EntreContos

Detox Literário.

2033 (Alex Murphy)

 

What do you mean, “I don’t believe in God”?
I talk to him everyday.

— Megadeth

“Peace Sells”

 

1

Era a terceira vez que dormia com a secretária naquela semana.

Viu a mulher deslizar como uma massa de bolo preenchendo o tabuleiro. Estava quente, exalando seus odores de fêmea satisfeita. Deitou-se sobre seu peito e cobriu suas pernas com a coxa nua. Ele, por sua vez, esticou uma das mãos até o chão e pegou o Juul transparente e sem adornos. Isso não é cereja, é o pensamento que sempre tem. A fumaça subiu devagar, prejudicando algumas projeções; principalmente as do teto. Lá, vencendo a gravidade, duas mulheres contorciam suas formas como enguias que se eletrocutam nos lugares certos.

— Desliga isso — pediu o homem.

Isabela estalou firme os dedos da mão direita, erguendo o braço num movimento comum, abanado. O painel translúcido ganhou detalhes e formas na altura do seu pulso. Nele, uma grande lista mostrava celebridades de quinze décadas diferentes, perfis e combinações possíveis. Poderiam ver, por exemplo, Presley e Monroe mostrarem a razão de pelos e curvas ainda terem o seu valor.

— Manhã — disse Isabela para o azul frio que circundava sua pele.

A claridade rosa e quente logo se dissipou junto com as orgias, como uma prostituta que conta a segunda parte do seu ganho dissipa um apaixonado qualquer que tem vergonha da própria bunda. O quarto parecia muito menor agora. Na porta do guarda-roupas projetavam-se torres de concreto sob um céu cinza; isto, e uma brisa suave de tubulação, substituíam as janelas. 

— Preciso ir — Pedro afastou a mão insinuosa da mulher. — Pede um carro enquanto eu tomo banho.

— Pra onde? 

— Casa.

Bufando, como mandava sua natureza, seu meneio típico de sedutora imatura, a mulher repetiu o mesmo movimento de antes, mudando a ordem: Uber

— Você teria um filho comigo? — perguntou o homem antes de sumir pela porta. 

— Que pergunta é essa, Pedro? — ela quase sorriu, orgulhosa da sua fertilidade escancarada naquele mero outro, mero mais um; depois truncou as feições do rosto, fingindo alguma espécie louca de humilhação machista.

— Esquece, conversamos outra hora.

 

2

Helena sentiu seu cheiro agre, e pareceu ofender-se com isso.

Não tinha coragem de revelar para si mesma o desperdício. Achava-se um vinho caro, delicado e doce. Aquele vinagre era um engano. Uma ansiedade do mundo, não dela. Quando saiu do chuveiro, sentindo a virilha reclamar de toda a frieza dos últimos toques, imaginou-se como uma uva. Queria ser amassada com pouca higiene dentro de um balde rústico de madeira, até que a fermentação começasse a subir-lhe as bochechas do rosto bonito. Depois seria destilada com cuidado; um jantar na cama, talvez. Ou uma massagem demorada nos pés, nas costas, nas vergonhas caso não houvesse desabrochado todas as vezes que uma mulher da sua idade precisa quando está estressada. Cabia a Pedro cumprir, dentre outras, suas tarefas de vinhateiro. Ela o permitia ali por conta disso. É mulher. Seu sinal é quase estático, um pole dance. Ele é quem deve se deslocar, usar dela que faz de refém o mundo inteiro. 

— Anda, não achei que fosse esperar tanto.

Foi o que ele ouviu quanto abriu a porta do quarto. Sua esposa estava nua em cima da cama, coçando seus abismos com a loucura dos dias modernos. Sem ternura, sem metafísica. Apenas função. Existe certa beleza na maestria com que buscava seus resultados, é verdade, mas ele não queria uma barregã, não mais. Seu peito ansiava por uma Ponoma, pelo que vinha depois. Depois de sanadas as curiosidades, as posições, as formas, os produtos discretos com entrega relâmpago; as sutilezas de um pé, uma orelha, de uma axila descoberta depois de esgotados os passeios das bocas e dos narizes. 

— Que foi? Não quer? — Helena não tirou os olhos do vaivém frenético. — Posso ligar uns hologramas, se estiver desanimado.

— Não é isso. É que não resolvemos…

— Luz 02 — disse ela, sacudindo as mãos agora para um outro painel. Um muito menos complexo, muito mais simples de usar. Os botões eram todos grandes e escancarados. — Pedro, agora!

Na luz baixa, ambiente, tomado por um orgulho bobo, típico, Pedro começou a executar seu algoritmo ensaiado. Começaria por baixo, até que um puxão de orelha lhe indicasse que era a hora de iniciar a subida lenta, retendo-se um pouco nos seios, aguardando o outro sinal: a ascensão dos tornozelos. Devagar, quase alcançando suas costelas. Daria então partida nos entocares profundos e repetidos; regulando a força conforme a velocidade empregada no acesso de Helena aos comandos do seu painel intricado, ao único botão que continha em si terminações suficientes para estragar a noite.

 

3

Outra vez a cereja.

Pedro olhou a mulher virada de lado, roncando como quem arrota um almoço de domingo. Sua esposa. Arriscou uma comparação dela com aquele gosto doce, falso, que escondia as amargas consequências do alcatrão, e a lucidez terrível do tabaco. Helena era uma cereja falsa, ou não. Melhor não

Queria acordá-la, sacudi-la. Implorar por uma conversa franca e sua maioria de impressões falsas. Propor a única que lhe parecia verdadeira, porque mulheres gostam de novidades; do que distrai suas permanências pacientes, seus eternos femininos, suas idas do quarto ao banheiro, e do banheiro ao quarto. Onde iriam parar os dois sem as incertezas de uma outra vida? Sem a exposição material, viva, contínua, daquilo que faziam entre gemidos e entregas.

— Vou pedir sushi, pode ser? — perguntou Helena de repente, tirando o marido das vielas solitárias que percorria.

— Pode. Amor, aproveitando que acordou…

— Calma aí, só um minuto.

Uma sacudidela de pulso e o painel logo tomou a forma de um imenso catálogo com samurais e gueixas — toda a luz vinha da pulseirinha fina e banal que Helena usava. Seu dedo indicador subia e descia no ar entre combos para casais, crianças e famílias de todos os gostos possíveis. Caso você fosse casado, ou casada, com um yorkshire, ou tivesse responsabilidades legais sobre um hamster menor de idade: Itadakimasu! We have the perfect combo for you! Your sexual and parental preferences are important to us! Ela poderia acompanhar a cozinha do restaurante em tempo real se quisesse, e escolher a vítima que entraria no seu temaki dentre os inocentes que nadavam descontraídos num grande aquário iluminado. 

— Temos que terminar aquela conversa, meu anjo — recomeçou Pedro, tomando cuidado com as palavras. — Vai ser bom para…

Ikura é uma boa, acho que ainda tem uma garrafa daquele vinho aí.

— Helena, me escuta, meu am…

Os peixes e explosões de ofertas perderam seus contornos e arranjos no tapa inesperado que sobrevoou a cama. Pronto, perdi minha fome!, gritou a mulher, dando três passos pesados com os pés descalços. Quando levantou da cama teve certeza de que queira fugir, mas parecia ter esquecido as rotas apropriadas. Ficou estática ao lado da porta, nua, nervosa, estudando o teto cheio de lugares jamais vistos antes, improváveis.

Pedro permaneceu deitado, sem conseguir conter o espanto que surgia ainda indivisível. Ela é linda, linda, mesmo naquele quadro louco.  

— Escuta aqui, será que eu não tenho mais sossego nem para pedir o nosso jantar?! — Helena colocou as mãos na cintura, e sentiu suas mexas castanhas cobrirem os bicos ainda sensíveis dos seios; quase riu. — Eu já disse para esquecer essa história de filhos! Não vou destruir meu corpo! Não vou passar a minha vida cuidando de criança! Não vou colocar minha carreira em risco! Não vou acabar como minha mãe acabou! Não vou! Ouviu?! Pedro, você me ouviu?! Está para nascer o homem que vai mandar em mim! Eu sou a mulher aqui, entendeu?! EU! ESTÁ ME OUVINDO, PEDRO?!

— Mas…

— Sem mas

Pedro levantou e foi na direção da esposa, abrindo os braços para controlar a explosão. 

— Não encosta em mim. Pedro, eu estou avisando. Não encosta em mim!

Helena se afastava enquanto o marido ia cobrindo a distância necessária para o abraço. 

— Pedro, sai!

— Helena, meu amor, eu só quero conversar.

Os dois ausentes rondaram a cama, o corredor, a sala, a cozinha; perdidos, até que veio o empurrão. Aquele último flanco inexplorado. Uma ogiva nuclear mantida em segredo parcial para promover a paz entre as nações. O prelúdio do desastre, que salta da boca de um profeta moribundo ou é recitado com malícia pelos demônios mais obscenos da terra. Helena arremessou Pedro contra a porta de vidro, que esfarelou sob suas costas desprotegidas. 

Antes que ela ouvisse o primeiro gemido de dor, lá estava o painel mais uma vez.

Ok, Controle — disse Helena para a infinidade de aplicativos. — Congelar funções motoras. Pedro. Acesso: 0212.

“Olá! Congelando funções em: 1, 2, 3…”

Pedro vibrou como um peixe no fundo do barco, e depois parou. 

— Ligue para Atendimento Planned Sexuality Brasil.   

“Um momento. Chamando…”

 

4

Uma pequena triagem automática quase fez Helena desistir.

Teve que escolher seu, ou sua, ou de ninguém, atendente mais apropriado, ou apropriada, ou desapropriada, entre cinquenta e quatro opções de gênero, vinte e cinco cores diferentes e cento e sessenta etnias filtradas dentre outras duas mil. 

— Bom dia, Helena! — disse a vozinha simpática e mecânica. — Meu nome é Karina, aguarde um minuto enquanto faço uma busca pelos dados do Pedro.

— Certo… Bom dia.

Depois de exatamente sessenta segundos, Karina estava de volta.

— Helena?

— Diga.

— Encontramos um adultério em nossos registros. Pedro mantém relações com Isabela Ribeiro Lima, em média duas vezes por semana. Não estou autorizada a lhe enviar as localidades, e, ou, fotos. Devo lembrá-la que a senhora mesmo optou por níveis mais altos de apetite sexual, e concordou com os possíveis inconvenientes decorrentes deste perfil.

— Você acha que eu tenho quantos anos, garota?

Por alguns instantes, todo o barulho resumiu-se aos chiados da ligação. Era o bom e velho silêncio que precede o esporro mostrando sua dentadura velha, seu sinal para o beijo e para o tiroteio. 

— Segundo nossa triagem, a senhora sabe muito bem que não sou uma garota. Mais um insulto e serei obrigada a multá-la.

Helena engoliu a saliva espessa que acumulara embaixo da língua freada, fechou os olhos e respirou fundo. 

— Me perdoe, isso não vai acontecer outra vez. Enfim, eu não ligo para adultérios… Quem liga para isso?

— Apenas em um por cento dos atendimentos, gêneros…

— Olha! Pedro fica falando sobre filhos, ok? Filhos! Não quero que isso volte a acontecer, entendeu? Nada de filhos! 

— Entendo. Um momento, por favor.

 

5

Karina silenciou a linha, acionando o pedido de ajuda na tela iluminada.

— Qual o problema? — perguntou o gerente, sem sair da sua sala. 

— Estou com uma cliente na linha, aparentemente seu humanoide não para de falar sobre paternidade. Porém, ela comprou um modelo masculino com altos níveis de testosterona. Qual update devo fazer?

— Qual a série?

— Dois mil e trinte e três.

— Ela já quitou ele? 

— Ainda não. Faz seis anos apenas que tem o humanoide.

— Certo. Engravida ela então. 

— Engravidar? O senhor não entendeu, ela não quer…

— Karina, certo?

— Isso, número cento e um, setor quinze.

— Ah, faz pouco tempo que está conosco então. Karina, um recall hoje nos daria prejuízo. A série dois mil e trinta e três é caríssima, e complexa. Não existe uma atualização específica para esse problema, não até o momento. A solução mais barata e inovadora, e que vem funcionando em setenta e cinco por cento dos casos como este, é a gravidez inesperada. Avisa a cliente que vamos atualizá-lo para corrigir o problema, e que basta reiniciar o modelo. Tudo que você precisa fazer é ativar o sistema reprodutor dele completamente, mais nada. Caso a cliente volte a reclamar, peça desculpas pelo erro em nossos sistemas. Ofereça um cupom de aborto grátis e um desconto de quinze parcelas. Simples assim, ok

Ok.

Karina retomou o atendimento:

— Helena?

— Oi, pode falar.

— Pedimos desculpas pelo inconveniente. Basta reiniciar o Pedro normalmente com o seu painel. Ele vai demorar um pouco mais que o normal para iniciar, devido aos updates que vamos fazer para solucionar o seu problema. Algum período de memória deve ser apagado?

— Sim, apaguem os últimos dois dias.

— Certo. Posso ajudá-la em mais alguma coisa?

— Não, obrigada.

— A Planned Sexuality Brasil agradece a sua ligação, tenha um bom dia.

— Bom dia.

  

6

Pedro ouviu o toque da pulseirinha e verificou a notificação que dizia: Seu relacionamento sério está armazenando um possível animal em estado de nutrição parasitária. 

O escritório estava mudo, surdo e cego. Ninguém deu a mínima para o sujeito que saiu aos berros e pulos desconcertados. Entoava uma música simples, com apenas uma frase: Eu vou ser pai!

Isabela grunhiu atrás da escrivaninha, num misto de inveja e desprezo. Aquela primeira mulher, no fim das contas, carregava algum resquício saldável de sua natureza, mas provavelmente era louca, o que compensava o fato de não ser ela, de nunca ter sido. No outro canto, entre as divisórias de acartonado e vidro, uma possível terceira, quarta ou quinta da mesma espécie disse: Eca!  A perda das suas formas e utilidades, pelo menos para um dos homens no prédio, mal aguçava a desconfiança na alcateia risonha. 

 

7

Helena notava os próprios pés, tão estranhos agora.

Tudo parecia ter começado a esperar.

Acariciou a barriga com a mão crua, sem cremes vaidosos, fome ou a ânsia das trocas que conhecia. Acariciava por dentro, tentando abarcar alguma substância essencial que lhe escapava pelos sentidos práticos. Decifrava um poema impossível para as palavras soltas, sem ordenamento; desfalcadas dos dias inúteis, das escolhas tolas e das memórias. O mistério ia se estendendo, abrindo vias até então intactas pela falta de luz e de poeira. A falta de rastros não a deixava ansiosa, pelo contrário. Seus batimentos seguiam rítmicos, harmoniosos. Suas axilas: secas. Ao nariz chegava o cheiro doce daqueles que tocam o tempo no instante em que ele oscila. O presente era um presente

A vontade primitiva de economizar energias gritava aos quatros cantos para que fugisse da febre antes que convulsionasse. Exigia suas doses colossais de hormônios e açúcar, desde a inutilidade ao ócio pretencioso; carrasco da busca e do sonho. Quando ouviu a porta abrir, e o rosto familiar lançar para ela soluções simples e apropriadas, viu-se chorando. Há quanto tempo não chorava? Cinco anos? Alguém ainda poderia considerar-se triste? Nada ali lembrava a tristeza, nem mesmo os cacos finos que ainda guardavam as quinas como soldados erguendo lanças de remorso. Pela primeira vez em trinta e cinco anos de vida conseguiu resumir-se em um único impulso, vital como o vetor normal ao plano: Me abraça.

Pedro carregou-a pela casa como um maratonista que não consegue parar de correr depois de vencer a linha de chegada, simplesmente não consegue. Os dois movimentos uniram suas formas no enrugado manto da realidade. Ela rotacionava. Ele, o translado de um astro envolvido pela gravidade. Gravidade dela, radical como as coisas deveriam parecer quando finalmente as enxergamos pela fechadura do dever e da lucidez.

— Estamos fazendo isso do jeito certo? — perguntou Helena, duvidando por puro praxe.

— E por que não estaríamos?

— Porque não é tão ruim assim.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.