EntreContos

Detox Literário.

Quirino (Curuzu)

AVISO DA MODERAÇÃO: Esse conto foi desclassificado do certame e sua leitura não é mais obrigatória. Os comentários não aparecerão após o desafio.

 

Agô, Garcia Marquez”.

 

I

As crianças que notaram aquele vulto se aproximar pelo rio imaginaram se tratar de uma canoa.

Depois, aquiescendo à opinião daqueles que possuíam uma visão mais aguçada, ponderaram que deveria ser alguma espécie de peixe gigante. No entanto, quando a coisa encalhou junto às toras de madeira do ancoradouro, tiraram-lhe as algas, os pedaços de cardumes e o que restara dos mistérios das águas, e viram que se tratava de um afogado.

Não saberiam dizer por quanto tempo haviam se demorado ali, brincando com ele por toda a tarde que Iansã deu: cobrindo-o e descobrindo-o com folhas de palmeira, taioba e chacrona; ou sentando sobre seu corpo descomunal e imaginando que, a qualquer momento, despertaria do seu sono de náufrago e caminharia com passos de gigante por todos os rios, desembocaduras, igarapés e oceanos do mundo. De fato, é bem provável que continuassem lá, atravessando dias e noites de risos, se os pescadores não os tivessem visto quase que por acaso e lhes tomado o brinquedo fantástico.

Foram necessárias três redes emendadas e quatro homens para carregá-lo até Pontal do Pilar. Três horas de andança, e duas cruzando a ponta do perau, onde Tomé mais de uma vez comentara com Atalaia, que jurara para Pedro, que afiançara para Solano, que aquele afogado pesava mais que todos os afogados conhecidos – mais até que Chico Tristeza, Oxalá o guie, cujo corpo fora encontrado comido de peixe e siri para além do mangue de Mocanguê.

Quando por fim chegaram e o colocaram sobre a terra, algumas pessoas mais próximas murmuraram que aquele morto deveria ter sido o maior de todos os defuntos; e dois velhos pescadores apregoaram para quem quisesse ouvir que alguns afogados tinham realmente a capacidade de continuar crescendo mesmo depois da morte.

Não se lembram de João Grande?”

Todos fizeram que sim e, enquanto olhavam para aquele afogado, notaram que só os contornos de seu corpo avantajado permitiam que supusessem que fosse um cadáver de um ser humano, porque sua pele estava revestida de uma couraça de rêmora e lodo. Mas não tiveram que limpar seu rosto para concluir que era um morto oriundo de outro lugar, pois Pontal do Pilar tinha apenas umas dez ou onze casas dispostas no extremo de uma restinga desértica, com cercas de pau-de-aroeira e tocos de gameleira branca enfeitando a entrada de cada soleira. Todos que viviam ali se conheciam; gerações e gerações desde a sua fundação que, assim contam, descendia da mesma veia guerreira do povo Palmar. Então, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava.

“Tomé e Dora”.

“Atalaia e Rita”.

“Gumercindo e Lívia”.

“Velho Jango e Dona Quinita”.

“Pedro”.

“Paulo e Catarina”.

“Solano e Inaê”.

“Mestre Jacques e Marília”.

“Aruã e Naína”.

“Pai Firmino”

“Rosália”.

Estavam completos.

 

II

Naquela noite não houve cantoria e ninguém trabalhou no rio ou no mar.

Enquanto os homens partiram na direção dos povoados vizinhos – Cruz Alta, Prainha, Vila Azul, Beira-Mar – para inquirir se não faltava ninguém por lá, as mulheres incumbiram-se de cuidar do afogado. Estenderam-no com hercúlea dificuldade sobre uma mesa de baobá, tiraram-lhe o lodo com escovas de aço, desembaraçaram-lhe os cabelos dos plânctons e rasparam por horas a couraça com ferros de descamar peixes. À medida que o faziam, repararam que a vegetação que se desvencilhava era oriunda de rios profundos; e que suas roupas de feitio estranho estavam em frangalhos, como houvesse nadado por entre locas, labirintos estreitos de pedras pontiagudas e outros caminhos que só Oxum e Iara conhecem e dividem no silêncio das noites. Perceberam também que trazia a morte com altivez, diferente dos outros afogados cujo semblante sofrido era frio e solitário.

“Tem até o rosto de meu irmão no dia que arribaram com o que sobrou dele lá da viração em Itabimirim. Ele tava era mesmo assim. Igualzinho. Sorrindo…”.

“Lembra é meu pai quando toparam com ele na praia depois daquela tempestade braba. Aruã é quem contou que no rosto do velho brilhava uma paz de dar gosto. Talvez até se parecesse com esse um aí…”.

“Meu avô também, Marília. É verdade que ninguém achou o corpo dele. Isso é. Mas, se o tivessem encontrado, eu juro por essa luz que me alumia que deveria de estar desse jeito aí. Com toda essa valentia na hora da morte…”.

Porém, somente quando acabaram de limpá-lo é que tiveram a real consciência da estirpe de homem que era. Não era apenas o mais alto, o mais robusto e o mais belicoso que jamais tinham visto na terra; havia algo indescritível naquele morto, algo maravilhoso na maneira como aqueles olhos fechados pareciam olhar para o âmago de cada uma delas; uma imensidão solene e portentosa que não cabia – e não poderia caber jamais – na imaginação.

“Quirino…”

“Como é?”

“Tem cara de chamar Quirino…”.

Quem falou foi Rosália, despertando-as do torpor momentâneo. Elas se olharam por um momento e depois, com um ar pensativo, tornaram a olhar para o afogado.

“Lindo desse jeito é bem possível que vire o melhor dos noivos de Iemanjá, ela que é quem recebe todos os afogados nas terras do fundo do mar…”.

Pensaram umas, invejando Iemanjá que teria como companhia aquele homem.

“Quirino veio é do rio. Então, sua cama de noivo deve de ser no leito doce de Oxum…”.

Imaginaram outras, inclinando-se a sentir até mesmo rancor de Oxum por levar uma coisa tão maravilhosa assim.

“Olhem o rosto dele. É Quirino sem tirar nem por…”.

Concordaram todas, sorrindo tristemente.

Vestiram-no com o que conseguiram improvisar com as mãos, pois não encontraram em nenhum lugar roupas que servissem naquele corpo descomunal. Coseram-lhe um lenço para tapar a dignidade do rosto e fizeram uma bata grande a partir das duas velas brancas que um dia enfeitaram o saveiro do finado Mestre Benedito – que Ogum o coloque em bom lugar – de modo que Quirino ficou parecendo um rei daquelas histórias que os babalaôs de Figueira Alta costumavam contar nas festas de Cosme e Damião.

Assim que os homens retornaram com a notícia de que o afogado também não parecia pertencer a nenhum dos povoados vizinhos, as mulheres começaram a chorar e gritar em uníssono:

“É nosso! Ora iê iê, Oxum! Odô-fe-iaba! Odoiá, Iemanjá! Quirino é nosso!”

Eles trocaram olhares e menearam a cabeça acreditando que aquilo não passava de frivolidades de mulher. Cansados das demoradas averiguações da noite, resolveram terminar com a história daquele morto que já começava a se tornar um incômodo. Improvisaram um esquife com restos de canoas e pegaram as pedras mais pesadas que pudessem servir de peso para que o corpo, quando atirado no mar, não voltasse indesejadamente à superfície.

Porém, quanto mais se apressavam naquela tarefa, mais as mulheres os estorvavam com recomendações absurdas e cuidados excessivos na hora de manejar o defunto. Elas suspiravam, tomavam a dianteira tropeçando entre si, bradavam ordens. Algumas traziam colares, guias de Xangô, Omulu e Oxóssi, para pendurar em volta do pescoço maciço do afogado. Outras, com lágrimas marejando os olhos, abotoavam-lhe nos pulsos desproporcionais pulseiras enfeitadas de búzios para que ele pudesse encontrar o caminho até os palácios de Iemanjá que ficavam além-do-além do além-mar, lá nas terras de Aiocá onde a vida haveria de ser boa e o medo uma mentira.

“Saia daí, preta!”

“Não saio!”

“Vá para casa, Quinita!”

“Não vou!”

“E essa moringa, Rita?!”

“É para que ele beba quando sentir sede na viagem!”

“Você está aluada, Lívia!? Para que vai embonecrar o morto!?”

“Oxum vai querer se deitar com ele, meu preto!”

“Os tubarões vão comer ele todinho, Dora! Pare já com essa ousadia!”

Uma das mulheres, ao ouvir aquilo, mortificada por tanta insensibilidade, tirou o lenço do rosto do cadáver e agora também os homens, vendo aquele semblante, foram tomados de admiração e espanto.

“Olhe, seu mano. O rosto dele…”.

“É a cara cagada de meu pai quando voltou carregado lá das pedras de Mar Alto…”.

Disse Tomé. Ou foi Pedro? Ou tinha sido Solano? Balduíno? Ou quem sabe fora até mesmo Pai Firmino, ele que até então só falava com os búzios, a ventania, a maresia…

“Parece até o meu primo. Tu te lembras?”

“Tem o jeito do nosso filho que se perdeu quando a canoa virou…”.

“Lembra é minha filha. Lalinha. Morreu anjo. Tadinha…”.

Era Quirino. Não era preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Quirino pertencia a eles. Era cada perda, todas as mortes, cada familiar que se afogara no seio do rio, naufragara no mar ou se perdera no barulho dessa vida. Por conta disso, e apenas disso, que lhe fizeram o funeral mais esplêndido que poderiam conceber. Encarregaram-se de arrumar ainda mais presentes, e algumas pessoas que tinham ido buscar flores nos povoados mais próximos voltaram com outras que não acreditavam na beleza de Quirino; e estas, depois de olharem-no demoradamente – a altivez com que portava o fim, o sorriso delicado insinuando-se nos lábios sem vida, a força de suas mãos –, reconheceram em suas feições as próprias perdas e foram buscar mais ainda flores.

Na hora derradeira, doeu-lhes devolvê-lo. Tiveram a ideia de pousarem-no suavemente sobre a ponta do perau para que o esquife deslizasse ao sabor da maré mansa e que, quem sabe, ele pudesse escolher entre o rio e mar, entre Oxum e Iemanjá, ou até mesmo em voltar.

“Lá vai Quirino”.

“Benção, Quirino”.

“Adeus, Quirino”.

“Até logo, meu filho”.

“Adeus, prima”.

“Vá com Oxalá, meu pai”.

“Dê um beijo em sua mãe, filhinha”.

Despediram-se enquanto as ondas o conduziam para além da barra do horizonte. Na volta, não tiveram a mínima necessidade de se olhar para perceberem que não estavam completos. No entanto, por alguma razão que não sabiam precisar, tinham a certeza que tudo seria diferente. E os casais mais jovens de Pontal do Pilar, mesmo ainda cheios de tristeza, permitiram-se experimentar o amor após o luto daquela noite. Amaram-se por entre as pedras e lágrimas; curvaram-se por sobre os quintais cheios de flores, beijaram-se na beira do mar, nos ancoradouros de toras irregulares, na boca do rio debaixo de estrelas que brilhavam mais do que em qualquer outro lugar, pois fora do rio que viera Quirino.

O afogado virou lenda, tornou cordel seu destino. Teve nome em mais de um pano de vela, verso de Chegança e Divino. E as moças de Pontal do Pilar, nos anos que se seguiram, tiveram ainda mais e mais filhos. Meninas, meninos, irmãos, irmãs, primas, primos. E o rosto de cada um deles era, de novo, Quirino.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.