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Detox Literário.

Pequenos Gestos de Bravura – Crônica (Nícolas Teixeira)

Existe uma bolinha branca que aparece de vez em quando na nossa boca quando acordamos. Os profissionais de saúde a chamam de tonsilólito. É um cálculo formado de restos de alimentos, bactérias e células mortas da boca. Se um dia você pegar uma e cheirar, ainda mais se amassar antes, vai ver que ela é muito malcheirosa.

Essa bolinha branca se forma quando um restinho de comida se aloja em um dos enormes buracos das nossas amígdalas. Nossas amígdalas são cheias de crateras, como a lua. Quando um pedaço de comida passa por lá, ele pode ficar preso, e aí se forma a pedra da amígdala. É uma das principais causas do mau hálito. Refluxo gastroesofágico também.

Muitas pessoas não sabem que existem essas pedrinhas. Quando acordam, às vezes sentem a bolinha e simplesmente engolem. Nós passamos o dia inteiro engolindo pequenas coisinhas. Às vezes é um gesto de bravura. Quase sempre é nojento.

Eu tenho um amigo que é muito preocupado com a saúde bucal, mas não é muito organizado com outras coisas. Faz um bochecho e passa fio dental sempre depois de cada refeição, seja lá onde estiver. Depois escova e usa enxaguante bucal. Depois passa manteiga de cacau nos lábios, mas acho que isso tem mais a ver com câncer de pele e menos com a saúde bucal.

Deve fazer muito tempo que ele não tem pedra nas amígdalas. Nem mau hálito.

Mas existe um problema aí que se passa com todas as pessoas que passam fio dental regularmente. O que fazer com o pedaço de bife que você acaba de tirar da gengiva?

Esse meu amigo não gosta da ideia de pôr de volta na boca o que ele acabou de retirar dela. Então ele joga fora. Em qualquer lugar, seja lá onde estiver. Pega o pedaço de picanha mal passada do fio dental e passa no forro da mesa.

Isso é higiene.

Com certeza você tem um amigo que só toma banho quente e outro que só gosta de água gelada. Um que fuma e enche a cara e um que não bebe nem café. Eu conheço um que limpa os restos do fio dental em qualquer lugar e um que engole tudo de volta.

Só que esse que engole, ele não usa fio dental, usa palito. Nunca foi ideal para mim, mas tem gente que gosta de usar só ele. Ele pega o palito, retira o resquício fibroso de bovino dentre os dentes, e admira a carne na ponta da madeira por dois longos segundos antes de chupá-lo.

Se não parar na amígdala, vai direto para o estômago.

Um cara da minha faculdade uma vez namorou uma menina muito linda. Essa namorada dele tinha, ou ainda deve ter, ela deve estar viva, uma mãe que adora cozinhar. Todo mundo elogiava a comida dela. Talvez fosse realmente boa, talvez fosse apenas para mantê-la cozinhando e lavando a louça.

Cozinho e lavo e sou paga em elogios.

Esse cara um dia estava me contando, no meio da aula de Botânica I, que almoçou domingo na casa da namorada e a sogra lhe fez uma salada cheia de folha e verdura. Você gosta de verdura? Então…

Ele estava contando que foi almoçar lá no domingo. Não sei se era domingo mesmo, mas ele tinha ido lá almoçar a salada da sogra. Não tinha só salada, mas a salada é o que importa. Ele se serviu, pôs bastante comida, e para deixar claro que a quantidade de comida que ele serviu era mais proporcional à competência culinária da sogra do que à sua fome, foi elogiar a salada.

Quando ele começou a falar, nossa, fulana, isso aqui tá muito bom, olhou para o garfo já em direção à sua boca. Engasgou um pouco, mas conseguiu terminar a frase. Nossa, fulana, isso, hum, isso aqui tá muito bom, que delícia esta salada de folhas verdes.

E bichos. A salada dela era feita de folhas verdes e bichos.

Acontece muito com alface e couve-flor, mas pode acontecer com qualquer coisa. Existe uma frutinha típica do cerrado brasileiro deliciosa chamada seriguela, que parece um tomatinho cereja. É quase impossível achar seriguela sem marcas de bichos. Os vermes a adoram. Eu a adoro.

Esse menino em uma situação embaraçosa viu, bem na hora em que levava o garfo à boca e elogiava a comida da sogra, uma larvinha na salada. É normal ter desses bichos nas folhas das hortas. Geralmente elas saem quando as lavamos e jogamos um pouco de vinagre, mas pode acontecer de passar. É até comum. Nós comemos larvinhas todos os dias sem saber. Menos eu, porque eu não como salada.

Na hora não tinha como disfarçar, ele teria que terminar o elogio e engolir o bicho. Foi o que ele fez. Obviamente, a única coisa ruim deste caso é ele ter visto. Senão seria como qualquer uma dessas larvinhas que engolimos dia sim, dia não. Pena que a minhoquinha branca estava na alface, não na couve-flor. Na couve-flor talvez ela se camuflasse.

Esse é um exemplo de gesto de bravura ao engolir coisinhas. Para proteger o bem-estar da sogra. A honra do sogro. O amor da namorada. Sim, o amor é feito desses pequenos gestos: engolir a larva na salada da sogra e não contar depois para a namorada.

Infelizmente, o namoro não deu certo. Depois disso, o cara não se conformou do nojo da namorada com algumas coisinhas.

Todo mundo sabe que sexo sem nojo é melhor, menos quem nunca fez sexo, ou quem só fez com nojo, o que é quase a mesma coisa. Você não precisa gostar de cocô, mas um pouquinho no pau também não mata ninguém.

Já ouvi falar de homem que broxava com papel higiênico grudado na perereca das meninas. Eu não tenho nojo disso, mas cada um é um. Talvez esse não fosse o real motivo, vai saber.

Por outro lado, meu primo já me contou de uma menina que ele pegou numa boate. Disse que ela estava com tanto tesão, que até hoje tem marca das unhas dela nas costas dele. Aí a única opção razoável foi levá-la para sua casa. A do meu primo, no caso, não a da menina, é lógico.

Como sabemos bem, bêbado precisa fazer xixi tanto quanto precisa beber mais. Meu primo logo apresentou seu banheiro imaculado para a moça desconhecida e já começou a se preparar para a fornicação, enquanto a esperava.

Quando ela saiu, ele alisou sua bundinha, beijou seu pescoço e mordeu bem de leve seus mamilos, seguindo o protocolo. Quando desceu para fazer sexo oral, quis elogiar a belezinha que estava prestes a experimentar. Nossa, que bocetinha gostosa. Já tinha aberto a boca para falar – porque nessa hora ele ainda ia falar – e viu um pedacinho de papel higiênico.

É como achar larva na alface. Uma coisinha branca e comprida no meio de uma superfície enrugada. E, igual ao cara da minha sala, ele não poderia parar no meio do caminho. Nossa, que, hum, que bocetinha gostosa.

Se não parar na amígdala, vai direto para o estômago.

Um gesto de bravura.

Ele aproveitou a noite, ah, se aproveitou! Muito mais do que o cara do nojinho. E depois descobriu que a menina também engolia coisinhas.

Afinal, a bravura é sempre recompensada.

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3 comentários em “Pequenos Gestos de Bravura – Crônica (Nícolas Teixeira)

  1. Nícolas Teixeira Cabral
    10 de julho de 2019

    Valeu, galera!
    Tem mais no nicolasteixeiracabral.com.
    s2

  2. Fabio D'Oliveira
    13 de janeiro de 2019

    Não tenho experiência com crônicas, então tudo o que posso falar é o que senti ao ler.

    Não apenas senti alegria, como dei algumas risadas. É uma crônica bem humorada e que, por incrível que pareça, levanta algumas reflexões interessantes. Sempre enxerguei o nojo como algo supérfluo, algo que se origina da racionalidade burra, sim, isso mesmo, da burrice da razão. Em muitos momentos, precisamos apenas sentir e viver aquilo, sem se preocupar com alguns detalhes. Nesse caso, a larva na salada ou o papel higiênico na boceta.

    Muito divertido, Nícolas!

  3. mariel
    11 de janeiro de 2019

    Um post importante. Nojento, mas importante.

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Informação

Publicado às 10 de janeiro de 2019 por em Crônicas e marcado .