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Detox Literário.

Sem lugar para elefantes – Conto (Anderson Piva)

Quando os pais decidiram que a única solução seria se mudar para uma casa menor, Ada quis saber:

“Mas, onde é que vamos alojar o pobre Aníbal?”

Aníbal era o elefante da família, um animal enorme e pesadíssimo. Para que pudessem ostentá-lo, como um sinal supremo de glória e status, mobilizava-se todo um séquito de empregados. Havia o cuidador, que trouxeram da Índia; o alimentador, especializado em nutrição de animais portentosos; o esteta, responsável pela forma física, vestimentas e boa aparência; e, por fim, o amestrador, um nobre francês finíssimo, perito na profunda e complexa ciência da etiqueta selvagem. O elefante era tratado como um verdadeiro rei. Tinha seu próprio espaço na mansão dos Piazza e vivia nababescamente, atraindo a admiração e a inveja dos amigos e inimigos do clã.

Na festa de despedida do palacete, o velho patriarca promoveu um último banquete.

“Sabem quantas famílias podem ainda ostentar um elefante como o nosso?”, perguntava orgulhoso. “Nenhuma!”, assegurava, “nesta cidade, pelo menos, nenhuma. Por isso, se é verdade que perdemos um tanto de dinheiro aqui e que nos levaram outros tantos bens ali, também é verdade que havemos de carregar conosco o querido Aníbal a vida toda, seja lá para onde formos.”

E foi ovacionado pelos presentes, rostos em que se misturavam lágrimas e sorrisos, verdadeiramente emocionados, comovidos com o belo discurso, o apelo à tradição e à história da família.

“O sangue que corre em nossas veias pulsou no coração de Júlio César” e, levado ao êxtase extremo, “quem não for um canalha, um traidor da pátria, há que admiti-lo: pulsou também na careca límpida e brilhante do nosso querido Duce!”

A pequena legião de familiares e lambe-botas explodia em aplausos e assobios.

No dia da partida não foram necessários muitos caminhões nem muitas viagens para carregar a mudança. Praticamente todo o mobiliário foi deixado para trás. Afinal, na nova casa, pequena e humilde, não haveria espaço para aquelas mesas de madeira enormes, aqueles armários de jacarandá ou o jogo de sofá Luís XV folhado a ouro. O novo estilo de vida pedia comedimento, sobriedade e moderação. A única extravagância que se permitiam era Aníbal.

De acordo com a lenda, o animal teria recebido o nome do famoso africano após ser capturado às tropas cartaginesas por um antepassado do clã, general romano da Segunda Guerra Púnica. Atravessara os séculos, gerações e mais gerações, no seio da família; o fato, aceito como verdadeiro e inquestionável, só podia mesmo atestar a importância de seus ancestrais para os destinos da humanidade. Prova cabal de que não apenas a atual república, mas a própria República Romana era devedora do talento, coragem e capacidade dos esplêndidos Piazza.

Quando chegaram à nova morada, Ada tratou de ocupar o melhor quarto; e como na pequena casa havia apenas dois dormitórios, um problema foi criado logo de imediato: não haveria lugar para que se acomodassem os pais, já que Aníbal teria de ocupar o quarto menor. Pior, não haveria lugar para o cuidador, para o alimentador, para o esteta e nem para o amestrador francês que, refinadíssimo, exigia aposentos distintos. O velho Piazza, prático e contemporizador, tratou de resolver a questão. Teve uma longa conversa com Ada e após um longo discurso sobre o sangue, a tradição, a nobreza e o status, convenceu a jovem a ceder o quarto para os empregados de Aníbal, trazendo-a para dormir consigo no quintal.

“Temos nosso leito nesta barraca de acampamento, minha filha! Aqui estaremos tão bem e tão dignamente acomodados quanto os nossos heroicos antepassados nos campos de batalha que asseguraram a glória da República Romana.”

Ada não se comoveu muito com as palavras do pai, mas considerou que um elefante antigo poderia lhe garantir um bom casamento, ao passo que um bom quarto lhe garantiria, no máximo, uma boa noite de sono. O séquito de empregados foi alojado no quarto maior e a família dormiu feliz a primeira noite no quintal.

No dia seguinte, tudo parecia correr às mil maravilhas, mas bastou o primeiro atrito entre o esteta e o alimentador para que se abalasse aquela precária harmonia.

O caso começou quando o alimentador foi orientado pelo patriarca a economizar na ração diária ministrada ao animal. O esteta protestou e argumentou que seria impossível realizar seu trabalho de maneira adequada, a menos que o elefante se alimentasse bem. A contenda foi resolvida quando o velho Piazza colocou o impasse de forma clara:

“Ou bem come o elefante, ou bem comemos nós.” 

A primeira semana sem comida foi difícil de suportar. A mãe Piazza tentou olhar a questão sob uma perspectiva favorável e tratou de meter na cabeça da filha e do marido que já estava mesmo na hora de fazer um regime; afinal, do jeito que vinham engordando, acabariam tendo sérios problemas de saúde. Assim, com uma dieta restrita a pão e água, resolviam dois problemas de uma só vez: economizavam em favor da alimentação de Aníbal e aproveitavam para emagrecer.

Os empregados também começaram a sofrer com a severidade das economias. Não queriam abandonar o emprego de que tanto gostavam, mas começaram a sentir o peso da pobreza em que a família havia caído. Antes, aproveitavam-se do fausto em que Aníbal vivia. O luxo e a suntuosidade reservados ao elefante era motivo de orgulho e conforto também para os serviçais que lhe cuidavam.

O primeiro a desertar foi o amestrador, sob a justificativa, plenamente compreensível, de que era impossível ensinar bons modos a um elefante que vivia num ambiente cheio de privações. Ainda que tentassem poupá-lo, mantendo a sua ração diária, seus adornos trazidos do oriente e um espaço mínimo para seu conforto, o pobre Aníbal parecia sentir a mudança, pondo-se triste e rebelde ao mesmo tempo. Não obedecia mais aos comandos do francês e, por isso, o nobre professor de etiqueta selvagem sentia não ter mais o que fazer ali. Deixou a casa entre lágrima e agradecimentos, tendo a certeza de que jamais voltariam a se encontrar.

Uma semana depois foi a vez do esteta. Embora fizesse esforços tremendos para que o animal se mantivesse em boa forma elefanta, não foi capaz de vencer a magreza galopante em que Aníbal parecia se consumir. Tentou de tudo; chegou até mesmo a roubar. Mas seria impossível continuar alimentando uma fome selvagem com base em pequenos delitos; além do mais, a melancolia parecia jogar um papel importante na decrepitude do animal. Ainda que lhe fosse ministrada alimentação digna de um rei, parecia impossível a recuperação da antiga forma. A decadência chegara para ficar.

Diante desse quadro desolador, era natural que o responsável pela alimentação do animal também partisse. A família não chorou, não protestou e considerou sensata a atitude do alimentador. De qualquer maneira, eles sabiam, não poderiam mantê-lo por muito tempo mais.

O velho Piazza andava em apuros. Só lhe restava o indiano. Os cuidados com Aníbal eram muitos, e o cuidador, por mais experiente e dedicado, parecia não dar conta das múltiplas tarefas que um elefante requer.

Notava, dia após dia, o definhamento do animal, a sua rebeldia em aceitar as ordens do cuidador, a decadência física e a tristeza humana em que se metera. Mal se levantava. Quando o fazia, era para logo em seguida abandonar-se desolado no chão. Não tinha as forças que um elefante deve ter. Não tinha ânimo, brilho, exuberância: tudo o que um animal histórico como aquele deveria ostentar. Piazza teve o pensamento terrível de que Aníbal, no fundo, deixara de ser um elefante.

Essa consideração o deixou desconsolado. Junto com o animal, definhava a sua família – desapareciam séculos de glória. Sentou-se no chão do quintal a contemplar a decadência. Logo o indiano veio lhe fazer companhia em sua tristeza; olhou francamente para o patrão, como quem pede desculpas. Partiu na manhã seguinte, antes que o sol se levantasse.

Quando todos acordaram e se deram conta da ausência sentiram um misto de angústia e alívio. Desmontaram a barraca e instalaram-se no quarto maior. Aníbal mal saía do quarto menor; e o esforço que faziam para que ele pudesse se movimentar um pouquinho todos os dias era tremendo.

Sentaram-se para o jantar e, pela primeira vez em suas vidas, estavam sozinhos. Apenas os três. A sensação de vazio era profunda, mas os problemas deveriam ser encarados, como costumavam fazer os Piazza. Chegaram à conclusão de que alguém deveria ficar inteiramente à disposição de Aníbal. O animal se encontrava em péssimas condições e, caso não se tomassem as devidas providências, Deus me livre, o pior poderia acontecer.

Ada protestou e disse que não teria condições de passar os dias em função desses cuidados. Tinha que estudar e o tempo livre de que dispunha era escasso. A mãe, por seu lado, objetou que os afazeres domésticos já lhe ocupavam demais e que a possibilidade de torna-se cuidadora de um animal selvagem estava absolutamente fora de questão.

“O que vamos fazer, então? Suas ingratas! Passo os dias trancado num escritório, ganhando uma miséria para sustentar esta casa e o nosso elefante… E o que tenho em troca? Ingratidão!”

Piazza resolveu demonstrar a gravidade da situação colocando o problema em forma de impasse novamente: 

“Ou cuidamos do elefante, ou teremos que doá-lo.”

“Não se doa elefantes, papai”, explicou Ada. “O senhor bem sabe: ou se nasce com eles, ou jamais se poderá ter um.”

O velho Piazza emocionou-se com as palavras da filha. Terminaram o jantar, porém, sem que uma solução fosse encontrada.

Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, Piazza ficou surpreso ao ver o elefante esparramado na pequena sala de TV. Antes de partir, gritou à mulher que o removesse do aposento. Quando chegasse do trabalho, ao final do dia, iria esticar-se na poltrona para se livrar da canseira; e com Aníbal ali, isso lhe seria impossível – o animal ocupava todo o espaço.

A mulher passou a tarde toda fazendo esforços tremendos para tirar o velho elefante da sala. Tentou enxotá-lo com a vassoura; usou-a, inclusive, como alavanca. Bateu-lhe, praguejou, cuspiu-lhe. De nada adiantou. Aníbal era um peso irremovível.

Quando à noite o patriarca chegou do trabalho, deparou-se com um animal ferido, maltratado, afundado em sua poltrona e perdido de tanta tristeza. A cena lhe pareceu tão comovente que nem tocou no assunto. Jantaram em silêncio e foram se deitar.

De madrugada o velho Piazza não podia dormir, ocupado com a questão: o que faria com Aníbal? Levantou-se para beber água e passou pela sala. Acendeu a luz para certificar-se de que Aníbal estava ali. Pretendia planejar mentalmente os esforços que faria no dia seguinte. Seria mais fácil pensar em tudo tendo à sua frente o campo de trabalho.

Mas Aníbal já não estava na sala. Afoito, Piazza correu até o quarto menor. Nada ali. Atravessou o pequeno corredor desesperado, mas a cozinha estava vazia. Pela janela, viu que não havia ninguém no quintal. Voltou à sala e abriu a porta da frente, antes obstruída pelo animal; notou que o portãozinho estava aberto. Na terra fofa do impecável jardim da senhora Piazza, iluminadas pela luz branca da lua, restavam quatro roseiras pisoteadas por um colosso.

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4 comentários em “Sem lugar para elefantes – Conto (Anderson Piva)

  1. Filipe
    24 de abril de 2018

    Muito legal mesmo, o absurdo é cômico e ao mesmo tempo ácido. Divertido de ler.

  2. Fil Felix
    28 de janeiro de 2018

    Olá, Anderson! Adorei o conto! É o tipo de narrativa que me pega pela mão, trazendo uma grande alegoria (literalmente), um ótimo subtexto e cenas que beiram o absurdo, rendendo diversas interpretações. De início temos a família que ostenta um elefante e que, mesmo na miséria, vão todos unidos pra nova casa, mesmo que não possam mais sustentar os velhos hábitos. Por detrás disso, podemos pegar o elefante como símbolo de riqueza, da luxúria e soberba. A família preferindo dormir numa barraca, mas mantendo este símbolo. Uma bela alegoria dos ricos que ficam pobres, mas caem em dívidas e no submundo a fim de manter a velha imagem. Adorei essas conexões que conseguiu despertar. E é um conto que não termina com o trágico, como é de se esperar (talvez a morte do animal), mas de maneira livre: a liberdade tanto do elefante, que foge de seus donos; quanto a liberdade dos donos, ao se verem livres de um peso. Um contraste bem forte, se trazer pro cotidiano, o quanto ficamos presos em certas situações, preferendo nos ver livres delas.

    Também foi legal trazer um cenário da antiguidade, dos elefantes de guerra. Da metade do conto pra frente percebi uns dois ou três erros, mas no geral está muito bem escrito e fluído. O tipo de texto que eu gostaria de ter feito em algum desafio. Gosto muito de elefantes e, coincidentemente, eles aparecem num conto que to bolando pra essa temporada Off.

    • Anderson Piva
      2 de fevereiro de 2018

      Olá, Fil Felix! Quanta gentileza sua ao comentar este pequeno conto! Fico muito contente. Quanto aos erros, prometo fazer a revisão. (Ou se você se lembrar onde se encontram, esteja à vontade para indicá-los) Muito obrigado, de verdade. Gostaria de ler os seus contos também. Abraços!

  3. reflexoseperspetivas
    15 de janeiro de 2018

    Muito interessante 🙂

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Informação

Publicado às 14 de janeiro de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .