EntreContos

Detox Literário.

Escravidão Moderna (Susano Calvin)

 

1-

Finn queria acreditar que era uma pegadinha, uma piada de mal gosto feita pelos seus irmãos. Seu pai não era capaz de tanta maldade.

Depois de um tempo, se tornou desnecessário espernear e gritar na maca de hospital, a qual estava lustrada e bem cuidada, como se não fosse um instrumento de tortura da tecnologia moderna. Suas mãos e pés estavam amarrados, mas sua boca estava livre para protestar. Logo, seus pulsos se machucaram e sua garganta começou a doer, suas bochechas estavam úmidas do banho de lágrimas.

Quando o desespero terminou, o garoto deitado esforçou a visão para baixo, tentando olhar para uma das paredes cuja extensão era encoberta por uma janela. Do outro lado, seus dois irmãos cochichavam com um homem elegante de jaleco branco, cabelos brilhantes e penteados, óculos que não paravam no lugar.

Daniel tinha um sorriso maldoso na face, fora ele quem dedurou os segredos de Finn. Robb estava sério, imitando as atitudes do pai e sempre se esforçando para ser o filho perfeito.

Finn olhou em volta, o local era menos parecido com um consultório médico e mais parecido com uma oficina robótica, fios e cabos por todos os lados, afinal, após alguns milênios da evolução da anatomia, ela se aproximou cada vez mais da robótica, até que elas se uniram em apenas uma ciência.

A porta se abriu, o doutor Ulisses entrou investigando alguns relatórios, passando a língua na ponta dos dedos e folheando os papéis como se tudo fosse uma rotina.

— Eu juro que não vou mais fazer… jurou pela minha vida… eu…

— O que você fez foi muito errado, senhor Lee, não compreende a gravidade da situação?

— Eu compreendo. — Tentou se acalmar, controlando a respiração e procurando achar uma resposta para aquilo, era isso que ensinavam na academia: entender, raciocinar e concluir. — Se você me der outra chance, prometo que vou me comportar.

— Não gostamos de promessas, você sabe disso — Ulisses olhou nos olhos do paciente, escaneando como se fosse um espécime ordinário. — Seus irmãos me disseram que você está com esse comportamento a alguns meses, você nega isso?

— Não, eu não nego.

— Como posso acreditar que vai mudar de repente então?

Finn olhou para o teto, procurando uma resposta, mas não encontrou nada, então sucumbiu ao desespero novamente, as lágrimas quebraram da represa de seus olhos antes mesmo de sua expressão demonstrar sua tristeza e raiva. Doutor Ulisses começou a rodear a maca, clicando em alguns botões e digitando algo em alguns teclados.

— É claro que não posso simplesmente te transformar em ferro, Finn, vejo que as suas notas são impecáveis, seria uma pena robotizar um ótimo estudante como você.

Aquela palavra, “robotizar”, ecoou pela mente de Finn, lembrando-lhe todos os horrores que via quando algum vizinho se comportava mal, quando algum conhecido decidia agir diferente do que o esperado, quando alguém decidia demonstrar alguma emoção. Seu coração começou a bater mais rápido, tinha que sair dali o mais rápido possível.

— Eu… faço o que você quiser.

— Você tem que responder todas as perguntas sinceramente, eu vou saber se você estiver mentindo. — O doutor deu dois toques no monitor, onde um batimento cardíaco caminhava em uma interface esverdeada.

— Sim, senhor.

  Ulisses puxou uma cadeira e sentou ao lado da maca, quase de forma invasiva no espaço de Finn, que não podia recuar, era obrigado a sentir sua presença. Seu hálito era mascarado por menta, mais com uma analise mais cuidadosa era possível identificar uma podridão se esforçando para escapar. O doutor não piscava, pelo menos Finn não percebeu a movimentação nenhuma vez desde que ele entrou no consultório, seus olhos pareciam que iam pular de sua órbita para ganhar liberdade a qualquer momento, e suas rugas podiam ser mapeadas e transformadas em um estudo geográfico.

— Vamos começar então… lembre-se que eu apenas quero o melhor para você e para todos — acariciou a mão de Finn, cujo nervosismo poderia se transformar em vômito a qualquer segundo. — Quantas vezes você se reuniu com os estudantes nos últimos seis meses?

— Vinte e quatro vezes.

— Garotos e garotas?

— Sim — gaguejou. O doutor levou os olhos lentamente até a tela do computador, que confirmava a veracidade da resposta, e retornou o olhar até seus papéis em seu colo.

— Durante essas reuniões, você ficava sozinho com os estudantes?

Finn engoliu em seco.

— Algumas vezes sim.

Os olhos retornaram a encarar o garoto, e então o paciente percebeu, eram próteses perfeitas, não precisavam ser umidificadas toda hora.

— O que vocês faziam quando estavam sozinhos?

— Estudávamos — era verdade, mas não a completa verdade.

— Vocês faziam outras coisas?

Finn ficou em silêncio, não queria falar, não queria ser transformado em máquina. O doutor notou a pausa e se virou, apanhando uma seringa fina e ameaçadora, seus lábios se transformaram em um sorriso. Aquilo era um prazer para ele, praticar sua tão perfeita ciência, a ciência da antipatia, os métodos que justificam os meios pelo fim.

— Espere… não… nós fazíamos outras coisas.

— O que vocês faziam? — O queixo do doutor era bifurcado e pontudo, como se toda a sua face fosse uma caricatura de um filme de horror.

— Nós brincamos… — Finn se esforçou para falar. — Jogamos futebol, xadrez, e… nós nos beijamos algumas vezes… eu estava apaixonado — as palavras saíram junto com a fúria do doutor, que agarrou seu braço com força e perfurou a seringa em seu pulso com violência, o paciente berrou de dor e começou a convulsionar quase que imediatamente.

A sala vazia do consultório se tornou um recipiente para o desespero não só do paciente, mas do doutor também.

— Você tem alguma ideia do que fez? Suas brincadeirinhas e idiotices podiam ter comprometido toda a missão, o que você vai fazer quando a nossa casa virar poeira, quando o nosso planeta se transformar em MERDA, vai brincar de xadrez? Vai beijar as menininhas? Devia estar trabalhando, porra! Devia estar resolvendo nossos problemas, sua mãe está morrendo carbonizada na Terra, e você está aqui, no espaço, com ar condicionado e brincando de casinha! VOCÊ É UMA ESCÓRIA! Minha filha está morrendo queimada em casa, não tenho mais tempo! Não vou deixar um adolescente de bosta estragar toda a missão por causa de luxuria, você vai fazer um trabalho melhor quando eu transformar você na minha geladeira.

Naquele momento, as ofensas eram completamente de graça, Finn já tinha acabado de convulsionar e a saliva saia de sua boca em montes, sua consciência agora flutuava perto da luz, e se existisse uma morte, se existisse aquilo que a ciência fazia piadas e negligenciava, então o garoto ia conhecer ela em breve.

 

2-

— Recolhe o lixo e depois limpa a pia, vai no mercado e compra a lista que eu enviei para você, quero tudo pronto aqui em casa antes das três — o doutor Ulisses disse, e apesar de Finn querer andar para uma direção, ele andou para a outra.

Dava passos longos e suas pernas eram rígidas, seu cabelo não existia mais, parte de seu cérebro era uma placa mãe e seu coração foi aprimorado com anéis de pressão para que o liquido bombeasse mais rápido. Sua boca foi costurada e por cima dela uma placa de ferro foi soldada para que não incomodasse os tripulantes. Um olho era uma prótese, o outro ainda era orgânico.

Fez os seus trabalhos como ordenado, colocou o lixo dentro de uma cápsula e a projetou espaço afora. Limpou a pia com uma bucha antiga e um detergente vermelho, raspando cada talher por um minuto, cada copo por dois, e cada prato por cinco, sem retirar os olhos da água enxaguando a louça.

Depois foi até o mercado, andando lentamente pelos corredores metálicos da nave, olhando para cientistas discutindo e correndo pelo lugar, canos transportando fluidos e janelas mostrando o vazio existencial do universo. Passou por outros androides, trocando olhares de desespero, impedidos de se comunicar, uma escravidão metálica acordou quando a humanidade foi colocada à beira da extinção.

Finn comprou tudo de acordo com a lista, e então retornou para a casa do doutor segurando tudo com seu novo corpo. Quando entregou tudo, ficou a postos, parado como deveria fazer se não tivesse nenhuma ordem. 

Finn teve sorte, seu hipocampo foi conservado durante a robotização, as memórias ainda podiam ser meramente acessadas.

Lembrou-se de sua mãe, de seu pai, de seus irmãos. Lembrou-se de fazer cálculos repetidos, de trabalhar na academia. A imagem de uma garota surgiu em sua mente, uma matemática que já conquistara secretamente o coração de Finn, uma época em que o órgão do garoto era completamente orgânico e não alterado, não sabia se ia conseguir amar novamente. As memórias eram sobre suas aventuras na nave, se esgueirando durante a noite artificial, agindo contra as regras, a rebeldia era um tempero a mais para o amor adolescente.

Finn não expressou nenhuma emoção quando a mesma garota de suas memória entrou na casa do doutor Ulisses, não ficou surpreso quando descobriu que o antigo amor de sua vida era a filha de sua perdição. Não podia mais sentir surpresa.

— Boa tarde, pai.

— Boa tarde, Diana, me passa o seu relatório. — Disse o doutor, debruçado em uma mesa e digitando rapidamente em um dos múltiplos computadores da casa.

— Trezentos cálculos, dois planetas, um possível para habitação.

— Qual o progresso para a análise do planeta?

— Cinquenta e três por cento — quando Diana fez uma reverência por respeito, colocou os olhos em Finn pela primeira vez, o androide escravo estava encostado em uma das paredes, encarando um grão de poeira como um bom instrumento faz. Ela não expressou nenhuma emoção, apesar de não estar robotizada, ainda sabia controlar seus sentimentos.

Ulisses notou o olhar.

— Esse é o novo androide Finn, vai ficar com a gente por um tempo… ei você, vá arrumar o quarto da minha filha, ligue os computadores e arrume os formulários.

Ordenou, e Finn obedeceu, subindo um lance de escadas e tratando de arrumar um lugar já conhecido. Lembrou-se das vezes que se esgueirou para aquele lugar e se encontrou com Diana, se amando e se descobrindo. 

Foram bons dias, de certa forma, o androide estava feliz por não ter que acompanhar o fim da humanidade com sentimentos.

Quando terminou de arrumar a cama e depositou todos os papéis de forma ordenada e enfileirada, a garota entrou no quarto e fechou a porta atrás dela, seus olhos agora demonstravam algum tipo de emoção, uma dupla de lágrimas tentaram despencar mas Diana parou sua queda com os dedos. Seus cabelos estavam presos, suas roupas eram sempre as mesmas de acordo com as regras.

— Oh… Finn, eu não acredito, me perdoa… me perdoa, eu não pude fazer nada.

Correu até o androide e o abraçou, Finn conseguiu sentir o cheiro dela, de seus cabelos e de seu pescoço, ainda havia um pequeno buraco embaixo do ferro onde uma vez foi seu nariz, através dele, conseguiu reviver uma faísca de sua humanidade.

— Vai ficar tudo bem, vou manter você junto de mim, quando tudo terminar, vou arrumar um jeito de te consertar, eu prometo.

Não se separou por um minuto, esforçando-se para sentir tudo o que podia, ainda existia algum tipo de calor humano embaixo daquela crisálida moderna.

— Não aguento mais calcular, não aguento mais sentar todos os dias no mesmo lugar e escrever, meus dedos estão doendo, sinto falta de você Finn, nossas noites foram tão incríveis… na verdade, eu te invejo, eu queria não sentir, eu queria não ver mais números, estou cansada de solucionar tudo o que vejo…

Se olharam uma ultima vez antes de retornar a sua rotina de números. As retinas que uma vez foram humanas encararam as retinas que estava prestes a ser extinta, e juntos reconheceram seus possíveis destinos. De alguma forma, Finn conseguiu criar um arquivo em sua memória, uma pasta onde tentaria armazenar todo o resquício humano que sobrara de sua mente.

 

3-

Quando o segundo lar dos humanos foi finalmente encontrado, a humanidade estava salva. O novo planeta era tão rico quanto o outro, anos-luz de distância e uma nova chance para a espécie.

  Os androides no entanto, foram esquecidos, jogados em um ferro velho, onde iriam viver o resto de sua existência paralisados e esperando a ordem de seus donos que já tinham morrido de velhice.

Pelo menos o local em que Finn foi depositado não era tão ruim. Estava encostado na carcaça de um carro enferrujado, olhando para uma floresta colorida do novo mundo, um riacho serpenteava pelas árvores e mostravam a pureza do lar dos humanos. 

Poderia terminar sua existência com aquela paisagem e as memórias que lhe restavam, mas a vida não tinha terminado com ele.

Uma pessoa sentou ao seu lado, uma mulher que tinha feito uma promessa a ele, um amor antigo mas não facilmente esquecido.

— Olá Finn, eu… não esqueci de você. — Os sistemas do androide estavam fracos o suficiente para que Finn conseguisse olhar voluntariamente para Diana, a costura de sua boca já estava frouxa e sua boca podia ser aberta se quisesse. Contudo, tinha esquecido de como pronunciar palavras, ao invés de responder, soltou um tormento longo e triste, um guincho constante que não significava absolutamente nada.

Diana abaixou os olhos e não chorou, já estava cansada de chorar, aquele era o novo mundo, o paraíso, mas os fins ainda não justificavam os meios.

— Nós não merecemos isso, esse planeta foi conquistado em sangue, não consigo dormir pensando no que foi feito para chegar até aqui, não posso justificar a ciência com o que aconteceu com você, Finn.

O androide soltou outro gemido.

— Você devia estar aproveitando ao meu lado, por isso fiz esse presente para você. — Diana retirou um pequeno chip do bolso, o curioso artefato que iria retornar a consciência ao garoto.

Em algum lugar de sua mente catatônica, tinha esperado por isso. Quando a garota encaixou o dispositivo em uma abertura no seu crânio, Finn conseguiu andar, conseguiu reagir, não sentir de fato, mas pelo menos era uma simulação convincente. Conseguiu chorar o mínimo de lágrimas que existiam. Sentiu fome, sede, olhou para a garota e se sentiu apaixonado. Olhou em volta, e não esqueceu de seu povo. Aquele lixão, todas aqueles corpos, o sangue derramado, tudo aquilo iria conquistar sua justiça, aquele planeta perfeito não pertencia aos corruptos humanos. Finn não ia deixar outro paraíso se perder nas chamas, iria se levantar e tomar tudo, pela força que seja, deveriam ter morrido no espaço, aquele mundo agora pertencia aos escravos modernos.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.