EntreContos

Literatura que desafia.

A linha tênue (Alma Carroll)

A paisagem verde passava devagar. As coisas andavam sem pressa para a família. Ao longe, os morros baixos de vegetação rasa passavam como a imagem da tranquilidade do interior. O sol escaldante e a morosidade do tempo da viagem, no entanto, exaltavam os ânimos até da criatura mais enfadonha. A estrada de chão batido, apesar do bom estado aparente, perpetrava os solavancos da Veraneio, vez ou outra, com o desnível de buracos e pedras. Em um dia de chuva, talvez apresentasse problema. Aquela terra toda se transformaria em lama.

Para João José de Mattos estava tudo certo – morros, vegetação, calor, solavancos. A decisão repentina de mover a esposa, a prole e o sogro para o interior de Rio Novo dera um fôlego na rotina, aquela que matava o desânimo, que fazia tudo sempre igual. O que mais poderia sair errado naquela mudança para o interior de Minas Gerais? Escapar da correria da cidade grande e aceitar um trabalho de diretor na escola local fora a salvação.

Sentada no banco de trás do veículo, Lídia observava a família caótica e desregrada que surgira da união com um professor de História. Filha de Antônio Cândido de Menezes, marceneiro aposentado, mãe de Sara e de Pedro, tentava encontrar na mudança de ares o equilíbrio que faltava para seu mundo voltar a ser suportável.

A música falhava. Ia e vinha, cedendo espaço à estática. Aquelas estações interioranas não acrescentavam nada de novo. João assoviava a melodia, mesmo nas interferências. Quando não assoviava, cantava sem se importar com a afinação ou com o ritmo. Era o início da década a ecoar na voz dos Novos Baianos e na de João, que sabia decor.

O filho caçula não parava quieto, muito diferente da irmã que acompanhava a paisagem em total silêncio desde a partida, mascando chiclete. Um Ping-Pong atrás do outro. Quando o gosto se ia, jogava-o pela janela e outro seguia para a boca.

— Fica quieto, Pedro. Já estou tonta. — Lídia o puxou para perto dela, tentando conter o irrequieto.

— Quando vamos chegar, mamãe?

— Logo — João respondeu em tom seco. — Mais uns cinco minutinhos.

— Por que precisamos morar aqui? — Sara quebrou o silêncio. — Eu não quero morar no meio do mato!

— Não estamos no meio do mato. Estamos bem perto da cidade. — As cobranças o perturbavam, mais do que dirigir por horas no calor de janeiro.

— Você quer dizer vila, não é? Porque passamos por uma vila. Nem de longe aquilo é uma cidade. — Sara contestava em sua adolescência. Vivenciava uma fase desagradável.

— Não seja ingrata. Não vamos pagar aluguel. Tudo o que precisamos é manter o lugar em ordem. Essa foi uma proposta irrecusável — o marido explicou. — Além do mais, vai poder ir à escola comigo. Não dependeremos de ninguém. E teremos uma horta. O vovô se comprometeu, não é mesmo, Seu Antônio?

— Olha! Olha, mamãe! — O menino apontou para a direita, sobressaltado. — Tem um cemitério aí! Ali!

— Eu não quero morar ao lado de um cemitério — a filha completou, esticando a cabeça para enxergar o campo santo desaparecer na curva.

— Parem de reclamar! — João diminuiu a velocidade e saiu da estrada vicinal, tomando uma ainda mais estreita.

Dois minutos depois, parava em frente à construção de alvenaria branca de formato retangular. Uma típica residência de fazenda, com as janelas de vidros quadrados emolduradas em tom azul desbotado, cuja varanda, coberta por uma meia água, sustentava-se por pilares quadrados. A balaustrada de alvenaria simplória ainda se mantinha firme frente ao tempo.

Lídia saiu logo depois de João e Sara se colocou à frente dos dois.

— Não me admira que não seja cobrado aluguel. Está caindo aos pedaços!

— Lídia! — o marido a chamou atenção, enérgico.

Lídia conteve a decepção. A construção possuía um bom alicerce para não estar no chão.

— Olha, mamãe! — Pedro já corria longe do carro. Sempre apressado, querendo explorar os arredores. — O que é isso?

Antônio, que até então não se pronunciara, aproximou-se do neto, seguido por Sara, ainda sustentando a cara amarrada.

— É um pelourinho. — Antônio respondeu de pronto. O garoto corria ao redor do tronco e batia na corrente pesada que pendia da parte de cima. — Amarravam os escravos, aí. Depois…

— Pai! — Lídia interrompeu a explicação. O menor não tinha idade ainda para entender o que a tortura significava. Aquele monumento à escravidão arrepiou seus pensamentos. — Quem sabe, nós conversamos sobre isso depois. — Puxou Pedro pela mão. — Vamos conhecê-la por dentro. O que me diz?

— Posso escolher meu quarto?

— Isso, veremos. — Lídia seguiu para junto do marido. João já se encontrava na varanda, abrindo a porta central. — Tem certeza de que o Josival conhece essa região o bastante para não se perder com nossas coisas?

— Não se preocupe. Ele não deve estar longe. Daqui a pouco estará buzinando no nosso ouvido.

A primeira luz iluminou o enorme espaço da sala com três portas e várias janelas. Os poucos móveis que a família possuía preencheriam apenas uma parte dela. Lídia estancou na porta, incapaz de entrar. Pedro, como sempre, soltou-se de Lídia e invadiu o corredor, abrindo as portas.

— O que foi? — João questionou.

— Esse cheiro de passado… — Percorreu as paredes com o olhar, enquanto José abria as outras janelas. — Esse ar de coisa velha… — Reparou nas manchas no chão.

— Venha! Não seja tão negativa sobre o lugar. — Ele se aproximou e a arrastou para dentro. — Vamos olhar as outras peças.

O arrepio tomou Lídia de um golpe. A cada quarto, uma nova sensação incômoda. João e Pedro eram os únicos que pareciam estar se divertindo. Pedro porque corria de um lado para outro e João pelo fato de fugir das calúnias e perseguições políticas.

— Devíamos ter alugado algo na cidade.

— Vai dar tudo certo, Lídia. Olhe para essa cozinha! — Ele ficou no centro do cômodo. — Já viu cozinha tão grande?

— Por que o chão está todo manchado?

— Nada que um bom esfregão não resolva. Vamos cuidar de tudo com tempo. Foi por isso que viemos com antecedência.

— Estamos perdendo as férias de verão com essa mudança — Sara olhava para os dois, parada na porta. — Isso aqui é o fim do mundo.

A buzina curta e sequencial do caminhão fez todos largarem a arrumação e correrem para fora. A mobília e os mantimentos para o mês chegavam em boa hora. Josival desceu com um sorriso, acenando. Em meio ao cansaço da tarde, o caminhoneiro deixou escapar as informações que o borracheiro da cidade contara.

— O homem me disse que esse lugar não tem uma história boa, João. — Sentado em um caixote, retirou o boné e coçou a cabeça.

— Que tipo de história, Josival? — Lídia aproximou-se dos dois.

— São só histórias — João se interpôs. Sabia dos causos, mas não queria dar margem para que Lídia e as crianças se impressionassem. — Andei me informando também. — E desconversou. — Quando tiver um tempo, traga a patroa e as crianças para passar uma semana. Tem muito chão para correr por aqui.

A tarde já terminava quando Josival pegou a estrada para voltar para a capital.

— Faça boa viagem — Antônio acenou.

— E vocês, se cuidem.

 

*  *  *

 

Enquanto Pedro se ocupava em explorar a casa, metendo-se em cada fresta da construção com os brinquedos e apetrechos de acampamento, o avô Antônio executava pequenos consertos dentro dela, a pedido da filha. Embora não considerasse necessários, verificava as queixas de Lídia. Dobradiças, tábuas soltas, vidros quebrados, azulejos soltos.

— Essa casa está um lixo. Ou o chuveiro está entupido ou a fonte está suja. A água sai marrom.

— Eu já verifiquei — João respondeu com a voz cansada. — Não há nada de errado com ele.

— Eu posso dar mais uma olhada na fonte amanhã — Antônio levantou-se do sofá. — Assim, temos certeza de tudo estar funcionando, não é mesmo?

Sara passava grande parte do dia perto do grande galpão, onde sentava aos pés de um umbuzeiro. Gostava de ler e já tinha adotado o cantinho como seu. Para Lídia, no entanto, ela não oferecia conforto. Sentia-se incomodada com o lugar. Não passava um dia sem encontrar algum defeito. As noites mal dormidas ligavam-se aos dias de calor e lentidão e o mau-humor estremecia a relação com João. Uma semana após outra.

— Por que não guarda as coisas dessas caixas? — João reclamou depois de tropeçar em uma delas.

— Do que está reclamando agora?

— Por que não organiza isso aqui? O corredor não é depósito. — Ele apontava para o restante da louça ainda empacotada. Coisas que considerava úteis no dia-a-dia. — Faz duas semanas que nos mudamos e as coisas ainda estão dentro de caixas.

— Se está incomodando tanto, faça você mesmo.

— Só estou dizendo…

— Tenho dormido mal e minha dor de cabeça não passa. Você deveria me ajudar também. O que faz de tão importante que não larga aqueles cadernos e livros?

— Daqui uma semana assumo o cargo de diretor naquela escola.

— Você passa muito tempo dentro dessa casa. Não podemos sair?

— Preciso ter meus objetivos e metas estruturados. Não quero chegar lá como um joão-ninguém da pedagogia, órfão de filosofia e alheio às características da região. Estou estudando, Lídia. Além do mais, você tem os medicamentos para aliviar essas dores.

Não dar respostas para João quando os discursos começavam fora uma das decisões dela. A ausência de debate encurtava o caminho para uma paz aparente, evitando um desgaste maior da relação já capenga.

Naquela tarde, João sentou-se na escrivaninha e mergulhou nas leituras. O silêncio contribuía. Lia e anotava sem distrair-se. O sol já tocava o horizonte quando fechou o livro.

Antônio parou na porta da cozinha, vindo do banheiro.

— Tudo certo com as janelas.

Lídia, debruçada no peitoril da janela do meio, virou-se parcialmente.

— Consertou aquele trinco, pai?

— A casa está perfeita. Não tem nada de errado com o trinco da janela, filha.

— Não?

— Não, mas para ter certeza, passei um por um. Agora vou juntar as lenhas que vi no porão.

— Vamos fazer essa coisa funcionar? — Ela apontou para o fogão rústico.

— Claro que vamos. Pode fazer toda a diferença. — Na cidade, eles usavam apenas o fogão a gás, mas aí, em meio ao mato, duvidava que o genro se lembrasse de trazer gás se fosse preciso. — O que preocupa você, filha?

Ela suspirou tão fundo que o peito chegou a doer.

— Gosta daqui?

— É tranquilo. É acolhedora. Aqui é muito melhor do que naquele apartamento onde estávamos. Não me sinto sozinho. — Ele se aproximou, buscando no olhar da filha algum entendimento. — Por que, Lídia?

—Não sei… Essa casa… — Pedro insistia em brincar no pelourinho. Corria ao redor do tronco. Fazia dois dias que ele não saía de perto daquela coisa horrível. — Eu quero que João derrube o tronco. Sei que não somos os donos, mas não gosto daquilo fincado no meio do pátio.

— Hummm… — Deu uma olhada pela janela. — Está escurecendo rápido. Vou pegar as lenhas que vi no porão. Não demoro.

— Tenha cuidado, pai. O porão tem pouca altura. E leve a lanterna.

Lídia voltou a olhar para Pedro a brincar no tronco, cuja base era de pedras grandes, quadradas e batidas. Ela lembrou-se daquelas ruas de Ouro Preto, tão irregulares e encantadoras. O mastro, de um vermelho incômodo. Lídia deteve-se no elo cravado no topo. As imagens dos livros de História, aquelas ilustrações onde se via as pessoas acorrentadas, sendo torturadas, punidas de maneira injusta, dançaram e o tronco ganhou uma dimensão insuportável.

O filho pendurou-se a ele pela corrente e balançava o corpo usando os pés como apoio. Lídia viu sombras crescendo ao redor. Reparou na tonalidade de vermelho, contrastando com a escuridão. Vermelho viçoso. Os vultos dançavam e tomavam formas diferentes. Mãos a saltarem sinuosas, lançando-se para perto do menino.

— Pedro! Desce daí.

O menino continuava a se balançar.

— Pedro!

O chão do pelourinho tomava cor diferente. Lídia viu sangue vertendo das frestas das pedras. O líquido espalhava-se com rapidez, borbulhando para fora, vertendo como naquelas fontes de chão.

— Pedro vem para dentro! Pedro!

Ele não a ouvia.

— Pedro! — gritou ainda mais alto quando o filho caiu, batendo a cabeça no chão. — Pedro! — Viu o corpo ser engolido pelo sangue. As formas cobrirem o que havia ao redor do corpo do filho.

Lídia saiu da janela. O coração disparado. O peito ardendo e as pernas tremendo de um jeito assustador.

Dois passos na cozinha e resvalou, caindo para frente. Foi quando percebeu as manchas de sangue. Encontravam-se por todo lado. As mãos sentiram a umidade. O cérebro travou ao vê-las vermelhas. Quis gritar. Não conseguiu. Tentou erguer-se e cambaleou. A imagem de Pedro sendo agarrado pelas sombras a ergueu do chão. Bateu-se na mesa, derrubando a cadeira.

— João!

Saiu pelo corredor em direção da sala, na penumbra. Bateu-se no sofá. João a agarrou assim que ela chegou à porta da frente.

— Lídia?

— O Pedro! — Tentou se livrar das mãos do marido. — Me deixa! — Empurrou-o para o lado e forçou a porta. Não conseguia destrancar. — O Pedro!

— Lídia! Lídia! — Ele a sacudiu. — O que está fazendo?

— Eles vão pegá-lo!

— Lídia!

Ela saiu porta a fora. Desceu as escadas pulando os dois últimos degraus e estancou em frente ao pelourinho.

Pedro desaparecera. Não havia sangue. Nem sombras.

Ela caminhou titubeante, rodeando a base do lugar. Viu seu pai se aproximar da frente da casa abraçado à lenha. Sara também chegou, ofegante. João parou na varanda e Pedro foi o último a chegar.

— Você me chamou, mamãe?

 

*  *  *

 

Não precisava muito para perceber que o incidente mexera com todos os nervos de João. Ele que se diferenciava pela paciência, naquele instante tinha o corpo tão tenso que era possível perceber a veia do pescoço pulsando.

— Precisa retomar o tratamento. — Ele caminhava de um lado para o outro no quarto. — Precisa parar com isso.

— Eu estou tomando os remédios, João.

— É mesmo? — Parou no meio do cômodo. O único movimento perceptível era o do peito. Para cima e para baixo.

— Não acredita em mim?

— O que foi isso que aconteceu?

— Você não acredita em mim… — Lídia fixou o olhar em suas mãos, lembrando-se de tê-las mergulhado no sangue, no piso da cozinha. Apertou os olhos. As imagens retornando. Pedro sendo engolido.

— Eu não consigo entender, Lídia.

— Estou dizendo a verdade. Eu vi Pedrinho cercado por… — Não conseguia fixar os olhos em algo sem se lembrar do medo. — Sombras. Sombras escuras. Havia sangue no tronco. Nas pedras do chão. — Ela se levantou, indo até o marido. — Havia sangue no chão da cozinha. Eu escorreguei. Bati na mesa. Saí desesperada para salvar o Pedro.

— Está delirando! Escutou o que você mesma diz? — Parou para encará-la firme. — Você olhou bem o chão da cozinha? Não tem mancha alguma!

— Mas estava lá! Além do mais, essa casa está caindo aos pedaços. Só você não vê. Aliás, ninguém enxerga. Essa casa… Ela é…

— Essa casa é perfeita. Estamos bem aqui dentro. Ela é confortável e acolhedora.

— Confortável e acolhedora são as palavras que mais ouço nos últimos tempos.

A batida na porta interrompeu a discussão. Ao abrir, Lídia deparou-se com um filho de olhos pedintes.

— Papai prometeu consertar meu carrinho.

Não havia o que fazer. Ninguém iria acreditar nela. O que ela vivera não fora um delírio.

— Trate de descansar — ele ordenou ao sair. — Está bem?

Ele a beijou na testa e saiu, deixando a porta aberta. Ela ponderou as opções e decidiu seguir o conselho do marido. Desabou na cama. Talvez se dormisse, aquelas imagens se dissipariam e tudo voltaria ao normal.

Ajeitou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Os grilos entoavam uma serenata discreta. Um ou outro coaxar vinha acompanhar o cricrilo dos músicos. Prestou atenção na própria respiração e foi mergulhando nas memórias recentes. A música veio de longe junto com os sons do mato próximo. Pensou ter escutado Sara. Resmungou um ‘estou aqui’ muito fraco.

— Mãe!

O chamado de Sara a fez abrir os olhos. Ergueu com dificuldade a cabeça e percebeu a luz que a fresta da janela deixava passar. Dormira muito, pelo visto. Ainda vestia as roupas do dia anterior e saiu à procura da filha.

Encontrou a maioria dos cômodos abertos. As cortinas balançavam. Perguntou-se quanto tempo dormira e por que ninguém a chamara.

Do corredor, Lídia viu a porta dos fundos entreaberta. Seguiu para fora, e só percebeu estar descalça quando desceu a escada de pedra lavrada. Não avistou nem o pai, nem João. Sequer Pedro, a pendurar-se na corrente do tronco. O filho devia estar brincando no quarto.

Sara continuava a chamar. A voz ao longe, urgente.

O umbuzeiro espalhava os galhos; roçava o maior no telhado do galpão e cutucava a parede com o mais baixo. Ao seu pé, o livro que Sara lia e que a ventania repentina movia as folha. As nuvens passavam rápido. Lídia precisava chamá-la. Armava-se um temporal.

Seguiu pela picada lateral. Ainda não explorara o terreno ao redor.

— Sara! Onde você está?

Saiu da estrada estreita e desceu a pequena inclinação desviando-se da vegetação. Os pés descalços não sentiam as texturas do chão.

— Sara!

Avistou a filha dentro do pequeno e decadente cemitério, em meio às truzes e lápides de acabamento arredondado. Sara permanecia lá, de pé, entre as gramíneas e os arbustos esparsos que cresciam invadindo os contornos das covas.

— O que faz aqui? — Lídia abriu o portão de ferro e caminhou em direção da filha. Olhou para o céu. Ele se cobriu de nuvens carregadas de tonalidades cinza escuras sobrepostas. O vento ergueu as folhas do chão e fez o portão bater. As árvores ao redor inclinavam-se.

Lídia só percebeu que Sara desaparecera dali quando buscou pela figura da filha outra vez.

— Sara! — gritou aturdida. — Sara! Onde está você? — A voz falhando desavergonhada.

A força do vento arrancou o pó do chão num zunido estranho. Um uivo estridente aproximou o céu do chão. A chuva desceu intensa.

— Sara!

A terra tornou-se lama em pouco tempo. Lídia caminhou em meio aos túmulos. Precisava encontrar Sara.

— Filha!

O chão estremeceu com o primeiro estrondo. As sombras da noite caíram ao redor. Lídia sentiu-se afundar na terra, sendo puxada por mãos. De súbito, as pernas mergulharam até a metade. Uma lama escura a prendia.

— Não!

Tentou mover-se diversas vezes. Não conseguia erguer nenhuma das pernas. Sequer conseguia escoar usando as mãos. A força que a puxava a queria para dentro da terra, para mergulhar nela, para nunca mais existir.

— João! — gritou com todas as forças. O único que poderia salvá-la, se a ouvisse. O único que sempre a salvava. Virou o corpo, com dificuldade, para a entrada do cemitério. — João! —Gritou mais uma vez por João enquanto seu corpo era engolido. Deu-se por conta que afundava até a cintura. A lama escura a puxava para baixo. — Não!

A chuva e a ventania se misturavam e o peso das nuvens se aproximava. A escuridão vinha de todos os lados.

As lágrimas já desandavam pela face, misturadas com a chuva. Fechou os olhos e cobriu a cabeça com os braços até ouvir a voz de João.

—Lídia!

Ao abrir os olhos ainda chovia. Ainda permanecia no meio do cemitério.

— O que faz aqui? — O marido, encharcado, segurava-a pelos braços. — Procurei você por todos os lados. O que deu em você? Você está machucada? O que veio fazer aqui?

— Eu…

— Vamos para casa. Vamos! — Ergueu-se e ajudou-a a se levantar. — Vamos para casa.

 

*  *  *

 

Pensou estar sonhando acordada. Apalpou-se. Olhou para os pés. Calçou o chinelo mandando para longe o pensamento duvidoso. Talvez a falta de sono estivesse alterando o entendimento de mundo. Lídia buscava razões pelas coisas estranhas. Saindo do quarto, depois de um sono de muitas horas, encontrou o corredor frio e úmido.

Tocou nas paredes para certificar-se, sentindo o líquido. Escorria água. Chovia lá fora.

— João! — Ela esperou pelo retorno do marido. João, no entanto, li, sentado próximo da janela da escrivaninha. Passava horas naquele espaço. Se não fosse chamado para as refeições, esquecia-se de tudo. — Está chovendo dentro.

Lídia circulou verificando cada cômodo. Perambular pela moradia a procura de alguma irregularidade tornara-se uma espécie de ritual. O pai, acomodado ao sofá, cochilava tranquilo, embalado pelo tempo. A água continuava, no entanto, a escorrer das paredes.

— Você precisa verificar o telhado quando estiver seco. Não é possível deixar a água escorrer das paredes desse jeito — insistiu, mas não obteve sequer o olhar reprovador do marido.

Seguiu até o quarto de Sara. A filha estirada sobre a cama, de bruços, mascava chiclete e rabiscava no caderno.

Pedro continuava a jogar. De um lado para outro, não parava de levar com ele os carrinhos de madeira. A nova residência o mantinha entretido. A casa divertia e confortava a todos, exceto a Lídia.

Sem atenção, voltou para a cozinha. Alguém precisava fazer o jantar. Ela, pelo menos, ainda sentia fome. Retirou os legumes e a carne do refrigerador. Há tempos não fazia um refogado.

Olhou pela janela a chuva torrencial assolar o gramado. Uma cortina branca cobria a vista da colina mais próxima. A calha não dava conta de tamanha água e a friagem já penetrava pelas frestas.

Descascou as batatas e cortou as cenouras. Separou as cebolas e pelou-as. Gostava quando elas não deixavam vestígios junto dos outros componentes do prato. Então, picou-as finas.

Um plict e outro, e mais um, vindos do corredor, desviou sua atenção. Por pouco a faca não cortou o indicador.

— Uma goteira…

Saiu da pia em direção ao som insistente.

O corredor já continha várias poças.

Aproximou-se da goteira e aparou os pingos teimosos no sulco da mão. Logo, a tonalidade barrenta tomou outra cor. Escura. E mais densa. Outros pingos despencaram do teto em pontos distintos.  A parede caiada se retorceu como se a argamassa tivesse vida. Bolhas movimentavam-se atrás da coberta da alvenaria. Lídia deu um passo para trás, empunhando ainda mais firme a faca. Formas indefinidas lançavam-se para frente querendo sair, romper a barreira.

Aterrorizada, por alguns segundos, a covardia não deixou Lídia mover-se. Depois, retomada a coragem, investiu contra a parede com golpes secos, arremetendo a faca às cegas naquele inimigo assombroso. As paredes dançavam à sua frente. As mesmas formas escuras que emergiram da base do tronco apareciam aí, querendo agarrá-la, carregá-la para longe. Ela sabia.

Ao ser tocada, não hesitou. Desferiu golpes longos, acertando cada uma daquelas criaturas sobrenaturais.

Mãos a seguravam. Ela debateu-se à exaustão. Rendeu-se quando a faca lhe foi tirada e uma pancada na cabeça a fez cair vertiginosamente em um abismo de escuridão.

 

*  *  *

 

A cabeça latejava. Os olhos foram abrindo devagar e o foco foi retornando aos poucos. Quis se levantar, mas não conseguiu. Estava presa em uma maca. Braços e pernas imobilizados. E um sujeito mal encarado a olhava atento.

— João! — gritou o mais alto que pode. — João!

— Não se agite, senhora.

— João! Pai! Pai! — chamava por ambos. — Me solta! — Debatia-se tentando sair de cima da maca. — Me deixa sair! João!

Um segundo homem entrou carregando uma seringa. Lídia gritou em vão.

Depois que o líquido entrou, o calor tomou conta do braço e ela foi perdendo as forças.

Os dois levaram a maca para fora. O teto do corredor apresentava-se limpo. As paredes haviam recebido tinta fresca. A sala, toda aberta e iluminada mostrava tudo em seu devido lugar. Impecável. O lugar sofrera uma reforma.

— Seguirei logo atrás.

A voz de João soava muito distante, distorcida.

Lídia olhava descrente e transtornada. Passou pelos filhos, por João e pelo pai. Gritou ao vê-los. Em sua percepção, tinham um aspecto fantasmagórico. Desfigurados, quebrados, em estado de decomposição.

Ao entrar na traseira da ambulância, o cérebro de Lídia já não conseguia estruturar um pensamento lógico. A família na sacada foi a última coisa que viu.

Anúncios

22 comentários em “A linha tênue (Alma Carroll)

  1. Rose Hahn
    20 de outubro de 2017

    Alma, um bom conto, bem estruturado, escrita fluída. Considerei mais um suspense do que terror, os componentes assustadores demoraram um tanto a entrar em cena, dispersando a minha atenção. No 1o parágrafo houve repetições quanto a morosidade das situações : “A paisagem verde passava devagar. As coisas andavam sem pressa para a família. Ao longe, os morros baixos de vegetação rasa passavam como a imagem da tranquilidade do interior”. Quanto ao desequilíbrio de Lídia, achei crível a partir da pista deixada pelo autor no início, com a deixa: “tentava encontrar na mudança de ares o equilíbrio que faltava para seu mundo voltar a ser suportável”. É isso, boa sorte no desafio. abçs.

  2. Evandro Furtado
    17 de outubro de 2017

    Eu gostei do conto, acho que tem um andamento bacana, com uma história bastante interessante. Os personagens são bem desenvolvidos e carregam personalidades bem distintas. Os diálogos também são bem estruturados. As descrições das cenas de terror, meio O Iluminado versão Kubrick, são vívidas e tenebrosas. A única coisa que eu mudaria seria o final. Não, completamente, mas poderia ter alguma ligação para deixar as coisas amarradinhas. Ele dá facadas no monstro certo? Então, poderia se revelar, no final, que, na verdade, ela esfaqueou alguém da família e isso seria a última gota para mandá-la para uma instituição psiquiátrica. Do jeito que ficou, o final pareceu meio de graça.

  3. werneck2017
    16 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto bem narrado, sem dúvida. Um ou outro erro gramatical, muitos já comentados. Ressalto um ainda não comentado:

    Perambular pela moradia a procura de alguma > Perambular pela moradia à procura de alguma

    Entretanto, confesso que o motivo da Lídia sofrer mentalmente não ficou expresso e eu não pude captar. Ficou sugerido que o marido estava se mudando por causa de perseguições e , visto se tratar do período militar, depreende-se muito se fosse o caso dele sofrer, o que não é o caso.
    No mais, é um conto bem estruturado e promete.
    Parabéns!

  4. Lolita
    14 de outubro de 2017

    A história – Uma mulher e sua família se mudam para um casarão. Lá, sem o tratamento adequado, alucinações a torturam. Parece se passar no período do regime militar, gostaria que o aspecto histórico da história fosse mais explorado.

    A escrita – Boa narrativa, segura e os personagens são críveis. No entanto, acaba quando a história começa a assustar mesmo. De repente, diminuir a introdução e tratar mais sobre Lídia no hospício ou o que aconteceu no passado da casa – aspecto apenas insinuado na narrativa.

    A impressão – Quando engrena, termina. Mas é um conto bem escrito, parabéns e boa sorte no desafio.

  5. Lucas Maziero
    13 de outubro de 2017

    A mudança para o interior de Minas Gerais foi o estopim para Lídia perder a cabeça de vez.

    A história nos explica que Lídia anteriormente recebia tratamento (fica-se a imaginar qual seria, o mais provável seria mental?), e pelo visto continuava tomando os medicamentos. Posso supor que a família, mais precisamente pela decisão de João, quis se mudar para uma casa meio que isolada no intuito de oferecer à mulher um lugar menos estressante que a cidade, propício para ela ficar em paz, pois assim diz essa frase, que fortalece a minha suposição:

    “…tentava encontrar na mudança de ares o equilíbrio que faltava para seu mundo voltar a ser suportável.”

    Não há nenhum malefício permeando as cenas ao longo do conto, nenhum grande terror, nenhum fantasma, nem mesmo a casa tinha vida própria (há histórias assim), apenas alucinações de uma mãe super preocupada com os filhos. Em uma das cenas, Lídia se desespera com o filho Pedro, imaginando diversas coisas horríveis: o pelourinho ofereceu-lhe uma imagem de sangue, onde seu filho emulou por um instante os sofrimentos ali passados.

    Mais adiante era com a filha que se preocupava, pensando tê-la visto no cemitério, onde uma lama monstruosa a engolia.

    Os cenários então, a casa antiga, o cemitério próximo, tudo serviu para alimentar a paranoia de uma mãe de família. Nesse sentido, o conto está bem estruturado, tudo se passou coerentemente, nenhuma outra ação que não a própria imaginação da mulher, e essa estabilidade fez desse conto um bom conto, redondinho.

    O final fechou de maneira satisfatória o que nos foi apresentado durante toda a história. Resta a nós leitores viajar na maionese e imaginar um motivo para a pobre Lídia ter ficado assim. Enfim, gostei, um bom conto, mas que não oferece grandes emoções.

    Parabéns!

  6. Fheluany Nogueira
    13 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – A velha história da família que procura vida nova e pensa encontrá-la em uma casa isolada e assombrada. Um dos membros não suporta a tensão e tudo desanda na confusão entre o real e a fantasia. O cemitério e o pelourinho completam a ambientação. O título fez-me lembrar “O Alienista”, Machado de Assis que questiona o limite entre loucura e sanidade.

    Escrita e revisão – não ocorrem deslizes gramaticais mais graves que erros de digitação; frases diretas e curtas, diálogos críveis. Na introdução o ritmo é mais lento e no desenvolvimento e desfecho, mais apressado.

    Terror e emoção – Talvez o excesso de personagens tenha quebrado em parte o impacto: susto com o menino, com a menina depois, quando veio a mãe se perdendo no cemitério, o leitor imagina que vai dar tudo certo como das outras vezes.
    No geral, bom e interessante trabalho. Abraços.

  7. Luis Guilherme
    11 de outubro de 2017

    Ola, amigo (a), td bem?

    Esse desafio me toca particularmente, pois adoro o género. Assim, estou bem ansioso em ler cada conto.

    Dito isto, vamos ao seu:

    Voce tem uma escrita segura e muito boa! A linguagem eh clara e as palavras sao bem escolhidas, a narrativa flui de forma prazerosa e a leitura eh otima do inicio ao fim. Sem duvida um texto escrito com muito esmero. Parabens!

    Por outro lado, o enredo nao me cativou tanto por ser algo meio comum no terror: uma familia que se muda pro interior e a mãe ou algum outro membro começa a ser atacado por episódios de loucura e/ou assonbraçao. Fiquei curioso sobre o pelourinho, e achei que o misterio se encontrasse ali. No fim, foi legal a conclusão que voce deu, apesar de nao ter sido a que eu esperava.

    Apesar disso, voce conduziu bem a historia e fez valer o enredo, mesmo com uma premissa manjada.

    O que achei que faltou mesmo foi uma exploração maior da loucura dela. A cena do sangue ficou mto boa, e acho que voce podia ter seguido num crescente de loucura mais angustiante a partir dali. O que quero dizer eh q ali era o momento do conto brilhar, e achei q voce explorou pouco, deixando de nos presentear com mais cenas agoniantes como a dos sangue, e concluindo de forma muito apressada.

    Note que nao to falando que o conto nao seja bom, pq eh bem legal! Tanto que eu queria ler mais dele, e minha reclamação girs em torno disso rsrs.

    Enfim, uma bela historia, que apesar de partir de uma premissa meio cliche, foi super bem conduzida (especialmente pelo excelente uso da linguagem), mas que perdeu a chance de ser ainda melhor explorando a loucura num climax mais intenso.

    Parabens e boa sorte!

  8. Pedro Teixeira
    11 de outubro de 2017

    Olá, Alma!
    A narração tece com competência uma atmosfera ameaçadora. E mistura com habilidade as visões e o “mundo real”, sem apelar para clichês, tornando os devaneios convincentes.
    A quantidade de personagens gerou certa confusão sobre quem estava falando com quem em alguns momentos. E não sei se numa narrativa curta como um conto é o ideal.
    Os diálogos estão muito bons.
    No que se refere à criar dúvida sobre se há um evento sobrenatural ou não, a chamada hesitação, senti que faltou alguma coisa. É que a explicação da doença mental parece acabar se sobrepondo à hipótese da mediunidade, por faltar eventos que causassem incertezas. Tudo parece estar muito ligado à percepção dela. E a finalização acabou ficando um pouco brusca, pois eu esperava algo a mais ali, entende? Talvez ligado à perseguição política ao marido, ou a algum acontecimento sinistro passado na fazenda.
    No geral, é um bom conto.

  9. Rafael Soler
    8 de outubro de 2017

    A mudança de uma família para uma casa com um passado macabro é algo recorrente em tramas de terror. Seu uso, quando mal feito, acaba em histórias que são mais do mesmo.
    Felizmente, não foi o que aconteceu aqui. Adorei como a trama, que vemos em tantos filmes gringos, foi abrasileirada. A abordagem dos problemas psicológicos da protagonista também foi muito bem feita, passando bem as sensações que ela sentia na casa.
    Outra coisa que gostei foi da dinâmica do texto: as coisas começam caminhando devagar, depois passam para um trote e no final é como uma corrida. Esse crescimento da história foi muito bom para seu ritmo.

    Resumindo, achei esse um excelente conto!

    😀

  10. Antonio Stegues Batista
    8 de outubro de 2017

    ENREDO: mulher com problemas mentais, muda-se para uma casa antiga, que aumenta ainda mais seus problemas. Regular.

    PERSONAGENS: Não muito fortes, faltou acentuar um pouco mais suas personalidades. Se fossem descritos pela ótica da mãe perturbada, seria legal.

    ESCRITA: Simples, mas muito boa. Ótimas descrições do ambiente, mas algumas ações só aumentaram a extensão do conto. Não tiveram tanta importância.

    TERROR: Achei fraco. Se os mortos levantassem das covas e perseguissem Lídia, ficaria mais legal. Ela caindo na lama e um esqueleto desabando sobre ela, etc. Acho que não foi legal, dizer que ela sofria de alucinações, isso tirou um pouco o terror. Se colocasse dúvida no leitor, talvez desse certo. Boa sorte.

  11. Paula Giannini
    8 de outubro de 2017

    Olá Autor(a),

    Tudo bem?

    Seu conto me remeteu a um filme antigo (1970) e meio cult: A Casa que Pingava Sangue. Nem tanto pelo enredo, mas pelo título em si. Título, inclusive, de u espetáculo de teatro que integrei em 2001, em Curitiba.

    Casas assombradas são um arquétipo do gênero terror. No horror, encontramos casas cheias de entidades fantasmagóricas, casas povoadas por seus antigos moradores, casas “armadilha”, onde todos os personagens são mortos ou torturados e casas com vontade própria.

    Ao menos para mim, como leitora, seu conto se enquadra nesse último caso. Sua casa é cheia de história pregressa, nela houve tortura a escravos e, como se isso não fosse suficiente, ela ainda se localiza no “quintal” de um cemitério. Também por isso, mas principalmente pela fala do amigo que alerta que o local não é de bom agouro, sua narrativa levou-me a uma leitura do texto onde a personagem não é louca ou sofre, de fato, com alguma doença mental (embora o histórico médico).
    Para mim, ao validar a má fama da casa, através da fala de terceiros, o(a) autor(a) nos dá uma pista daquilo que de fato ocorre com sua protagonista. A casa não a quer por ali e, obviamente, é a causa das alucinações da pobre mãe.

    Outro trecho que me levou a tal raciocínio foi: “A nova residência o mantinha entretido. A casa divertia e confortava a todos, exceto a Lídia.” Dessa forma, o(a) autor(a) nos mostra que há mais para ser lido nas entrelinhas. Terror é mais que medo, é suspense, mistério, e aqui, ao que parece, há uma casa que “seduz” a todos, exceto àquela a quem insiste em assombrar.

    Outro ponto a se notar é que quando se afasta da casa, a última coisa que a mãe vislumbra, é a família… Assim, o escritor nos faz uma “promessa” de continuidade, como em muitas obras do gênero. Quem será a próxima vítima? Mas, claro, tudo isso são só elucubrações de uma leitora criativa. rsrsrsr

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  12. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Olá, Alma, você me traz um conto que me provoca muitas lembranças. Uma história que me traz memórias da infância e juventude na fazenda. A dona de casa que vai ficando, pouco a pouco, transtornada, ficou muito bem estruturada. Senti falta de algumas amarrações. A questão da mudança se dava por questões políticas, quais eram? E se vê, pelo carro ser uma Veraneio (talvez usada porque se tratava de carro caro para um mero professor com dificuldades em pagar mesmo o aluguel) e a referência aos Novos Baianos, tempos de Tropicália. Algumas questões de digitação e errinhos que uma revisão dá conta rapidamente. Um bom conto que no começo me ofereceu mais do que me entregou ao final, resumo. Abraços.

  13. Ana Maria Monteiro
    8 de outubro de 2017

    Olá, Alma. Você domina bem a língua portuguesa e acredito que gosta de contar histórias, isso torna-se visível na forma como desenvolve o seu conto.
    Um português bem tratado e trabalhado, com uma boa revisão que, mesmo assim, deixou passar três coisas: “a fora”, palavra única; “truzes”, digitação, e “li” em lugar de lia, digitação também. É muito difícil fazer a revisão dos nossos próprios textos, daí que considero que a sua foi muito apurada, uma vez que,quanto ao mais, se revela primorosa.
    A história em si careceu de alguns fatores que a fizessem vibrar mais. Gosto quando há promessas num sentido e elas saem goradas, como foi o caso, desde que sejam substituídas por uma alternativa que as supere, e isso já não se verificou.
    Houve toda aquela insinuação de possibilidades: o cemitério, o parque da casa, as coisas que se dizem; as visões da mãe. Mas no final, ela apenas sofria de um transtorno mental que vinha já de trás – isso fica sugerido pelo comentário do marido quanto à medicação – e sofre de alucinações.
    Falta mais. Não digo mais terror ou horror, a ambientação foi suficiente e a quantidade de sangue também. Falta um elo mais forte.
    Considero o texto adaptado à proposta do desafio, mas acredito que terror não seja a sua praia.
    Em todo o caso, um bom conto de um autor maduro que sabe o que faz.
    Parabéns pela participação. Desejo-lhe boa sorte no desafio.

  14. Nelson Freiria
    7 de outubro de 2017

    O primeiro parágrafo ficou repetitivo em descrever sobre lentidão.

    O pai da família, João, parece realizado em se mudar para o interior, inclusive assovia músicas, o que passa uma ideia de serenidade. Mas no parágrafo seguinte ele já está estressado… achei que isso ficou contraditório.

    “O arrepio tomou Lídia de um golpe”, seria ‘tomar de um golpe’ um regionalismo? “sombra escura” ficou estranho tbm.

    Os diálogos no início me pareceram mto bons, mas assim que chegam à casa, eles perderam um pouco da força. Aliás, a história acaba se reestruturando com a chegada ao local.

    Há um clima que rodeia a questão dos escravos que ali um dia sofreram, mas com a história tomando um rumo sobre a condição mental de Lídia, isso se dispersa um pouco, pois paramos de crer nela como alguém confiável. Entretanto, não acho que isso limou o terror da história, apenas o tornou compreensível. Se alguns outros eventos adicionais mostrassem consequências graves de suas alucinações, como colocar em risco a vida de alguém, o terror teria ficado melhor definido.

    Alguns personagens ficaram um pouco de lado. Só notei erros de digitação.

  15. Angelo Rodrigues
    7 de outubro de 2017

    Cara Alma,

    Gostei do seu conto. Bem estruturado, com boa pegada narrativa.
    Quanto aos diálogos digo que ficaram mornos, talvez excessivos. Não sou chegado a diálogos que dizem mais do que o necessário, e achei que isso aconteceu por diversas vezes no conto.
    Diálogos bons fazem com que a personagem diga o necessário, sem narrativas, porque essa fica por conta do narrador. Personagem não narra, apenas vive o seu papel; ao narrador cabe mostrar e narrar.
    Bem, algumas outras coisas:
    O parágrafo “Sentado no banco de trás do veículo…” me pareceu confuso, fiquei em dúvida quando tentei identificar quem era quem no carro e o significado da apresentação de uma linhagem familiar. É certo que, aos poucos, fui entendendo quem era quem, mas no parágrafo, que buscava essa identificação, as coisas ficaram confusas.
    No parágrafo “Era o início da década a ecoar na voz dos Novos Baianos…” Esta frase, embora busque uma localização temporal, para uma grande maioria dos leitores, não diz nada. Anos sessenta? Setenta? Oitenta? Olha que vivi tudo aquilo e não sou capaz de lembrar se 60 ou 70, assim, sem puxar muito da memória.
    Achei uma ponta solta na narrativa: “…João pelo fato de fugir das perseguições políticas.” Como assim? Quais as implicações disso no texto? Na política escolar? Coisa dos militares? Acredito que, se não vai ter relevância no texto, melhor não dizer nada, dado que confunde.
    Outra coisa, mas essa criada pelos pais da língua, que parecem haver criado a palavra para espancar escritores. O famoso porta a fora / afora / a dentro / adentro. Nada demais.

    Boa sorte e obrigado por compartilhar seu conto.

  16. paulolus
    7 de outubro de 2017

    A ideia mais do que original teria melhor proveito com uma escrita mais sistematizada, sem os floreios coloquiais. A forma coloquial de se descrever uma trama, por mais empolgante que seja ela, cai num marasmo fácil de seguir, mas difícil de empolgar. É mais um tema de alucinações interiores. Se a ideia tivesse enveredado por uma trama mais “real”, como a parição de espectros dos escravos cobrando justiças ou coisa que o valha, teríamos um prato cheio para um grande terror. Embora um enredo bem desenvolvido para os planos do autor.

  17. Eduardo Selga
    6 de outubro de 2017

    É uma narrativa de boa qualidade literária, com uma sequência de cenas de suspense e terror individualmente bem construídas, que não decorrem uma da outra, mas sim de um motivo externo a elas, a sugerida perturbação mental da protagonista. Talvez, de modo a emprestar mais terror à narrativa, tivesse sido mais interessante aproveitar a melhor delas, a do pelourinho, e explorá-la mais amplamente, de modo que a narrativa girasse em torno dela. A tortura da escravidão e as mortes daí decorrentes seriam ótimos panos para manga.

    A perturbação da protagonista, no entanto, seria o bastante para ter causado tantos transtornos? É possível, afinal o espectro de patologias mentais é amplo, mas o fato de um personagem secundário ter avisado sobre histórias estranhas que contam acerca da casa não foi inserido à toa pelo(a) autor(a). Cria-se um clima de expectativa, a partir daí, que acaba por se confirmar. Logo, fica a pergunta: a personagem viu o que viu por alguma alucinação ou de fato as cenas acontecem como projeções provocadas por entidades instaladas na casa e apenas ela as enxerga por algum efeito de mediunidade?

    A segunda opção é encargo do leitor, se bem que elas não sejam excludentes entre si. De todo o modo, não é uma certeza o que resta após a leitura, e sim dúvidas, que podem, a depender do leitor, exercer encantamento sobre o texto lido.

    O menino parece ter sido posto no enredo apenas com o objetivo de participar da cena de alucinação e/ou mediunidade; a filha e o avô são nulos, e a cena em que a mãe busca pela filha, Sara poderia ser substituída pelo menino, sem perda dramática. O marido funciona como contraponto à possível alucinação, mas também ele precisa ser melhor trabalhado.

    Uma grande quantidade de personagens é interessante quando a partir deles se constrói uma ambientação sólida, e para isso é preciso que todos tenham relevância. Não digo com isso que todos devam ser protagonista, e sim que a soma de cada um forme um todo de tal modo que a ausência de um quebra a harmonia.

  18. Andre Brizola
    5 de outubro de 2017

    Salve, Alma!

    Seu texto foi, de longe, um dos que mais me agradou. As descrições da paisagem rural, do cemitério, das estradas de terra e, sobretudo, da casa, conseguiram me levar pra dentro do conto.
    A cena do primeiro encontro com o tronco foi arrepiante, e o primeiro delírio de Lídia, com as pedras, o sangue, foi digno de nota, e achei que foi o ponto alto do enredo. E, até então, estava esperando algo como uma versão má de Meu Vizinho Totoro.
    Meu único problema com o conto é o final. Achei curto, bastante seco, em comparação com o restante do texto, e um pouco decepcionante pela expectativa que foi criada.
    Não fosse o final, seria meu conto preferido até aqui!

    É isso! Boa sorte no desafio!

  19. Regina Ruth Rincon Caires
    5 de outubro de 2017

    Que bela narrativa! A leitura é muito prazerosa (apesar dos sustos). A escrita tem fluência, tem nexo, feita de descrições tão perfeitas que me transportaram para Minas Gerais. Poucos erros, fácil fazer uma revisão e suprimir deslize. O autor possui enorme intimidade com a linguagem e com o “contar história”. A evolução da doença, o agravamento psicológico, a confusão mental, tudo fruto da maldição do lugar, foi magistralmente narrado. Texto primoroso, muito bem construído.
    Parabéns, Alma Carroll!

  20. Fabio Baptista
    4 de outubro de 2017

    A escrita é boa, gramaticalmente perfeita à exceção de alguns erros de digitação: “truzes” e “João, no entanto, li, sentado”. A narrativa, no entanto, me pareceu mudar muito de uma metade para outra: o início, bem descritivo e cadenciado, com ações e cenários sendo descritas num nível de detalhamento muito grande. Apesar de achar essa parte muito morosa para o desenvolvimento de um conto (combina mais com romance), gostei mais do que a segunda parte, mais corrida, pontuada por frases mais curtas e diretas. Nessa segunda parte, o único trecho que trouxe um lampejo da primeira foi a cena de cortar as cebolas.

    A trama segue o plot casa isolada e maldita com cemitério do lado. Em certo momento, temi que aparecesse algo similar a “muito trabalho e pouca diversão, fazem de Jack um bobão” rsrs. Mas quem acaba ficando louca é a mãe. Nenhuma novidade, mas dificilmente algum conto do desafio conseguirá ser 100% original (ou mesmo 50).

    Para que a história funcionasse como terror, a ambientação era essencial e o autor conseguiu isso apenas parcialmente. O início, como citado, é mais cadenciado e, se por um lado isso deixa a narrativa mais lenta do que deveria, por outro é ótimo para ambientar. Dessa forma, a viagem é perfeitamente ambientada, bem como o isolamento do lugar. Mas daí a transição desse ambiente para a casa é muito rápida e não senti o mesmo cuidado em ambientar o leitor no lugar fechado. As coisas acontecem depressa e a mistura de alucinação com realidade não me impactou muito.

    Outro elemento que poderia ser evitado foi o excesso de personagens. Eu me confundi bastante com o nome da mãe e da filha por causa desse trecho lá no começo:

    – Sara contestava em sua adolescência / o marido explicou.

    Enfim, foram muitos nomes e nenhum teve uma personalidade mais marcante além da filha, talvez.

    Abraço!

  21. Edinaldo Garcia
    4 de outubro de 2017

    Escrita: Gostei bastante. A narrativa flui agradável. O início me agradou muito, quando o cenário ia sendo preparado: casa no interior, cemitério próximo, pelourinho no quintal, umbuzeiro (que é uma árvore que remete muito aos causos da roça que eu tanto adoro). O enredo começou primoroso, prometendo muito. Não que ficou ruim. O conto e inteirinho bom, só achei que tudo se resumir à loucura da mãe não condisse com que estava prometendo. Faltaram mais coisas. Se tivesse explorado os espíritos dos escravos… sei lá.

    Terror: Gostei dos elementos iniciais. As cenas dos delírios foram muito bem construídas. Faltou um pouquinho mais terror, talvez foi pelo limite do tamanho.

    Nível de interesse durante a leitura: Completo. Adoro narrativas com essa ambientação”.

    Língua Portuguesa: É boa. Palavras muito bem usadas.

    Lídia saiu logo depois de João e Sara se colocou à frente dos dois.- aqui são duas oração nas quais há dois sujeitos diferentes, portanto deveria haver uma vírgula depois de João. Eu sei que é frescura minha.

    em meio às truzes e lápides de acabamento arredondado. – imagino que seja “cruzes”.

    em direção da – isso foi uma construção que se repetiu. Eu não vejo erro aí, porque acho isso uma forma regional “na direção da”, “em direção à”. Eu jamais escreveria “em direção da”, mas percebo que muitos escrevem assim, sobretudo gaúchos e a galera aqui não perdoa essa construção.

    João, no entanto, li, sentado próximo da janela da escrivaninha – esse “li” não sei se é “ali” ou se “lia” ou está certo e eu não entendi o significado.

    Está chovendo dentro – Achei estranha a construção dessa frase

    Essas observações não serão o suficiente para perder pontos. Nada que estrague a obra.

    Veredito: Bom conto. Faltou uma finalização melhor.

  22. Olisomar Pires
    3 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: baixo.

    Narrativa/enredo: família se muda para interior e a casa mal conservada da época colonial faz a “mãe”-personagem surtar com alucinações.

    Escrita: razoável. Sem grandes equívocos. Chamou-me a atenção um “decor” no sentido de aprendido e não esquecido, quando o correto é “de cor”, no mais uma revisão dá conta.

    Construção: a primeira parte ficou muito lenta – a viagem, a casa com seus defeitos, a preocupação com os reparos, ficaram bem repetitivos.

    Quando as alucinações iniciaram supus que a trama engrenaria, mas aí se repetiram para levar a personagem à internação.

    Os personagens todos, exceção à “mãe”, poderiam ser descartados pois não tiveram papel na trama – tem até um avô que não faz nada (risos). Acho que o texto exigia a narração em 1ª pessoa.

    Ponto positivo para a descrição dos delírios.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 3 de outubro de 2017 por em Terror.