EntreContos

Detox Literário.

Obanam (Balzac)

 

1717

No interior da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro

 

Eles dançavam, incessantemente, por entre aquelas árvores, sob o luar forte, num ritmo alucinante. O som dos tambores penetrava em suas almas, determinando seus passos, seus abraços, seus sorrisos, seus olhares. Tudo.

— Obanam! Obanam! Obanam! — gritavam em uníssono.

Uma mulher, parda — como os dançarinos —, estava no centro de todos, amarrada numa árvore. Chorava, quase desesperadamente.

O ritmo da música aumentou. Suor. Pés machucados. Gritos cansados. Surgiu, então, um homem vestindo longas vestes, coloridas, com inúmeros braceletes, anéis e cordões.

Obanam olha para ti com desprezo. Obanam enxerga seu pecado. Obanam sabe que matou irmã de sangue por inveja de sua beleza. Obanam demanda seu sacrifício — falou, empunhando uma adaga de pedra.

Enquanto todos dançavam, cada vez mais rápido, o homem cortava a mulher. Devagar, profundamente, com perícia para machucar de verdade. Os gritos dela ecoavam pela floresta. Nenhum animal ousava se aproximar daquele local.

Ele sorria enquanto se banhava no sangue da mulher. Ela tinha que sofrer, mais e mais, somente assim Obanam poderia levá-la. Ajeitou-se para desferir um novo golpe, mas um som muito alto, mais alto que os tambores, assustou-o. Viu um dos dançarinos caído no chão. Silhuetas se aproximavam. Apontavam alguma coisa em sua direção. E, num instante, depois de vários estampidos ensurdecedores, também caiu, sentindo uma intensa dor no peito. Morreu sem ver seu algoz.

Um homem alto e sujo, mas forte, surgiu da escuridão. Olhou ao redor e, quando viu a mulher, sentiu uma intensa náusea. Era impossível reconhecê-la como um ser humano. Nunca havia visto algo tão abominável em todas as suas viagens pelo Novo Mundo. Revoltou-se.

— Animais! Vão, atrás deles, peguem todos! — bradou, balançando sua arma no alto.

— Tem certeza? Temos ordens para não interferirmos na vida dos selvagens dessa região — questionou um de seus homens.

— Calado! Não enxerga o que fizeram com essa pobre mulher?

— Mas…

— Anda!

Seguindo a ordem de seu líder, os desbravadores adentraram ainda mais na floresta, sem perceber que uma densa neblina surgia, envolvendo todos. Para sempre.

 

1997

Trecho de uma notícia do jornal estadual de Minas Gerais

 

“Ninguém sabe ao certo como o fogo começou. Alguns sobreviventes relataram que pessoas encapuzadas foram as responsáveis pelo início do incêndio, ateando fogo em diversos pontos da cidade e da floresta. Essa história confere com o primeiro laudo dos bombeiros. Sabe-se, apenas, que centenas de vidas foram perdidas. E que, agora, Vale do Silêncio, uma cidade que viveu da mineração por muito tempo, tendo um grande passado e importante valor histórico, está completamente destruído.”

 

2006

Numa lanchonete de Vale do Silêncio

 

Elaine tentou, inúmeras vezes, fazer seu estabelecimento crescer e ser um tremendo sucesso. Bar temático, danceteria, tentou um pouco de tudo. Mas sempre voltava a ser uma lanchonete medíocre, servindo café e omelete para os sonhadores e solitários.

Ela suspirou, ajeitou seus cabelos brancos para dentro da touca e olhou para o relógio da parede. Nove horas da manhã.

“Está atrasada… Como sempre”, pensou, um pouco irritada.

Contou o número de clientes. Três. Tião, que sempre pedia café preto sem açúcar. Jonas, que gostava de variar no cardápio, mas sempre pedia uma cachaça pra acompanhar. E Luís, que, em geral, não pedia nada e ficava sentado num canto, olhando para fora com os olhos perdidos naquela neblina sem fim. Todos estavam cabisbaixos, quietos, mas notava-se certa ansiedade: olhavam para o relógio e para a porta, toda hora.

“Estão esperando ela… Como sempre”, pensou Elaine, ficando mais irritada.

Poucos clientes, pouco dinheiro. Tinha sua reserva, num cofre nos fundos da lanchonete, apenas para emergências, mas ainda queria ter a chance de aproveitar mais a vida. Nunca tinha saído daquela cidade. Vivia nessa situação há anos. Tudo piorou depois daquele incêndio. E, principalmente, depois da chegada do nevoeiro interminável.

O sino da porta chamou sua atenção. Era Catarina.

— Bom dia! — a jovem exclamou, abrindo um largo sorriso.

No exato instante que ela sorriu, o rosto daqueles três homens se iluminaram. Elaine já sabia disso. Aquela menina, desde que chegou — há quatro meses, do nada, surgindo das brumas —, trouxe algo consigo que iluminou aquela lanchonete pobre e desleixada. Era impossível odiá-la. Mas sabia, também, que por detrás daquela linda luz, havia uma grande escuridão. Talvez, por isso, não conseguia amá-la.

Catarina era puro mistério.

 

1995

Nos arredores de Vale do Silêncio

 

Horas de espera.

— Que merda, você não falou que ele voltaria mais cedo hoje? — reclamou, olhando furiosamente para seu parceiro de tocaia.

— Foi o que ele falou. Mas acho que não dá mesmo pra confiar num bêbado — respondeu com tom apático.

Aquilo tudo a irritava muito. Ficar dentro do mato, com pouco espaço. Podia ser prazeroso para ele, talvez, brincar de caçador, mas isso a incomodava muito. Não costumava reprimir suas emoções e ia reclamar mais uma vez, porém, certa movimentação na estrada chamou a atenção de ambos.

— Mas assim, oh… *hic*

Um homem baixo, magro e de meia idade apareceu, andando em ziguezague. Falava sozinho. E estava, claramente, embriagado. Não conteve o sorriso. Era ele.

— Isso… — sussurrou seu parceiro de tocaia.

Esperaram mais um pouco e assim que passou na frente do esconderijo deles, saltaram em sua direção. Ele gritou, falou alguma coisa impossível de decifrar e tentou correr. Não precisaram fazer nada, pois caiu sozinho. Pela primeira vez naquele dia, seu colega sorriu. Não foi difícil dominá-lo.

— Vamos, já estamos atrasados — declarou seu companheiro, mostrando sua inata frieza socando forte na cabeça do homem para desmaiá-lo e carregá-lo com mais facilidade.

Seguiram pela estrada por um tempo, em pleno silêncio, e adentraram o matagal através de uma pequena trilha. Ela gostava dessa parte. A calma, a paz, a certeza de seu dever. Estava contribuindo para a construção de um mundo melhor.

Chegaram numa clareira. Dezenas de pessoas, todas com grandes mantos e capuzes, tudo da cor vermelha, concentravam-se no centro. Foram recebidos calorosamente. Enquanto observava seu parceiro levar o homem até o altar onde iria acontecer o ritual, o líder se aproximou. Sempre se impressionava com sua beleza.

— Pensamos que algo tinha acontecido.

— Não. Foi apenas um imprevisto. Parece que resolveu ir para o bar antes de voltar pra casa.

— Entendi… — falou ele, observando o homem sendo amarrado no pilar improvisado no pequeno palanque. — Precisamos tomar mais cuidado. Obanam não permite erros. Ele perdoa, mas seu perdão tem limite. Está cada vez mais difícil encontrar candidatos. A cidade está morrendo. Não podemos deixar nenhum escapar.

— Sim… Eu sei. Tomaremos mais cuidado da próxima vez.

O líder sorriu, dando um tapinha em suas costas, e foi de encontro com seu dever. Todos se alinharam diante o altar. Jogaram água no homem, que acordou confuso e relativamente sóbrio.

— Que porra é essa? — perguntou, atordoado.

— Sua penitência, Haroldo.

Ficou quieto, correu os olhos pela clareira e, quando percebeu que estava preso, começou a se debater, gritar e xingar. Todos permaneceram imóveis e sérios.

— Você é um pecador. Você torturou, você abusou, você matou. Sua própria esposa, a mulher que prometeu amar e cuidar.

Haroldo se calou por instante e arregalou os olhos.

— O que você sabe sobre Marlene? O que você sabe sobre mim? Não sabe nada! — esbravejou.

— Sabemos o suficiente — afirmou o líder, agarrando um belo chicote. — O suficiente para te entregarmos para nosso mestre fazer justiça.

— Justiça? Que tipo de justiça é essa? Até a polícia me inocentou.

— Sangue se paga com sangue.

E, assim, começou o ritual. Violência. Dor. Tambores. Dança — frenética e sensual. Somente quando o homem parou de gritar, quase desfalecido, que o silêncio e a inércia reinaram novamente. Uma densa névoa entrou na clareira, bem devagar, engolindo tudo. Ela esperou, quieta, sentindo com prazer aquela poderosa presença, que vibrava no fundo de sua alma. Quando sumiu, no mesmo ritmo que apareceu, Haroldo também tinha desaparecido. O líder ergueu as mãos ensanguentadas e todos berraram em uníssono.

— Obanam! Obanam! Obanam!

 

2007

Num apartamento na região metropolitana de Vale do Silêncio

 

Catarina deixou o corpo cair na cama. Estava cansada de tudo aquilo. Do trabalho, de Elaine, das atuações. Precisava sair de lá, rápido, ou iria surtar. Odiava profundamente tudo e todos daquele lugar. Sentou-se e soltou o cabelo.

— Não preciso passar por isso… Não mesmo…

Iria seguir com o plano. Elaine era velha e não precisava daquele dinheiro todo, não mesmo. Tinha casa própria, tinha um negócio. Oras, era egoísmo por parte dela acumular tanto dinheiro. Com aquilo, poderia ir para uma cidade melhor, realmente recomeçar.

Levantou-se, decidida a tomar banho, mas alguém bateu na porta. Nunca recebia visitas. Atendeu, hesitante, deparando-se com um homem alto e  extremamente bonito, entretanto, assustador — não tinha vida em seu olhar.

— Catarina?

— Sim…

Ele apenas sorriu e foi embora. Catarina ficou parada na porta, observando-o por instantes, assustada com a estranheza daquilo tudo. Fechou a porta, trancou-a e respirou aliviada.

“Eu realmente tenho que ir embora…”, pensou.

Uma densa neblina começou a invadir sua casa, por debaixo da porta.

— Que isso…

Foi tudo muito rápido. Tentou recuar, mas foi envolvida pela névoa. E, sem ver nada, caiu num abismo.

 

1997

Carta que queimou no grande incêndio de Vale do Silêncio

 

“Ele está morrendo. Obanam, nosso senhor. Precisamos colocar esse ritual em prática. O mundo é injusto e precisa da justiça dele. Muitos inocentes morrerão, mas não temos outra opção. Com o fogo, sua influência irá crescer e ele não precisará mais de intermediários. E finalmente poderemos conhecê-lo, viver ao seu lado! Junte-se a nós nessa união! O encontro será no mesmo lugar de sempre, quando a grande lua estiver cheia e no centro do céu. Que nosso mestre olhe por ti e seus amores!”

 

2007

Num outro mundo

 

Caiu por muito tempo. Não gritava mais, apenas esperava. Até que, por fim, a neblina a envolveu com certa delicadeza, diminuindo a velocidade da queda. Terra firme, finalmente. Levantou-se, atordoada e chorosa. A névoa foi embora, revelando uma estranha floresta. Árvores com folhas rosadas. Terra úmida e cor de barro. Pequenas poças avermelhadas, em todo lugar. Ventava, sem parar. Um cheiro forte de podridão. E um pequeno carvalho morto no meio de tudo isso, envolvido com fitas de seda rubra.

Catarina se desesperou. Que lugar era aquele? Como aquilo era possível? As pernas bambearam e ajoelhou-se no chão, deixando as lágrimas enfeitarem seu rosto.

Muitas pessoas começaram a aparecer, de todos os lados. Homens, mulheres; brancos, negros, pardos; de todas as idades. E, nisso tudo, o homem que havia batido em sua porta se aproximou, agachando-se para olhá-la nos olhos.

— Você é uma pecadora, Catarina. Você matou seus progenitores por causa de dinheiro e bens materiais. E quando tudo deu errado, fugiu para longe ao invés de assumir suas responsabilidades, assumindo uma nova vida. Mas se alegre… — disse enquanto se levantava. — Essa é sua penitência e rendição. Com essa união, será pura novamente.

Ela tentou falar algo, gaguejando, mas não conseguiu. Recebeu uma pancada muito forte na cabeça. Caiu com o rosto na terra úmida, sentiu o sabor de sangue e uma intensa dor irradiar pelo corpo. Mais golpes, facadas, chicotadas; tudo ao mesmo tempo. Não conseguia nem gritar, pois se engasgava no próprio sangue. Não lutou. Por incrível que pareça, seu sangue começou a evaporar, indo além das folhagens. Segundos depois, começou a chover. Vermelho. Antes de perder a visão e os sentidos, viu o carvalho se contorcer, euforicamente, e todos gritavam alguma coisa.

Ficou na escuridão por muito tempo, sem estar verdadeiramente consciente disso. Quando despertou dessa inércia mental, estava numa sala de estar, diantes duas pessoas sorridentes. Um cheiro delicioso preenchia o lugar. Conhecia bem aquilo tudo. Sentiu uma intensa dor no peito. E uma alegria indescritível.

Era permitido viver e ser feliz novamente?

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.