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“Born Cartolla” – Levi Tonin – Resenha (Higor Benizio)

Lançado recentemente pela Editora Avec, Born Catolla é um mangá nacional escrito e ilustrado por Levi Tonin, concebido através de campanha de financiamento coletivo (na qual tive o prazer de contribuir); e é, sem dúvida, um fato novo no mercado brasileiro de mangas e HQs.

Nele acompanhamos Galla Cartolla, uma famosa “viajante”. Viajantes, no mundo criado por Tonin, são seres que possuem mais afinidade com a magia, e carregam o dever de viajar o mundo protegendo “humanos normais” de criaturas mágicas como a Sombra Absurda, que um dia atacou a família do jovem Terry Mac Éan, levando seus olhos. Logo no começo da trama, Galla conhece Terry no meio de uma de suas viagens e ajuda o rapaz a recuperar a visão, prometendo levá-lo junto com ela para que pudesse vislumbrar todo o mundo com os novos olhos que ganhara. Juntos, Galla e Terry se deparam com um problema que atinge o mundo dos viajantes: uma organização de viajantes desertores, a Belle Máfia, planeja uma revolução contra a tradição viajante, revogando sua superioridade frente aos humanos comuns.

Aqui já encontramos a primeira pista da razão de Born ser um fato novo em terras tupiniquins: não é nenhuma cópia “realocada” de quadrinhos e mangás estrangeiros. Não, não temos um Dragão Amazonense, nem Samurais Cariocas ou Paulistanos. Mas um mundo fantástico inédito em suas definições e indefinições. Toda a cultura criada em torno dos viajantes, e os meios pelos quais praticam sua magia, é original e criativa. As batalhas não seguem os padrões usuais, mas um trabalho minucioso no uso das características individuas de cada um dos personagens, todas bem exploradas em quadros bonitos e bons ângulos.

A arte do mangá segue o mesmo padrão, se destacando por não “emular”, digamos assim, os mangás japoneses, mas ser uma tentativa (muito bem-sucedida) de entregar um traço onde é reconhecível a individualidade do autor, que mescla visuais do mundo todo.

Mas nem tudo são flores nesta aventura de Galla Catolla. O mangá carrega a proposta de ser um volume único, e não cumpri muito bem este quesito. Tem mais a cara de um grande prólogo, visto que muitos aspectos do mundo fantástico criado pelo autor são entregues num curto espaço de tempo, em detrimento do enfoque numa narrativa principal a ser finalizada, que muitas vezes não fica muito clara. O resultado disto são algumas páginas de “resumão”, numa tentativa de dar coesão ao enredo aparentemente principal, mas que não funciona muito bem.

Outro problema é o excesso de explicações, que acaba sufocando a fantasia. A primeira batalha entre dois viajantes que acompanhamos, por exemplo, que deveria ser uma sequência de vislumbres fantásticos e surpreendentes, acaba virando um grande glossário um pouco maçante, com explicações de cada um dos movimentos e de cada magia utilizada.

Estes são aspectos que podem incomodar um pouco, mas não comprometem a obra por completo. Para além de uma produção de entretenimento fast- food, Born Catolla nos traz uma mensagem de apreço pelo que é bom, belo e verdadeiro, e que perdura através do tempo, representado pela ordem da sociedade viajante; frente ao mau, feio e caótico, exposto no relativismo pueril da Belle Máfia, que traz consigo uma mentalidade revolucionária destrutiva e perversa.

Em suas mais 400 páginas, no formato 16×23 cm e papel Lux Cream 70g, a obra de Levi Tonin é uma luz no fim do túnel de mesmice pelo qual, ao que parece, toda indústria do entretenimento se perdeu dos trilhos.

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4 comentários em ““Born Cartolla” – Levi Tonin – Resenha (Higor Benizio)

  1. Sidney Muniz
    15 de abril de 2019

    Ah, me deu vontade de conhecer a obra, vou pesquisar e ver se encontro e adquiro.

    Sabe, gosto muito de mangás, animes baseados nestes, mesmo não sendo um perito no assunto tenho que discordar de alguns pontos, eu gosto bastante de mesmices quando bem trabalhadas, às vezes queremos tanto o novo, claro que queremos, mas há trabalhos que mesmo não fugindo dos clichês são muito bons, e seria obrigatório inovar quando a fórmula é tão boa?

    Sim, não se trata de obrigação, mas também não é uma questão de falta de originalidade, é algo que envolve mercado, referências entre tantas outras coisas.

    Temos por exemplo Naruto e Black Clover que mesmo o segundo inicialmente parecendo uma cópia do primeiro, logo descobrimos que a proximidade e os clichês são irrelevantes, ao menos comigo foi assim, e de repente nos empolgamos e esquecemos que no início tudo era tão igual. Na verdade o segundo tem uma dinâmica maior que o primeiro, mas é claro que Naruto a cada episódio se mostra uma das melhores analogias a vida real no que se refere a mangás, e agora vemos Boruto que traz o algo mais contemporâneo, já não é mais o menino que faz as missões para ter o dinheiro para comer, e agora tem tudo de mão beijada…Estamos sempre em um novo mundo, mesmo na mesmice de suas situações, personagens e enredos, ou quase tudo, sejam monstros, anjos, ou humanos.

    Não poderia deixar de mencionar Shingeki no Kyojin que tem toda sua originalidade, gigantes que comem homens (mas já vimos isso desde João e o Pé de feijão, titãs? Cronos? Nada a ver né… mas é que tudo é cópia até eu, uma cópia do meu pai, cuspido e escarrado). A verdade é que aqui tudo é tratado de outra forma numa conspiração incrivelmente bem construída onde o bem e o mau não estão em lado nenhum, ou estão? E a ambientação desse mangá, os personagens, a forma como eles vem e vão e ficam para sempre. Meio GOT, mas muito bem feito.

    Bem, mas olha o que você me fez pensar? Estou aqui me perguntando, seria mesmo impossível se criar algo baseado nas nossas lendas, algo que pudesse ser valorizado e bem executado? Algo no rio? Na Amazônia? Porque sempre vemos o lado ruim? Não seria porque ainda não encontraram a forma perfeita? A fórmula perfeita? Não precisa ser um mangá de ação, isto talvez esteja em nossas predileções, talvez ainda teremos um mangá a altura de nossas lendas…

    Não duvido, na verdade torço muito para que cheguemos um dia e encontremos mais do que já temos, que tenhamos novas histórias brasileiras, que possamos sim ver um “Doutrinador” melhor, mas vejamos pelo lado positivo “por mais que eu tenha achado que ficamos devendo no filme” mas a série de quadrinhos vale a pena e podemos enxergar uma luz, uma pequena luz no fim do túnel.

    Sabe, será que é tão difícil termos algo como o excelente Death Note? Não sei se é algo tão deslocado para não pensarmos ser possível, ou utilizando da modernidade, da imaginação, da ousadia extrema, da loucura, ou de qualquer outra carta na manga desse povo brasileiro, que venham artistas que acreditem nessa possibilidade, pois queria ver algo maluco o bastante para me conquistar.

    Obrigado pela indicação e pelo exercício de me fazer pensar sobre o assunto.

    Longos dias e belas noites!

    • Higor Benizio
      15 de abril de 2019

      Que seus dias sejam longos sobre a terra, Sidney! Tenho boas novas de Gilead: dá para comprar o Born na Amazon 😉 Concordo com você, apenas olhamos por lentes diferentes. Condeno cópias realocadas para cenários brasileiros de obras estrangeiras, que é o que muitos fazem aqui no Brasil ao invés de arriscar uma criação mais original (aspectos do que é a vida humana em essência sempre vão se repetir, e isto é excelente). O Espadachim de Carvão por exemplo, do Affonso Solano é um negócio incrível, original e, junto com o Born, são realmente luzes no fim do túnel na fantasia brasileira, ou da falta dela. A Torre Negra é um grande exemplo disso tudo. Obrigado pela leitura, espero qie goste do Born tanto quanto eu gostei.

  2. Caliel Alves
    14 de abril de 2019

    A mesmice é muito mais pelo que os editores nacionais tendem a publicar aqui do que propriamente o que se produz lá no Japão. “entretenimento fast- food”, olha eu não concordo que mangá seja ele nacional ou estrangeiro um entretenimento fast-food não, mas tudo bem.

  3. Angelo Rodrigues
    14 de abril de 2019

    Oi, Higor,
    parabéns pela resenha. Ao Tonin também, porque, se os desenhos são como o que você mostrou, me pareceu fabuloso.
    Entendo muito pouco de mangás, o que se deveu pela vontade de não competir (ou interferir) com as leituras do meu filho. Tenho aqui em casa um zilhão de mangás deixados por ele quando casou e se mudou com a esposa. Às vezes folheio alguns e leio, mas pouco.
    Não sei bem se compreendi a sua última frase da resenha quando disse que o trabalho do Tonin é uma luz no fim do túnel dada a mesmice em que se encontra a indústria do entretenimento (não sei se daqui ou de todo o mundo). Concordo quanto à mesmice, mas faço uma ressalva quanto aos mangás.
    Passei um tempo no Japão e o que vi por lá (restrinjo-me ao mundo dos mangás) é justamente o contrário. Eu entrava em prédios de dez andares e ia descendo, do último ao primeiro andar, e aquilo eram livrarias de mangás, tudo alucinadamente cheio, com centenas de pessoas folheando revistas e livros (mangás) e eram diversos prédios assim, livrarias, bancas, novas edições, reedições, uma febre alucinada. Algo impressionante. Nos metrôs as pessoas não falavam (de modo geral elas não falam), ou porque estavam no celular ou lendo revistas de mangá.
    Se a questão é mangá, sei não, mas acho que tá fervendo, ao menos por lá.
    Novamente, parabéns pelo texto. Abraços.

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Publicado às 14 de abril de 2019 por em Resenhas e marcado , .