EntreContos

Detox Literário.

A Caixa – Crônica (Higor Benízio)

Vou ao supermercado desde que me entendo por gente, mas nunca morri de amores pelo lugar. Confesso que alguns, principalmente os enormes, me atraíam quando eu era criança. Minha mãe, sempre mais radiante atrás de um carrinho, escolhia com ares de “aquecimento global” cada coisa e cada preço; enquanto eu namorava bonecos do Wolverine que custavam mais de 30% da nossa renda familiar. Quando cresci, o interesse que já não era alto, diminuiu.

Tendo minha leve aversão em mente, posso conta-lo(a) sobre os acontecimentos de ontem.

Encarava a fila do caixa com um engradado de cerveja e um saco de pão. Tudo seguia normalmente, como deveria ser. Até eu reparar que minha fila andava com velocidade fenomenal, quase debochada. Não demorou e as outras pessoas logo começaram a trocar de caixa, entre fuxicos e reclamações. “Vamos para aquela ali, Eduardo! A Caixa dali é rápida”, ouvi uma mulher dizer ao que parecia ser seu marido. Foi então que eu a vi.

A Caixa tinha um semblante sólido, digno de quem está no nirvana da concentração. Os belos traços do rosto, e a postura firme, lhe conferiam uma beleza honesta, paralisante. Em movimentos rápidos e aparentemente naturais, passava os produtos pela registradora ao mesmo tempo em que os ensacava usando as sacolas duplas que ia pendurando no braço. Era como assistir a uma apresentação impecável de violino, ou ao voo sóbrio de uma águia experiente. Impossível não se apaixonar.

Finalmente minha vez tinha chegado.

“Boa tarde, senhor! ”, disse com uma voz que só ela merecia: rígida, simpática e frágil.

“Boa tarde”, respondi automaticamente, sem tirar os olhos do chão. Eu parecia um garotinho indefeso, oprimido por uma garota três turmas mais avançada.

Fui acompanhado sua magia, agora mais de perto. Perto o suficiente para sentir o cheiro de camomila (com whisky?) que emanava daquele cangote ereto, irredutível. Ah, as mulheres…, como diria Mandrake.

“Cartão? ”

“É… sim, cartão”

“Crédito ou débito? ”

“É… débito”

Meus olhos então desceram até meu bolso, precisava da minha carteira. Porém, um desvio involuntário aconteceu, intuitivo, e me deparei com o par de pernas benemerentes da Caixa. O romantismo enfim começou sua batalha cruel com o mero desejo animal, fazendo minhas axilas suarem…

“Pode inserir”

“…”

Uma força estranha e involuntária moveu minhas bochechas. Não pude evitar o sorriso. Insiro o que você quiser, onde quiser, cantava o macaco que batia palmas na minha cabeça.

“Obrigado”

“De nada, volte sempre”

Quando acordei, estava na calçada, com as sacolas apertando meu braço. Tudo que consegui fazer foi sorrir. Uma alegria bobalhona e descompromissada afogava o meu coração em leveza e inocência, como não acontecia há anos. Senti que se pulasse, precisaria de um laço para me manter no chão. Deve ser assim que as crianças se sentem quando gargalham sem motivo algum.

A felicidade é uma coisa louca, e juro que naquele dia eu não bebi.

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Informação

Publicado às 17 de maio de 2018 por em Crônicas e marcado .