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Detox Literário.

O Filho da Katia Perla – Conto (Angelo Rodrigues)

Tava voltando de férias com a minha Nataly, porque tiro férias uma vez por ano, mas Nataly tá sempre de férias porque é um mulherão e nem não precisa de trabalhar, e eu disse pra ela: Nataly, querida, nem não me saia de casa que vai chover homem na tua horta, que eu nem não quero pensar; e Nataly, que é parceirona demais, continuou lixando as unhas e me disse: Deu pra falar merda, Zacarias?; e eu nem não liguei, porque que ela tem umas unhas bonitas que ficam tirando cravo das minhas costas, e távamos de férias lá em Queimados, na casa do Baiano, irmão da Nataly, que é um sujeito bacana, dez, Cearense, mas que morou em Porto Alegre e fica falando feito gaúcho, e nunca entendi essa confusão, porque o Baiano fala como se tivesse segurando uma cuia de chimarrão, mas o que ele gosta mesmo é de uma pinga das Minas Gerais, e aí mesmo é que a coisa complica, porque taca no meio mais um estado e é muita confusão que vem junto, e foi um pouquinho antes de sair de Queimados que o Baiano me deu uma facada e me levou duzentas pratas dizendo que era pra desembuchar uma guria amiga dele, e fui logo perguntando: Que guria é essa, Baiano?, que se a situação tá preta e eu quero ajudar, coisa séria; e ele me disse: A guria é a Chininha, Zaca, que mora no meu coração; e eu nem não conhecia nenhuma Chininha, e ele disse que o nome dela ele nem não sabia também, mas todo mundo chamava ela de Chininha, uma menininha muito direita, dez, e era Chininha porque tinha o olho puxadinho, uma branquelinha meio índia meio japa, sei lá, e mais ele nem não sabia, que ele arrumou ela num pagode em Nova Iguaçu, que ela nem não desgrudava dele, e aí eu vi que a coisa era séria mesmo e botei mais duzentinho na mão dele, e ele ficou muito feliz e foi logo dizendo: Zacarias, você é o cunhado dez que Nataly me arranjou, e nem não sei o que faria sem você, e já que tu me deu quatrocentos, me passa mais cem que fica redondo, que vou acertar as coisas na melhor qualidade pra coitadinha da Chininha, que vai ficar nos trinque; e lá se foram quinhentinhos pra mão do Baiano, e ainda falam mal de cunhado, e nem posso concordar, porque meu cunhado é dez, parceiro, irmão da Nataly, e quando penso em Nataly tudo fica molenga que nem manteiga, fazendo até o que nem não quero, mas naquele dia eu queria, e acabei morrendo nos quinhentinhos com o Baiano, e quando cheguei em casa e contei tudo pra Nataly, ela teve um troço e quase me arriou a mão na cara, mas fui logo mostrando quem mandava no pedaço, e disse pra ela, na lata: Nem não se preocupe, querida, que é dinheiro pra cuidar da Chininha que tá embuchada do Baiano; e foi aí que ela ficou mais calma e falou: Zacarias, você é mesmo um otário, sabia?, dando dinheiro pro Baiano, aquele filho da puta do meu irmão; e foi quando eu mostrei a minha autoridade: Pensa na coitadinha da Chininha, querida, que é uma menininha de família que tá buchuda do teu irmão; e foi dizer isso que ela disse: Zacarias, seu otário, o Baiano vai encher os cornos de cerveja com teu dinheiro, vai pegar umas vadias no puteiro, gastar tudo num pagode, e nem não vai te pagar; e eu disse pra ela: Nataly, você é muito dura com todo mundo, deve de ter algum trauma de infância; e ela nem não ligou que eu ficasse aborrecido, mas que o aborrecimento foi embora quando vi Nataly deitadona com aqueles coxões que me dominam, aquele cabelo lambido, e aí eu fui chegando, chegando pertinho dela na cama e foi quando ela me meteu uma cotovelada nas costelas e disse: Zacarias, não me encha o saco porque hoje você passou da conta, e amanhã eu volto pra casa da minha mãe; e aí nem não teve mais o que fazer, e fui dormir um soninho agitado, só pensando que a Nataly ia embora, e ela foi embora mesmo, e eu nem não tava me aguentando, virava e mexia pensava na Nataly, e era uma tremenda agonia, e fui procurar o Baiano pra fazer uma ponte com Nataly, e ele disse: Zacharias, Nataly nem não quer saber de você, porque você vive fazendo merda; e foi aí que eu fiquei danado e falei, sem piedade: Baiano, me ajude por favor!; e o Baiano falou: Na boa, Zacarias, que a gente dá um jeito na coisa, tô aqui pra isso, amigão, que você é um trouxa mas é um cara legal; e eu fiquei pensando: Esse Baiano vai querer me dar outra facada, levar uns cobres; mas não, ele falou: Zacarias, vou te levar prum pagode que tá cheio de mulher, e tu vai se arrumar, pegar uma garota ainda melhor que Nataly; e eu disse: Só quero a Nataly, Baiano, que é minha parceirona de fé!; e o Baiano me arrastou pra dentro do meu Fucão 64 e falou: Zacarias, com esse teu carrão bonito que parece uma borboleta, tu só vai pegar mulher boa; e me mandou imbicar pra Coelho Neto, e caímos num pagode enfezado que fedia a suor e cerveja que era uma desgraça, que fiquei tonto de cara com aquele fedor enjoado de sovaco, e era um vaivém desgraçado, e o Baiano saiu me arrastando, me empurrando entre a mulherada que quando nem não fedia a inhaca, cheirava a talco Gessi e Leite de Rosas, tudo misturado com bafo de cerveja, no meio duns caras feios pra caramba, com um bafo de cachaça que saía lá do fundo do pulmão, que chegava a doer a cabeça, e era tudo amigo do Baiano, porque o Baiano é um cara dez, conhecido de todo mundo, querido, menos pelos caras que ele pede dinheiro emprestado e nem não paga, mas tudo bem, a vida é assim, fazer o quê, que essa é mesmo a vida de pobre, e o Baiano nunca arruma emprego, e agora ele nem procura mais porque periga de encontrar e ele nem não quer isso de jeito nenhum, e de repente ele me imbicou na mesa duma branquela com jeito de coisa e tal, e foi logo falando: Katia Perla, esse é meu parceiro Zacarias, e você tem que dar um trato nele, porque ele é gente boa; e foi me tacando elogio, me entusiasmando, mas fiquei meio sem jeito com a tal Katia Perla, que tinha um corpinho esmirradinho, e eu só pensando nos cadeirões da Nataly, e falei pro Baiano: Baiano, essa mulher nem não chega perto da Nataly, e olhando essa Katia Perla eu só sinto vontade de dar a ela um prato de comida, e essa guria deve de tá com verme de tão buchudinha que tá; mas a Katia Perla parecia uma garota legal, dez, e foi logo se chegando, e falou com a língua dentro do meu ouvido: Zacarias, tu é um cara legal, gente boa; e foi me arrastando pro meio do salão, e foi me puxando prum pagode, me deixando tonto, porque sou um homem viril e nem não sei nada de dancinhas, porque macho não dança, e ela me tacou logo um beijo lambido que eu nem não sabia se era cuspe ou cerveja, e foi me apertando, pegando meus peitos, e eu só dizendo pra ela: Katia Perla, sossega com isso; e ela só me agarrando, e foi me empurrando pra fora do pagode, e de repente já tava sentada no meu possante, e mais um pouquinho eu já tava na Pavuna com ela, e acabei enfiando a magriça no meu quarto e a coitada da garota, tão novinha, sendo assim seduzida e arrastada pra cama dum homem desconhecido, não, não, eu nem não sou dessas coisas, e só pensando na Nataly, e ela foi logo tirando a minha roupa, me beijando, lambendo meus peitos, e era língua pra cá, língua pra lá, e eu sentindo aquele bafo enjoado de cerveja, e falei pra ela: Que bafo de cerveja é esse, menina, tu tem idade pra isso?; e ela meteu um drops de hortelã na boca, e já tava pelada, e as coisa foi esquentando, e vai pra cá e vai pra lá e sobe e desce e desce e sobe, e a diaba me agarrando, e as coisas foram ficando cada vez mais enfezadas, e eu só pensava na Nataly, mas Nataly nem não queria mais nada comigo, e eu olhei com mais jeito pra Katia Perla e vi que ela até que dava um caldo, mas tinha uma barriguinha danada que parecia cheia de vermes, mas não, era só das cervejadas nos pagodes, e tudo foi indo até que no dia seguinte ela apareceu de novo lá em casa com uma mala que tinham o tamanho dela, e me disse: Zacarias, meu querido, vou ficar contigo porque você me engravidou, e isso não se faz com uma garota direita como eu, e se você não se responsabilizar pelo nosso filho vou ter um troço, vou largar teu filho na rua, te meto na cadeia por estupro porque sou uma garota direita, faço um escândalo na tua repartição, o diabo; e eu só pensando: Coitadinha da Katia Perla, o que eu fui fazer com ela, tanta ingenuidade, uma garota perdida, desamparada; e fiquei achando que eu era um tremendo canalha me aproveitando dela, assim, sem mais nem menos, mas como sou das responsabilidades, disse pra Katia Perla: Katia Perla, não faça isso com o nosso filho, que a casa tá vazia mesmo, sem a minha Nataly; e o tempo foi passando, e a barriga dela crescendo e eu procurando o Baiano pra falar da Katia Perla, e ele só fugindo de mim como um cão foge da cruz, porque nem não queria saber de mim, e eu nem não sabia o que fazer, e logo eu ia ser pai de mais um desgraçado nesse mundo de Deus, e de repente a Katia Perla, que já tava com um tremendo barrigão, falou: É hoje, Zacarias, que esse desgraçado nasce; e fui bater na porta do barraco do Plínio pedindo ajuda, e o Plínio foi falar com a velha Tuta, que é a parteira do bairro, uma velha suja pra caramba, toda descabelada, mas muito distinta, uma tremenda parteirona, e eu falei pra velha Tuta: Vambora, dona Tuta, que o moleque vai tá espirrando daqui a pouco; e a velha descabelada começou a correr pra lá e pra cá, parecendo ainda mais maluca do que já era, e eu agarrei a velha e arrastei ela pra minha casa, onde tava a Katia Perla, e ela começou a pedir toalha e águas quentes e me expulsou do quarto, e ficou sozinha com a Katia Perla, e eu fiquei do lado de fora muito curioso pra saber que bicho saía dali, e de repente escutei um choro de criança e falei pro Plínio: Plínio, garoto bom, meu filho nasceu; e gritei pra velha descabelada: Traz aqui esse moleque, dona Tuta, que quero ver a cara dele; e ela, com uma cara estranha pra caramba, que parecia um fantasma preto, trouxe o moleque embrulhadinho, um nadinha, um tiquinho, um moleque escurinho que tinha a cara do Baiano, e eu falei com a branquela da Katia Perla: Que moleque é esse que tu me arrumou, Katia Perla, isso não tá direito; e a coisa começou a pegar fogo, e a branquela da Katia Perla foi logo dizendo: O filho é teu Zacarias, e não admito insinuações com a minha honra, porque sou uma garota direita; e a velha descabela ainda me arrancou duzentas pratas da carteira, e quando recebeu o dinheiro ainda me chamou de otário, e o tempo foi passando e eu nem não sabia mais o que fazer, e botava o moleque no colo, e o moleque só tinha a cara do Baiano, e eu procurando pelo Baiano e o Baiano fugindo de mim como o santo foge da cruz, e já doido pra sair dessa enrascada, fui bater na casa da dona Dulce, a mãe da Nataly, que era tão descabelada e velha quanto a dona Tuta, e ela me recebeu feliz da vida, com um sorriso que só mostrava gengiva, e foi logo dizendo pra mim: Zacarias, meu querido, em que cagada você se meteu?; e eu falei pra ela: Dona Dulce, a senhora é um dolce, e me ajuda pelo amor de Deus, que quero falar com Nataly; e dona Dulce me olhou de banda e chamou a Nataly, que veio correndo, e eu contei pra ela essa história do pagode, do Baiano, da Katia Perla, do moleque que era meu filho mas nem não era não, mas era a cara do Baiano, e então ela falou: Vambora, Zacarias, que vou tirar você de mais essa cagada; e enfiei a Nataly no meu Fucão e imbiquei pra Pavuna, e Nataly foi entrando na casa e empurrando a magricela da Katia Perla e dizendo pra ela: O que você tá aprontando com meu homem, vadia?; e foi logo pegando o moleque e dando uma olhada, passando o olho aqui e ali, que só a Nataly sabe fazer, e disse pra Katia Perla: Vadia, você e o Baiano são dois filhos da puta de merda; e arrastou a branquela pelo braço e enfiou tudo dela no carro também, com todo mundo junto, e disse pra mim: Zacaria, seu otário, toca pra casa do Baiano em Queimados; e eu imbiquei pra Queimados, e quando a gente chegou lá, o Baiano tava só de sunga, tomando um banho de mangueira e pegando um sol pra ficar mais moreninho, e essa coisa de preto ficar mais moreninho eu nunca entendi, mas tudo bem, é a vida, e Nataly foi entrando com o moleque no colo e botou ele no colo do Baiano e disse: Baiano, o filho é teu, seu sacana; e virou pra mim e falou, cheia de jeito: Zacarias, seu otário, essa vadia da Katia Perla é a Chininha que você deu dinheiro pro Baiano desembuchar ela, e você nem pra se tocar; e foi quando a Katia Perla que virou Chininha nem ligou, e foi logo se instalando na casa do Baiano, tirando a mala do carro, e eu achei que tava tudo bem, porque o moleque já tinha um pai de verdade, e Nataly antes de entrar no carro deu um cascudo no Baiano, e foi dizendo: Baiano, não sacaneia meu homem; e disse pra mim: Toca pra casa; e eu nem não sabia de que casa ela falava, e aí ela falou: Zacarias, meu chapa, micasaessucasa; e eu pensei que ela tava maluca também, falando bobagens, mas nem não liguei, porque Nataly tava ali comigo, e imbicamos pra Pavuna, e Nataly foi logo se instalando novamente na casa, e eu olhando o molejo daqueles cadeirões dela, e Nataly foi logo ajeitando as coisas, passando uma vassoura no chão que tava imundo pra caramba, botando um lençol limpo na cama, e depois deitou na cama toda embonecada e foi logo falando pra mim: Vem pra cá, Zacarias, antes que eu perca a paciência contigo novamente.

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5 comentários em “O Filho da Katia Perla – Conto (Angelo Rodrigues)

  1. angst447
    25 de abril de 2019

    Conto muito divertido com o já conhecido personagem Zacarias. O sujeito ou é muito ingênuo ou desprovido de neurônios operantes. Nataly parece ser uma grande sacana, mas no fundo, no fundo, é mesmo uma parceirona. O ritmo da narrativa é alucinante, acompanha bem a velocidade do desenrolar das ações promovidas pelos hilários personagens. Só uma coisa me irritou um pouco – a quantia de NEM NÃO por todo o texto. É o modo do Zacarias falar? Achei que empacou um pouco o fluxo aí. De qualquer modo, parabéns pela criatividade e habilidade com as palavras. Nota 10,0.

    • Angelo Rodrigues
      26 de abril de 2019

      Oi, Cláudia,
      não é que eu achei o mesmo com esse NEM NÃO… mas só me dei conta depois de haver remetido, e lá se foi. Ficou mesmo cansativo. Estou tirando daqui, do original, esse excesso.
      Seria o modo falar do Zacarias, que é comum a algumas pessoas como ele, que reafirmam uma negação dobrando-a. Mas não ficou bom realmente.
      Valeu, e obrigado.

  2. Juliana Calafange
    25 de abril de 2019

    Angelo, me diverti a beça, vc escreve bem, texto que devia ter concorrido no desafio comédia, estaria no pódio.

  3. Fernabda Caleffi Barbetta
    21 de abril de 2019

    Muito bom o texto, como já percebo que são todos os contos protagonizados por um Zacarias. Só preferiria que tivesse acabado com o Zacarias de tonto mesmo, achando que o filho era dele, sem ter q explicar depois que aquela era a tal grávida do Baiano … mas aí é opinião minha como leitora sacana mesmo rsrs. Parabéns pelo texto.

  4. Antonio Stegues Batista
    20 de abril de 2019

    É claro que a estrutura do conto, sem ponto, sem parágrafos é de propósito, um estilo válido, simples e sem etiquetas como o Zacarias. Zacarias sempre entrando em frias, (até rimou), mas no fim tudo termina bem. Para ler sem respirar. Muito bom.

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Publicado às 20 de abril de 2019 por em Contos Off-Desafio e marcado .