EntreContos

Detox Literário.

A Escafandrista do Mar Vermelho – Conto (Juliana Ferraz)

Mais um pedido… Mais uma demanda… E ela atenderia. Já perdera a conta de quantas vezes tinha entrado naquele conglomerado de água que parecia não ter mais fim. Chegou até criar a teoria de que toda aquela água salgada eram lágrimas de dor e saudade daquilo do que foi perdido outrora. Enquanto Ishtar preparava o seu equipamento, Augusto estava já no convés. Ansioso. Não sabia se a agitação que sentia era por conta do balaço das ondas ou do próprio remorso. E se Ishtar falhasse? E se, pela primeira vez, um resgate não pudesse ser concluído? E se ele não tivesse de volta aquilo que fez questão de descartar há tanto tempo?

Ishtar pôs-se confiante diante de Augusto. Mas sentia a inquietação dele:

– Do que tens tanto medo?

– De que você não o encontre.

– Não me chamam de rastreadora à toa. Eu sou a melhor que existe.

– Mas são tantos lá embaixo… todos tão parecidos…

– Mas não são idênticos. Tem alguma coisa que é só sua nele e eu verei isso quando o encontrar.

– Mas você é cega.

– Existem muitas formas de se enxergar.

– Mas nem eu sei como ele é de verdade.

– É porque você não se lembra quando o jogou fora. Quando o vir, você se lembrará dele também.

– Por quanto tempo eu te espero?

– O tempo que quiser.

– E se demorar muito?

– Não vale a pena esperar por isso?

Augusto se calou. Ishtar tinha razão. Ele esperaria o tempo que fosse para que a sua vida voltasse ao que já foi um dia. A escafandrista não chamaria tanta atenção se não fosse por um detalhe: os óculos escuros que colocou no rosto antes do capacete dourado. “É para proteção” respondeu ela à estranheza palpável de Augusto ao lhe ver. Verificou o duto de respiração e caiu no mar.

As pessoas têm a falsa ilusão que se chega ao fim na região abissal. Mas Ishtar sabia que isso era apenas mais uma camada. Um reino de estagnação e angústia que pode durar uma eternidade. Muitas pessoas evitam essa parte por receio de se perderem e não encontrar o caminho de volta. É preciso uma luz forte para conseguir ver os contornos das criaturas com as quais pode se deparar.

Ishtar nadava como uma linda sereia por entre as correntezas. Já era cria da casa. Conhecia a sinuosidade aquática e as trilhas por onde teria que percorrer. Estava tão familiarizada que não demorou muito para que a escuridão a alcançasse. A água fica mais densa e mais fria sem os a quentura dos raios solares. Quanto mais fundo Ishtar mergulha, mais ela sente uma pressão no peito. E mesmo sem conseguir ver um palmo à frente do nariz, ela sabe o caminho.

O guardião do portão continuava o mesmo: o peixe-espelho. Ela sentiu o olhar envidraçado dele em sua direção. “Para entrar nessa região, é necessário pagar o pedágio”, disse o peixe. Ishtar assentiu com a cabeça e respirou fundo pelo duto. O peixe então abriu a sua boca imensa revelando o espelho-que-tudo-reflete. “Tudo aquilo que se é, gostando ou não, será refletido e deverá ser visto”. Muitos morreram afogados por não conseguirem se ver completamente. Uma imagem distorcida daquilo que se acreditava ser. O choque é tamanho a ponto de muitos mergulhadores se transformarem em corais depois disso.

Mas Ishtar sempre guardou no peito as palavras de seu pai: “Conhece-te a ti mesma”. E ela tinha noção da sua força. Ao ficar em frente do espelho, o reflexo era apenas luz. Brilhante e intensa como um meteoro quando corta o céu ao adentrar na atmosfera terrestre. Esse momento sempre trazia a lembrança mais latente de Ishtar: o dia que perdera a visão. Foi na sua primeira expedição marítima. Desavisada em relação ao obstáculo pela qual passaria, não sabia do próprio potencial total. Nunca mais viu depois do clarão. Foi como uma bomba atômica, mas sem o barulho. Ishtar chorou a primeira vez e o peixe lhe perguntou, ironicamente, se ela deixaria mais alguma coisa ali, mas a sua passagem foi liberada no momento em que a mulher disse: “Já deixei meus olhos. Não lhe dou mais parte alguma minha”. Humilhado, o guardião não teve mais o que fazer a não ser deixá-la passar. E foi assim desde então.

Assim que passou pelas grades, as águas ficaram vermelhas. Outra luz banhava aquela região e não era de Ishtar. A luz vinha de baixo dela. Apesar de não conseguir ver, ela sentia: todos os corações esquecidos e renegados por milhares de pessoas que um dia chegaram a amar. Um sonho frustrado, um relacionamento terminado, uma amizade desfeita, todos estavam ali, pulsando. Os biólogos não sabem, mas parte dessa pulsação é o que movimenta as marés. São os corações que chamam pelos seus donos, mas não são ouvidos. Às vezes, se prestar muita atenção, pode-se ouvir suas vozes distantes no horizonte em noites de lua cheia. E cabia agora a Ishtar encontrar o coração esquecido de Augusto.

Alguns conversavam com a escafandrista, perguntando pelos donos e suspirando pelo dia que se uniriam novamente através das mãos da salvadora submarina. Foi então que Ishtar ouviu o lamento de uma música: “My man’s got a heart like a rock cast in the sea”…

Guiando-se pela frase repetida, encontrou o coração fragmentado de Augusto que balançava de um lado para o outro entoando as notas musicais chorosas preso em um coral azul. Ishtar se aproximou dele, mas ao tentar pegá-lo, ele fugiu. Assustou-se pelo aspecto da mergulhadora. Ela foi atrás, apesar de ele ser bem mais rápido, e pediu que os outros corações a ajudassem na perseguição. Estes então fizeram uma roda e deixaram apenas Ishtar e o fugitivo no centro.

– Por que foges de mim se eu só quero o seu bem?

– Porque fui abandonado aqui.

– Mas seu dono te quer novamente. Ele está te esperando lá em cima.

– Mas eu me quebrei na queda. Se ele já não gostava de mim antes, não vai gostar agora.

– A coisas mudam. Ele fez o que achava que tinha que fazer na época. Não foi por mal. Ele só não queria sofrer mais.

– E o que ele quer agora?

– Ele precisa reaprender a amar. E só você pode ajudá-lo.

A roda começou a se fechar num grande abraço, até que o coração de Augusto pulou no colo de Ishtar e aceitou ir para a superfície. Ela então nadou o mais rápido que pôde para voltar ao barco e ouviu o grito de alívio de Augusto ao ver o grande capacete dourado emergindo das águas. “Você o encontrou!”, disse ele. “Sim, mas acho que você precisa pedir desculpas”, disse Ishtar colocando o coração delicadamente nas mãos de Augusto.

– Eu errei. Desculpa, mas a dor foi muito grande. Senti-me traído. Ela não poderia ter me abandonado.

– É a lei natural. A Morte a levou quando ela teve que ir. E você é a continuação dela. Já deveria estar preparado.

– Mas eu nunca estive. E por muito tempo, achei que uma parte de mim tivesse ido junto com ela.

– E por que me resgatar agora então? Ela não voltou.

– Porque eu quero amar alguém como ela me amou. A minha continuação.

– Qual o nome dele?

– Pedro.

Augusto abraçou então seu coração tão forte que ele encontrou o caminho de volta ao seu peito. Ele virou para Ishtar e agradeceu. Não sabia como lhe retribuir. Ela ficou lisonjeada, um pouco encabulada, mas feliz pela união. Ela o deixou no cais e logo depois de Augusto ter saltado do barco, Ishtar sentou numa cadeira de madeira e recostou sua cabeça na parede lateral. Acendeu um cigarro e baforou deliciosamente a fumaça pela maresia enquanto ouvia a música I Have a Dream, do ABBA, e soube, assim que sentiu o brilho lunar no rosto, que a voz não vinha do rádio.

“… I believe in angels. When I know the time is right for me. I’ll cross the stream… I have a dream…”

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2 comentários em “A Escafandrista do Mar Vermelho – Conto (Juliana Ferraz)

  1. Ju Ferraz
    3 de julho de 2018

    Obrigada, Lúcia. Que bom que gostou. Apenas um adendo: Augusto na verdade “jogou o coração fora” quando sua mãe morreu. Por isso o texto fala sobre uma “continuidade”. Agora ele será pai. De Pedro e quer amar o filho que será a sua continuação. Gostei da sua interpretação também. Só espero não ter estragado a história pra ti. rsrsrsrsrs. Abs, meu bem. 😉

  2. Lúcia Villela
    26 de maio de 2018

    Uma historia fantástica, em que um jovem se sentiu traído quando da morte de seu amor e, assim, descartou o seu próprio coração. E todos os corações perdidos ou descartados por acontecimentos do sentimento, eram submersos num mar e numa região já vermelha de sangue em dor. Uma mergulhadora que tinha força interior “conhece-te a ti mesma”, treinada em fazer o reencontro dos corações com os seus donos, restabelecia, desta maneira, a vida dos mesmos. Ela foi ajudar o jovem. Ele queria amar como antes e ser amado; não o amor que foi levado pela morte e que ele achava que algo de si mesmo tinha ido, mas, outro amor que o completasse. Ele queria o amor de uma pessoa com o mesmo sexo que ele, garantindo aí, uma surpresa ao conto.
    Juliana, eu entendi a mensagem da história, como sendo a de um jovem que tem um sonho e sabe que vai encontrar o seu verdadeiro amor e a sua continuação, no momento certo. Gostei do conto. É bem escrito, organizado e com diálogos fáceis; tudo como uma sinfonia gostosa. Somente no finalzinho do diálogo, acho que ficaria melhor se você colocasse, por exemplo, ao invés de “Qual o nome dele?” Bem assim “Já conhece esse alguém?” e ele “Sim. Pedro.”, daria maior impacto. Outra observação: eu acredito que não se devem colocar frases inteiras em inglês; embora a música seja conhecida, pode haver alguém que não sabe o inglês.
    Sucesso!!

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Informação

Publicado às 20 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .