EntreContos

Detox Literário.

A Ciranda do Copo e da Parede (Tesséteras)

A poltrona parecia o ninho de um ovo de chumbo. Mal podia me mover nela. O queixo apontava ora para um cotovelo, ora para outro, nessa posição desconfortável de caniço envergando. Tinha os olhos engessados há muito tempo no mesmo centro de tela, nem mesmo extravasando as bordas. Era-me proibido colocar sequer um décimo de mindinho de olhar para além do perímetro do papel. Algum sortilégio macabro pousara as garras em minhas pálpebras de tal monta que elas esquentavam como se fossem cobertores de dois sóis. Os tempos passam novas folhas de memória e substituem as antigas, que apodrecem (e é um modo de dizer que não posso retroceder na leitura). Ainda assim, ainda recordo da última vez em que tentei violar os quatro cantos de minha prisão: as pupilas trêmulas lançavam sinais ao resto do corpo de que a hora era chegada, mas as mãos repentinamente principiaram num suadouro delator; no entanto, o passo dado não pode ser contido. Como um trem que soergue suas patas, tentei também alçar levemente as minhas, as do poderoso par de globos cansativamente explorados pelas tropas alinhadas do papel, e por dois décimos de segundo ele lançou ganchos transparentes no cinza da parede recuada e em sombras negras aparentemente acomodadas em cadeiras. Tiras de couro zuniram no ar sem demora. Os dedos da mão esquerda conservaram a vermelhidão da fustigada por muitos minutos. O rastro líquido e salgado desceu, juntou-se ao muco da obstrução nasal e se deteve nas comissuras dos lábios; de bom grado eu os limparia. E eu deixaria de protestar? Acaso a boca não é externalidade? A mandíbula moveu-se mais um pouco, mas no lugar de ferocidade deixou sair um bo-bó. Tentei outra vez, e o resultado não saiu menos desalentador. Que outro cárcere acossava as palavras de minha boca? Acredito que o movimento do chicote contra mim era um pretexto para esconder dos meus ouvidos as vozes sussurradas de meus algozes. A leitura compulsória oprimia e obsedava. Correr a vista naqueles ásperos trilhos alfabéticos, confesso, caía em mim como um castigo estranho. Torrões de páginas percorridas, um labirinto circular. Contava-se a peculiar história do Moldador, um personagem que dominava o Vazio Incompleto, um espaço penumbroso e estéril. A princípio, mais ninguém dividia o palco de cena com o Moldador, embora ele tivesse, coisa de vinte passos distados, um enorme globo. Assim diante do espantoso artefato, como um sacerdote no púlpito de uma igreja vazia, ele erguia as mãos; nutria um sentimento muito peculiar com relação ao objeto. O nada esfumaçado constituiu elemento que, na concha entre suas mãos, endureceu-se na matéria-prima que resultou na própria esfera. Tirar o que é do que nunca foi, repetia a si mesmo. O material avolumava-se; era preciso terraplanar vigorosamente a superfície, retirar porções do lado oriental e fixá-las no extremo oposto, até que não houvesse extremo nenhum. Tendo tomado a forma desejada, a sua criação acusava mínimos rodopios, e tudo o mais que a cercava era gelado fumo negro. Num desses intensos trabalhos, notou que pedaços de suas unhas racharam e ficaram plantadas na esfera. Em seguida, para o seu assombro, surgiram colônias de cupins. O Moldador ainda deu dois passos em direção àquele conjunto de elementos aparentemente surgido do útero de sua imaginação. Empenhei imensa energia que saía em anéis de fogo. Esmurrei a matéria um bilhão de vezes. Primeiro ela queimou, depois encrostou; os componentes distinguiram-se um dos outros a ponto de serem o não-outro e sagrarem matrimônio. Isto não saiu de mim, isto sou eu. E agora que sustento este invento no espaço, tenho ânsias de destruir tudo. Mas o jogo era o mesmo há bastante tempo, essa dança de intrepidez e recuos, de solas descalças marcando um terreno impossível de tatear com as almofadinhas dos pés. E os cicios da escuridão que o engolia, e o mover infrene da esfera em si mesma, e tantos outros sons indiscerníveis que dela chegavam. Curiosamente, o Moldador cismava de que era observado, e isso representava seu terror supremo. Podia torcer o pescoço em quaisquer semicírculos, de acordo com esparsos registros dos ouvidos, mas nunca enxergava nada. Não sou o único aqui, isso é impossível, dizia-me incalculadas vezes. O simples pensamento de que há alguém além de mim era contundente o bastante para destruir os pilares da minha certeza de solidão. Quando o receio diminuía e me aproximava da grande esfera é que minhas suspeitas exponenciavam, pois era patente que ela emitia sons, infortunadamente emaranhados, por mais que me esforçasse em catalogá-los assim que chegassem aos meus ouvidos. De um ponto além da esfera, vejo parte da escuridão abrindo-se para os lados feito uma parturiente. Eis que surge algo como um filhote branco de pardal. Pelo ruído abafado, tem asas de veludo. Meu peito aparentemente esbraseia por dentro; o ser voejante me arranca um sorriso. Ele descreve voltas cambaleantes, e me parece evidente que só se movimenta assim porque está a procurar algo na grande esfera, estacando no vácuo diante de cada hemisfério. Aproximo-me e, pasmo, retifico em mim a sua figura, que é de homem num tamanho cem vezes menor que o meu. Um Anjo, logo veio à mente, é a primeira vez que vejo um branco, e por que meus dedos dançam tão alvissareiros? Não chego a vislumbrar seu rosto, pois sempre está virado para a esfera na sua busca incansável. Ele já não me inspira compaixão ou sentimentos bons. Senti a mandíbula inteira se avolumar em aço e veias de sangue encharcarem o rosto. Teria criado agulhas para prender cada asa daquele homenzinho e impedi-lo de sua missão. Eu o torturaria para arrancar a identidade de outros tantos pardaizinhos mais. Agia por conta própria? Quem era seu mestre? Quase o tinha perdido de vista, por isso avancei um tanto. Ele era engolido pela atmosfera própria do objeto. Postava-me como alguém que se põe em pé sobre um obelisco imenso, as asas abertas, o semblante caído. Mesmo de meu ponto longínquo podia distinguir o exato objeto que motivara minha descida. Não necessitava exaurir os esforços; assim que minhas lentes fixam o ponto, por nada no universo eu o perco. Desconhecia por completo o conteúdo da missão, entretanto, sentia a contundência da autoridade que a despachou. É curioso como os nascidos da esfera erguem suas patas sobre a terra, tendo elas alcançado boa parte dos céus nos grandes cupinzeiros. É uma veleidade tola ou alguém parece vigiar meus passos? Sinto arderem minhas espáduas; devem estar sob a mira de canhões de fogo. Numa fração de momento, criaturas bestiais sarandeiam no ar e se avolumam, se avolumam, até alcançarem boa distância de mim. Têm rostos de morcego e voam sem qualquer aparato semelhante a uma asa. Outros deles chegam do vácuo atrás de mim, essa interminável parede cinzenta que é o próprio mistério da existência. Chegam incandescentes como meteoros que visassem minha destruição. Guincham estrondosamente de onde se encontram com o intuito de  intimidação. Obviamente, receberam também sua missão, e o arco ao derredor da esfera, unindo-se pelos decrépitos braços como elos de corrente, demonstra que a meta é impedir minha passagem. De bom grado os enfrentaria; nas tantas observações anteriores, nunca vi capturarem um javali que se arrojasse com tal força contra uma cerca. Eu poderia tentar. Eu corporificava a única chance de meu objeto. Não bastasse o cinturão de gárgulas a ser transposto, pude verificar que muitos outros se agitavam centenas de metros além, nas ventanias nos céus. Procurei o monstro com as maiores patentes, e dei de frente com um cepo horrendo de cerca de três metros cujas orelhas curvavam para baixo. Tenho ordens para descer, informei, mas quase imediatamente ele me devolveu, com extrema rouquidão: E temos ordens para estancá-lo. Fique aí, pois daqui não passará. Esbravejei: Sabe quem me incumbiu dessa altíssima missão?. Riu-se de mim: Curiosamente, a mesma autoridade que selou a contraordem para nós. O fato de seus cupins serem inteiramente vilipendiados à própria sorte não deixa você perplexo, não deixa você perplexo?, e o eco repetitivo reproduzia-se nas bocas de seus comandados, uma loucura infinita da qual, por bem, resolvi retroceder bastante. Em que pese o impedimento, não deixei de fisgar os olhos no que as bestas denominavam “cupins”. Cada missão é precedida por juramentos, e eu havia de cumprir os meus. A visão nos dá o engodo de estarmos a pequeníssima distância do que vislumbramos, e infortunadamente estava eu a uma imensa longuidão do Pequeno Justiceiro. Mesmo as legiões de diabos sitiando os ares da esfera lhe eram indiferentes, mas não posso sustentar essa opinião se ele de fato os visse. Ao garoto bastava a sua lupa de escoteiro e um vidro de álcool pendurado às costas; nem sequer uma proteção contra o terreno arenoso sob suas pegadas. Avistando colunas de formigas, de imediato achegava-se e, empunhando a lupa a concentrar os raios do sol, deixava um rastro de destruição entre as operárias desnorteando algumas e assando outras. Logo o exército de insetos via seus flancos totalmente aniquilados por um pequeno deus e seu vidro convergente. Gerações inteiras de formigas jamais conheceriam algoz mais certeiro, mais obcecado. Os pés do menino testemunhavam sua pertinácia, adentrando progressivamente os terrenos baldios e capões mal picados. Enquanto pisava nalguns gravetos, o Pequeno Justiceiro ouviu algo abafado e intermitente. Se as buzinas tivessem crias, chorariam assim, chegou a dizer. O rastro do som fê-lo parar diante de uma caixa de papelão a dois passos do grande contêiner. Ajoelhou-se e desfolhou as quatro abas que precariamente cerravam o responsável pelos gritos. Embrulhado numa edição de jornal, o serzinho esbravejava como um leão, movia os bracinhos e as imundas dobras da testa. A palma da mão deslizou por sobre cabelinhos ralos, numa vaga carícia. Em três quartos de todas as missões de salvamento, é preciso protegê-los da erva daninha que permitem crescer dentro de si próprios. Estava óbvio que ele compensaria todo o tempo gasto nas andanças na mata com aquele achado miraculosamente posto em seu caminho. Pondo os joelhos no chão, saquei a lupa e me pus a brincar de novo. Através dela, dirigia a parte mais letal do calor para um ponto circular. Indícios de um esfumadinho branco. A abóbada lisa emitia uma coloração diferente que me contagiava! Mas não me bastava deixar listras queimadas na pequena testa, de modo que resolvi mirar noutros locais do rosto. Nada, entretanto, é comparado ao efeito da luz nos olhos! Ainda que me empertigasse por horas naquele ato ou achasse divertido ver o olho incandescendo como a caldeira de um senhor do inferno, não deixava de notar as pontadas no cerne de meu coração, que de forma nenhuma conseguia explicar. As costas doíam, do joelho para baixo reinava a dormência, mas se pudesse pela primeira vez presenciar a dissolução de um rostinho em pequenas placas fumegantes era evidente que eu me estacaria na mesma posição e até por tempo superior. Impressionava o efeito da lente sobre o rastro das lágrimas. Restava ao bebê engasgar-se com a fábrica de catarro ao passo que lançava expressão análoga à de quem, por instinto, clama por misericórdia. E a mim! A mim! Senti minha pele recuar para os ossos, duros vincos rasgavam-me as bochechas. Os cantos da boca alçados num sorriso malicioso e desprezível. O modo desesperado como o bebê aspergia gestos de braço em torno do foco de luz transformou-o, ao meu parecer, em algo inferior a aparatos com espasmos eletrônicos. Senti um gosto amaríssimo na boca, talvez a lama de uns mil anos de idade; sinal de que os dentes se tornaram podres de repente. O brinquedo mau logo me trouxe luz branca, que fez arder a testa. Entre um grito ou dois, a baba dos olhos escorria para o lado do brinquedo sem poder tocar nele. Os dedinhos não iam muito longe, por mais que abrisse o nó dos braços. Se eu alcançasse o negócio preto que engolia o negócio cor de água meu rosto deixaria de pegar fogo. Enquanto isso, meu sininho não se aquietava, mas o berreiro que saía de mim devia ser diferente daquele que entra nos ouvidos do gigante, ou então ele era um surdo maligno ou não queria saber de me obedecer ou os soldadinhos dentro da orelha dele expulsavam os soldadinhos de palavras que saíam enlouquecidos de mim e de minha agonia. Mas num instante senti alguma coisa se derramando em cima dos olhinhos e como que uma mão imensa de fogo enchia de golpes a minha cara. Ao mesmo tempo, percebi que parte de mim saía desse desespero todo. Outro olho surgiu e longe, muito longe, vi pontos medonhos e com asas, um ponto branco extremamente triste e outra coisa que não sabia do que se tratava, mas que dentro do meu novo olho parecia sorrir. Eu ia apagando, o céu tornara-se branco e filas de garranchosinhos pretos passaram a dominar o espaço e eu olhava fila por fila, fila por fila, filaporfila filapor – –

– Mamãe, mamãe, temos que fechar, já são horas.

– Pois seja, acabemos logo. Coloquem na traseira do carro.

– Descanse durante o percurso.

– Nós, sim. Ele, não sei. Mas pago o Mal com reza e não desistirei disso.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C1.