EntreContos

Detox Literário.

Odisseia dos Mistérios (Orbis)

 

AVISO

Abra com cuidado. Foi feito com coração, para ser entendido pela mente e apreciado pelos dois!

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Poderia fazer suspense, charminho, ou até enrolar na cara dura, mas não, não sou assim, então serei extremamente direta!

Orbis. Meu nome de exploradora, pois de nascença, bem, seria impossível transcrever na língua universal. Se encontrou esse bilhete holográfico e está diante certa liriana de pele azulada, olhos de fogo e cabelos de esmeralda, que é uma beleza, só quer dizer uma coisa: você tem muita sorte!

Provavelmente ainda estou viva, mas gosto de fazer isso, sabe, espalhar meus rastros pelo Universo. Uma mensagem aqui, outra acolá, sabe como é, né? A necessidade de todo ser vivo pensante: notoriedade.

Viajo pelo universo. Sou exploradora-mor da minha civilização. Eu e o bonitão do meu companheiro. Tulen. Vem cá, vem. Não? Ignorem ele. É tímido.

Enfim…

Alguns buscam o futuro. Outros: riqueza! Nossa ambição é diferente. Desejamos o mistério. Procuramos o inexplicável, aquilo que foge da razão que conhecemos tão bem, que oferece conforto.

Anormalidades!

Quero compartilhar um pouco. Isso também faz parte da vida, né? É quase uma necessidade.

Quatro mistérios, quatro situações incríveis, quatro momentos de alegria e tristeza, aquela mistura que todos amamos! Ou odiamos, vai saber. Vou contar tudo. E não se preocupe! Esse bilhete tem um emulador de cenas, então você literalmente verá o que vivenciei!

Prepare-se! Encante-se! Ou não. Odeie, repudie, se quiser. Você é livre!

 

VIDA ONDE SÓ EXISTE MORTE

Andrômeda!

Deseja uma galáxia com muita luz e paz? Vai para Andrômeda. É sério. Nunca conheci um lugar tão tranquilo. Não existe nenhum tipo de guerra acontecendo por lá, acredita? São seres avançados, o que poderíamos esperar, né? Porém, vá preparado: eles são extremamente cuidadosos na fronteira. Mil permissões, mil testes, nossa, mô canseira… Mas vale a pena!

Estávamos na região, literalmente de férias, pois viver grandes emoções naquela galáxia é quase impossível; viajando pra lá e pra cá em nossa modesta nave, Pulsen, de arquitetura arredondada — elegante, não concorda? — e tecnologia pleiadiana — dobra espacial de primeira linha —, e admito: estava meio entediada.

Até o momento do plot twist — adoro!

Entramos numa Zona Morta sem querer. Os motores falharam, mas, ainda bem, tínhamos um gerador especial para essas situações.

— Realmente, Orbis, não dá para deixar o comando com você… Olhe bem! — censurou Tulen, mostrando os informativos da Federação Galáctica de Andrômeda, que revelava claramente que estávamos numa área perigosa.

— Desculpinha…

Suspirou e sentou na cadeira do comandante, pronto para assumir a liderança, mas impedi. Percebi, bem longe, uma fonte de iluminação no fundo daquela região escura. Uma Zona Morta é uma das anormalidades mais comuns do Universo. É como uma densa malha que cobre o espaço e sufoca a vida. Surge do nada, sem explicação, deixando uma mancha negra que pode durar milênios. Uma luz, ali, era o incomum dentro do incomum! 

Como não se animar com isso? Nem meu amorzinho, que consegue ser bem frio quando precisa, conseguiu conter sua empolgação.

Pulsen tinha três dias de vida com o gerador. Podíamos avançar somente por um dia, para fins de segurança — ainda assim, existia a chance de sermos esmagados pela pressão do ambiente, mesmo com o revestimento duplo da nave. Quando começamos a nos aproximar, a fonte iluminada começou a piscar em intervalos de trinta minutos. Demorou um pouco, mas logo vimos uma onda eletromagnética, de um vermelho bem forte, passar por nós, interferindo levemente no sistema da nave, mas nada preocupante. A partir da terceira onda, conseguimos calcular a distância: dois dias no ritmo que estávamos.

— Vamos usar a dobra espacial? — questionei.

— Arriscado demais. Consome muita energia.

— Mas vale a pena… Vamos.

Tulen pensou um pouco.

— Não sei… 

Estava cedendo, quando outra fonte de luz apareceu à direita, bem, bem próxima mesmo, porém, menor que a primeira. Sinceramente, fiquei assustada. Uma coisa que aprendi nas minhas jornadas: nunca subestime as anormalidades.

E ela começou a se aproximar. Devagar, cautelosa, até parar diante nossa vitrine central. Sua luz parecia efêmera, meio intencional. Tinha enfraquecida bastante desde que apareceu, como se estivesse sendo ajustada. Observei seus contornos. Parecia humanóide. Fiquei extasiada e ainda mais amedrontada, essa fusão que é tão comum aos exploradores. 

— Vamos embora. Agora… — anunciou Tulen, assumindo o painel de controle.

Reconheci aquele tom. Impossível debater quando ele está assim. Então me sentei ao seu lado e simplesmente aceitei. Saímos da Zona Morta e continuamos nosso passeio como se nada tivesse acontecido. 

Até hoje, pergunto-me o que teria acontecido se tivesse insistido. A aura daquela criatura iluminada era ameaçadora, porém, tinha um tom meio convidativo. Mas, para ser uma exploradora, tive que me acostumar com a frustração. Oras, a decepção sempre foi mais comum que o sucesso, não concorda?

 

QUANDO O TEMPO É SELETIVO

Às vezes, de forma bem descompromissada, pousamos num planeta aleatório que esteja na zona habitável do sistema solar. Apenas para curtir, relaxar, sabe? Já tivemos várias surpresas, agradáveis e desagradáveis, mas nenhuma supera a experiência que tivemos naquele planetinha tropical e sem nome da Galáxia do Olho Negro — lugar desagradável, com muito tumulto por causa de uma guerra milenar entre três raças.

Quando paramos perto de sua atmosfera, notamos que se tratava de um planeta com civilização de Nível 3 — na escala liriana. Numa rápida busca usando a IA da Pulsen, encontramos bases em suas luas, estações espaciais em pontos estratégicos, satélites e afins. Porém, nenhum sinal de vida.

— Estranho… — sussurrou Tulen, analisando os painéis. — Olhe, Orbis, há uma forte interferência no tempo aqui na região, algo bem forte, e está no planeta.

— É mesmo? — inclinei-me para enxergar melhor.

— Sabe qual é o pior? Já estamos no seu raio de alcance, mas não estamos sendo afetados.

Não precisei falar nada. Comunico-me muito bem pelos olhos!

Ele suspirou, deixou o comando comigo e entramos na atmosfera logo acima da perturbação. Foi um susto, inicialmente. O epicentro daquela distorção estava tomado por uma esfera negra. Era denso. E poderoso. Não trocamos uma palavra, não precisava, era óbvio: aquilo estava causando uma anormalidade na região.

Vibrei.

Decidimos pousar, um pouco longe, mas o suficiente para ver a massa escura cobrir parte do horizonte. Estava pensando numa coisa, mas não havia dito nada, algo que se confirmou assim que dei os primeiros passos fora de Pulsen.

Vida em todos os cantos. Pessoas correndo da possível explosão, objetos parados em pleno ar.

— A perturbação é extremamente forte aqui — disse Tulen, por fim. — O tempo está literalmente congelado.

Uma estranheza, com certo encantamento, dominou-me por completo. Algumas anormalidades de natureza semelhante aconteciam aqui e acolá, mas nunca, nunca mesmo, havia visto, ou até ouvido falar, de algo daquele tipo.

O tempo estava sendo seletivo, digamos!

Passeamos pela região, mas, devido à anormalidade, creio, começamos a sentir forte tontura. Não era um bom sinal. Decidimos retornar para Pulsen, registrando o achado e repassando para a AEI (Associação dos Exploradores Intergalácticos) — essa descoberta rendeu uma boa grana, adoro!

Mas, aqui, deixa eu registrar uma cena que mexeu muito comigo: um casal corria ao encontro. Ele, de jaleco branco, um humanóide comum, de olhos marejados e amendoados. Ela, de vestido amarelo, também humana, segurando as bordas da saia, de olhar fixo no seu amado. Esse amor, essa tristeza, esse momento estará registrado por um bom tempo, talvez até o fim do Universo.

Tulen? Bem, achou exagero da minha parte. Para ele, eram desconhecidos correndo em direções opostas. Ai, ai, insensível, como sempre. E mesmo se estiver certo, qual o problema de romantizar um pouco, né?

 

ATÉ OS DEUSES SENTEM SAUDADES

E lá estava eu, na Via Láctea, sozinha num planeta com vida em sua fase inicial — flora rasteira, fauna microbiana —, descansando um pouco. Depois de um conflito com alguns piratas espaciais, Tulen precisou levar Pulsen à estação mais próxima. Coitada, nossa adorável nave ficou toda destruída. Grandes reparos, grandes custos… Era arriscado demais, segundo ele, então fiquei para trás enquanto se arriscava. Meu herói, literalmente.

Sentadinha no pé do morro, “aproveitando” aquele clima ameno — meu traje tem reprodutor de ambientes externos, mas esse sistema nunca é 100% fiel —, escutei uma sucessão de sons altos, mui parecido com pisadas, ecoando pelo vale que descansava.

Isso era impossível. Racionalmente, claro. A atmosfera era tão rarefeita, tão nova, que euzinha, Orbis, não conseguia respirar sem auxílio. O que dizer então de um ser vivo de grandes proporções?

Agachada e com cuidado, subi o monte e observei a planície adiante. E lá estava uma das coisas mais extraordinárias que presenciei na vida. Uma criatura, de tal magnitude, tal grandeza, que é difícil expressar em palavras.

Do tamanho de uma montanha, de pele dourada, que reluzia intensamente com a luz da pequena estrela, sem cabelos e roupas, humanóide, sentada em posição fetal. Olhava o céu, com olhos puramente alvos, e tinha uma aura carregada de pesar. 

— Você deve achar que sou boba, pequena criatura… — sua voz era calma e parecia penetrar minha alma, senti uma intensa saudade de algo que nunca tive. — Mas não se engane: todos os seres vivos sofrem com os mesmos infortúnios.

E, num piscar de olhos, aquele ser estupendo sumiu. Fiquei agachada, perdida em pensamentos e, admito, confusa. Aquela presença… Parecia um deus. Tulen está rindo, ele sempre ri, não acredita nessa história, acha que estava alucinando depois de toda aquela confusão no espaço, mas é tudo verdade.

Sempre acreditei que vemos apenas uma pequena parcela da realidade. E as anormalidades estão, aos poucos, mostrando que não temos a menor ideia de qual é a ordem natural do Universo.

Bem, pode ser que tudo seja apenas caótico mesmo!

 

O PORTAL NO ASTERÓIDE E O TETO D’ÁGUA

O número de galáxias é igual ao número de estrelas: incontável. Mas, mesmo assim, tentamos!

Estávamos numa galáxia sem nome. Era nova, literalmente sem vida. Nenhum planeta na fase inicial. Catalogamos, em geral, a partir dos sistemas até seu centro, e a registramos na AEI.

Galáxia OT-78978.

Sim, já “descobrimos” mais de 50 mil aglomerações estelares. A vida de uma exploradora não é fácil! Trabalho, trabalho, trabalho!

Estávamos na Pulsen, sentados, juntinhos, na poltrona que dá visão para a vitrine lateral. Ótimo lugar para observar o espaço e tudo mais. Foi então que, não muito longe, um asteróide seguia a mesma direção que nossa nave. Puxei minha luneta e observei-a. E acredite: tinha uma porta em sua superfície.

— Tulen… Olha isso…

Meu amorzinho, crédulo como era, e ainda é, ficou boquiaberto, sem palavras.

— Vamos lá?

Começaram as desculpas. “Pode ser uma armadilha de piratas…”, disse pensativo; “Ah, mas é claro, até porque cargueiros entram em galáxias desconhecidas e ficam tomando conta de asteróides!”, ironizei; “Pode ser apenas uma ilusão, uma confusão nossa”, tentou uma hora; “Então podemos chegar mais perto, oras, e verificar”, determinei; e assim por diante, até, obviamente, ceder. Tulen não admite, fica com medo de parecer fraco, mas também adora quando isso acontece. Seus olhos brilham!

Aproximamo-nos, vestimos nossos trajes espaciais e, a partir de um deck retrátil, saltamos no asteróide. Precavidos como sempre, rodamos nosso sistema de riscos — uma IA que analisa os arredores, níveis de radiação e afins, aplicando, também, termos de probabilidade. Livre. Troquei um breve olhar com Tulen, sorri e tomei a iniciativa.

Abri a porta.

Do outro lado do portal, que foi belamente talhado com detalhes em flores, tinha um ambiente claro e azulado. Chegando ainda mais perto, percebi que havia uma película que separava os dois lados. Sem consultar Tulen, arrisquei tocá-la. Escutei o resmungo dele — segurei o riso —, mas nada aconteceu, aparentemente. Tomei outro risco: atravessei meu braço inteiro. E, antes que pudesse pensar, ou alguém impedir, entrei com tudo naquele outro mundo.

Sabe a gravidade? Comportava-se de forma bem estranha. Flutuava, como se estivesse no vácuo, mas sentia um leve empuxo para cima, então tinha que ficar “nadando” para baixo constantemente. O lugar era lindo. Parecia, inclusive, com o planeta Amarine, de Andrômeda, todo baseado na vida aquática que se adaptou à vida terrestre. Corais como árvores, águas-vivas voando pelo ambiente, um caranguejo de dois metros quieto entre duas grandes rochas.

Fiquei intrigada com uma coisa. Sabe quando mergulhamos com uma nave no fundo do oceano e a luz da estrela força sua entrada pelas janelas? O reflexo da água aparece nas paredes, ondulante, de forma calma e bela. Eu amo isso. Então, ali, naquele ambiente, todo o chão estava coberto por esse revérbero.

Meu capacete não era muito bom. Não conseguia olhar pra cima com precisão. Obviamente, aproveitei-me das circunstâncias que me encontrava: deitei. O mar estava no céu. Isso mesmo. Água, para todos os lados, de uma ponta para outra. No fundo, bem no fundo, parecia ter uma cidade por lá. Estruturas gigantes de aço. Virei-me para a porta. Tulen ainda estava do outro lado, falando algo, mas não escutava nada. Sorri para ele. Estava tão inebriada com aquilo tudo que não notei a urgência em seu olhar. Ou aquelas criaturas, seres anfíbios e humanóides, correndo na minha direção. Meu amorzinho, em mais um de seus atos heróicos, atravessou o portal — “tropeçou” levemente no ar —, agarrou-me e puxou com tudo. 

Fiquei confusa, na hora, mas confio plenamente nele. Se estava fazendo isso, então, precisa colaborar e fugir, com elegância, claro. Numa rodadinha com classe, voltei ao asteróide e acionei o jato do traje.

Ah, já falei um pouco sobre nossa nave, Pulsen, mas não mencionei que sua IA é de alta performance e está conectada com minha mente. Bastava pensar e “poof”, desejo atendido! O sistema de emergência foi acionado e rapidamente tínhamos armas apontadas para o charmoso portal. Entramos e observamos. Abriram, deram uma olhadela, falaram algo entre si e fecharam. Num instante, a porta desapareceu por completo, evaporando-se.

Até hoje, essa é uma das anormalidades mais impactantes que me deparei. Não pelo perigo aparente, isso é normal, mesmo não gostando — minha natureza pacífica não permite que goste —, mas pelo comportamento da água. A forma como a gravidade agia denunciou uma coisa: que as leis da natureza eram diferentes naquele lugar! Outra dimensão! Temos teorias, mas nenhuma comprovação exata. Estaria fazendo história… Bem, a porta sumiu, o asteróide se chocou com outro e virou milhares de meteoritos — colocamos um rastreador nele para monitorá-lo.

Passarei o resto da vida sem respostas. Normal, né?

 

AGRADECIMENTOS

Então, querido leitor-espectador, o que acha da minha odisseia? Linda? Perturbadora? Fantástica?

Acho que já sei a resposta… Mas prefiro guardá-la aqui, no peito, pois, afinal, é o coração que realmente sabe das coisas, não concorda?

Tenho muitas aventuras para contar, mas não acho justo revelá-las assim! Se algum dia, porventura, esbarrar numa nave encantadora ou encontrar a personificação da beleza — eu, claro —, não hesite: viaje mais uma vez conosco! 

Olho no olho, conexão direta, nada melhor do que isso, né?

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.