorge Miranda)

O que aconteceu? Onde estou? Não estou lembrando de muita coisa. Não consigo sentir meus braços e pernas. Abro os olhos e não vejo nada, nem escuridão, nem uma mísera réstia de luz, não consigo sequer conceituar o que meus olhos veem ou não veem. O que houve? Eu estou morto? Eu devo estar morto. Eu só posso estar morto. Como isso aconteceu? Uma onda de medo e terror misturado com surpresa e angústia se misturam.

Calma!! É hora de se manter calmo custe o que custar. Tento colocar a mente no lugar. Se eu morri porque eu continuo a pensar? Eu estou com medo. Mas se estou com medo é porque sou capaz de sentir coisas. Então eu estou vivo.

Aos poucos meus olhos vão conseguindo divisar o que está ao redor. Percebo que estou em uma casa e não a reconheço. Não lembro meu nome e nem o que aconteceu. Tento lembrar nomes de pessoas ou de eventos e não consigo.

Tenho a impressão de que os conceitos de espaço-tempo não se aplicam a situação em que me encontro …

Acho que devo ser a última pessoa sobe a face da Terra. Tenho medo de admitir isso, mas não posso negar os fatos. Eu não sei dizer o que houve, a única certeza que tenho é que todo mundo sumiu, todas a pessoas simplesmente desapareceram. Não restou o menor vestígio de alguém.

Esta cidade tinha quase dois milhões de habitantes e agora não há ninguém. Vasculhei quase todos os bairros e uma infinidade de becos e ruelas e não descobri nada. Parece que todas as pessoas e também todos os animais e insetos desapareceram. Passo horas e horas perambulando pelas ruas e a única coisa que escuto é o barulho do vento ou o clique dos sinais de trânsito mudando automaticamente. É um mundo silencioso.

O desespero teima em querer voltar. Muitas vezes fico perguntando-me porque só eu fiquei no mundo. Para onde foi todo mundo?

O que será que houve? Elaboro mentalmente uma lista de coisas que poderiam ter acontecido: 1- a terra caiu em um buraco de minhoca e só eu escapei. 2- Todos foram abduzidos por extraterrestres. 3- Estou tendo um pesadelo e em algum momento acordarei (essa é a explicação que mais gosto). 4- Sou vítima de algum experimento maluco. 5- Estou morto.

Coisa horrível essa de estar só no mundo, tudo perde o seu valor e a sua lógica. Não existe ninguém para dizer que isto é bom ou ruim, que isso é feio ou bonito. Certa vez simplesmente destruí vários aparelhos eletrônicos caríssimos com uma marreta de cinco quilos. Destruí porque quis destruir, simples assim. Impensável fazer isso antigamente sem alguma consequência. Não existe ninguém para expressar juízo algum. Só eu existo. Eu tenho unicamente a mim mesmo para conversar. É como jogar uma partida de xadrez consigo mesmo, não tem graça alguma pois já sabemos qual será o próximo lance.

Passo horas navegando na rede mundial de computadores buscando algo, querendo desesperadamente uma resposta. Abro as redes sociais e descubro que nenhuma delas foi mexida desde o dia que acordei e vi que todos desapareceram. Dirigi mensagens eletrônicas para muitos lugares do mundo, mandei sinais de rádio para vários países. Observo que nenhum canal de televisão funciona mais.

Muitos meses já se passaram, vi centenas de filmes nos computadores, já li livros e mais livros. Fiz pesquisa de todo tipo. Terminei encontrando a descrição de um experimento de física quântica que fez eu me identificar com ele. É um experimento mental chamado “o gato de Schrödinger”, ele é impossível de ser realizado materialmente, por isso é chamado de “experimento mental”. Nele um gato é colocado em uma caixa selada contendo um recipiente com material radioativo e um frasco de veneno. Em certa altura do experimento um contador Geiger, caso detectasse pequena quantidade de radiação, faria um martelo quebrar o frasco de veneno liberando-o. Como ninguém sabe quando o veneno seria liberado o gato poderia tanto estar morto quanto vivo. Se um observador entrasse em ação nesse exato instante quebraria essa dualidade de duas realidades (gato estar morto e vivo em um certo momento).

Pouco entendi do que o artigo falava mas achei interessante porque fez perguntar-me se eu não estaria morto e vivo ao mesmo tempo. Estaria eu preso em um mundo de paradoxos no qual existo em duas realidades distintas? Um mundo no qual eu sou morto e vivo? Um vivomorto? O apavorante disso é que no experimento se aparecer um observador a dualidade será quebrada … aí posso estar vivo ou morto.

Já estou aqui sozinho há muito tempo. Terminei perdendo a noção de tempo. As vezes penso que já se passaram milhares de anos e que eu continuo sendo o único dono das coisas. O rio Nilo é meu, a floresta amazônica é só minha, todos os diamantes do mundo são meus. Tudo é meu. No fundo isso não tem graça pois sei que perderam o sentido.

Cada vez mais eu sinto-me como o gato de Schrödinger, preso em duas realidades … será que isso é o eterno? Será que isso é o para-sempre? Todas as noites eu vou dormir pensando nessas coisas para quem sabe acordar um dia e ver que tudo isso nunca existiu.

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2 comentários em “O Gato de Schrödinger – Conto (Jorge Miranda)

  1. Fernanda Caleffi Barbetta
    23 de setembro de 2019

    Muito interessante a forma como usou essa teoria neste conto. Só estamos vivos ou mortos se alguém no observar…

  2. Antonio Stegues Batista
    22 de setembro de 2019

    Só saberemos se o gato está vivo ou morto se abrirmos a caixa, mas se isso for feito, alteraremos a possibilidade do gato estar vivo ou morto, ou seja, uma das duas realidades do personagem, vai desaparecer, caso ele descubra o que aconteceu. Uma ideia interessante para ser melhor analisada.

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Informação

Publicado às 22 de setembro de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .