EntreContos

Detox Literário.

A Cidade Debaixo D’água, a Porta Trovadora e o Homem que Roubou o Luar (Pulchra Phantasia)

 

Seu nome era Trinus. E desde que se entendia por gente, vivia naquela casa com sua querida avó. Não era muito grande, mas servia para eles. Dois quartos, uma sala, uma cozinha, um banheiro e uma boa varanda. Tinha tudo o que precisava: televisão, comida, bebida, produtos de limpeza e higiene. Só tinha um detalhe: a moradia ficava debaixo d’água. Tudo o que tinha, de fato, aparecia do nada.

— Esse é um lugar mágico, onde podemos viver em paz — explicava a anciã.

Era feliz. Então por qual motivo sentia certa inquietação? Era um mistério, tão grande quanto a vida em si.

Seu local favorito era a sacada, um perfeito retângulo de vidro firme. Vivia numa cidade submersa. Seu quarteirão era belo, com algas tão grandes que poderiam simular uma verdadeira árvore. Gostava de observar as outras casas e seus moradores, tão alheios ao mundo exterior. Achava engraçado como cada pessoa tinha suas particularidades e manias. Quando ficava muito entediado, brincava de contar os peixes. Sempre se perdia no cálculo, pois era muito distraído, mas o que importava era a brincadeira em si, não os resultados. Às vezes, perdia-se olhando para cima, para a superfície, que ficava relativamente perto. Era tão atraente…

— Você conhece o mundo, vovó? — perguntava com frequência.

— Querido, não pense muito nisso — aconselhava ela, fazendo um leve cafuné. — A vida é muito mais fácil aqui.

Não podia negar: tinha tranquilidade naquela cidade. Por muito tempo, os dias foram passando, vagarosos, levemente entediantes, mas pacíficos. Passava o dia inteiro na varanda. E, de noite, assistia seus programas favoritos, pois era quase impossível enxergar algo do lado de fora.

Talvez, se aquele visitante inesperado não tivesse aparecido, Trinus teria passado a vida inteira naquela casa. Tinha acabado de acordar e estava comendo uma torrada com geléia de morango — seu favorito!

 

Toc, Toc!

 

Continuou a mastigar. Sua imaginação era bem fértil, então resolveu ignorar.

 

Toc, Toc!

 

Parou de moer o pão e prendeu a respiração.

 

Toc, Toc!

 

Largou tudo e correu até a sala. Alguém estava batendo na porta! Isso era uma novidade.

— Vovó! Tem alguém batendo na porta! — gritou enquanto corria até seu quarto e se armava com um bastão.

— Ah, bobinho, guarde isso, não tem perigo. Deixa eu atender.

Em passos lentos, a anciã se aproximou da porta e a abriu. A água não invadiu a residência, manteve-se do lado de fora, e um homem, vestindo um enorme sobretudo negro com capuz, entrou.

— Oh, Deus, quem diria… — sussurrou ela, levando as mãos à boca. — Querido, vá para seu quarto, preciso conversar sozinha com nosso visitante.

Fechou a cara. Não gostava de ser excluído de nada. Tentou escutar por detrás da porta, mas não ouviu uma palavra sequer, apenas o barulho de armários e gavetas se abrindo e fechando.

— Trinus, venha pra sala! — chamou sua avó após alguns minutos. E continuou ao vê-lo sair de seu aposento e andar aborrecido em sua direção. — Meu amor, preciso ir embora. Mas não se preocupe, vou para um lugar melhor e nos encontraremos no futuro. Você é grande e forte, já. E, vivendo aqui, não precisa se preocupar com nada.

O menino não conseguiu falar nada. Preso numa tormenta de emoções, correu até seu quarto, bateu a porta com força e chorou — por muito tempo. Mais tarde, além da saudade, formou-se o arrependimento, pois uma despedida inevitável que poderia ser bela, tornou-se feia.

A vida continuou. A ferida cicatrizou. Parou de doer. E aquela antiga inquietação, tão íntima, cresceu com o passar dos dias. Observar a vizinhança era entediante. A televisão se tornou obsoleta. Ficava andando pelos cômodos, dando voltas e voltas, sentindo-se vazio e incompleto. Aquela casa se tornara pequena demais para ele.

Não tinha outra solução: precisava abraçar o desconhecido! Armou-se com o que era necessário. Mochila impermeável, roupa de mergulho, snorkel e pé-de-pato. E, claro, um gordo pacote de torradas e sachês de geléia de morango! Passeou vagarosamente por cada aposento da casa. Reviveu, em mente, cada momento de alegria que teve naquele lugar. Suspirou.

— Adeus, meu lar…

Abriu a porta, hesitante. Achou engraçado como a água reagia ao seu toque: parecia uma gelatina, sabor tutti-frutti, azul e ondulante. Mergulhou, numa larga passada, sentiu frio e calor, numa mistura de tristeza e alegria. Nadou, para cima, nadou, batendo os braços como aprendeu na televisão, nadou, rumo ao novo, nadou, sem parar.

Num ponto, lembrou-se de olhar para trás. A cidade era pequena, sim, mas bela. Sentiu um brusco aperto no coração. Estava deixando para trás tudo que conhecia. A partir daquele momento, estava sozinho. O conforto tinha sumido. O forte impulso de voltar quase o dominou, mas continuou nadando em direção à superfície. Mesmo que se arrependesse, precisava fazer aquilo.

Nadou tão rápido, tão forte, que sentiu uma intensa tontura quando alcançou o desconhecido. E viu o mundo girar. Ofegante, boiou a esmo, pois estava mui cansado. Alcançou a margem, sem querer, e arrastou-se até solo seguro. Sentiu a textura da terra pela primeira vez. Abraçou-a. E quando se recuperou, levantando com certa dificuldade, teve o vislumbre do misterioso mundo! Montanhas e mais montanhas. Verde, tão vivaz. E um lago, onde os contornos de um cidade desenhavam seu fundo. Nada impressionante, sentiu até uma pontada de decepção, mas logo percebeu a verdadeira beleza de tudo aquilo. O som da natureza, a água se mexendo delicadamente, o vento acariciando seu rosto molhado. Tinha tomado a decisão certa.

Trocou de roupa, encontrou um caminho e pôs-se a segui-lo. Era uma trilha bem delineada, com placas de sinalização e postes de iluminação. Não muito longe do lago, encontrou uma pousada. Entrou com certa hesitação.

— Boa tarde! — cumprimentou a mulher na recepção, largando um caderno e focando-se no visitante.

— Boa tarde… — devolveu Trinus, tímido. — Bem, eu…

Engasgou-se nas palavras. Ela riu. Analisou-o. Notou que estava molhado e cansado. E gargalhou.

— Já sei, já sei! Você acabou de sair da cidade do lago, né?

— Ah, sim. Como sabe? — perguntou ele, curioso.

— É meio óbvio. Você não é o primeiro… Acabei me acostumando com o vai e vem de pessoas, algumas querendo entrar, outras sair.

— Sério? Nunca vi ninguém novo por lá.

— Você acredita apenas naquilo que consegue ver? — questionou ela. — Bem, não se preocupe. Explico como o mundo funciona, então passe a noite aqui. Mas te aviso, vai precisar trabalhar pela sua estadia. Essa é um detalhes da realidade: nada é de graça. Precisa de dinheiro para tudo. Pode me chamar de Melody!

Trinus aceitou aquela oferta de bom grado. Naquele dia, em especial, lavou a louça e varreu a casa. Aquilo bastou para a mulher, que, desinibida, convidou o rapaz para uma longa conversa na varanda enquanto observavam o fim da tarde. Descobriu que o mundo passava por uma intensa crise: a luz da Lua havia sido roubada e as noites se tornaram mais escuras ainda. Os demônios, que viviam nas trevas, estavam se aproveitando daquela situação.

— Nunca saia de noite. Ou você conhecerá o inferno.

Aquilo entristeceu o menino. Trancaram tudo no crepúsculo. Não viu quando o véu da noite engoliu a estalagem. Sentiu, porém, quando aconteceu. Escutava, ao longe, risadas guturais. Viu, por um momento, alguns olhinhos vermelhos o observando pelas frestas da janela. Tinha uma sensação ruim: parecia estar em perigo. Mas o pior de tudo era aquele choro, tão pesaroso, que ecoava pelas montanhas. Tentou dormir, mas não conseguiu. Agoniado, ele subiu até o sótão. Abriu a pequena janela e olhou ao redor. Nenhuma imagem assombrosa por perto.

— Psiu… É você que está chorando, Lua?

O lamento cessou por alguns instantes. E então uma forte ventania se formou. A Lua apareceu acima da pensão, com seus grandes olhos bem delineados e boca carnuda. Estava com a maquiagem borrada.

— Sim, pequeno humano. Sou eu.

— Por que chora tanto?

— Não é óbvio? Fui roubada! Tomaram o bem mais precioso que tinha, que usava para iluminar tudo e trazer segurança para todos.

— E você sabe quem te roubou?

— Claramente. Foi um homem, sim, um tanto egoísta: insistia em me chamar pra perto, todas as noites, exigindo que ficasse apenas na sua região. Há algumas semanas, infelizmente, atendi seu chamado mais uma vez e fui pega desprevenida. Ele capturou minha luz num frasco especial e escondeu-se numa casa não muito longe daqui.

— E por que ninguém te ajuda?

— Ah, pequeno humano, todos estão com medo. O lugar é isolado. Aqui, que é perto, já demora meio dia de viagem. E os demônios são cruéis. Ninguém quer se arriscar…

— Hum…

Trinus pensou por alguns minutos. Sentia-se mal pela Lua. Estava com medo, mas decidiu que precisava mudar. Tinha que ser mais forte.

— Lua… Eu vou recuperar sua luz.

— Não brinque comigo, já estou fragilizada com tudo que aconteceu.

— Nunca faria isso. Diga-me, como chego no esconderijo do ladrão?

— É fácil. Se sair no amanhecer do dia e seguir a Trilha das Montanhas, chegará perto do anoitecer. Terá que ser rápido e cuidadoso, pois a casa é amaldiçoada. O pior é a porta: ela só abre para quem conhece seu segredo. E ela é chata. Acha que é poeta.

Despediu-se, dando um pouco mais de segurança pra Lua, e desceu. Acordou Melody, que não gostou muito da novidade, mas o instruiu da melhor forma possível. Assim, com mochila nas costas — e suas adoradas torradas com geléia de morango —, Trinus partiu na alvorada do dia.

A estrada ficava perto do caminho principal que ligava o lago com a pousada. Era larga e bem segura. Cruzou por algumas casas, com tímidos moradores, mas o maior atrativo da viagem foi a natureza em si. As montanhas, apesar de não parecer, tinham várias facetas. Animais de todos os tipos, plantas exóticas e sons variados o entreteram na longa caminhada. O fim da Trilha das Montanhas o levava até um vale.  E no seu centro, de forma bem destacada, estava uma velha casa. Seu destino. Nessa última parcela do caminho, notou figuras estranhas o espreitando pelas sombras. Trocavam risadinhas e sussurros maliciosos. Apertou o passo. Anoitecia quando alcançou o alpendre da vivenda.  

Estudou o portal de madeira. Não tinha maçaneta. Não tinha campainha. Bateu nela.

 

“Oh, que dor terrível,

Não sinto mais nada

Há tempos e tempos,

Retornei dos mortos!”

 

Dois olhos se formaram, junto com uma boca, um pouco antes de tais palavras serem ditas pela própria porta. O tom era grave e cantante.

— Oi… Preciso entrar nessa casa, rápido, antes de anoitecer.

 

“Entrar nessa casa

Improvável é,

Sendo necessário

Grande epifania.”

 

— Você está fazendo poesia, não é? — questionou Trinus.

 

“Minha natureza

É da trova, sim,

Beleza, pureza,

É tudo que busco.”

 

— Trova? Hum… Estranho…

 

“De certeza, é,

A forma da vida

Sempre foi envolvida

Em fartos mistérios!”

 

— A vida é misteriosa, mesmo… Mais estranho ainda é você afirmar que é um trovador quando suas poesias são de redondilha menor, não maior.

O rústico portal ia falar algo, mas acabou se engasgando.

D-desculpe, entendi errado… — gaguejou.

— Trovas são feitas com sete sílabas poéticas, não cinco… E mesmo assim, parece ser poesia livre, com pouco ritmo e ordem.

Parecia um gemido de dor, mas era, de fato, o rangido da porta se abrindo. Trinus havia descoberto, meio que sem querer, o segredo da porta. Ele não era trovador, mas um poeta livre. Envergonhada, ela se abriu e mergulhou no silêncio. Seu azar foi que o menino sempre gostou de ler, escrever e, principalmente, estudar.

Assim que entrou, pedindo licença, sentiu o ar pesado. Escutou, então, um intenso burburinho, mesmo não vendo vivalma. Tremeu. Penetrou o denso recinto. De aposento em aposento, procurou pelo rapinante. O assoalho gemia a cada passo. Percebeu, então, uma forte luz prateada vinda do porão. Abriu a porta. Desceu as escadas com cuidado. E encontrou um homem, alto e magro, segurando firmemente o frasco que prendia o luar.

— Quem é você? Como entrou aqui? — perguntou ele, agitado.

— Estou atrás da luz da Lua.

— Sabia! Você quer me roubar! — acusou.

— Não, quero devolvê-la para sua dona.

— Ela é minha. Eu sou o dono, agora.

— O mundo precisa dessa luz, senhor — argumentou Trinus. — Sem ela, não teremos paz de noite.

— Não, não… Eu preciso dela. Mais que todos… Sabe, tenho medo de tudo? Sempre tive… E essa luz, ah, ela me deixa calmo, consigo viver em paz. Eu preciso dela…

— Isso não é verdade…

— Como assim?

— Se ela te faz melhor, por que está vivendo escondido numa casa amaldiçoada?

Aquelas palavras mexeram com o ladrão. Ele arregalou os olhos. Tremeu loucamente. E largou o frasco. Quando se quebrou, a luz brilhou mais forte ainda. Expandiu-se, até sumir por completo. Tinha fugido.

— Ah, não! — gritou ele. — O que faço agora? Como irei viver!?

— Calma, senhor… Eu acho que conheço um bom lugar pra você. Tranquilo e seguro.

— Está me enganando! Não existe tal lugar…

— Existe, sim. E vou te mostrar.

O homem decidiu confiar em Trinus. Era jovem e tinha encarado aquela vivenda amaldiçoada sozinho. Nunca tinha visto tanta coragem numa única pessoa. Saíram juntos daquele lugar mórbido. Era noite. A Lua estava acima do vale, esperando por eles.

— Ah, pequeno humano, você realmente cumpriu sua promessa! Minha gratidão será eterna! E você, rato imundo, prepare-se…

— Calma, Lua! Não faça nada! — pediu Trinus. — Conversei com ele. E encontrei uma solução. Essa pessoa não irá te incomodar mais!

O belo astro avaliou a situação. Suspirou.

— Tudo bem, tudo bem. Perdoarei esse humano. Mas apenas dessa vez. E só porque você pediu.

— Obrigado!

Montaram um pequeno acampamento. Jantaram e dormiram, envolvidos pelo luar.

A viagem de volta foi um tanto desafiadora: o menino precisava tomar conta do medroso, que gritava e corria sem parar, assustando-se com qualquer coisa. Chegou no lago no crepúsculo.

— Está vendo aquela cidade submersa?

— Sim.

— Eu vivia lá embaixo. Não precisava me preocupar, tinha tudo que precisava. Não tem insetos, não tem barulho. É tudo muito pacífico.

— Verdade? — perguntou ele.

— Verdade verdadeira! — brincou. — Pode ficar com minha casa. Ela fica no centro. É amarela. Número 17!

— Ah, obrigado, muito obrigado!

O covarde, pela primeira vez, parecia ter ganhado um pouco de coragem. Pulou na água sem pestanejar. Trinus observou sua silhueta diminuir até sumir. Sentou na beira do lago e observou a Lua aparecer — dando uma piscadela em sua direção. Contemplou as estrelas. Sentiu a brisa noturna.

O mundo era tão vasto… E as pessoas eram tão diversas… Era tudo tão misterioso ainda. Naquele momento, entendia apenas uma coisa: sentia-se realizado.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.