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Detox Literário.

Decomposições, passarinhos – Conto (Dener Pastore)

Muita gente não gosta de ciprestes, mas nesse aqui há um ninho de bem-te-vi com três ovinhos, não dá pra vê-los por que a abertura do ninho é pelo lado e ainda mais que um dos pais, por acaso agora o macho, os está chocando, enquanto a fêmea busca algum inseto, alguma larva, umas sementes ou algum resto de ração de cachorro pelas redondezas, diligência que seria muito facilitada não estivesse a profusão de vermes disponíveis por aqui encerrada em cubículos de cimento e segundas camadas de madeira, inacessíveis para esses passarinhos briguentos, de maneira nenhuma merecedores de um dos nomes que lhes dão na Argentina: bichofeo. Mas já podemos deixar de matar o tempo e voltar nossa atenção ao túmulo logo abaixo, que a senhora que estava a nos interessar por aves já termina seu monólogo silencioso, deposita seu feixe de órgãos reprodutivos vegetais e se afasta já tentando se lembrar do que mesmo tinha de comprar no supermercado além de carne moída e detergente. Poderíamos ter escolhido qualquer um, mas esse aqui tinha umas fotos simpáticas e uma estátua bonita, ainda que lembrasse um pouco um enfeite de bolo e estivesse bastante marcada pelas excreções dos nossos amigos bichofeos.

O jazigo era velho, um avô militar que tinha tido a esperança de ser enviado à carnificina na Itália mas que não, uma tia hipocondríaca e moralista que amara as tardes de domingo em frente ao aparelho de televisão, e agora o Paulinho havia uma semana. Seu nicho era o segundo da esquerda, e logo ao atravessarmos sua parede de cimento, que de alguma coisa serve sermos narrador onipotente e onisciente, já se pode ver pela qualidade de seu caixão, sem mencionar o enfeite de bolo cheio de cocô de pássaros, que pertencia a uma família medianamente posicionada no ranking das possibilidades de ostentação, tese confirmada pela condizente de seu terno e sapatos, de aparências já seriamente comprometidas pelos subprodutos da intensa atividade orgânica que se desenvolvia ali, pés que pouco tinham se dado ao desconforto daquele modelo, preferindo mais os de tipo tênis, haviam chutado alguma bola, pedalado alguma bicicleta, apertado algum acelerador, recebido alguma massagem, o levado a lugares de excitações, de frustrações, de ansiedades, mas na maioria de tédio e automatismos. Sem a necessidade nem a vontade de respirarmos aqui, temos tempo e poderíamos nos demorar um pouco mais em suas mãos, sem notícias de trabalhos penosos, mas de intermináveis horas de teclados de computador, consoles de jogos eletrônicos, volantes de carros, copos de bebidas alcóolicas, também assim dar uma espiada em seu pênis, resgatar as dezenas de orifícios em que esteve sendo empurrado, puxado e esguichado, com ou sem a proteção que os tempos exigem, e com ou sem os sentimentos que os tempos não fazem mais questão, ou em sua barriga, já rompida pela pressão dos gases acumulados da putrefação, suas milhares de ocasiões de prazeres alimentares e de alegres concessões às feitiçarias inacreditáveis da indústria alimentícia, e se pudéssemos nos entender com essas larvazinhas que ajudam a lhe corroer as carnes deterioradas também elas talvez tivessem algo a nos dizer sobre isso, mas não podemos evitar a curiosidade final e passar logo para o receptáculo das lembranças e do processamento do mundo no interior do crânio, que foi serrado e tudo tirado e posto de volta pelo funcionário do instituto médico legal, enquanto contava a seu colega às voltas com intestinos e trajetórias de balas de pistola que só faltavam três prestações para terminar de pagar o pálio e que a mulher da cozinha tinha mau hálito mas chupava bem, nada que umas cervejas não resolvessem, e aqui nesse cérebro poderíamos passar horas, dias, semanas, a passear pelas esperanças vãs, pelos medos, pelos orgulhos, pelas indefinições, as racionalizações, as invejas, as ilusões tão necessárias, o conjunto complexo e tantas vezes incompreensível do pacote fechado de lembranças de uma vida humana inteira que se esgota e retorna ao nada absoluto da não existência, e não importa quanto tempo teremos passado lá dentro nos lambuzando de impressões, o melhor agora talvez fosse uma espiada recuperadora na mente de um daqueles passarinhos amarelos…

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6 comentários em “Decomposições, passarinhos – Conto (Dener Pastore)

  1. Regina Lopes Maciel
    11 de janeiro de 2018

    Olá Dener, li seu texto várias vezes, aliás, ele requer isto. Mesmo assim achei um pouco confuso. Não entendi a intenção disto, de complicar para o leitor. Lógico que já li dezenas de textos com formatos diferentes/ experimentações, mas confesso que aqui fiquei boiando na sua intenção. A mensagem do texto se restringe a uma descrição bem sumária da vida deste cadáver (e de outros “personagens”) o que achei pouco como conteúdo.
    Abraços
    Regina

    • Dener Pastore
      12 de janeiro de 2018

      Obrigado pela leitura e comentários.

  2. Fil Felix
    7 de janeiro de 2018

    Boa tarde, Dener! É um conto um pouco difícil, seguindo um fluxo de ideias em dois grandes blocos de texto, sem tempo pro leitor parar pra absorver, principalmente pela ausência de pontos finais. É uma característica que arrisca, um tiro no escuro, porque pode atrair ou afastar o leitor. Recentemente li um conto do Cortázar que utiliza desse formato, um longo texto mais corrido.

    Temos uma narrativa pelos vermes, corroendo corpos e cérebros, absorvendo e nos recontando memórias, lembranças e vivências desses mortos. Uma ideia que ficou mais clara perto do final, mas até lá fiquei meio de longe. Gostei dessa visão, da crueza das palavras, de não ter pudores. Percebi um erro ou outro e estranhei algumas mudanças de narrador, como dizer “aqui” e depois “ali”, me perdendo onde realmente estão. A nível pessoal, eu faria uma pequena limpeza, cortando alguns pontos e deixando outros mais fluidos.

    • Dener Pastore
      12 de janeiro de 2018

      Obrigado pela leitura e comentário.

  3. Pedro Luna
    6 de janeiro de 2018

    Uma narrativa rewind, naquele estilão de alguns consagrados escritores mundias. O autor pega uma cena e a rebobina, trazendo uma explosão de detalhes de uma vida, ou de um acontecimento. Não é o texto que te agarra e te pega, mas é um bom trabalho. Aqui achei interessante a dualidade dos mortos com os pássaros que ainda não nasceram.

    • Dener Pastore
      12 de janeiro de 2018

      Obrigado pela leitura e comentários.

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Informação

Publicado às 5 de janeiro de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .