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Detox Literário.

Instantes antes dos cisnes – Conto (Paulo Luis Ferreira)

O tempo ficara paralisado no espaço das horas que se vão.  O Ali e o Outrora tinham se transformado num Aqui e num Agora que deslizavam dançando envoltos em música. Antes, bem antes dos ventos Frementes e do Sol Vermelho e Quente… Lá fora a chuva fina caia sobre o lago e chegava até sua janela. 

Ele gostava de pensar nas águas que vêm do céu como um líquido morno, assim como seu pensamento no estado Daquele Agora. 

Ele olhava absorto pelo vidro embaçado onde avistava na extremidade do jardim, à esquerda, um frondoso flamboiã. Era lá que gostava de pensar o mundo e as memórias dos instantes idos, mas agora chovia. Não podia lá estar. Só sabia que deveria estar em algum lugar, mas que não estava em lugar nenhum. Havia uma vasta e estranha tarde de sonho em seu olhar. E se perguntou por que as árvores morrem de pé. E pensou nela. De fato existia de corpo presente o corpo dela? Por instantes, a via bailar doce e faceira em seus braços quentes. Anelares desejos breves e futuros; e pensava: por que o tempo não para, para que agente não passe tão depressa? 

A chuva aparecia e desaparecia, como um véu escuro se abrindo e fechando. E entendeu naquele instante o porquê de os grandes navegadores deverem sua reputação às tormentas e aos temporais. Então se inclinou um pouco mais até poder sentir na fronte o vidro frio da janela, as correntes finas de ar e os pequenos chuviscos leves e ralos penetrarem pelas frestas da janela a ver sua respiração formar uma névoa. Assim como seu pensamento Nela. Abriu as mãos e as observou com melancolia. Ele acreditava que se podia ver a alma na própria respiração e explicava pra si, enquanto soprava as palmas das mãos, oferecendo a alma a Deus. Sua respiração desaparecia enquanto olhava. Até que só restou um pequenino suspiro, um arfar, e depois o nada. Só pensava que a vida só tem duas verdades absolutas, as quais não foram proferidas pelo homem, mas pela lógica das coisas: que você veio e que você vai. O dia se foi e…

 A noite começava a chegar. A rua enegrece. A luz lustrosa do poste invade a rua, lúgubre como obelisco a iluminar pensamentos. Dentro de si estava se plantando uma lua; ele pensava em poetizar. Deu as costas para a janela. Devagar caminha rumo à escrivaninha que o esperava ansiosa.  Procura seu banco de sentar… 

  Às vezes ou quase sempre é um tormento fazer as palavras combinarem com os pensamentos, as emoções que se chocam, dentro do Si e dos Consigos, como blocos de gelo navegando em águas turvas. Farpas imantadas, boiando em lago estranho. Como é difícil viver esse drama que é não saber como começar a escrever algo que possa nos trazer resultar numa boa alegria para nossa alma. E pensa: será que isso já deve ter acontecido com outros Poetas, ou pelo menos, assim como ele, que deseja começar descrever um sentimento, mas que não sabe por onde começar? E assim as memórias mais vívidas caíram na corrente das reminiscências. Então, mais que ágil, rabisca a página, riscando, jogando isca ao lago, pescando acasos da vida para pegar o sentido das coisas que estão dentro das palavras. Mas a palavra é um tormento quando queremos combiná-la com os sonhos. 

Ressabiou-se. Recolheu seus pensamentos de sobre a escrivaninha e foi para a varanda. Dormiu. Acordou. Àquela hora, caído tão cedo das alturas do sono, por mera tirania do hábito; coisa das Auroras Laboriosas. Mas agora, sentado no alpendre, tinha desistido. Desistido completamente, não atinava em nada reiniciar novas escritas; entregara seu destino à mão áspera do acaso. Entrou, acendeu o fogão. Sentou-se perto da janela, de onde podia ver o fogo. A chama. E ouviu o relógio do fogão apitar. Bebeu o café.  Fumou. E fumando se preencheu de fumaça. Engasgou, engoliu o gosto amargo da nicotina e o vazio continuou. Permaneceu assim encostado na janela, pensando fora dela. A chuva da manhã. Lá longe o horizonte se acinzenta. A terra. As árvores e as montanhas estão verdes, e a neblina está em toda parte, como aquela que sobe do lago e alcança as montanhas como uma fumaça. Lá fora, os ventos de julho ainda estão úmidos e frios. A friagem que chega depois da chuva jorra numa torrente pela rua. Mais adiante a névoa rasteira e fechada, e depois a tormenta, num instante bem perto da janela já fica mais calma. Quando vislumbrou os Cisnes no lago a navegar e pensou: “Isso vai me atrasar um pouco, mas, puxa vida, penso só naqueles Cisnes, lá fora no lago, a tomar chuva! 

Ele ainda pensava numa poesia para ela.

2 comentários em “Instantes antes dos cisnes – Conto (Paulo Luis Ferreira)

  1. Paulo Luís
    30 de junho de 2019

    Olá, Fil, grato pela leitura, e a eficiente apreciação sobre minha escrita. As letras em maiúsculo foi um direito que me dei para valorizar tanto o tempo, quanto os instantes da meditação do poeta. Quanto ao “agente” foi um descuido de digitação mesmo. Sobre a truncagem do texto, eu também sinto isto em alguns momentos, mas já tentei cortar algumas coisas, mas não consigo. Corto e depois coloco de novo. Ks,ks,ks, Uma hora vou tomar coragem e passar a tesoura pra valer! Grato mesmo pelas dicas!

  2. Fil Felix
    30 de junho de 2019

    Boa noite, Paulo! Seu conto é bastante romântico e poético, alguns dirão até de maneira exagerada. Eu gosto de altas descrições, que trabalham com questões subjetivas. O protagonista aqui, ou o eu-poético, nos comenta sobre seu processo de escrita, de como busca a inspiração. E, como muitos, a encontra na solidão e na reflexão diária. O uso dos cisnes no final e da dança dos tempos no início lembram o Lago dos Cisnes, essa questão de como funcionam as emoções e como são expressas no mundo real. Gostei da passagem sobre os navegadores, de sua reputação a partir das tempestades: o crescimento a partir do sofrimento. Em algumas partes senti o texto um pouco truncado e não sei dizer se proposital ou não, como o uso de “agente” e as palavras com a primeira letra em maiúsculo.

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Informação

Publicado às 28 de junho de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .