EntreContos

Detox Literário.

Tum! Tum! (Carl Fredricksen)

1

 

— Essa boneca idiota está atrasando a gente! — disse o menino, afastando duas moitinhas de capim. — Assim não vamos chegar nunca!

 Helena fez biquinho, e apertou a bonequinha com mais força ainda.

 — E se eu deixasse a Nina no quarto, e ela sumisse também? — perguntou a menininha, como quem diz a coisa mais óbvia de todas. — Nunca pensei que você fosse tão burro, Valentim!

 — Vai começar com essa história de matemática outra vez?

 — Viu só, como você é burro? Eu nem falei nada de matemática!

 Em algum canto dentro do mato, um bichinho soltou um ruído muito esquisito, e os dois esqueceram rapidinho do que estavam falando.

 — Que é que foi isso? — sussurrou Valentim, parando de avançar por um momento.

 — E eu sei?

 Logo ignoraram o barulho também, porque nenhum dos dois teve coragem de ir ver o que era, e nem de ficar imaginando. E se fosse um bicho perigoso? Seguiram para o lugar que Valentim havia encontrado pela manhã e queria muito mostrar para Helena.

 A tarde não estava quente, e um vento fresquinho soprava por entre as árvores, que faziam sombra sobre cada canto que a gente olhasse. Passarinhos cantavam pela trilha que os dois iam abrindo enquanto amassavam cada vez mais a relva e as folhinhas pelo chão.

 — Estamos chegando? — perguntou Helena, sentindo que Nina, apesar de ser feita de pano, botões e algodão, pesava muito mais agora do que antes.

 — Quase…

 — Estamos quase chegando, ou quase estamos chegando?

 — Ah! Por que as meninas complicam tudo?! — Valentim afastou um amontoado de palmeirinhas e apontou para a claridade cheia de pedras grandonas. — Chegamos!

 — Finalmente… — Helena queria sorrir um pouquinho, mas achou que Valentim não estava merecendo. — Vamos ver se é isso tudo mesmo!

 

2

 

Era isso tudo mesmo!

 Uma linda clareira, com o chão coberto por uma graminha fofa e baixinha. Florezinhas coloridas cobriam os cantinhos com sombra, e estavam cheias de borboletas, grandes e pequenas. Grandes e pequenas eram também as pedras, um monte delas. Enchiam a maior parte do lugar, e algumas pareciam formar mesas e cadeiras, camas e trampolins.

 — Essa toda branca é um quartzo, sabia? — explicou Valentim, apontado a pedra onde estava sentado. — E essa cinza com olhinhos é um granito!

 Helena nem ligou para os conhecimentos do irmão. Estava encantada por um passarinho todo azul, bem ali pertinho.

 — Sabe que passarinho é aquele?

 — É um sanhaço — respondeu ele, com um pouquinho de desdém. — Aqui tem um monte…

 De repente o passarinho deu um voo rasante, fez duas piruetas no ar e pousou no chão, todo faceiro, bem pertinho de Helena.

 A menina ergueu a ponta do nariz como uma rainhazinha faria, e apontou o dedinho indicador na direção do sanhaço.

 — Anda, Valentim — ordenou ela, fazendo pose. — Aproveita essa chance e pega o passarinho para eu ver!

 Valentim fez uma cara estranha. Poderia pegar o passarinho se quisesse, ou pelo menos achava que podia, mas será que Helena não conseguia ver de onde estava? Ela deve ter vergonha de ter que usar óculos, só pode ser isso!, pensou ele.

 — Não está enxergando ele não? — Valentim saltou devagarzinho, para não assustar o sanhaço. — Se você precisa usar óculos, melhor vovó ficar sabendo!

 Helena encheu as bochechas de ar e bufou, como se estivesse muito nervosa.

 — É só um jeito de falar, seu burro! Pega logo antes que ele fuja!

 — Ah… — resmungou ele, sem entender muito bem. —Por que as meninas complicam tudo?!

 O menino respirou fundo, e se concentrou. Dobrou os joelhos e abriu os braços como se quisesse abraçar alguém de surpresa, chegando por trás, sem fazer barulho.

 O passarinho parecia nem notar que estava sendo caçado. Ciscou umas pedrinhas no chão depois de empurrar a grama com as patinhas; fez isso um monte de vezes antes de Valentim saltar com tudo e agarrá-lo de um jeito meio desajeitado, escondendo o bichinho entre as mãos e o peito.

 — Isso! — gritou Helena, e depois deu um sorrisinho (finalmente). — Deixa eu ver!

 — Caramba! Você é cegueta mesmo!

 — Eu, quero, colocar, a, mão, nele! — bufou ela outra vez. — Assim, você, entende?

 Agora quem sorria era Valentim, muito satisfeito com a captura.

 — Coloca essa boneca no chão antes, vai ter que pegar ele com as duas mãos!

 Helena colocou Nina com todo o carinho sentada sobre uma das pedras. Valentim, satisfeito, passou o sanhaço com cuidado para a irmã.

 — Vê se não aperta ele!

 — Como o coraçãozinho bate rápido! — disse Helena, sentindo-se muito corajosa. — Perece o despertador da vovó quando toca! Nina precisa sentir como é!

 — Nina? — perguntou Valentim, muito confuso. — Ela é uma boneca de pano, sua tonta. Não senti nada!

 — Não vou explicar para uma porta o que é uma laranja! — Helena adorava decorar as frases da mãe que mais gostava. — Anda, saí da minha frente!

 Valentim saiu depois de um empurrão meio sem jeito da menina. Por que alguém tentaria explicar coisas para uma porta?, questionou-se por um tempinho.

 — Queria entender essa sua implicância com a Nina — retomou Helena, se aproximando da bonequinha de pano. — Por acaso é você que anda sumindo com as minhas bonecas? Hein, Valentim?

 — Eu?

 — É, você! — Helena parecia muito esclarecida. — Só me sobrou a Nina, e está na cara que você não gosta nada dela!

 Distraído com o que a irmã pretendia fazer, Valentim não se defendeu da acusação; e Helena foi logo conversar com Nina.

 — Olha, Nina, o coraçãozinho dele bate muito rápido! — a menina balançou a cabeça e sorriu, como se escutasse a bonequinha falando com ela. — Quer sentir também? Está bem, mas com cuidado para ele não fugir! É um passarinho muito difícil de se encontrar, o nome dele é Sr. Sanhaço!

 Valentim achou tudo aquilo uma grande bobagem, mas resolveu não atrapalhar. Afinal, ele mesmo não conversava com Amora de vez em quando? Mas pelo menos Amora é um cachorro, refletiu, um bicho vivo!

 Helena levou o sanhaço até a mãozinha da bonequinha, encostando com cuidado o peito cheio de penas do passarinho no pano branquinho.

 — Viu só?  Faz: Tum! Tum! Igualzinho o nosso, só que muito mais rápido!

 

3

 

Sabe como é quando a gente acorda no meio da noite e o quarto está tão escuro, mas tão escuro, que nem faz diferença se estamos de olhos abertos ou fechados?

 Era exatamente isso que acontecia com Helena naquele momento.

 A menina sentiu um friozinho na altura do pescoço, e logo procurou o cobertor. Quando o encontrou, lembrou-se de Nina, e tratou de buscar pela bonequinha também, tateando a cama no escuro.

 — Será que deixei ela cair?

 — Deixou, como sempre… — disse uma voz rouca e baixinha, que poderia ser de uma mulher muito velhinha, ou de uma garotinha com a garganta inflamada.

 — Quem disse isso? — perguntou Helena, com vontade de se esconder debaixo do cobertor.

 — Você não sabe? Pensei que éramos amigas!

 Helena não sabia direito se estava empolgada ou com muito medo (ou ainda um pouco dos dois).

 — Nina? — perguntou ela.

 — Na verdade meu nome não é bem esse não, mas tudo bem — respondeu a bonequinha de algum lugar no escuro.

 Saindo de trás de uma nuvem, a luz da lua entrou no quarto pela janela, iluminando a cômoda bem ali pertinho. Em cima dela, ao lado de uma caixinha de música, Nina sentava com as perninhas abertas, e sua boquinha parecia descosturada (isso assustou Helena um pouquinho).

 — Por que você nunca falou comigo antes? — quis saber a menina, achando melhor não comentar sobre a costura.

 — Eu tinha que guardar segredo sobre a festa, foi por isso.

 — Que festa? — Helena deu um pulo e sentou, toda animada.

 Nina levantou meio sem jeito, e equilibrou-se com voltinhas ao redor de si mesma.

 — Para onde você acha que todas as bonequinhas foram? Anda, você precisa se arrumar!

 — É claro! — os olhos da menininha brilharam. — Agora faz sentido elas terem sumido! Uma festa! E onde vai ser?

 Apoiando os bracinhos no puxador de cada gaveta, a bonequinha desceu até o chão.

 — Na minha casa, onde mais?

 Sentindo um arrepio, Helena voltou a puxar o coberto devagarinho.

 — Sua casa, é?

 — É aqui pertinho, numa caverninha depois do bambuzal!

 — Não é perigoso entrar no mato uma hora dessas?

 Sem dar ouvidos à pergunta, Nina sumiu por uma das sombras que se espalhavam pelo quarto. Quando voltou, veio arrastando um vestidinho branco, muito maior do que ela, e um lacinho azul. Puxava tudo com muito esforço.

 — Anda, veste isso! — disse a bonequinha, e por um momento sua voz pareceu mais grave e mandona. — Agora!

 Você deve estar achando tudo isso muito estranho, e provavelmente também acha que alguém tinha de procurar alguém para que alguma coisa fosse feita por alguém capaz de ajudar esse alguém. Mas você nunca viu uma boneca que fala arrastar suas coisas pelo quarto, viu? Não? Sabia!

 — Será que não é melhor pegar um casaquinho também? — perguntou-se Helena, levando uma mãozinha até o queixo. — Não, acho que não…

 

4

 

Valentim abriu os olhos devagar.

 — Para com isso, Amora… — resmungou, ainda dormindo.

 A cadelinha pareceu não se incomodar, continuou arranhando a porta enquanto reclamava daquele jeito que os cachorros fazem quando querem muito ir ao banheiro (eles choram baixinho).

 Um vento gelado subiu pelas costas do menino, chamando sua atenção para a janela aberta.

 — Assim não dá… — ele buscou as sandálias com os pés e levantou, brigão e desajeitado. — É Amora… É janela… É… Helena?

 Pela abertura, Valentim viu a menina cruzar o quintal lá embaixo. Ela andava depressa, com as mãos encolhidas perto da barriga, escondendo alguma coisa. Ah, por que as meninas complicam tudo até nos sonhos?, pensou ele, voltando para a cama. Enfim, como é bom dormir quando não temos aula no outro dia…

 Amora de repente desistiu da porta e encarou o dono com as orelhinhas levantadas. Você não vai fazer nada?, perguntaria ela se soubesse falar, mas não sabia. Então deu um latido alto o suficiente para fazer coração de Valentim acelerar, mas não ao ponto de acordar a vovó (seria preciso muito mais barulho para despertar a velhinha).

 Au-au, insistiu Amora.

 — Socorro!! — assustou-se o rapazinho, olhando ao redor como alguém que não sabe onde foi parar. — Eu não fiz nada! Helena que saiu por aí no meio da madrugada, ela sabe que… espera…

 Finalmente acordado de verdade, Valentim fez um cafuné na cachorrinha e conferiu a janela outra vez. Helena agora já avançava para além da grama alta, e começava a entrar no mato.

 — Então não foi um sonho — concluiu o menino, muito satisfeito. — Valeu por me acordar, Amora! Agora me ajuda a encontrar o meu estilingue no meio dessa bagunça!

 

5

 

A passagem estava toda iluminada pelo luar.

 Lá no fundo, a luz dentro da caverna já podia ser vista sem qualquer esforço. Nina ficou em pé nas mãozinhas de Helena, e apontou para o lugar. É bem ali, disse a bonequinha. Eu moro naquela caverninha ali.

 Não demorou e um teto todo feito de rocha cobria as duas, muito alto e escuro. A iluminação vinha de velas grossas e amareladas que pareciam muito mais velhas do que era possível imaginar, espalhadas pelo chão e penduradas nas paredes. Fazia frio e, para piorar, gotinhas de água gelada caíam por toda parte.

 Depois de caminharem mais um pouquinho, desceram uma escadinha escorregadia, cercada de montinhos pontudos e pedrinhas soltas. São estalagmites!, lembrou-se Helena.

 No fim da descida, encontraram um espaço limpo, como uma grande sala arredondada. No meio dela, uma fogueira soltava estalinhos e projetava sombras enormes pelo lugar. Pelo menos aqui está quentinho, constatou a menininha, aliviada.

 — Excelente — disse Nina, saltando dos bracinhos de Helena. — Senta pertinho da fogueira, vou chamar as outras!

 A bonequinha sumiu outra vez na escuridão, como havia feito no quarto da menina. Porém, quando retornou, não trouxe um vestidinho, mas outras quatro bonecas.

 — Bebel! Juju! Karina e Luiza! — a menina abriu um sorriso, mas ele logo desapareceu. — Por que vocês estão tão sujas?

 Sem mais nem menos, elas cercaram Helena em silêncio. Suas cabecinhas giravam em órbitas desorientadas, como se estivessem hipnotizadas.

 — Amarrem ela! — ordenou Nina. — Não aguento mais esperar!

 Helena deu um grito e tentou fugir, mas era tarde demais. Karina e Juju esticaram uma corda no meio do caminho, derrubando a menina no chão com um tropeço. Ela então se remexeu, mas não foi o suficiente. Bebel e Luiza trataram de amarrar seus braços e pernas.

 — Socorro!  — choramingou Helena, sentindo o sangue escorrer de um raladinho no queixo. — Por que vocês estão me machucando? Eu não fiz nada!

 Devidamente amarrada, ela foi colocada de barriga para cima. Nina subiu no seu peito, acompanhada das outras bonequinhas. Entre os bracinhos de pano, carregava uma faca grande e pontuda.

 — Matei uns dez passarinhos essa semana — disse a bonequinha com um ar sombrio, as outras permaneciam caladas. — Queria ver o que fazia tum tum dentro deles, mas assim que eu abria os bichinhos, parava de fazer tum tum. Estranho, né? Eu também não faço tum tum. Nem Karina, nem Juju, nem Luiza e nem Bebel. — Nina descosturou a lateral do seu corpinho, e tirou dois tufos de algodão de dentro dele. — Viu só? Mas aí reparei que você também faz tum tum. Sabe como é, né? Curiosidade mata!

 

6

 

O latido de Amora ecoou pela caverna inteira.

 Valentim avistou a irmã amarrada no chão, com as cinco bonecas em cima dela. Sem pensar muito no que fazia, ele deu meia volta e saiu correndo o mais rápido que conseguiu. Eu é que não vou me meter nisso, disse para si mesmo, baixinho e ofegante. Vou salvar minha vida!

 Esse era um bom jeito do menino salvar a própria vida, é verdade. Mas às vezes o jeito bom não é o melhor jeito, por mais que o jeito bom seja fácil, e o melhor jeito seja difícil. O jeito bom pode não ser o jeito do bem também, e nem o jeito dos corajosos.

 Pesando nisso, Valentim deu meia volta outra vez. Espera aí!, refletiu, tirando o estilingue de um dos bolsos, e uma bolinha de gude do outro. Posso ser ruim em matemática, mas não sou covarde!

 

7

 

Amora estraçalhara quatro bonequinhas, espalhando seus pedaços por todo lado.

 Valentim avistou Nina tentando fugir, e fez mira no estilingue.

 Boing!

 A bolinha acertou a cabeça da boneca, que mesmo assim não parou de correr.

 — Ela é feita de pano, seu burro! — gritou Helena, avistando o irmão. — Não adianta nada fazer isso!

 — Ah! Por que as meninas complicam tudo?!

 Valentim correu até Nina todo irritado, resmungando sobre como as meninas são mal-agradecidas.  Quando chegou perto, chutou ela com toda a força na direção da fogueira. Assim que caiu no fogo, a bonequinha soltou um berro e virou cinzas rapidinho.

 —Viu só? — reclamou Helena. — Todo mundo sabe que essas coisas amaldiçoadas só morrem quando pegam fogo!

 O menino fez cara de ofendido.

 — Vai começar com essa história de matemática outra vez?!

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C3.