EntreContos

Detox Literário.

A Penúltima Ceia (Simão, O Cananeu)

Se o cenário fosse retratado em um famoso quadro, nem o artista mais talentoso conseguiria reproduzir a mancha incômoda – formada pelo cheiro doce e enjoativo de vinho novo – que pairava no ar da humilde taberna.  A prece, as lições e, obviamente, a cantoria desafinada, já haviam sido ultrapassadas seguindo a liturgia habitual. O resto do cozido tombado no canto da mesa acompanhava o silêncio momentâneo, tal qual Bartolomeu e seu olhar pastoso de quem exagerara mais uma vez. Mas a realidade é que a rara fartura cobrava seu preço de forma tão implacável como um publicano de Roma. Naquela extensa mesa de jantar, o grupo normalmente podia ser dividido entre glutões e beberrões, não raro essas espécies habitassem vez por outra um mesmo hospedeiro. Porém, diante das circunstâncias do momento, a azia aplacada ou potencializada pelos efeitos da bebida era a sensação universal experimentada por todo o grupo. Os laços de solidariedade e camaradagem reforçados pelos prazeres e pecados mundanos.  Tudo convergindo para o fim, ou um novo recomeço.

– Você conhece Jesus Cristo? – Pedro perguntou, sério como um soldado romano diligente.

– Já ouvi falar… – respondeu o líder, virando o último gole de vinho quente na garganta.

– Você conhece Jesus Cristo?

–  Só de vista! – retrucou de pronto, arrancando uma estrondosa gargalhada dos amigos que ainda estavam acordados.

– Você conhece Jesus Cristo?

– Muito mais do que você imagina – o sujeito retrucou com fanfarra para o deleite de sua confraria.

– Por favor, pessoal. Isso é sério.

– Não vai dar certo, Pedro.

– Já foi decidido, Jesus.

– Vocês todos concordaram com isso? – Jesus perguntou encarando todos os seus seguidores, mesmo os que sequer demonstravam prova de vida.

– Sim, nós votamos, foi unanime… – Pedro explicou revirando os olhos.

– Unânime, está em ata – Simão balbuciou de forma decorada.

– Eu não participei… – Cristo resmungou amuado.

– Nós já conhecíamos o seu voto! Mas tudo bem, fica registrado, 13 votos a favor, 1 contra. Simão, por obséquio, tome nota.

– 13 a favor, 1 contra! – repetiu o secretário.

– 13?

– Madalena também votou.

– Não acredito que vocês a envolveram… Ela concordou com essa sandice!?

– Claro que sim. Sem ela não há a menor chance de dar certo.

Jesus meneou a cabeça, visivelmente contrariado. Fechou os olhos demoradamente e esfregou a testa com a palma da mão ainda incólume. O álcool – laico por excelência – não respeitava nem mesmo um corpo santo. Com propriedades desmistificadoras, revelava sem dó a nudez de qualquer alma, iluminada ou não.  Cristo sabia bem disso, mas mesmo assim não conseguiu se conter. De impulso, acabou tripudiando da força tão singular daquele liquido. As ideias misturadas na cabeça sempre tão ordenada.

Encarou mais uma vez a caneca, agarrada a sua mão como um prego destemido, e pensou novamente no tal plano.  Naquele momento tudo parecia demasiadamente simples, aliás, de uma simplicidade quase pueril. A ausência de complexidade, que poderia ser algo reconfortante para um sujeito que costumava abraçar a singeleza, era motivo de dúvida jamais experimentada. Não eram mais garotos correndo sem rumo pelo deserto, enganando mercadores relapsos e apresentando novos truques nos acampamentos. Agora eram uma trupe com propósito, incumbidos de uma missão de grande responsabilidade política, moral e espiritual. Uma nova ordem que prometia abalar o mundo

– Portanto, se te perguntarem, qualquer coisa, você, vai negar. Não, é, difícil. – Pedro explicou, pronunciando pausadamente as palavras e aplicando vírgulas desnecessárias na frase.

– 13 a favor, 1 contra – Simão vociferou entre soluços.

– E quem será “eu”? – Jesus perguntou de forma debochada.

– Tiago.

– Ele é mais baixo, mais novo.

– O povo só te conhece de nome, Jesus. Se chegar um cara magro em uma túnica acinzentada, cabeludo e de barba, sentado num burrinho velho, ninguém vai ficar criando caso.

Cristo sabia que isso fazia sentido. A palavra era a pedra base de sua reputação e precedia qualquer predicado físico. Não raro eram os episódios em que chegavam nos vilarejos e o povo corria para cercar João ou Tiago, esperando uma lição do tal Salvador. Ele, por sua vez, divertia-se com o embaraço de seus companheiros e até estimulava esse protagonismo. Oportunidade de lembrá-los que eram um só corpo.

Uma coruja sobrevoou o recinto – um pouco acima das cabeças resistentes – interrompendo os devaneios e fazendo-se de presságio de ampla interpretação.  Jesus mordeu o polegar, enquanto encarava o horizonte duplicado. “Onde estariam os reis magos e seus presentes?”. Tudo parecia tão distante, a longa jornada resumida num estalar de dedos.    

Percebendo o semblante entristecido do Messias, Felipe levantou-se cambaleante, bateu com força na roupa para espantar os farelos salpicados por todo o colo e desafiou Cristo com um olhar brioso. Ato contínuo, em uma cena emudecida pelas ações, abraçou seu guia de forma efusiva e descansou sua cabeça no ombro escolhido.  Ternura etílica de fazer corar até o que não era bochecha. Pedro ergueu os braços, acarinhou com um gesto distante todos os amigos e disse:

– Tá todo mundo se arriscando aqui, Jesus. Não só Tiago. Iscariotes mesmo está colocando toda a reputação em risco para que o plano dê certo.

– Tiago, tá sabendo da parte que vai ser torturado? – Ele perguntou de forma quase retórica para o sujeito que roncava sobre uma poça de baba e sob um ninho de cachos. A verdade é que essa inconsciência oportuna era a resposta instintiva do discípulo. A perspectiva da Via Crucis havia aumentado drasticamente sua sede. Lógico que tinha muita convicção no projeto idealizado por Pedro, mas o receio, tão humano, ricocheteava em forma de perguntas nas paredes de suas entranhas. “E se Jesus não conseguir me reerguer? Ou pior, me ressuscitar como um novo homem, abstêmio?“. Com novas corujas voando dentro dos seus sonhos, Tiago ajeitou suas zigomas no tampo de madeira macia travestido de travesseiro e suspirou alto, assoprando ar pelos lábios macilentos e encharcados.

– De qualquer modo, Mestre, eu pensei nisso! Lembra na Galiléia quando ele tomou aquele chá e ficou três dias em estado catatônico?  

– Meu Deus, Pedro!

– Nosso!

– 13 a favor, 1 contra!

– É lógico que você tem que fazer a sua parte, aquele esquema de ressuscitação – Pedro disse, ignorando Simão e seu interminável papel de secretário.

– Não é assim que funciona, irmão!

– Tem que funcionar! Até porque são dois, Iscariotes também vai entrar nessa.

– Crucificado?  – Jesus perguntou de chofre, elevando o tom de voz.

– Nada disso! Ele vai se enforcar, pra fingir que se arrependeu, compreende?

– Não!

– Olha a mensagem por trás disso, Cristo! “Não aguentou o peso da traição, da consciência carregada, e preferiu tirar a própria vida.” É o tipo de coisa que entra pra história.  

– Vocês são loucos!

– Ou gênios?

– 1 contra…

– O que meu pai vai pensar disso?

– Que o livre arbítrio dos homens salvou o seu filho e, ainda assim, deu seu recado para a humanidade.

– Tu sabes que ele odeia ser contrariado!

– Mas ai, conversa com ele. Diz que a gente resolve tudo sem sangue, sem dilúvio, praga e o escambau.  

– Não sei não…

– A gente foca mais na trama, nos personagens. Pra ficar mais crível. Vamos deixar a natureza ser natureza, espectadora, um lance mais de paisagem mesmo.

– E depois?

– Continuamos espalhando a palavra. Você, Maria, eu, nós.

– Não parece certo.

– O mundo é muito grande, Jesus.

– Não duvido.

– Seremos quatorze discípulos e uma só mensagem.

– 13 a favor, 1 contra! – Simão calculou em voz alta.

– Preciso pensar.

Jesus penteou um fio de cabelo que havia se enroscado na sobrancelha e guardou um fio de esperança que despontava em seus olhos. Entabulou uma conversa consigo e com seus outros dois. A trindade dialogando sem plateia. Sem dúvida, a eloquência e persuasão do seu grande amigo ainda ecoava na sua imensa confusão de espírito e matéria. O absurdo de tão ordinário não parecia mais improvável. Precisava admitir uma crescente admiração pela engenhosidade daquele seleto grupo de pescadores. Orgulho transcendental, que deixou fluir por todo o seu corpo em um abraço demorado nos seus irmãos de causa. Um por um, alternando alegria e tristeza, expectativa e consternação, dúvida e cruel certeza. Mas a realidade é que – como todo homem de grande insanidade – Ele possuía o insólito dom da premonição A loucura encapsulada na mente antecipando os eventos que mais ninguém conseguia pressentir. O sofrimento lancinante da pré-catástrofe. Calcanhares desprotegidos pelo acaso por ordem do destino. Embora tudo muito pequeno perto da imensa dádiva da existência. Impávido, deu uma mordida no resto de pão rançoso e um trago no vinho inebriante. Sentiu o sangue ferver e o estômago reclamar em uma verdadeira consubstanciação. Sentença proferida.

Enfim, quando Pedro apertou sua mão, visando selar o pacto e, por intermédio de um olhar anuviado de melancolia, perguntou sobre a decisão final, Jesus Cristo apenas sorriu em silêncio, iluminando a taberna e antecipando a alvorada do novo mundo.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.