EntreContos

Detox Literário.

Lúcia no Mundo das Coisas (B. Corina)

Lúcia tinha uma grande admiração pela palavra coisa, ela via nesse agregado de letras a possibilidade de ser tudo e nada ao mesmo tempo, não possuía nenhum significado concreto e ainda assim tinha o poder de ser compreendida numa infinidade de situações.

Uma pessoa, um alimento, um objeto, uma peça musical, aos olhos de Lúcia aquilo era incrível! Podia até ser um xingamento numa frase bem construída: saia daqui, sua coisa! Não havia limites para as possibilidades, ou, ao menos, Lúcia tentava comprovar isso. Há algum tempo já ela havia se proposto um desafio:

Pedir temas para terceiros e estruturar frases ou situações onde a palavra coisa se encaixe como substituta do objeto sem causar qualquer estranhamento.

Isso havia se tornado uma coleção que já contava com três volumes. Não havia nenhum grande objetivo com toda essa dedicação. Era um passatempo, uma admiração. Lúcia estava desapontada hoje, havia pedido um assunto para três pessoas e tudo o que conseguiu foram temas repetidos ou sem graça.

_Roupas – ela disse para si mesma revirando os olhos – o que há de desafiador em roupas? Tira essa coisa de cima da cama! – ela continuou resmungando – Você vai vestindo essa coisa? Que coisa estranha de se vestir!

Chutou uma espiga de milho para fora da calçada. Ainda estava cabisbaixa quando quase esbarrou numa senhora. A mulher era muito alta e magra, com os ossos saltados e bem definidos nas bochechas. Por um momento, Lúcia teve a impressão que a senhora havia ficado desapontada com a falta do impacto.

_Me desculpe! – disse já dando um passo para o lado, mas a senhora agarrou gentilmente o braço de Lúcia.

_Você é uma coisa muito preciosa – declarou e soltou a garota, continuando seu caminho normalmente.

Lúcia observou a figura dobrar a esquina. Sem notar, colocou a mão onde a senhora a havia agarrado e segurou. Os dias que se seguiram foram recheados de outros acontecimentos igualmente incomuns, outras pessoas falando gratuitamente com ela, dizendo coisas estranhas.

Um velhinho no semáforo: que coisa mais bonita de se ver, disse fazendo referência aos sapatos dela. Uma moça sorridente no mercado: cada coisa no seu lugar, falou enquanto organizava os produtos no carrinho. Embora não tivesse certeza, podia apostar que o cachorro no colo de um senhor havia dito: coisa linda.

Em duas semanas, foram uns dez momentos levemente desconcertantes que aconteceram. A garota resolveu, sem muito dar importância às razões daquilo tudo, usar as situações atípicas como temas para o seu quarto volume sobre as coisas:

A mulher notou que alguma coisa estranha perturbava os pensamentos da garota que vinha distraidamente em sua direção, ela torcia pela colisão entre ambas. No entanto, alguma coisa retirou a garota de seus próprios pensamentos e a fez interromper o seu caminho.”

Lúcia avaliou o que havia produzido e decidiu que era um começo promissor considerando que era a primeira vez que escrevia com esse mote. Ouviu sua mãe chamando para o jantar: torta de espinafre com ricota.

_Mãe, eu agradeço muito pelo seu esforço em acrescentar espinafre na minha dieta, mas eu DE-TES-TO espinafre! Que tal arroz e feijão na próxima?

A mãe nem se deu ao trabalho de responder ao protesto. Ao invés, disse:

_Hoje aconteceu uma coisa muito estranha. – Lúcia se divertiu com o coisa e ficou ansiosa pela continuação da fala – Um completo estranho me deu o lugar no ônibus e disse que haviam coisas mais importantes além de nós.

_Hm – resmungou a menina com o olhar curioso – e o que você respondeu?

_Nada. Sabe quando uma coisa muito inesperada acontece e você fica com cara de tonta encarando o ar? – Lúcia riu – Então: fui eu.

A garota decidiu não comentar nada sobre suas próprias experiências, esses assuntos tinham o hábito de se tornarem maçantes quando conversados com a mãe.

_Onde está o seu irmão? – Lúcia deu ombros – Vocês não voltaram juntos da escola hoje?

_Nossa mãe, faz três anos que a gente não volta junto…

_Eu não acredito que você está catando as folhas de espinafre! Não dá nem pra sentir o gosto! – disse a mãe em tom fervoroso.

_Se não dá pra sentir o gosto, pra que colocar?

Emburrada, Lúcia se levantou e levou o prato para a cozinha. Na volta, passou reto pela sala e subiu para o quarto. Estava deitada no chão, repassando a briga com a mãe, quando ouviu um barulho na janela: eram pedrinhas batendo contra o vidro.

A senhora esguia e magra encarava Lúcia com suas bochechas ossudas, seu olhar claramente era um chamado. A garota considerou estar no segundo andar uma forma de proteção, era uma velhinha afinal de contas, então abriu a janela:

_Eu preciso te mostrar uma coisa importante – disse a mulher se adiantando.

Ali estava, novamente, a palavra coisa. Foi quando Lúcia se deu conta que todos os estranhos acontecimentos das últimas semanas envolviam a palavra coisa. Com mais curiosidade do que juízo, respondeu:

_Já vou!

A senhora não revelou muito enquanto as duas caminhavam. Lúcia estava calada de medo, pensando que aquela não havia sido uma decisão tão sábia. Embora soubesse que poderia sair correndo, alguma coisa a obrigava a continuar acompanhando a mulher. Entraram em uma rua sem saída, sem casas e sem postes. Lúcia nem conseguia lembrar o caminho que haviam feito para chegar ali. A senhora diminuiu o caminhar e se virou:

_Pronto, agora é só esperar. Eu já vou indo, nos vemos depois, coisinha linda.

Por algum tempo, Lúcia acreditou estar sozinha ali naquela rua, até o momento que percebeu que havia alguma coisa na escuridão. Ela poderia ter se apavorado, mas, quando conseguiu reconhecer a coisa em si, só sentiu perplexidade.

Não havia como descrever o que estava vendo. A coisa caminhava em sua direção, mesmo que visivelmente não possuísse pernas ou pés e, ainda assim, parecia nem estar saindo do lugar. Quando Lúcia tentou entender do que a coisa era feita, pele ou pelo, se deu conta que poderia ser de qualquer coisa: tecido, plástico, capim, chiclete ou madeira, não havia como dizer. Da mesma maneira, seu rosto era indecifrável, podia ser um peixe, um lobo, um humano, todos juntos ou nenhum desses.

_Olá, Lúcia – a criatura soou de maneira incômoda, como se o ar não fosse o suficiente para abrigar aquele som.

_Olá – respondeu a menina descrente que houvesse sido ela mesma quem havia respondido.

_Meu nome é … – e Lúcia não conseguiu entender o que a coisa disse – Eu sou a essência de tudo.

_A essência de tudo?

_Tudo que existe no seu mundo é parte de mim. Sou os pássaros, as baleias, os seus pensamentos e tudo mais que existe aqui. O seu mundo é uma desconstrução de quem eu sou.

A garota não conseguiu pensar numa resposta para aquilo, então não disse nada.

_Por muito tempo, eu não consegui entender quem eu sou, e a verdade é que eu ainda não entendo realmente. Então, comecei a separar as coisas, até que um dia aconteceu algo inédito. Cada vez que eu pensava em algo para tentar classificar, se materializava na minha frente. De repente eu estava cercado de coisas que me construíam e resolvi criar um espaço para guardar essas coisas, que é o seu mundo.

A menina assentiu.

_Quando eu trouxe os humanos, vocês me ajudaram a entender muito mais além do que eu sabia que existia em mim. É meio confuso, por exemplo, embora a tecnologia seja uma criação de vocês, de certa maneira ela ainda é criação minha. Porque eu sou todos vocês. Faz sentido? – a coisa não esperou por resposta – Você também sou eu, por isso eu sei que você aceitará o pedido que eu vim fazer: eu preciso que você me acompanhe numa aventura.

Lúcia pensou haver um certo divertimento na fala da coisa, mas não conseguiu ter certeza. Ela não sabia se realmente tinha uma escolha ali, pensou em falar sobre a preocupação que o seu sumiço causaria, mas a coisa se adiantou:

_Oras, eu sou o tempo também.

_Se é assim… – disse Lúcia dando ombros, sentindo-se encurralada.

A menina ficou esperando alguma reação da coisa, mas nada aconteceu, passaram minutos e a coisa continuava imóvel sem dizer nada. Já não havia nem mais frio na barriga. Incomodada, Lúcia deu um passo para o lado e precisou fechar os olhos com a claridade que os invadiu. Na medida que foi se acostumando com a luz, se deu conta que estavam em um grande salão branco, vazio e claro. Não haviam janelas, nem luzes, nem paredes, ele simplesmente era iluminado, chão e teto brancos, sem fim.

_O que é isso?

_Hm – respondeu a coisa – eu suponho que seria a minha casa.

_E por que nós estamos aqui?

_Porque é assim que vamos chegar ao lugar que estamos indo, a minha casa também é o meu meio de transporte, acho que vocês chamam isso de motorhome, não?

Lúcia viu que literalmente aquilo se aplicava, embora não estivesse completamente convencida do uso nesse caso.

_Falta muito?

_Nós chegamos já faz um tempo, eu só estou esperando por você.

Quando Lúcia deu um passo para ver se havia algo atrás dela se viu no meio de uma multidão de coisas. Um pequeno pânico se acomodou atrás das costelas de baixo da menina, mas ela se conteve. Ficou observando as coisas ao seu redor e percebeu que, embora visivelmente fossem todas coisas, elas não eram tão indefinidas quanto a coisa que a havia trazido até aqui.

Algumas das coisas tinham cores, outras tinham cheiros, texturas, rostos e Lúcia desconfiou que até sabores elas poderiam ter.

_O que é esse lugar?

_É o centro de uma das maiores cidades do mundo.

A sensação que Lúcia tinha era que a cada nova coisa que ela via e entendia, aparecia uma outra para ela absorver. Não só as criaturas, mas também edifícios, cores, ruas, árvores, caixinhas de correio e outras mais. Quase como um quebra cabeça onde você primeiro resolve uma peça para depois analisar a outra.

_Tem coisas aqui que são muito parecidas com as de lá. Se não fosse você e essas outras coisas, eu poderia achar que estava andando numa cidade comum.

_Claro – respondeu a coisa – essa cidade faz parte de mim, da minha vivência. É natural pensar que ela serviria de referência para minha consciência (no caso, vocês, humanos). Mas muito do que foi criado lá, não existe aqui.

Aquilo fez sentido para Lúcia.

_Onde estamos indo? O que nós vamos fazer?

Lúcia sabia a resposta, então deu um passo para o lado e estavam dentro um teatro.

_É um concurso – a coisa disse risonha (ou foi o que Lúcia achou) – A tarefa é trazer algo criado por nós.

Aquilo era empolgante.

_Uau! E o que você trouxe? Eu preciso te ajudar a montar? Por isso estou aqui?

A coisa não respondeu, apenas escolheu um lugar para sentar e sinalizou que Lúcia sentasse ao lado. O concurso já estava em andamento e no palco havia uma chuva de um doce estranho, essa foi uma das coisas mais interessantes que ela viu por algum tempo. Depois disso, apareceu um travesseiro, seguido por uma piada, uma valsa, um pulverizador, um jogo de tabuleiro, um aplicativo e umas quinze coisas que Lúcia não conseguiu entender ou ver.

Não havia uma regra muito bem elaborada, e pelo que Lúcia entendeu, o concurso vinha acontecendo há dias. Ela acabou ficando bem frustrada, achou que aquilo fosse ser muito mais incrível do que estava sendo.

Foi quando uma das coisas subiu ao palco com um pedaço de tecido, o apresentou e, de repente, jogou o pano por cima de si, vestindo-o como uma capa. Lúcia quase morreu do coração, de um segundo para o outro o auditório delirou, assovios, pios, urros, palavras, vários sons indecifráveis. Por um certo tempo, Lúcia tentou entender o que havia de tão especial na capa. Então, notou ser a primeira vez que as coisas interpretavam o tecido como uma peça de roupa, Lúcia ficou atônita com a constatação. A coisa que estava no palco podia ser descrita como um peixe com penas gelatinosas e estava nitidamente contente com a aprovação da plateia. A coisa peixe agradeceu e desceu do palco para um mar de aplausos borbulhantes.

_É quase a nossa hora – disse a coisa para Lúcia – já podemos ir para o palco.

_O que você trouxe está lá embaixo? – perguntou se levantando e seguindo a coisa.

_Ainda não, mas vai chegar logo, logo.

Conforme caminhavam, Lúcia percebeu que ela estava recebendo muitos olhares curiosos das outras coisas, como se fosse um extraterrestre. Foi então que se deu conta: ela era a coisa que a sua coisa havia trazido para o concurso. Aquele pensamento a divertiu, ela era uma coisa no mundo das coisas. Sentimento que foi logo suprimido pelo pânico:

_ O que eu tenho que fazer? Cantar? Dançar? Tocar algum instrumento? Eu sou péssima em público! – pensou desesperada.

Quando se deu conta, já estava no palco. O salão estava mudo e ela, suando frio. Uma das juradas falou algo que Lúcia não conseguiu entender, era o nome da sua coisa, e completou a fala:

_ O que é isso?

_Bom, essa é Lúcia e ela é um pedaço da minha consciência.

Um murmúrio percorreu o auditório, morrendo quando chegou ao fundo.

_Como vocês podem perceber, eu ainda não sou definido – disse a coisa apontando para si – e, por muito tempo, eu venho tentando me entender para me definir. Nessas tentativas, um dia eu simplesmente consegui começar a separar e exteriorizar o que havia dentro de mim – a coisa fez uma breve pausa – Quando me dei conta, já existia um mundo inteiro. A Lúcia é uma das criaturas que representa a minha consciência, mas como ela existem muitos. Todas as vezes que eles aprendem, eu aprendo, quando eles descobrem, eu descubro, quando debatem uma ideia eu formo meus argumentos e assim por diante. É como se eu pudesse assistir tudo o que se passa dentro da minha cabeça. Uma TV do meu próprio cérebro.

Pediram para Lúcia contar sobre o seu mundo e ela contou, respondeu, fundamentou. A plateia tinha muitas perguntas também e Lúcia lidou muito bem com todas elas.  O ganhador do concurso foi, obviamente, a roupa. A coisa, no entanto, não estava chateada (ou pelo menos Lúcia achou que não). A impressão que ficou foi que ganhar nunca havia sido o objetivo. O que a coisa realmente queria era colocar o assunto em debate e isso ela conquistou com mérito. De tudo o que Lúcia vivenciou naqueles dias, apenas uma coisa realmente ainda precisava entender:

_Por que eu?

A coisa pareceu achar graça, ou pelo menos foi isso que Lúcia achou.

_Oras, porque de todos os pedaços de consciência que existem, você foi o único que pensou em mim.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C2.