EntreContos

Detox Literário.

Três Primas e um Gato – Conto (Nilza Amaral)

Hoje acordei diferente dos outros dias. Talvez um pouco cansada da vida, mas com uma esperança remota revivida. Moro sozinha, é melhor do que morrer queimada, porém, como fui professora, recheio o tempo livre  freqüentando e ministrando cursos.

Dizem que devo agradecer porque se moro, é porque tenho casa, aliás apartamento, e posso ter momentos a sós comigo mesma. Esses são os temerosos. No mesmo prédio, em andares diferentes moram Sílvia e Dora.Somos primas de sangue.E temos a nossa história..

Meus três  filhos amados me visitam de tempos em tempos. Os netos absorvem o tempo dos pais, são  prioridade. Mães duram muito.

De nós três, sou a única que tem recordações de um amor sincero e duradouro..Atualmente o espelho, além de outras más notícias, me diz que estou começando a ter muitos fios brancos dentre os meus cabelos pretos. E rugas incipientes.Mensagens subliminares que não quero admitir.Então me vêm à lembrança  ditados antigos mas consoladores, como esse muito desajeitado __ quem foi rainha sempre será majestade. No caso sou a rainha. Poliana que resolvi ser, faço o jogo do contente, e agradeço porque possuo cabelos.Não sei muito bem a quem agradecer, mas deve haver alguma energia superior que nos transmite força para continuarmos.Enfim, resolvi que as dificuldades da vida não me vencerão.Não que eu seja um protótipo da perfeição, longe disso, apenas decidi que se vou perder a guerra final, não perderei as batalhas.Ultimamente ando elucubrando sobre o excesso de informação que recebemos nesta era cibernética..Uso toda a tecnologia ao meu dispor, porém, questiono para o quê elas servem. Tais considerações se devem muito à internet, essa artifício que veio nos ajudar a resolver problemas que não tínhamos. Afinal nos invadem com bilhetes eletrônicos de como sermos  felizes, como emagrecer, como ter saúde, como ser bela aos cem anos, uma vez que a medicina moderna prolongará a vida devido ao estudo das células tronco. Nada dizem sobre como eliminar rugas.Existem as cirurgias estéticas, mas me apavora adquirir o olhar de pânico que algumas das operadas ostentam. Decoro alguns ditos interessantes, que uso em minhas conversas triviais, porém, só servem como perfumaria, quando o assunto não exige grandes erudições. Acho que com a idade nos chegam as perguntas sem resposta, as questões que nos pedem soluções que nunca temos. Certas perguntas afloram, se devo deixar de comer sobremesas porque as crianças da África não têm o que comer, ou porque o rico fica mais rico aplicando na bolsa e o pobre perde o pouco que tem em poupanças ridículas, enfim essas perguntas malucas que agora estão na roda de discussões, nos programas de debates de televisão, grandes autoridades discutem, e o mundo está cada vez pior.Será por isso que o poeta escreveu um livro de perguntas, pelo fato de não termos mais as respostas? Enfim, à noite em meu quarto de mulher sozinha exploro meu cérebro com esses assuntos polêmicos. Ah, Neruda,você tem razão, nada de respostas, as perguntas tem mais essência.Porém, foi a internet que me proporcionou, durante certo tempo, e-mails felizes.

Minhas amigas me têm como inteligente, como modelo de vida. Segundo elas, sou alegre, otimista, atraio todos, tenho namorados, enfim me atribuem todos os predicados que finjo ter.Lógico que floreio tudo o que me acontece.É emocionante quando percebo olhares de inveja, ou dúvida ou amargura.Nessa batalha valem todas as armas, desde que ninguém saia mortalmente ferido.No meu canto solitário tiro a máscara da felicidade da vida moderna, jogo-me no sofá, e assisto a todos os filmes da madrugada. E sinto saudade de meu amor que perdeu a guerra e se foi. Sofro de romantismo agudo.

Minha prima Silvia diz que tenho excesso de feronômio, o tão falado hormônio da sensualidade. Não conquisto somente os homens, atraio também os animais, principalmente os felinos.Diz ela, Oscar, avesso a carinhos, adora o meu colo. É verdade, logo que eu chego, ele se enrola em minhas pernas.Minhas conquistas são efêmeras, mesmo o gato Oscar não se compromete, só me agrada quando vou até ele.

Atraio os homens. Os de muita idade que sempre procuram uma viúva ou divorciada para ajudar nas despesas , porque os mais abastados buscam as borboletas da juventude, as menores de vinte e cinco, que iluminam a vida. Faz parte.Há as que se sujeitam a qualquer circunstância, apavoradas com a solidão. Não é o meu caso. Procuro um grande amor,  é uma grande fantasia, admito, mas ilusões alimentam o coração.

Hoje temos um programa.Vamos ouvir um conjunto de jazz,  gênero da minha paixão, um grupo que está renascendo das cinzas, voltando com toda a força, o fênix dos anos dourados. Ainda bem que os instrumentos são agora bem mais leves, não exigem tanto esforço de quem os conduz..Enfim vamos conferir.

Conferimos. Os senhores da banda são realmente bons, embora já não contem com os gritinhos nervosos das meninas de meia soquete e mocassino. A audiência mudou.

Um deles depois de olhares significativos, decidiu me dizer  que sou a mulher por quem ele esteve esperando.Não lhe digo que ele demorou muito, pois nesse tempo de espera envelheci Também evito  perguntar o que andou fazendo antes de me encontrar. Veio à nossa mesa num dos intervalos. Devo confessar que ouvir esse elogio aos sessenta é bem edificante, continuo fazendo a Poliana. Silvia diz que são os feronômios agindo, espera que eu  não me decepcione. Quero acreditar na ilusão de que ele é o amor que eu procuro.Mas nada digo. Preciso estudar o meio de campo, afinal artista sempre está representando, fazendo laboratório, testes para o papel principal. Não me incomodaria em ser a coadjuvante nessa história. Na verdade esse homem atraente de meia idade e bigodes brancos lembra o meu amor que se foi.Talvez seja uma projeção de identidade, mas me arriscarei.

Silvia e Dora, me recriminam, dizem que dou confiança a qualquer cafajeste.Essa palavra é de nosso tempo, bem como os senhores músicos. Tem inicio o segundo andamento, pagamos, então permanecemos. O ambiente é agradável, poucos jovens, mais casais de meia idade, uma cantora canta Billie Holiday, viajo no tempo, revejo a figura de meu amado nesse saxofonista que me olha interessado, relembro antigos afagos, e uma vida que poderá voltar na pessoa do homem em questão.O ambiente é propicio, a iluminação ajuda a maquiagem, uma noite perfeita.

Silvia e Dora concordam, admitem a semelhança, e me advertem, cuidado, não é a mesma pessoa.Desprezo os avisos, confio na  luxúria da minha maturidade. Talvez sejam os últimos gritos da primata que ainda habita em mim.

Conversamos em uma das mesas escondidas no fundo do bar. Ele é insinuante e tem o mesmo olhar, o mesmo porte, as mãos grandes e morenas, o corpo magro e elegante, é a reencarnação de meu amor perdido.Trocamos endereços eletrônicos, telefones, e promessas de nos revermos.Ele mora no sul, e esta noite partirá para continuar a turnê. Os e-mails chegam, muitos, respondo todos, contamos coisas da vida, nada que comprometa, o amor virtual é fascinante, cheio de juras e poucas respostas. Fantasio cenas eróticas, alucino encontros de paixão, beijos e abraços ousados.Sonho.Ao acordar beijo a foto de meu marido ausente.

Silvia e Dora desaprovam a minha conduta. Dizem que  estamos na idade de pegar o terço, e como dizia a nossa avó, essa não é a época da ilusão. A quimera não tem idade, respondo, há sempre tempo para o amor.

Silvia teve uma grande desilusão amorosa. Divorciou-se, e viveu para os filhos, que cresceram e voaram para outros ninhos.Dora nunca se casou.Na família sussurravam sobre uma paixão recolhida, mas tudo permaneceu em segredo, não se falava sobre o assunto. Um único encontro gerou um filho, que ela deu para adoção, historias misteriosas de família conservadora. Minha avó dizia na época, que os primos e os pombos é que sujam as casas italianas, mas nunca soubemos porquê, pelo menos eu e Silvia. A palavra de meus avós sempre foi lei em nossa família. Silvia, Dora e eu somos as protagonistas de diferentes historias de amor, e foi o que nos uniu. Nossos pais foram antes de nossos avós, contrariando a lei da probabilidade, e esse fato mais nos aproximou. Há mais mulheres sozinhas na família, os homens partem antes.

Depois dos e-mails acordo animada. Abro meu notebook, entro na rede, espero noticias. De repente, os dias passam e elas não chegam.Quase desisto, e um dia, assim do nada, a telinha se ilumina. Desculpe a ausência, diz o e-mail, estive muito ocupado, faremos nova apresentação em sua cidade, posso vê-la no café da manhã?

Café da manhã? Arriscado demais. Não há maquiagem que esconda rugas ao sol e  muito menos feronômios que sustentem um encontro às claras. Porém, aposto no amor, continuo Poliana, respondo que sim, o dia chega, e vou buscá-lo no hotel.

Fita-me como se me visse pela primeira vez.Sabia que a claridade me trairia. Seu silencio me constrange, perco a minha espontaneidade, não existe a efusão romântica da noite do primeiro encontro ou das juras eletrônicas.. Conversamos trivialidades, falamos do tempo, da opressão da cidade grande.Ele diz não estar preparado para o turbilhão das capitais.Eu admito que gostaria de um recanto mais tranqüilo. Não ouso dizer mais nada.Termina o café e levo-o de volta ao hotel. Desculpa-se, gostaria de passar o dia com você, mas tenho compromissos urgentes.Não me atrevo a  perguntar, e à noite? Ele se adianta.Informa que à noite visitará amigos da sua terra. Quase advirto que não nos resta muito tempo.Mas nada digo e compreendo de súbito, que ele não é a minha antiga paixão, portanto, despeço-me da fantasia. Silvia e Dora têm razão. Talvez não pegue o terço, mas conservarei os pés no chão. Assim que ele sai do carro, percebo no saguão uma borboleta esfuziante de uns vinte e cinco anos.Será ela a personagem principal da minha quase história de amor?

Teria sido uma bela história. Como acontece nos romances. Mas romances são ficção.

Recebemos o telegrama do interior. Nossa avó perdeu a guerra, e foi ao encontro marcado com seu amado. .Abandonou o campo de batalha, e nos deixou de herança a casa da família.

É uma surpresa. Somos muitas mulheres e muitos homens.Mas a casa não será dividida. Estamos na cidade de nossa infância e juventude. Relembramos os tempos de outrora, as reuniões da família, tempos de alegria.  Regados a vinho Chianti, vermelho e forte.

Revemos os parentes. Nossos filhos, netos e noras.Todos têm pressa. O mundo vai acabar amanhã? Porém, ainda há tempo de anunciar que doravante as festas serão na casa grande. Há afobação. Cada um deles tem a sua desculpa, o trabalho, a casa sozinha, a estrada cheia, e se vão..Noto um rapazote de uns dezoitos anos, não faz parte da família, mas tem a beleza da Dora nessa idade.É filho adotivo de um dos amigos de nossos avós. Dora aproxima-se e o abraça. Ele retribui o carinho, mas sua mãe se apresenta, nos cumprimenta relutante e retira-se com ele.Percebo um quê de desapontamento nos olhos de Dora.

Todos se vão.As formalidades estão cumpridas.Nós, as queridas primas, nos dirigimos até a varanda. O jardim interno está bem cuidado.Dora observa os brincos de princesa pendendo da trepadeira do caramanchão.Está chegando a primavera, diz ela, acho que vou esperar essa florada.

É um acordo tácito.Sabemos que permaneceremos nessa casa da felicidade.Voltamos às origens. As três juntas. Desfazemos as malas e nos instalamos nos antigos quartos. Examinamos os cômodos, relembrando o passado.Silvia vai até a cozinha, o fogão elétrico está intacto com a toalha de crochê sobre as quatro bocas. A voz de minha avó está nas palavras da poeta: “ aprenda a buscar a tua chave no fundo do mar/mas que ninguém te veja”.

Farei um café diz Silvia. A chaleira apita triste o fim da sua tarefa. O café está pronto.Preto e forte.O vento do leste espalha o aroma pela casa, que agora é o nosso mundo. Tomamos café no silencio aconchegante A voz de Dora nos traz de volta à terra. Depois do café desarrumarei as malas.Amanhã colocaremos os apartamentos à venda. Concordam? Concordamos. A mesa comprida de madeira rústica lembra saudade.”Sobre a mesa longa/os mesmos lugares vazios.”.

O sedutor Oscar, companheiro inseparável de Silvia, pula ansioso no meu colo. Os olhos verdes e rasgados dentro dos meus olhos cor de mel.O gato sensual. Rimos.Da cadeira de balanço, antevejo meu homem entrando pela porta da frente.Continuo com a ilusão de que um grande amor sempre volta.Vale a pena esperar.

Hora da reorganização. Silvia confere as fotos da família. Álbuns em ordem crescente: os antigos e depois os novos.Todos estamos lá, congelados nas fotos do passado. Quase irreconhecíveis. O tempo modifica para melhor e pior. Não há porquê guardá-los Começaremos um novo álbum. Do futuro __ sem perguntas elaboradas, sem febre, deixaremos o campo das idéias às mais novas no mundo. A primeira foto será  de nós três juntas.A câmera do meu celular registra o fato.

Dentro de meu intimo uma pergunta sem resposta insiste em permanecer, Permito que se instale, é um final da febre. Porém, não perco as esperanças. Enquanto Oscar, o felino,  pular para o meu colo ou se enrolar nas minhas pernas não desistirei da busca. Ele é o meu termômetro. Confio no seu faro.

São a certeza da eternidade

além do corpo – útero do universo

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2 comentários em “Três Primas e um Gato – Conto (Nilza Amaral)

  1. Maria Helena Vieira
    29 de abril de 2019

    Nilza, achei o que sempre acho das suas coisas, contos, romances, tudo lindo e bem escrito, neste um toque da velha e boa nostalgia! Beijo da Amiga, Maria Helena Vieira

  2. Nilza Amaral Antunes de Souza
    29 de abril de 2019

    Obrigada por publicar meu conti

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    ________________________________

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Publicado às 29 de abril de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .