EntreContos

Detox Literário.

Penumbra (Ancilla)

 

Esse odor acre…

Essa penumbra…

Esse silêncio mórbido…

Paredes com infiltração, antigas, tão antigas. Móveis frágeis, aos pedaços. Velas de santos, com supostos poderes divinos, distribuídas estrategicamente pelo ambiente. Crucifixos, imagens de Jesus e Virgem Maria, pinturas com representações bíblicas. Um homem, sentado à mesa, bamba e torta, em posição de reza.

Eu amo tudo isso!

Aproximo-me, devagar, e sussurro em seus ouvidos.

“Está na hora…”

Vejo os contornos da ansiedade em seu rosto. Sinto sua excitação na respiração ofegante. Esse momento é especial, ah, sim, muito especial. Ele prepara a corda de sisal: firme e grossa, sua fiel escudeira. Previne-se: pistola e canivete. Está certo, está certo. Tudo pronto.

Costumo ficar no banco traseiro, bem atrás dele, com meus longos dedos sobre seus ombros. Ajudo a escolher. Às vezes, ficamos horas rodando pelas estradas, numa espécie de transe, apenas esperando a oportunidade certa. Ah, quanto tempo já perdemos nessa caçada… Nessa busca pela felicidade… Dois meses esperando. Mas hoje, nessa noite fria de verão, tenho certeza que teremos sorte.

“Vamos para aquele bairro pobre…”

Vivemos isolados, numa casa que, antigamente, foi a base de uma grande fazenda. Uma herança carregada de lembranças de outroras. Sofrimento. Os ecos do passado vivem forte nesse ambiente. Ele sabe disso. É apegado. Escuto as orações de sua mãe, as punições pelos pecados cometidos, os choros compulsórios. A depressão. A ausência do pai. A raiva, que cresceu, cresceu, cresceu, até explodir e libertá-lo da forma mais bela possível.

Ela mereceu.

Estrada de terra batida, quinze minutos. Intermunicipal, finalmente, certa leveza na direção. Sinto algo, longe, mas algo.

“Para!”

Sim, sim…

Festa, sete quilômetros, saindo da cidade. Chácara. Bebida. Drogas. Jovens, muitos jovens. Mulheres! Sussurro minha descoberta, como sempre, e fazemos o retorno. Paramos no acostamento, perto da entrada do sítio.

Esperamos…

Esperamos…

Esperamos…

Duas horas se passam. E ela surge. Morena, corpo magro, extremamente maquiada e levemente bêbada. Bonita. Está sozinha. Assusta-se quando percebe a presença do carro, acelerando o passo e abraçando a bolsa.

Tola!

— Ei, moça! — chama, abrindo a porta num convite irrecusável. — Que tal uma carona? Estou indo pra cidade.

Olhou desconfiada, analisou aquela lata-velha e meu amigo.

— Não precisa… Estou esperando um homem, sabe, namorado… — vacila.

Seus olhos levemente arregalados, seu coração acelerado e seu sorriso forçado. Nossa, como adoro essa cena, esse medo, o alerta do perigo.

“Ela sabe! Ela sabe! Ela sabe!”

Ele saca a arma.

— Entra! Agora! — berra.

Pânico! A mulher sai correndo, tentando voltar para a chácara e pedindo socorro. Socos, fortes socos no volante.

“Ela viu seu rosto. Pegue-a!”

De ré, alcançamos a coitada, atropelando-a de leve. Ele sai do carro, rápido, e antes que pudesse se levantar, pega a mulher pelos cabelos.

É nossa! É nossa!

Ah, a noite é bela, é criança de pais amorosos e caridosos! Obrigado!

Amamos o retorno pra casa. Gostamos de criar esperanças, pois os frustrados sofrem mais na hora de confrontar a realidade.

— Não se preocupe, só vou fazer uma coisa… Não vou te matar… — promete ele, respondendo às súplicas da garota.

O alívio em seu rosto se dissipa rapidamente quando entramos na estrada de terra. Mas fica em silêncio. No fundo, sinto, espera a salvação…

Vadia…

Essas mulheres, principalmente jovens, aproveitam-se de seus atributos naturais. São manipuladoras. Choram para conquistar o que desejam. Chantageiam. Enganam. Traem…

Ela merece isso. Todas, na verdade.

Chegamos!

Chorosa, encolhida no canto daquele quarto fétido e escuro, confusa e trêmula. Observo. Ele também. A contemplação é importante, liberta e cria valores para aquilo que deve ser apreciado.

— Sabe… — ele diz, começando o clássico discurso que leva consigo para justificar sua carnificina. — Você é impura. Mas não é culpa sua. Esse mundo… Ele está doente. Não se preocupe. Vou te salvar.

HA! HA! HA! HA! HA!

Estúpido!

“Purifique-a…”

Com a corda de sisal, segurando bem firme, começa a chicoteá-la. Ela grita, ah, como grita. “Socorro”, “perdão”, “por favor”, “faço o que quiser”, “não me mata”; os cinco apelos mais ditos nesse momento.

Seu rosto se contorce num misto de raiva e alegria. Sente prazer. Gosta da violência. E bate cada vez mais forte. Depois do espancamento, jogando a corda de lado, pega o punhal “santificado”. Ele adora esse lixo… Adornos de terceira categoria e encardida de sangue.

É agora!

Esse olhar… A destruição completa da esperança. A luz dos olhos finda antes mesmo da alma. Esse solene momento, sinceramente, é o magnus opus da humanidade. Uma obra de arte única, incomparável.

A primeira punhalada é sempre impactante. Para ela, para ele, para mim. Ele mirava no pescoço, sempre, e depois no rosto.

Um!

O chão de concreto é tingido de vermelho. As paredes também.

Dois!

Ela tenta afastá-lo. Em vão.

Três!

Respiração ofegante e um leve sorriso no rosto.

Quatro!

O som dela se afogando no próprio sangue.

Cinco!

Aceita seu destino, para de resistir, fica deitada numa agoniante espera.

Seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três.

Morta. Aproximo-me. Que visão estonteante… Que beleza…

“Ela é toda sua…”

Nudez sem pudor. Sangue quente. Sexo selvagem. Esse é o momento dele… Quando pode se libertar, ser quem verdadeiramente é, deixando seu lado animal no controle. Sem culpa, tratando aquele pedaço de carne como uma recompensa por tê-la “salvado” deste mundo impuro.

HA! HA! HA! HA! HA!

Como eu amo estar aqui, presente na vida desse homem. Pobre alma, pobre ser. Não sou hipócrita. Sei muito bem quem sou. Não minto para mim.

“Parabéns… Você salvou mais uma alma. Alegre-se, pois, de fato, sua vida tem um propósito.”

O desenho de seu rosto, quando digo tais palavras, é de realização. Engano, sim, mas é por um bom motivo. Sou a liberdade que ele precisa. Sou a segurança que ele precisa. Em contrapartida, ele me presenteia com essas magníficas apresentações.

Ele vai embora e fecha a porta do “aposento de purificação”. Através das frestas, um pouco da luz das velas penetra com incrível determinação. Fico na penumbra. No canto do quarto, junto ao cadáver, está a silhueta de uma mulher, encolhida, abraçando suas pernas, confusa e perdida.

Regozijo! Pois, agora, sim, começa minha noite.

Meu momento…

Minha alegria…

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.