EntreContos

Detox Literário.

A Minha Vida que Não Existiu (Leandro Gouveia Barcelos Tavares)

 

Caminhava de volta para casa, era um dia de sábado, como outro qualquer. Ao menos isso é o que eu imaginava. Carregava algumas sacolas de compras, três ou quatro se não me engano. Estava terrivelmente frio naquele dia e para piorar ventava bastante. Especialmente naquela época me sentia diferente, talvez por ainda não saber com o que estava lidando. Tudo parecia complicado demais, logo comigo, eu que sempre me enxerguei tão feliz.

 

Havia ido comprar algumas coisinhas para casa no centro da cidade, não apenas porque lá seria mais barato, mas principalmente porque precisava espairecer. Andar atoa, fugir um pouco de casa e escapar de minha vida perfeita. É impressionante como nos perdemos dentro de nós mesmos e de nossas próprias fantasias, seguindo desejos, perdendo-os e procurando cada vez mais por eles. Às vezes o destino nos proporciona encontros com nossos desejos, para quem sabe nos dar a oportunidade de vive-los.

Sempre fui uma pessoa discreta e também fiel. Nunca cheguei a trair, não que não tivesse tido oportunidades, mas havia amor em nosso relacionamento e ainda há. O problema é que também existe tanta coisa além do amor. A verdade é que eu não entendia de fato o que me faltava, não até aquele dia, quando num inesperado e repentino golpe, na volta para casa vivenciei uma sensação que me libertaria ou que me aprisionaria para sempre. 

A caminhada era longa, e eu fui mais longe do que havia planejado. Não sei como ele me reconheceu, pois não lembrava de tê-lo visto antes. Me recordo de quase tudo daquele dia. Foi bem assim, ele parou, abaixou o vidro e me ofereceu uma carona, uma simples e comum carona.

– Vai pro Bairro das Laranjeiras, não é mesmo?

– Sim – Era clara a surpresa em minha voz.

– Desculpe, é que eu te vi por lá algumas vezes, quando estava correndo – Ah, claro. Ele estava correndo, óbvio. Se havia uma coisa que eu não faria era correr. Sempre gostei de caminhar, ler um bom livro, ouvir música, mas correr e malhar não era comigo. Gostava de esportes, como peteca, assistir futebol era até legal com a família, não que eu me importasse com um bando de homens correndo atrás de uma bola, dando carrinhos, ganhando milhões. Eu gostava da companhia, de companhia. Ter uma família é muito bom.

– Ah, sim. Sou de lá.

– As sacolas devem estar pesadas, entra aí. 

Aceitei. Não sei porquê, mas pela primeira vez reparei em outro homem. Ele tinha cabelos lisos, uma barba rasa, olhos castanhos escuros, em torno de um metro e oitenta de altura, um corpo atlético e um bom papo. Mais que isso, havia algo nele.

– Você mora onde?

– Moro na rua B, perto do Sacolão Bom Preço – Respondi.

– Ah, sim. Aquele sacolão de uma Dona meio brava?

– Meio? É a Dona Diná, ela fala alto mesmo, mas é o jeito dela – Ele tinha uma voz forte, rouca, era jovem, trinta anos de idade, talvez, mas não mais que isso. As mãos dele eram bonitas, aparentemente sensíveis, mesmo sendo grandes, não pareciam mãos masculinas. Por que eu estava olhando aquilo?

– Sou novo por aqui, me chamo Guilherme.

– Sou Ariel. Moro aqui toda minha vida. Hoje moro com a família, filhos, sabe como é.

– Entendo.

– Você veio por trabalho?

– Sim. Sou de São Paulo, capital mesmo, é que foi aberta uma filial aqui e fui escalado para treinar os novos funcionários. Achei interessante a proposta. Venho de um relacionamento, digamos, difícil, sabe – Senti um tropeço na voz dele, quase um embargo. Dava para perceber pelo tom da fala que realmente havia sido algo muito sério. Os olhos dele brilhavam de um jeito tão… – Coisas do amor.

– Precisava de novos ares então? 

– Sim, e a cidade me pareceu interessante. 

Ele tinha algo intrigante no olhar. Era estranho para mim, afinal nunca havia experimentado aquele sentimento, não daquele jeito, algo tão peculiar, tão ligeiro e com tanta intensidade, beirando uma rebeldia. À medida que os lábios dele se moviam eu precisava desviar o olhar, me conter para não ficar encarando-o. E ele tinha um cheiro amadeirado, suave e ao mesmo tempo forte. Me deu vontade de perguntar que perfume era aquele, mas seria ridículo se eu fizesse isso.

– Quanto tempo de casamento já?

– Vinte anos – Como o tempo passa rápido. Comecei a namorar ainda no colegial e agora eu tinha três filhos, Hugo de 19 anos, Karina de 17 e Cássio que completaria 13 no próximo mês. A minha vida financeira não era das melhores, mas era estável, possuía casa própria, num bairro bom e tinha um bom emprego. Nós dois éramos bem empregados e nossos filhos teriam um futuro bom. Eu sempre prezei por isso.

A vida nos prega cada peça. Todos os três filhos bem encaminhados, indo bem na escola. O Hugo estava curtindo seu primeiro emprego de jovem aprendiz, enquanto cursava Engenharia Elétrica. Karina se formando no ensino médio, e Cássio era incrivelmente talentoso. Ele tocava violão tão bem naquela época, não entendo porque ele parou depois de um tempo. Nós éramos uma família aparentemente perfeita. Eu sempre amei meus filhos mais que tudo, desde o primeiro suspiro de Hugo, na verdade desde que eu soube que iria ter um filho, e então eram dois e depois o terceiro. Era para ser tudo tão completo.  O sexo era bom também, assim como o diálogo, mas talvez, nós, o casal, fossemos mais amigos do que pensávamos, ao menos eu tinha esse sentimento. Não, não era só isso. Não podia mais me enganar.

Não pensei que uma carona fosse parecer tão longa, não durou mais que quinze minutos, porém aquele pequeno espaço de tempo estava carregado de uma intensidade surreal. Algo dentro de mim, alguns pontos de interrogação, a forma como eu vinha me comportando comigo há certo tempo. Como meu sofrimento me atingia cada vez mais e mais. Seria isso? 

 

– Pode me passar seu telefone? – O quê? “Droga, por que ele tinha que ter me pedido isso?” “Tão repentinamente?” “Quem ele pensa que sou?” “O que ele está pensando de mim?” Isso tudo que eu estava sentindo era louco demais. Não consegui absorver aquela pergunta num único instante, era como se ela ecoasse nos meus ouvidos.

Já estávamos na rua da minha casa. O som do motor, a música quase silenciosa que tocava ao fundo, vindo de um pen drive, acho que era algum clássico internacional dos anos 90, não sei, mas era suave, era explosivo. E aquela pergunta? O silêncio não durou mais que trinta segundos, eu realmente havia ficado sem palavras. Poderia ter simplesmente pedido ele para parar o carro, ter mandado ele se ferrar, dizer que ele havia me ofendido, mas que droga, eu não queria fazer aquilo. 

– Não quis te constranger – Ele parecia ser sincero.

– Tudo bem, só achei estranho – Tentei disfarçar, mas o disfarce era de fato estúpido demais. Como poderia estar dando tanta bandeira, pior que isso, como eu poderia estar demonstrando algo e ele tão facilmente percebendo aquilo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Não, na verdade eu sabia sim. Eu só não queria acreditar naquilo, ou queria? Era tão confuso.

– Posso ter entendido errado, me desculpe.

Merda! Tive vontade de dizer naquele momento que não, que eu não teria a coragem necessária para passar o número, para me entregar de vez àquele súbito desejo. Nunca havia sentido algo assim, mas naquela época tanto coisa acontecendo e eu estava sentindo aquilo por ele, um completo estranho. Isso não era certo. Mas afinal, o que é certo?

– Tenho três filhos – Minha voz saiu espremida dentre os dentes, por algum motivo minhas mãos estavam ligeiramente tremulas e suavam um pouco. Minha boca estava seca, contraí meus lábios e os molhei com a língua, dei uma leve mordida neles. Não sei se ele percebeu, foi tão involuntário. Ele deve ter percebido. Era como se ele estivesse me vendo o tempo todo, mesmo quando olhava fixamente para frente. Sei que me sentia mal por estar daquele jeito, mas também havia uma sensação de liberdade e certo entorpecimento.

– Entendo. Família é tudo – Ele deu uma pequena pausa, soltou a mão direita do volante, ela foi na minha direção, tão rápida e tão lenta. Me encolhi naquele instante, engoli seco. Mil coisas passaram por minha cabeça, experimentei aquele toque antes mesmo dele acontecer, as mãos, os dedos, a pele e então… Não aconteceu. Ele segurou firmemente o câmbio, pisou na embreagem e reduziu a marcha. “O que está acontecendo comigo, droga?” – Mas não deveria ser assim. Sua felicidade deve ser mais importante, pense nisso.

Eu pensava. Mais que isso, naquele momento eu estava pensando em como ele havia percebido. Olhei nos olhos dele uma última vez, ele me olhou de volta. Pensei em dizer algo mais, afinal nem disfarçar eu conseguia mesmo. “E se eu desse meu número para ele agora” refleti. Claro que não teria coragem e quando me dei conta vi que meus filhos estavam sentados na calçada, frente ao portão da minha casa, alguns metros adiante, conversando com amigos.

– É ali – Uma dose de tensão e talvez até de alívio foi injetada diretamente em minhas veias.

Ele parou o carro logo em seguida, colocou em ponto morto e me encarou uma última vez. Nos despedimos com um aperto de mãos, quente e forte, que durou eternos cinco segundos, eu acho.

– Foi um prazer – Ele disse, enquanto sorriu de um jeito cavaleiro e ao mesmo tempo malicioso.

– Obrigado pela carona – Agradeci e logo após sair do carro o portão de casa se abriu e Elisa veio ao meu encontro, linda, vestindo uma calça jeans apertada, uma blusa cor de pele e usando uma rasteirinha rosê. Ela me recebeu com um beijo curto e doce que terminou quando vi a silhueta do carro indo embora. 

– Quem era? – Indagou, enquanto me abraçava.

– Apenas um estranho. Vamos entrar, meu amor. Está frio aqui fora – Virei para meus filhos – E vocês, hein, vão ficar aí parados? 

Entramos, eu e minha amada família. A verdade é que nunca mais o vi e que também nunca mais fui tão eu mesmo como fui naquele pequeno espaço de tempo daquele sábado frio.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.