EntreContos

Detox Literário.

O Que Você Quer Ser Para Crescer? (Lady Godiva)

Sente-se enfadada de tudo e de todos? Já não mais suporta tantas cobranças e leviandades entabulando regras e presunções? Você acha que suas causas e anseios estão caindo no vão dos abismos? Ou se acha perdida no mundo e tem receio de não mais se encontrar? E que, por tudo isso, está em busca de sua independência? Pois então, façamos uma brincadeira tipo: o que você quer ser para crescer.

Suponhamos que você queira, hoje, realizar um sonho nunca dantes imaginado. Tendo em vista que o enredo da vida não é destino, mas circunstâncias, que sonho seria esse? Não, não aquele sonho de quando dormimos, mas daqueles quando sentados no banco da praça; seja “ruandando” por uma cidade vazia de um domingo à tarde, ou até mesmo, quando, na cama, esperamos o sono chegar; visto ser nessas horas que construímos as histórias, as vontades mais inimagináveis; os arbítrios mais estrambóticos, porém todos perfeitamente realizáveis, pois somos nós mesmos quem nos damos todas as regras e os desfechos possíveis! Prepare-se, pois ao contrário dos concursos de miss mundo, você vai desfilar sua beleza interior. E dessa maneira passe a executar não um sonho nem um simples desejo, mas todos os propósitos. Vamos juntos cinzelar sua história, o desejo e o sonho em si mesmo. Sendo Você.  Digo: “vamos juntos”, porque sinto em mim ser eu mesmo você também, portanto não se assuste; eu sou aquele que te tem apreço.

Comecemos por forjar sua saída do trabalho pelo meio da tarde, um pouco antes do cafezinho. Faça-se de louca. Largue tudo o que estava fazendo. Fique quieta. Não se bula. Acalme os arrebatamentos, aguce o silêncio e os sentidos. Passe a esculpir em você mesma uma cara de louca “inencontrável” em qualquer parte do mundo. Construa com minúcias uma aparência descompromissada. Faça um silêncio cavo, pois foi sobre este mesmo silêncio que alguém já disse que a palavra mais precisa ou a que mais se precisa dizer só fica pronta depois de muito, muito silêncio. Aliás, sobre o silêncio, até podemos dizer, ser ele, um idioma diabólico, visto ser esta a única linguagem que o diabo respeita. Consequentemente tome cuidados para que nem mesmo os olhos façam barulho ao se mexer. Tente passar essa ideia com um olhar de brilho porcelâmico e a maciez do algodão. Deixe-os imersos na dúvida e sujeitos a todos os malefícios do silêncio. Perceba que todos estão entre preocupados e penalizados por você. Acham que você está surtando, contudo, e em verdade, essas pessoas lúcidas, são completamente loucas. Mas não se afobe, a coisa vai ficar pior. Ninguém vai sair agora. Lá fora uma tempestade inunda as ruas. O tempo está muito ruim para quem não gosta de cachorro molhado e lama. Os esgotos estão transbordando em profusão. O fedor é de merda pura.

Todavia deixe bem claro suas intenções. Mostre para eles num simples pestanejar de olhos que a publicidade e o marketing são um imbróglio que só servem para alimentar os imbecis; que a felicidade não se compra em suaves prestações. Faça-os entender que é na escuridão, longe das luzes de neon, que se enxerga melhor. E diga sem muitas pretensões que você faz parte do grupo das mulheres lindas e loucas e nunca ridículas. Finalize dizendo numa frase lapidar que, devido a isso, suas cinzas da pós morte será poeira com gosto e cheiro de mulher que foi bem amada. E diga-lhes também que sua causa mortis já está prescrita e tecida como num poema; “Feneceu numa madrugada de festa por excesso de amor, após três fervorosos arrulhos de ais.” E não deixe de manter o halo de mistério que você emana. E que, em virtude dessa gloriosa morte, você não está preocupada com as insignificâncias da vida e, muito menos, com as triviais coisas do dia-a-dia, e menos ainda com as picuinhas do escritório. Demonstre com toda sua impetuosidade que a alegria que você manifesta é a legítima compunção fingida da máscara da morte.

Passe a arrumar seus badulaques que estão sobre a mesa, de tal forma meticulosa, que nada fique fora de lugar. Arrume tudo o que havia desarrumado durante o dia em sua lida diária. Cale aqueles que estão em volta, abafe os comentários frívolos e idiotas com uma atitude viril. Seja drástica: faça uma fogueira para queimar os espíritos corrompidos e por fim transforme sua substância incorpórea em pó. — embora não seja a maneira própria de se portar de uma moça tão decente como você, (mas…) — Arreganhe os dentes transformando seu rosto numa caricatura infernal. Divirta-se e não se acabrunhe. É estupidez pedir aos deuses aquilo que você pode conseguir sozinha. Bafore um pouco do seu hálito pelo ambiente. Mostre sua exoticidade no tratamento com as coisas banais. Procure denotar com um movimento sutil dos lábios que acabou de saborear um delicioso molho tártaro sobre um filé de rabo de jacaré grelhado na brasa. Em seguida desfile pela sala como se estivesse no Deserto do Saara. Experimente observar um camelo olhando fixamente na cara de um dos espectadores. Neste mesmo olhar ostente seus conhecimentos empíricos. Você não assistiu ao 2001, uma odisséia no espaço? Então… É isso! Faça-os compreender o elo existente entre você e o macaco; a transposição macaco/homem/anjo, o osso e a espaçonave; e assim falou Zaratrusta, o Danúbio Azul e a cor da Terra! Mas não se esqueça de manter sempre a cara de louca descomprometida e ao mesmo tempo afogueada. Lembre-se! Você está prestes a se emancipar do mundo.

Nesse momento comece a preparar sua saída triunfal. Saque seu arco e flecha do armário e aponte para o relógio. Espere o cuco aparecer e mire em sua fronte. Atire. Pare o tempo.

Agora vista seu blazer, tranquila, bem de mansinho; arrume a lapela, acerte o broche; saia sem se despedir de quem quer que seja. Se você der uma leve ressabiada com o olhar vai perceber que todos estão incrédulos naquilo que estão assistindo. Não se preocupe.  Comporte-se como o espelho: reflita só o que você vê. Não dê bolas. Saia como se para você acabara o expediente. Mas não demonstre nenhuma empatia com a assistência. Aja como se fosse a Lady Macbeth. Sem remorsos, sem delongas.

Mantenha-se altiva. Impoluta. Não se amedronte, eu estarei consigo. Nada de grave está acontecendo com você. Na saída bata a porta com vigor. Mas antes demonstre ternura, passe um olhar cândido no ambiente incluindo as pessoas que estiverem pela frente. Caminhe impávida. Transpareça denodo. Não se apresse. Nada de grandes passadas, ande passo a passo, — aliás, venhamos e convenhamos à senhorita é um deslumbre em seus saltos altos, uma beldade de elegância! — Com esta atitude estarás informando para eles que não és dada as coisas que não te fazem feliz.

Do meio do corredor você volta. Não denote, apenas conote estar sofrendo momentaneamente de desarranjo intestinal. Ao chegar a sua escrivaninha comece a se despir. Fique apenas de calcinha. Retire da gaveta uma toalha e cubra um dos seios, o outro deixe à mostra, para que acentue sua beleza. Pegue da gaveta o sabonete, vai aproveitar o ensejo para tomar um refrescante banho. Caminhe para o banheiro. Cantarole uma melodia qualquer, de preferência aquela que fala: “Eu fui ao Tororó beber água não achei… Encontrei belo moreno que no Tororó deixei…” Volte do banheiro se secando na toalha. Com toda essa cena você acabou de provar que a vida é bem diferente daquilo que acontece no cinema.

Aliviada do transtorno causado pela soltura intestinal você está levemente atormentada pelos enigmas desse mundo em que você não enxerga nada. Esse mundo invisível onde só se vê o sobrenatural, que também é invisível. Entretanto desanuvie essas coisas da mente.  Você não tem esse hábito de pensar no existencial, nesses ocos da vida. Vista-se galhardamente sinta-se elegante. Force sua aparência. Confronte-se com o espelho e deixe-o que a contemple em suas incógnitas. Mire-se nele. Passe os dedos por entre os cabelos, afofe-os com as mãos, balance a cabeça desmanchando o que havia feito. Você é uma grande atriz, mas seja sutil demonstre sua virtuose interpretativa. Passe a impressão de que escuta uma melodia angustiada numa noite de luar diáfano à boca da clareira de uma floresta, cujos animais bravios lhe espreitam. Aproveite a atenção deles e formule uma pergunta em gestos mímicos sobre geometria: “Quanto terá de comprimento uma casca de laranja de 25 centímetros de diâmetro cortada em finas tiras de 6mm de espessura? Não, não espere resposta eles não vão responder nada, porque nada sabem.

E não se abespinhe! O que você tinha que fazer você já fez. E está fazendo. E está mais do que bom.  Essa gente merece o governo que tem que teve e que vai continuar tendo por muito tempo. Eu sei que você almeja a autogestão da vida cotidiana e a real sociedade. Tudo isso é muito bom, muito bonito, entretanto nós sabemos o quão difícil é construir isso, mas sossegue você está no caminho certo. Lembra daquela antiga frase que escreveram em um muro de Paris, “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista?” Pois então, é isso.  De que valem os sentimentos contra os canhões e a bestialidade! De qualquer forma dê a entender para eles que a sua vontade mesmo é de ir a Brasília, matar todos os ratos, com hidroquinone, metabissulfito, sulfureto, esporão de lacraia e caranguejeira preta.

Volte ao seu natural. Espreguice-se como se acabasse de sair de um grande transe hipnótico. Imite os gatos: estique os braços, as pernas, contorça o pescoço sobre os ombros, como se um arco fosse. Massageie as mãos. Não se esqueça dos exercícios faciais, faça biquinho e estique os lábios. Boceje com gosto e vontade.  Cause uma boa impressão. Esfregue o rosto com sofreguidão, dê-lhe algumas palmadas. Torne-se impassível. Sossegue. Não se preocupe, eles estão acuados. Quer dizer, estão com os cus premidos na parede. Estão assustados.

Do lado de fora a tormenta continua. Os monumentos tombaram, as ruas e as praças são fossas a céu aberto. A cidade é uma catástrofe apocalíptica. Pelo lado de dentro, você os obrigou a repensar conceitos antigos.  

Volte à atitude da Lady inglesa, dê a entender que está completamente nua montada em seu cavalo branco desfilando levemente. Passe pela porta indiferente a tudo e a todos. Amanhã será um novo dia. Despeça-se como se fosse uma bela canção a borboletear pelo ar. Sinta-se como se estivesse em um vale de lágrimas colhendo lírios em um vasto jardim, desfile pelo cenário passe os lírios em seus narizes para que eles também sintam o aroma que você está sentindo. Prove para eles, assim como a própria flor, o sentido da pureza. Demonstre exuberância nesse gesto, faça-os sentir a delícia de ser o que você é, pois é a confiança em si que forma a diferença, o limite entre o fazer e o não fazer, o sucesso e o fracasso. Seja magnânima, desfrute os olhares atentos e alheios da assistência. Faça-os pressentir que o amor que fica é o sentido absoluto da palavra saudade, e isso eles vão sentir bastante de você. Ah! Deixe um convite sobre sua mesa de trabalho para o seu velório, mas com a data em aberto, pois ninguém sabe quando se vai morrer, e não deixe de informar que não vai haver choro nem vela, mas muita música e dança, que o funeral vai ser um verdadeiro baile do Bal Masqué… Ué, eu tinha uma coisa a mais para te dizer, mas não sei o quê!… deixa pra lá outro dia eu conto…  Ham, lembrei… Não se preocupe com o tempo, o tempo liga tudo; o tempo tem voltas e revoltas; o tempo é o propósito e o despropósito de tudo…  Pronto; vá para casa tranquila a cidade voltou à calmaria; o pântano está manso, suave, como o rock da guitarra de David Bowie…  Mas não olhe para trás, quem olha prá trás vira sal, dizem. Descanse bem. Boa noite!

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.