EntreContos

Literatura que desafia.

Nós (Snaut)

Enquanto o clarão se expande, minha mente despedaçada flui em várias direções, tal qual uma mancha de óleo no oceano. Caso apenas suspeitasse que as coisas poderiam acabar assim, nunca teria embarcado na maldita nave. Nunca.  

Por ora, ainda consigo lembrar como tudo começou. Eu integrava, com meu colega Roberto, a Missão Mercúrio. Miguel, um computador dotado de inteligência artificial, completava a equipe. Dono de uma gigantesca capacidade de processamento, ele era a mão que nos guiava na escuridão cósmica, o cérebro e sistema nervoso da Santos Dumont,  controlando o trajeto desta com inigualável eficiência.

Miguel possuía uma origem perturbadora: seus circuitos reproduziam a consciência de um colega morto  há mais de 50 anos. Em outras palavras, existia um fantasma ali dentro, conversando conosco, operando a navegação.  E esse pode ser o destino de qualquer empregado da Lehman,  desde que atenda aos interesses daqueles miseráveis. Ou seja, nem nossas mentes nos pertencem mais. Nesse ritmo, não é de se duvidar que daqui a algum tempo os funcionários tenham suas testas tatuadas com códigos de barras, ou com algum dizer do tipo: “Propriedade registrada do Conglomerado Lehman-Strauss”. Desolador.

Mas estou divagando. Voltando ao relato, faltou falar sobre a nave. Ah, a nave…. Ela era a menina dos olhos do programa espacial da empresa. Equipada com recursos de última geração, seus motores de dobra a tornavam capaz de singrar pelos mares escuros do Cosmos, através de túneis temporais.

Seguíamos em direção à estação Hermes, a qual circundava Sartorius, fazendo parte dos esforços   que visam conhecer melhor os recursos desse mundo inóspito. Estávamos há dias sem conseguir estabelecer comunicação com ela, o que  nos preocupava, apesar de ser algo mais do que compreensível quando considerávamos as distâncias e condições envolvidas, além de já ter acontecido outras vezes, sempre voltando à normalidade depois de certo tempo.

Ali, a milhões de quilômetros de casa, eu lembrava de Giuliana, de seu ultimato. “As coisas precisam mudar, Marcos. Por mais que eu te ame, não consigo mais me imaginar nessa vida. ”  Sua voz tremia. “Você praticamente nunca está aqui. A Luíza quase não tem mais contato com o pai. Por que não arranja um emprego em que possamos contar com você?” Como se fosse uma escolha simples, trabalhar como um escravo 12 horas por dia na frente de um holoprojetor.  “Ela vem tendo pesadelos, sabia? Deve ter  assistido a uma dessas porcarias na rede, essas estórias de alienígenas assassinos, e ficou impressionada, acha que monstros vão te pegar. Pensa, Marcos, ela tem 5 anos e  te vê cada vez menos, acho que acaba sendo uma reação normal pensar que vai perder você.”

Não tentei argumentar: no fundo eu sabia que ela tinha razão. Apenas perguntei como nos manteríamos se eu trocasse o emprego atual por o de um salário menor, então ela respondeu que poderia voltar a lecionar.  Seria mais fácil se eu estivesse por perto, a menina se adaptaria melhor a ideia de passar o dia numa creche, concluiu.

Pedi que aguardasse ao menos o tempo em que eu ficaria na estação, um mês passaria depressa, e nesse ínterim poderíamos pensar melhor em tudo. Giuliana concordou, meio hesitante, como se não acreditasse em mim. Segurei suas mãos e disse: “Ei, eu tô falando sério. Acho que é uma boa ideia, sim, mas precisamos planejar isso melhor, ok?” e vi que algo se acendeu em seus olhos. Esperança.

Eu estava imerso nesses pensamentos quando chegou a meus ouvidos a voz de Beto:

– Ei, onde você está, cara? Já chegou em Sartorius? – indagou, num tom brincalhão.

– Opa, Beto. Não, pensando na vida. Minha cabeça estava na Terra mesmo. E aí, quais são as suas expectativas?

– Ah, sei lá, Marcos. Para falar a verdade, acho muito estranho que a Lehman tenha se interessado por Sartorius, a ponto de gastar bilhões numa estação de pesquisa.   Existe uma série de outros planetas também propícios à vida com muito mais potencial em outros recursos, entende? Kepler-10b, por exemplo, com uma reserva gigante de lítio. Pela relação custo-benefício, valeria muito mais a pena ir para lá, você não acha?

– Mas Sartorius tem muito mais potencial para abrigar vida, Beto. E a Lehman colocou o PBVE no topo das prioridades.

Uma expressão marota formou-se em seu rosto enquanto ele balançava a cabeça, e eu pensei: lá vamos nós de novo.

– Esse é o ponto onde eu queria chegar. O William, que já está na Hermes, é um dos exobiólogos mais qualificados de nosso quadro. Por que mandariam o cara para Sartorius? Richard, o outro, é um especialista em inteligência artificial e linguística.  Se você quisesse selecionar pessoas para entrar em contato com alguma civilização extraterrestre, as áreas de conhecimento deles estariam no topo, cara. E talvez nem eles soubessem, até chegar na estação, está me entendendo? Não seria a primeira vez que os canalhas da Lehman nos deixam no escuro. Então, a conclusão é uma só: estão escondendo algo da gente. Pode apostar nisso – disse num fôlego só, agitado.

Senti tarde demais que um sorriso de condescendência começava a encurvar para cima os cantos de minha boca. Não é como eu gostaria de agir: a minha frente estava um bom colega, um bom amigo, que merecia ser tratado com respeito, apesar de suas mirabolantes teorias conspiratórias. Mas foi inevitável. Redargui:

– Acho bastante difícil algo nessas proporções, Beto. Mesmo a Lehman precisa prestar contas aos acionistas, e como você mesmo disse, não estão investindo pouco nisso. Mas é possível – concluí, num tom mais conciliador.

– Claro que é – respondeu sacudindo a cabeça, o cenho franzido, a boca entreaberta numa expressão de incredulidade, como se de repente tivesse constatado que conversava com alguém ingênuo demais para entender a situação que expunha.

Nesse ponto da conversa, fomos interrompidos por Miguel, que nos avisava da iminente entrada na órbita do planeta. Vi que Beto teve um sobressalto – Miguel lhe dava medo. Certa vez, num bar, ele desabafou: “O robô… Podiam ter escolhido uma voz melhor para ele, né? Não aquele chiado que parece ruído de estática. Mas é intencional,  tem a ver com a noção de controle da empresa. Controle pelo medo. Fazer com que nos matemos nessas viagens, para não sermos substituídos por máquinas. Na verdade,  é pior do que isso. Já parou para pensar no que ele é?”

O ritmo da nave foi se tornando mais lento, à medida que a maior parte dos propulsores era desligada. Bem à nossa frente, preenchendo todo o campo de visão, estava o planeta. Ao enxergar aquela grande esfera cinza prateada cheia de pontos luminosos, como uma tomografia cerebral desfocada, fui tomado por um pressentimento ruim. A estação não parecia mais convidativa. Sua silhueta – uma sombra angulosa delineada pela luz do sol  – evocava a carcaça de algum navio perdido no fundo do mar.

Tentamos mais uma vez estabelecer comunicação e…. Nada. Não era nenhum empecilho para a acoplagem, uma rotina já automatizada, mas nos deixava com uma pulga atrás da orelha, um sentimento de que as coisas iam mal e tendiam a piorar. Concluído o procedimento, Miguel conectou-se aos sistemas de gerenciamento. Roberto digitava comandos no painel acessório, sacudindo a cabeça:

– Tem alguma coisa errada aqui, Marcos. A essa distância não deveríamos ter dificuldade nenhuma para entrar em contato. Isso é muito estranho.

Como medida de precaução, pusemos os sensores da Santos Dumont para funcionar, direcionando-os à Hermes numa biovarredura, e o resultado deixou-nos abismados: não havia nenhum sinal dos tripulantes. No entanto, o sistema de suporte à vida funcionava perfeitamente. Assim, pedi a Miguel para abrir a escotilha que levava à estação. Enquanto a placa de aço deslizava diagonalmente, revelando as paredes do corredor, Roberto respirava de forma cada vez mais ruidosa, como se não pudesse refrear seu nervosismo.

Muito a contragosto, avançamos. Em meio ao eco de nossos passos no tubo de passagem, eu ouvia Miguel fornecer os dados preliminares de sua análise. A fuselagem estava intacta, mas as antenas  – a de comunicação com a Terra e também a utilizada pelo PBVE, o Programa de Busca por Vida Extraterrestre – estavam sem sinal, o que não chegou a nos surpreender.

Concluída a travessia, passamos a examinar o interior da estação. Tudo parecia em ordem nos primeiros compartimentos, apesar de uma atmosfera que de certa forma causava perturbação, em parte resultante das branquíssimas paredes que evocavam um hospital psiquiátrico, e do silêncio espesso, absoluto, esmagador que pairava ali. Além disso, havia algo a mais no ar, uma presença áspera que parecia pulsar como uma coisa viva, preenchendo o vazio e eriçando os pelos de minha nuca. A confirmação de que algo muito errado acontecia na Hermes veio quando entramos na cabine do comandante.

Espalhados pelo chão havia estilhaços, sangue e um projetor holográfico trincado. Sinais de luta. Mil e uma hipóteses passaram pela minha cabeça naquele instante. Será que um dos membros da tripulação tinha enlouquecido e atacado o outro? Ou a busca por vida extraterrestre fora bem-sucedida e….

Afastando vigorosamente o pensamento que veio a seguir, olhei para Roberto. O rosto dele havia ficado branco feito papel. Incapazes de trocar qualquer palavra sobre o que tínhamos visto, prosseguimos com a vistoria, constatando que, com exceção da falta de uma das cápsulas de sobrevivência, o restante encontrava-se intacto.

– E então, o que a gente vai fazer? —perguntou Roberto olhando fixamente para a parede, como se estivesse se dirigindo a um interlocutor invisível

– Primeiro, precisamos reparar a antena. Se está faltando uma capsula, talvez alguém tenha descido até Sartorius. Reestabelecendo a comunicação, podemos tentar contatá-lo, ou, em último caso, enviar um pedido de socorro para o Comando – respondi.

– E por que alguém desceria? Isso vai totalmente contra o protocolo.

– Eu não sei, talvez uma emergência….De qualquer forma, as antenas são prioridade. Não vamos poder fazer nada sem elas, e não dá pra simplesmente dar as costas e voltar para a Terra.

– Tudo bem. Eu vou lá fora dar uma olhada.

– Tem certeza, Beto? Você está legal? Não quer descansar um pouco antes?

– Claro, rapaz, fica tranquilo. Se não estivesse em condições eu nem cogitaria sair.

– Ok, então. Eu vou checar o Diário de Bordo.

E assim fizemos. Roberto colocou o traje espacial, ligado à nave por um cabo, e flutuou até as antenas. Miguel encarregou-se de dar-lhe suporte, ao mesmo tempo em que reproduzia o Diário da Hermes. Os primeiros relatos não apresentavam nada incomum, soando até bastante monótonos com sua descrição de rotinas que conhecíamos de cor. Assim, avançamos para as últimas entradas, referentes às 140 horas mais recentes, e as coisas ficaram estranhas. Muito estranhas.

Numa gravação de cinco dias atrás, o comandante discorria sobre suas tentativas de compreender alguns fenômenos insólitos que haviam acontecido ali:

 

Richard veio até mim, completamente… Transtornado. Disse ter visto algo no corredor à frente de seu aposento, algo que o atacou, causando paralisia e náuseas. Afirmou que era impossível eu não ter ouvido o zunido que ela fazia.

Notei que seu nariz sangrava um pouco, e ele estava muito agitado. Apesar disso, achei que pudesse ser uma alucinação resultante do longo período de confinamento na Estação. Busquei a filmagem daquele momento para convênce-lo disso e aí eu vi… Que realmente havia algo lá.

Uma coisa reluzente flutuava no ar. Seu corpo era translúcido, e emitia uma forte luz branca, deformando o espaço ao redor. No início parecia uma arraia, mas as camadas que a constituíam recombinavam-se em instantes em novas formas, com uma facilidade incrível.  Era… Como um tipo de neblina, uma nuvem de partículas metálicas. À  frente dela, Richard retorcia-se de dor no chão.

Alguns segundos depois, a criatura desapareceu  tão repentinamente quanto tinha surgido, como se tivesse evaporado. Meu colega permaneceu ali por um  bom tempo, inerte.

Não sei explicar o que aconteceu.A estação não poderia ter sido invadida sem que os alarmes soassem, e a coisa não deixou qualquer vestígio de sua presença.

Havia algo estranhamente perturbador e familiar na descrição da coisa, sem que eu sequer imaginasse o motivo. Nas entradas seguintes, o capitão relatava mais daquelas aparições, testemunhadas tanto por ele quanto por Richard. Além disso, a PBVE passou a captar sinais que possuíam um padrão conhecido. William identificou-os de imediato como código Morse, e, decodificou a mensagem, cujo teor elevou o nível de tensão na Mercúrio ao limite. “Vão embora”, era o que ela dizia, e o choque causado pela percepção de que eram acompanhados de perto por alguém ou algo hostil deixou-os aterrorizados.

Depois, quando as antenas falharam, Richard saiu para verificar o que havia acontecido, disposto a normalizar a situação a qualquer custo. Não podiam sequer cogitar a possibilidade de perder o contato com a Terra. E então….

Após ouvir o restante do relato, corri para a janela mais próxima. Quando olhei através dela percebi, porém, que era tarde demais.

Roberto debatia-se violentamente ao lado da PBVE, o sangue a escapar pelas narinas e olhos e flutuar, formando tênues linhas rubras na escuridão, e nesse momento eu fui tomado pelo mais profundo pavor, algo que parecia fincar-se com força em meus músculos e tendões, como dedos metálicos, petrificando-me.

Tudo ficou ainda mais irreal quando seu corpo começou a brilhar com intensidade crescente, até as órbitas esvaziadas transformarem-se em focos de luz branca. Nesse momento percebi que ele olhava para mim e falava, os lábios a desenhar palavras no quadro-negro sideral, e um tremor tomou conta de todo o meu corpo ao entender o significado delas.

“Vão embora”, era o que dizia.“Vão embora.”

****

A lembrança veio de repente, como uma espécie de alerta. Foi um dia antes de minha partida. As mãozinhas seguravam uma folha de papel cheia de borrões coloridos. Luíza indicou a parte de baixo do desenho, quase um retângulo pintado sofregamente de azul-marinho, explicando que era o mar de outro planeta. Havia coisas minúsculas cor de prata saindo dele, formando contornos do que pareciam bizarros animais marinhos. Tudo remetia a um produto típico da imaginação febril de uma criança de cinco anos.

– O que é isso, querida? —perguntei, apontando as figuras.

– Esses são os bichos, papai.

– Que bichos, minha linda?

– Os que moram lá nesse planeta. São bichos que não tem nariz, nem olho, nem nada, mas que podem ter tudo isso e muito mais, sabe? Eles viram uma poeira grossa, depois desviram. São muito malvados. No meu sonho eles te atacam….

A voz começou a embargar, o rostinho se contraiu e as lágrimas brotaram, abundantes.

– Shhh…Calma, lindinha. Foi só um sonho. Eles não podem te machucar, nem machucar a mamãe ou o papai, entende?

– Promete?

– Prometo. Agora, que tal a gente ir tomar um sorvete?

     ****

– O que houve aqui, Miguel? Como foi que deixou isso acontecer? —grunhi, enquanto via, pela janela, o cadáver de Roberto cada vez mais próximo, seus braços estendidos, o rosto arroxeado – um espantalho de carne flutuando no vácuo.

– Eu ainda não sei, Marcos. Estou compilando todos os dados: sensores, imagens, relatórios. Meus olhos são as câmeras, e a cena que elas captaram não foi essa. Veja.

Ele projetou a gravação do setor das antenas e notei que até o momento em que corri para a janela, as imagens eram de Roberto debruçado sobre a antena, concentrado nos reparos.

– Essa falha….Pode significar alguma forma de comprometimento do seu sistema?

– Ainda não tenho como responder a isso. Estou procedendo a uma verificação extra-rotina, e até agora não constatei nada fora do usual. De qualquer forma, considerando minha diretriz principal, a de assegurar a integridade física da tripulação, preciso revelar algo que até agora mantive sob sigilo.

– Diga.

– O comando na Terra estava ciente de que os oceanos de Sartorius contêm o resultado de uma experiência conduzida há muitos anos pelo conglomerado, o projeto Gênesis. Ele consistia no envio de sondas equipadas com nanorrobôs supostamente capazes de se adaptar a qualquer ambiente e construir réplicas de si mesmos. Seu objetivo era encontrar e catalogar formas de vida inteligentes, construindo réplicas de suas mentes. O Comando perdeu o contato com ela, sendo levado a acreditar que havia sido destruída no trajeto. Tudo indica que, na verdade, ela foi parar nos mares de Sartorius; em seguida, os nanorrobôs passaram a multiplicar-se, crescendo em progressão geométrica. Nossos cientistas cogitaram essa possibilidade ao ver a coloração metálica do oceano, e a hipótese foi confirmada logo que as novas sondas enviaram seus dados. Essas máquinas criaram nas águas do planeta uma espécie de corrente eletromagnética. Havia indícios de que a totalidade deles formava algo semelhante a um gigantesco cérebro, o que constitui um padrão inesperado de comportamento, mas disso resultou uma capacidade de processamento estimada como trilhões de vezes superior à que temos hoje. A ideia seria estudar esse fenômeno, entender sua arquitetura para replicá-lo.

Sacudi a cabeça e disse, incrédulo:

– Minha nossa, Miguel. Por que isso foi mantido em sigilo?

– Vantagem estratégica. Há fortes indícios de que rivais da Lehman-Strauss tem agido da, mesma forma em relação a suas descobertas.

Aquilo era completamente inacreditável, mesmo vindo da Lehman. Como os malditos haviam nos exposto àquela situação, sem que nada soubéssemos? Mas aquela não era a hora para pensar nisso. Perguntei:

– E os outros registros do diário de bordo?

– São incompreensíveis, em sua maior parte.

Pedi a Miguel para reproduzi-los, e logo entendi o que queria dizer. Depois de descrever como Richard, em pleno vácuo, retirou o capacete e começou a golpear o vazio – numa aparente alucinação em tudo semelhante a que havia causado a morte de Roberto – William fala sobre o surgimento de mais daqueles seres na nave, que pareciam materializar-se do nada. Sem coragem para tentar reparar as antenas, insone, passou a ter visões do próprio Richard nos corredores e compartimentos, e a ouvir passos na escuridão.

 

Devo estar delirando.

O terror em sua voz parecia maior a cada palavra dita, numa escalada de falas entrecortadas por estremecimentos:

“Ele voltou….me atacou….tive que matá-lo! Essas criaturas…. Elas mudam, distorcem a realidade! É a única explicação….

Tenho que sair daqui….

Deus me ajude!”

Respirei fundo. A imagem de Roberto pairando lá fora, morto, não me saia da cabeça. Fechei os olhos na esperança de que estivesse num pesadelo, do qual despertaria no momento em que os reabrisse, mas não. Tudo aquilo continuava ao meu redor. Eu precisava sair dali o mais rápido que pudesse e reportar aquela situação à Agência de Regulação Espacial. Não podia deixar a Lehman escapar desta. Mas antes havia algo a fazer: trazer o corpo de meu colega para a nave.

Quando estava prestes a comunicar Miguel de minha decisão, um som agudo e prolongado arranhou-me os ouvidos.

—Marcos, estou detectando um padrão estranho…Como o de átomos, moléculas se rearranjando de forma incomum….Há mais alguém na nave. Não faço ideia de como entrou, mas… Espere…Algo….Está…. Invadindo meu sistema – a voz dele passou a soar fraca, quase inaudível, em meio a ruídos de estática, como se expressasse medo, numa reminiscência da humanidade que há tempos havia perdido. Atordoado, eu corri até a Santos Dumont, minhas passadas a ecoar acima e atrás de mim no tubo. Em minha mente rodopiavam o cadáver de Beto, os sussurros enlouquecidos do capitão, nanorrobôs agrupando-se em formas alienígenas…

Cheguei ofegante ao outro lado. Um alarme estridente reverberava por toda a nave. Conhecia muito bem aquele som, dos treinamentos: ele indicava uma falha na contenção magnética do plasma nos reatores para propulsão. Se eu não conseguisse alcançar a tempo os painéis de controle, o motor explodiria e seríamos pulverizados por um calor de milhões de graus célsius.

Desesperado, continuei a correr, agora em direção à sala de comando. À medida que chegava mais perto eu ouvia um ruído diferente, que ia ficando mais alto a cada instante, mais intenso, um chiado que se misturava ao soar do alarme numa sinfonia infernal. Quando entrei, a cena atingiu-me como um soco no estômago.

Roberto, de costas para mim, ileso, como se nunca tivesse saído da estação, golpeava os painéis com um projetor holográfico. Faíscas escapavam de fissuras na mesa de controle. Nesse instante, eu percebi que tudo estava perdido: não havia mais como regularizar o campo magnético por meio deles. Não havia mais tempo.

De súbito ele se virou, e encarou-me por um instante com olhos maníacos,  até que, de repente, arremessou contra mim o projetor e avançou, como se estivesse possesso. Desviei do objeto e tentei fugir, mas suas mãos detiveram-me, fechando-se sobre meu pescoço como um torniquete. A força dele era sobre-humana.

Segundos depois, minha visão começou a ficar escura. As pernas fraquejavam, forçando-me a dobrar os joelhos, até que, num último esforço, consegui alcançar o projetor no chão. Segurei-o com força, e então golpeei Roberto na cabeça, uma, duas, três vezes. Ele soltou-me e cambaleou para trás, caindo sobre o painel.

Um instante depois, a corrente elétrica agarrou-o com suas garras vigorosas e percorreu-lhe o corpo, produzindo um estalo muito alto, como o de um grande galho se partindo. Antes de sair em disparada, ainda pude ver as bolhas que se formavam e estouravam em sua pele, os olhos saltando das órbitas. Um forte odor de carne queimada espalhou-se pela sala.

Corri para o setor das cápsulas de sobrevivência, com o coração saltando no peito. Felizmente, Roberto não havia passado por ali. Destravei uma delas, entrei nela, e digitei os comandos de partida.

Depois de ejetar, já do lado de fora, algo me chamou a atenção numa das janelas da Santos Dumont. Um calafrio desceu por minha espinha ao notar que estava ali o rosto de Roberto, mais uma vez incólume, atento a meus movimentos.

Tudo o que se passou a seguir aconteceu num piscar de olhos. Meu coração parou quando o bipe atraiu minha atenção para o visor, e vi a mensagem em letras vermelhas piscando sobre o fundo negro:

 

FALHA NO MOTOR DE IMPULSO.

 

Nem tive tempo para lamentar meu destino: logo veio a grande explosão, e nesse momento senti uma agonia bilhões de vezes superior a qualquer sofrimento que já tivesse passado, uma dor excruciante e indescritível. A dor da morte.

Meu corpo desintegrou-se, dissolvido por pura energia, mas minha consciência de algum modo inexplicável permaneceu ali, à deriva. Eu pairava em meio a luz e sentia o oceano de Sartorius a atrair-me com uma força irresistível, sem entender ainda se estava vivo ou morto. As imagens ao redor foram desvanecendo rapidamente, e eu mergulhei de vez na escuridão.

 

***

As

palavras

sussurros sibilantes

articuladas por vozes inumanas

en

tre

cor

ta

das

              em

e

  s

p

 i

r

 a

i

               s

 

vocês são erros

homenzinho

constructos

degenerados

máculas

       no

        grande

          oceano                       

                                 

  seres infectos

  que corrompem

tudo o

que

tocam

    É nosso dever

          Consertá-los

                torná-los

                parte

                  de

                    ALGO

 

                   MAIOR

****

 Pequenas nuvens passeiam preguiçosamente pelo céu. Mais ao longe pode se divisar claramente a cadeia de montanhas da Serra Geral contornada por uma aura azul, o verde-musgo das matas que recobrem suas encostas latejando ao sol.

O Parque está animado.  Casais de namorados passeiam sem pressa, de mãos dadas, como se alheios ao mundo, ou como se tivessem criado um mundo só para eles. Grupos se reúnem ao redor de praticantes de slackline, concentrados na observação dos movimentos  acrobáticos realizados pelos atletas, enquanto drones vão documentando tudo. Famílias caminham despreocupadas, com seus cachorros a saltitar, soltando latidos de felicidade, convidando à brincadeira. De vez em quando passa alguém fazendo manobras num hoverboard entre as árvores, o que desperta  alguma preocupação dos pais com possíveis acidentes. Felizmente, a praça infantil fica numa área separada por uma cerca, diminuindo o perigo.  

Vejo Luísa em meio a outras crianças, todas a correr pela grama entre os brinquedos, do balanço para o escorregador, do escorregador para a gangorra…. Giuliana me abraça e ri, e o perfume de jasmim que se desprende de seus cabelos castanhos traz uma sensação de aconchego.  É um belo dia para um passeio no parque, um dia ensolarado.

Depois a menina  vem em minha direção, os bracinhos abertos, radiante. Como é bom vê-la assim. Como é bom estar em paz.

Pena que nunca dura muito tempo….

De repente eu sinto algo ruim no peito, e percebo, aturdido,  que ela agora reluz ao sol de um modo muito estranho. No instante seguinte, enormes bolhas começam a surgir em sua pele, e eu grito em desespero.

Eu corro ao encontro dela enquanto todo o seu corpo derrete, como se fosse metal fundindo. O mesmo acontece com o gramado, o parque, minha mulher. Tudo borbulha e ferve, dissolvendo-se sob meus olhos numa névoa prateada.

E eu volto à minha realidade, mais insana do que o mais louco sonho, numa bizarra inversão  de estados de consciência.

As ilusões de Sartorius são vívidas, construções sensoriais  que me convencem de que a viagem não aconteceu, de que nunca saí da Terra, só para arrancar tudo isso de mim da forma mais dolorosa possível. Elas se repetem, vez após vez, marteladas incessantes pulverizando meu senso de humanidade.

Os nanorrobôs alimentam-se dos fragmentos de minha mente entorpecida, como guerreiros canibais a devorar inimigos caídos em batalha. Sinto que não sou mais um humano. Sou apenas um conjunto de lembranças, um item a mais numa coleção de homens-mortos. Um fantasma. Tal qual Miguel.

Com olhos que não são meus, olhos não-humanos, eu vejo gigantescas máquinas, que se espalham pelo leito oceânico. Consigo enxergar seu interior e exterior ao mesmo tempo, e é assustador perceber que isso já não me causa mais nenhum estranhamento .

Tudo na minha vida vai se afastando,  tornando-se memórias distantes, vozes e ecos longínquos. Como seu eu mesmo fosse uma recordação, um SONHO

 

RUIM

 

prestes

a

desvanecer

UM ERRO

 

Jesus, o que foi isso? Essa voz… Já a ouvi antes, mas agora… É como se ela tivesse falado por mim… Ou pior, é como ser eu começasse a fazer parte dela

Torna-se cada vez mais difícil pensar, manter qualquer linha de raciocínio.  Quero ver minha mulher, minha filha… Nem que seja pela última vez. Se as coisas… Me deixarem retornar… É o que farei.. Preciso…De alguma forma… Avisar do que está… Acontecendo aqui…

 

EXTIRPAR

A

DOENÇA

 

Não…. Não… Ahhh…. Deus…  Não pode ser…  Meus pensamentos… São meus… É só o que me resta… Não posso… Deixar… Que tirem… Isso de mim..  Tenho que manter o controle… Ainda sou..Eu… Sou…SOMOS

 

NÓS

Senhores

 do

caos  

 sem

forma

Além

do tempo

e espaço

OS

SEMEADORES

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34 comentários em “Nós (Snaut)

  1. Gustavo Araujo
    19 de outubro de 2017

    Contaço. Não sei se vou gostar tanto assim de qualquer outro conto do desafio. De começo dá para dizer que é uma homenagem a alguns dos melhores romances/filmes de ficção científica já concebidos. Snaut, Sartorius e o oceano vivo que remetem a Solaris; Miguel que lembra o Hal-9000 de 2001, e o ser (ou os seres) assassinos que trazem à mente o Alien original. Podia ser um recorte mal feito dessas fontes, mas o conto revela vida própria porque esses elementos são utilizados de forma bastante criativa e original. Pelo que entendi, o oceano de Solaris, quer dizer, de Sartorius, conseguiu abduzir os astronautas, roubando-lhes corpo e consciência, para constantemente criar um ser único. Ou seja, os astronautas são como tijolos dessa construção em permanente evolução, cujos mestres de obras são os tais nanorrobôs. A narração em primeira pessoa torna o texto mais atraente neste caso, porque aproxima o leitor do suspense, tornando-o cúmplice de Marcos e de Beto, vítima inescapável da atração exercida pelas águas vivas. O contexto criado, com a empresa que busca lucro, com o background familiar enriqueceram a trama, conferindo profundidade ao protagonista narrador, o que se reflete em seus devaneios psicológicos. Enfim, um conto muito bom, muito bom mesmo, até porque levanta, de modo subjacente, questões incômodas de forma paralela – a exemplo de Solaris – como a natureza e a necessidade da exploração espacial e da mente das pessoas, viagens que muitas vezes ocorrem de forma simultânea. Aliás, o final, com a mente do protagonista se misturando à consciência coletiva do oceano demonstra o acerto da proposta. Além de muito bem escrito, um conto para lá de original e inteligente. Parabéns ao autor.

  2. Luiz Henrique
    17 de outubro de 2017

    A Viagem é boa. E a nave da escrita melhor ainda. O terror na temática da “ficção científica”, não há nenhuma novidade, e nesse conto, tam-bém, nada de novo aparece para salvar a saga nos espaços. Entretanto, observa-se algo peculiar no tratamento dado, que é o saber contar do autor, demonstrando o perfeito domínio de quem sabe o que quer dizer e como dizer. E foi o que sintomaticamente se sucedeu um típico conto de ficção. Do qual sou suspeito em comentar, pois sou fã de carteirinha da narrativa da ficção científica. Embora nada entenda de automação, muito menos às futurísticas. Vale mais salientar a leitura prazerosa que o conto me proporcionou. Visto eu não ser, nem de longe, nenhum um crítico, com as devidas ferramentas analíticas do conhecimento literário.
    Quanto aos erros gramaticais, houve algumas falhas, que acredito terem sido de digitação: mas nada que uma releitura não resolva

  3. M. A. Thompson
    17 de outubro de 2017

    Antes de qualquer coisa, obrigado por nos presentear com essa pequena amostra do seu trabalho.

    Gostaria de apresentar o critério de votação que usarei no Desafio “Terror”.

    Por ter participado já leva um ponto e mais um ponto por cada item a seguir:

    [ ] Gramática e ortografia aceitáveis?
    [ ] Estrutura narrativa consistente (a história fez sentido)?
    [ ] O terror está presente?
    [ ] Foi um dos contos que mais me agradou?

    Dito isto, vamos a análise:

    O CONTO
    Uma viagem espacial ao estilo 2001, com o inusitado computador de bordo contendo/sendo as memórias de um funcionário já falecido. Porém, a trama se baseia em nanorobôs que decidem “consertar” os tripulantes.

    O QUE ACHEI
    Logo no começo não gostei da frase “tenham suas testas tatuadas com códigos de barras” por se tratar de uma forma de identificação ultrapassada.
    Para escrever ficção científica precisamos descrever um mundo de possibilidades e quando encontro elementos que já não são novidade nem em nossa sociedade pós-moderna, não vejo SciFi neles.
    Outra: “motores de dobra” é outro termo batido. Até na série Star Trek – Discovery estão propondo uma propulsão diferente.
    No trecho sobre a esposa cobrando a presença do marido, a ausência do lar, a filha, não creio que uma sociedade que consiga colonizar o espaço ainda tenha este tipo de dilema ou ainda existam certas profissões, como a de professor.
    Eu que sou professor posso te dizer com propriedade que em algumas situações de ensino-aprendizagem atuais, o professor tradicional mais atrapalha do que ajuda.
    Apesar de a narrativa ser boa, em vários momentos parecia que eu estava lendo/vendo roteiros já conhecidos, como Alien, Star Trek, UFO entre outros filmes e séries, então foi difícil encontrar alguma originalidade no conto. Ficou parecendo uma colcha de retalhos, reforçada pelo uso da terminologia consagrada pelas produções clássicas do gênero.

    Outro dia ao assistir Passageiros divaguei sobre como deve estar sendo difícil escrever ficção científica, propor algo realmente novo a título especulativo. Até o mote do robô querer ser gente já está bem explorado desde O Homem Bicentenário, passando por Humans, Westworld (filme e série), etc.
    Melhor seria se você desenvolvesse mais a ideia de a alma do funcionário assumir o controle da nave e promover algum tipo de vingança como, por exemplo, decidir chocar-se contra a Estação Espacial e deixasse no ar um dilema: a Estação deveria sacrificar a vida dos tripulantes da nave suicida ou aguardar até o último minuto para ver se eles conseguiriam retomar o controle da nave?
    De qualquer forma a história é sua e foi contada do jeito que você considerou adequado.

    GRAMÁTICA E ORTOGRAFIA
    Nada que comprometesse a leitura.

    O Terror está presente?
    Não. É ficção científica.

    Foi um dos que mais me agradou?
    Agradou pouco devido as minhas expectativas em relação a SciFi. Como poderá perceber lendo os demais comentários, sou uma dissidência.

    Boa sorte no Desafio.

  4. Evelyn Postali
    17 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Escrita muito boa. Não percebi erros. Gostei muito da estética do texto, com os itálicos, com os negritos, com a não linearidade. Ficou lindo. Histórias de ficção científicas, bem escritas como essa, valem cada pedacinho do meu tempo e mais. Não sei se posso considerar medo ao ler, mas existiu o suspense, a espera de algo para temer. Não existiu terror, então eu diria que por pouco não está adequado. Eu consegui visualizar tudo e mais um pouco porque a narrativa foi capaz de abrir meus horizontes e me jogar no infinito junto do personagem. Boa sorte no desafio.

  5. iolandinhapinheiro
    16 de outubro de 2017

    Se este conto não for do Fabio Baptista eu nem sei o que dizer. Geralmente não gosto de contos de Ficção Científica porque o autor para nos colocar num mundo que não existe, acaba inserindo um texto enorme contando vários e aborrecidos detalhes. O seu texto nos remeteu muitas vezes a informações técnicas necessárias ao desenrolar do conto, mas a habilidade incontestável do autor fez com que o prejuízo ao meu interesse fosse minimizado.

    Dizer que vc escreve bem é fazer coro ao consenso geral que se estabeleceu nesta página. Além da excelente escrita, some-se a isso a intensa pesquisa que deve ter sido feita para trazer todos os dados componentes da trama. O que mais me atrapalhou foi a inserção de muitos personagens. A toda hora (eu leitora dispersiva por natureza) tinha que ficar reorganizando a história em minha cabeça por causa do esforço de ” dar nomes aos bois”. Isso, talvez, tenha sido o fator pelo qual vc não vá levar a minha nota máxima, mas não se aperreie, bixim, sou do tipo sentimental que pode mudar de ideia para mais, nunca para menos.

    Gostei da colocação de lembranças e projeções emocionais no conto, foi uma ótima estratégia para humanizar e aproximar o protagonista do leitor, causando uma empatia entre os dois.

    O conto tem lá sua tensão e cenas que são mais tristes do que assustadoras no conto. Então, na minha visão de amante de histórias de terror e suspense, seu conto não me provocou medo algum.

    O resultado final é que o seu é um dos melhores contos que li até agora no desafio. Tudo bem que só li cinco contos contando com o seu, mas a parte boa é que me impressionou bastante.

    Existem alguns erros bobos, mas já foram apontados e eu não baixo nota de ninguém por ninharias.

    Abração e parabéns, bicho.

    Iolanda.

  6. Fil Felix
    13 de outubro de 2017

    Gosto muito de ficção científica e toda essa coisa de alienígena. O autor soube escolher bem os pontos que queria utilizar na construção do seu conto, pois a estrutura já é bastante conhecida de quem lê ou assiste muita coisa do gênero. A nave inteligente, uma ameaça desconhecida solta no espaço, as lembranças amorosas… Várias histórias utilizam dessa base, desde 2001 ao Interstellar, passando pelo Gravidade e suas memórias, até A Chegada e os especialistas em linguagem. A ambientação é o ponto forte, consegue criar uma atmosfera densa e apavorante, gerando um certo suspense. Há uma quebra na estrutura, apostando na inovação, com as palavras caindo, colocando estática e pensamentos juntos, brincando com a morte após a vida, a Matrix, os deuses astronautas. Vai criando essas camadas, o que é ótimo.

    Um ponto que não gostei é a explicação do robô-fantasma. É um grande parágrafo que, literalmente, explica tudo. Tira a magia da interpretação e do mistério.

  7. K.W König
    13 de outubro de 2017

    Bom, a historia é realmente boa. Apesar de eu não ser muito fã de ficção científica, o conto me manteve preso a leitura. Existe um bom suspense que aumenta gradativamente até um pouco depois da morte de Roberto e após isso Marcos sofre um acidente e é aparentemente usado pelos “bichos malvados” para alguma missão na terra… Enfim, eu gostaria de ler alguma continuação. Quem sabe um dia. Parabéns.

    Terror: Infelizmente, não senti medo no conto, mas como eu já disse… É bom! Boa sorte.

  8. Eduardo Selga
    10 de outubro de 2017

    Forma e conteúdo não são paradigmas opostos, em literatura. O primeiro atua sobre o segundo e vice-versa. Por isso, também faz parte das necessárias qualidades de um bom autor, a adequada escolha da forma, de modo a dialogar harmoniosamente com o conteúdo.

    Sob tal aspecto, o conto não apresenta nada demais, com os elementos típicos da ficção científica apresentados de maneira usual ao gênero narrativo conto. Até certo ponto. A partir do momento em que o narrador-personagem diz “mergulhei de vez na escuridão”, a forma sofre uma inovação: aparecem trechos que lembram a poesia concreta no que tange a fragmentação do texto literário e das próprias palavras.

    Poderia ter sido apenas uma invencionice sem fundamento no texto, o que seria um erro na escolha formal. Entretanto, essa fragmentação ilustra a saída do personagem de uma realidade e sua entrada de sua consciência em outra, e o discurso da força contrária ao ser humano. Assim como o personagem perde sua integridade física, com a morte ele perde a integridade de seu discurso, que passa a ser demonstrado de duas formas: similar ao concretismo, como já disse, e o tradicional proseado. Este, porém, atua mais na visualização da memória do personagem com a família. O momento presente ou é a fragmentação em versos ou a prosa demonstrando certo caos mental.

    A morte do corpo significa, na verdade, o sequestro da consciência do personagem, que se iguala ao computador Miguel.

    Esse aspecto e o fato de os adversários considerarem a espécie humana “seres infectos / que corrompem / tudo o / que / tocam” contribuem para dar à narrativa um viés ideológico, na medida em que tocam nos conceitos de biopoder e sociedade do controle, os quais não cabe aqui esmiuçar. A seguinte passagem serve de exemplo: “[…] tem a ver com a noção de controle da empresa. Controle pelo medo”.

    O conto está bem escrito, mas há uma questão a ser resolvida pelo leitor, na recepção textual: a mistura de ficção científica com terror funcionou? Colocando de outra forma: as mortes e o sequestro da consciência do protagonista são o bastante para considerarmos haver terror ou tais fatos estariam dentro do esterótipo do gênero ficção científica? A resposta a essa pergunta pode fazer toda a diferença na avaliação do leitor.

    A narrativa está ambientada num tempo futuro. Apesar disso, em alguns diálogos existe o uso de gíria (“cara”) usada atualmente. A linguagem do futuro será igual à que temos hoje? Difícil saber.

    Outro aspecto ligado à linguagem é que o narrador-personagem, ao dialogar, usa o coloquialismo, mas esse aspecto se reduz muito quando ele narra.

    No trecho “Por que não arranja um emprego em que possamos contar com você?”, não cabe EM QUE. Poderia ser PARA QUE.

    Em “[…] a minha frente estava um bom colega […] faltou o acento indicativo de CRASE.

    Em “[…] tem agido da, mesma forma em relação a suas descobertas”, a VIRGULA não deveria ter sido usada e faltou a CRASE.

    Em “Mas aquela não era a hora para pensar nisso” deveria ser NAQUILO.

    Em “Ele soltou-me e cambaleou para trás […]” deveria ser ELE ME SOLTOU.

  9. Lolita
    8 de outubro de 2017

    A história – A imagem e o começo me fizeram acreditar que viria a ler uma cópia de 2001. Ledo engano, temos aqui uma ficção de primeira qualidade. Admito que não me causou susto, mas é por adorar o gênero. A nota não será prejudicada.

    A escrita – Refinada, sem erros aparentes. Os poemas dão um toque interessante para o crescendo da história, que não se limita ao óbvio. No entanto, como nada é perfeito, senti falta de que fosse explorado mais o “all 9000” fantasma. É, com certeza, um conto que deverá ser retomado.

    A impressão – Não sei se é por ainda estar no clima do Blade Runner, mas me senti lendo K. Dick em sua melhor forma (aliás, há um conto dele que acredito que foi a fonte da inspiração). Enfim, meus parabéns pela excelência.

  10. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Snaut, você tem um excelente domínio da escrita. Sabe contar uma história. Entendo pouco de ficção científica, da mesma maneira que pouco sei lidar com terror, mas a partir da minha intuição dá para sentir que você tem uma pegada forte. Ou seja, você me colocou dentro da sua história. Achei muito legal você criar essa história de uma nave brasileira, com nomes e referências nossos viajando a Sartorius. No entanto achei que alguns parágrafos ficaram um tanto pesados, arrastados. Talvez a história houvesse ganhado mais ritmo se eles fossem mais podados. Gostei da forma gráfica, mais concreta com que você trouxe algumas informações. Um conto de terror diferente, ficou bacana. Parabéns.

  11. Rose Hahn
    7 de outubro de 2017

    Caro autor, tens o domínio da técnica e do ofício da escrita, sem dúvidas. Achei bastante criativo a opção pelo terror na ficção científica, dois gêneros que não curto, mas que não interferem na minha avaliação aqui. Impossível não pensar na atmosfera de Alien, vc. conseguiu retratar muito bem, com toda a linguagem específica das máquinas e robótica, uma viagem e tanto. A narrativa é fluída, porém acho que alguns parágrafos a mais deram um ritmo mais arrastado à trama, como em “Não tentei argumentar: no fundo eu sabia que ela tinha razão. Apenas perguntei como nos manteríamos se eu trocasse o emprego atual por o de um salário menor, então ela respondeu que poderia voltar a lecionar. Seria mais fácil se eu estivesse por perto, a menina se adaptaria melhor a ideia de passar o dia numa creche, concluiu.” O parágrafo seguinte a esse complementa bem o que vinha sendo tratado no enredo. No mais, tudo no seu lugarzinho, sorte aí no desafio. abçs.

  12. Pedro Paulo
    5 de outubro de 2017

    Olá, entrecontista. Para este desafio me importa que o autor consiga escrever uma boa história enquanto em bom uso dos elementos de suspense e terror. Significa dizer que, para além de estar dentro do tema, o conto tenha que ser escrito em amplo domínio da língua portuguesa e em uma boa condução da narrativa. Espero que o meu comentário sirva como uma crítica construtiva. Boa sorte!

    Depois desse conto, olhei para minha estante e percebi com tristeza que nunca tinha lido ficção científica, especificamente. Já assisti a vários filmes do gênero, mas nunca li dentro dele. Este pequeno desabafo só serve para dizer que lendo este conto me encontrei totalmente imerso na atmosfera sci-fi que este pretende atingir. É um bom começo, considerando que o(a) autor(a) toma justamente este elemento do conto para desenvolver o terror, fazendo-o muito bem. Do mesmo modo, há outra premissa básica para que o terror pudesse ter sido trabalhado, que é a dos “dois parceiros que vão investigar algo estranho”. Ora, poderia ser com policiais em algum bairro afastado ou guardas de um zoológico que suspeitam da fuga de um animal. É um atalho para apresentar os personagens, sua relação entre si e com o trabalho e, o mais importante: que há algo estranho para o que eles caminham.
    Nesse sentido, há um tanto de clichê que é bem aproveitado no conto para garantir um fluxo constante de informações úteis. No início, somos habituados ao aspecto espacial da estória, com reflexões do protagonista que ajudam a entender o caráter da empresa para qual trabalha e a sua missão, também abrindo espaço para entendermos um pouco de sua vida quando ele reflete sobre os problemas com a esposa. O mesmo espaço não é dado para um desenvolvimento maior de sua amizade com seu parceiro de viagem. Claro, o protagonista dispõe que são bons amigos e companheiros, mas o diálogo deles serve mais para uma jogada expositiva que serve para explicar os possíveis riscos envolvidos na missão. Talvez, se Roberto tivesse perguntado diretamente sobre a esposa dele, já sabendo do que se tratava a reflexão do amigo, ao invés de perguntar se ele estava simplesmente viajando, pudesse gerar um bom diálogo para inferir proximidade e termos a oportunidade de ver a perspectiva de Roberto no caso. Isso seria mais importante para sentirmos mais com a perda que vem depois.

    E, em falar nessa perda, é outro ponto previsível. Afinal: dois parceiros sem muita ligação caminham para um perigo inevitável e um deles é o protagonista que narra a história. Bom, acaba que não nos surpreendemos quando este morre, entremeando o velho clichê dos “últimos relatos da nave”, que vão gradativamente delineando uma situação terrível enquanto as coisas vão simultaneamente piorando. No entanto, é algo bem aproveitado para nos dar uma ideia da natureza da ameaça, depois explicada pela inteligência artificial da nave, em um outro momento expositivo que é mais útil do que seria se as coisas simplesmente ocorressem, dando completude e grandeza ao senso de armadilha que a situação do protagonista vai ganhando. Sua fuga mal sucedida é um ponto muito bom da trama, dado que a natureza do seu fim não é a morte, mas pior, a assimilação e perdição da consciência, cortando os seus pensamentos angustiados sobre a família.

    Saber que ele perdeu, que ele nunca mais os verá e que, pior, empoderou a entidade que talvez vá ser responsável pela própria destruição da sua família e da raça humana, é um final verdadeiramente agonizante para um conto que sabe utilizar bem os clichês da ficção científica e do terror, misturando bem o expositivo e o descritivo, recorrendo a imagens chocantes como o corpo de Roberto derretendo sobre o painel de controle, por exemplo. Muito bom!

  13. Angelo Rodrigues
    5 de outubro de 2017

    Salve, Snaut
    ou seria snuff.
    Uma viagem lisérgica. Snuff-snuff-snuff-snaut.
    Confesso que quando comecei a ler imaginei epa! já sei onde isso vai acabar.
    Só que não. Você conduziu bem a linguagem, o enredo, o domínio sobre os elementos de cenário, composição, linguagem, personagens.
    Quanto aos nomes dos personagens, apenas como questão pessoal, acho que um astronauta se chamar Beto, um computador Miguel, etc, não ajuda muito, reduz (a meu ver, é claro), o nível de verossimilhança do texto. Não precisa ser Howard ou Edwin, mas Beto, sei não. Acho que existam, em português, claro, nomes que ajudam a firmar a verossimilhança do texto. Falo isso porque trabalho com um banco de dados enorme de nomes e sobrenomes e sei que a escolha de um deles é sempre difícil. (Bem, mas isso é só uma mania que eu tenho.)
    É difícil transitar pelos caminhos pelos quais você passou, dado que bem batidos, mas isso não te derrubou.
    Gostei, por exemplo do contraste entre futuro tecnológico e os mesmos problemas usuais do homem, como o conflito entre Giuliana e Marcos, problemas com filhos, essas coisas que parecem grudadas ao Homem.
    Bem legal o texto.
    Faço algumas observações, mas só para ajudar, se for o caso. Vamos a elas.
    – PBVE. Fiquei sem saber o que era até, parágrafos adiante, você explicar. Durante alguns tempo fiquei como os seus personagens, voando.
    – “…à frente de seu aposento…”. Acho que o termo aposento numa nave espacial deveria ser substituído por cabine, algo assim. Aposento só cabe no Nautilus em suas viagens submarinas.
    – A “voz” do narrador do diário de bordo é a mesma do narrador Marcos. Ambas se confundem como se fosse uma pessoa só falando, modificado apenas pelo assunto e pelo itálico. Acho que essa “voz” deve ter algo de inconfundível. Deve ficar claro que quem fala é uma outra pessoa. Essa voz deve mancar, ter uma verruga, faltar um dente, qualquer coisa que a diferencie do narrador-personagem.
    – “Tudo ficou ainda mais IRREAL quando…” Evite conspirar contra o Terror dizendo que algo é irreal. MOSTRE o terror e não duvide dele.
    – “Milhões de graus celsius.” Entendi como um elemento expressionista, claro, mas isso acabou se repetindo em outras passagens. (Falo adiante).
    – “olhos maníacos.” Creio seja uma expressão pouco apropriada. Talvez “olhos aterrorizados”, algo assim.
    – “senti uma agonia BILHÕES de vezes superior a qualquer…” idem para o fervor expressionista.
    – Achei que o conto deveria terminar em “…desvanecer UM ERRO.” Estaria de bom tamanho e evitaria as demais explicações.

    Parabéns, Snaut-snuff, bem legal seu conto. Boa sorte.

  14. Luis Guilherme
    3 de outubro de 2017

    Boa tarrrrde, amigo, tudo bem?

    Como tenho dito, terror é meu gênero favorito, então estou com uma expectativa grande nesse desafio.

    Dito isso, vamos ao seu conto:

    Amei! Muito bom mesmo.

    Em geral, não sou fã de FC, mas gosto muito de FC de terror. Engraçado., né?

    Você representou muito bem o gênero, que é bem difícil. Pq difícil? Pq sempre gira em torno do mesmo enredo: uma expedição que chega para explorar um planeta desconhecido e encontra criaturas extraterrestres hostis.

    Sua história não foge disso. Porém, é executada tão bem que consegue oxigenar o gênero. Parabéns!

    Não levo em conta o fator medo, pois pra mim é muito difícil sentir medo, mesmo vendo filmes, imagina lendo. Porém, seu conto tem uma atmosfera tensa, o que gera um suspense bem legal.

    A escrita é muito competente, quase impecável, e é fluída e agradável. Um dos pontos altos, pra mim, foi o sonho da filha, que deu um toque especial ao enredo. É meio bizarro, e como você não explicou, ficou um gosto de suspense no ar.

    O único porém que tenho: acho que poderia ter terminado em “seres infectos

    que corrompem

    tudo o

    que

    tocam

    É nosso dever

    Consertá-los

    torná-los

    parte

    de

    ALGO

    MAIOR”

    Ali estava perfeito, e eu realmente achei que tinha acabado, e tava com uma sensação de satisfação. Achei que a continuação, que não acrescentou muito ao enredo, dei uma quebrada no efeito. É minha opinião, óbvio, mas achei que perdeu um pouquinho o encanto. Se terminasse ali, eu finalizaria com um sorriso de satisfação.

    Claro que isso não estraga o todo, mas…

    Enfim, excelente conto, um dos melhores até agora.

    Parabéns!

  15. Fheluany Nogueira
    1 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – micros robôs formam uma consciência coletiva, eliminando a individualidade — se a ideia não é nova, tem outra roupagem. FC e terror são gêneros que se conectam bem.

    Escrita e revisão – Remete a clássicos de sci-fi, a ideia da poesia concreta foi original. Mínimos deslizes gramaticais. Leitura fluente e agradável.

    Terror e emoção – Apesar das ternas lembranças da Terra, a narrativa ficou meio mecânica. Suspense e o clima macabro foram bem conduzidos.

    Bom trabalho. Abraços

    Curiosidade: Snaut, norueguês, significa “escasso”. Por que o pseudônimo?

  16. paulolus
    30 de setembro de 2017

    De princípio embarquei numa nave, quero dizer, num conto de temática de “ficção científica”. E foi o que realmente aconteceu um verdadeiro conto de ficção, do qual sou grande admirador. E assim como a colega Paula, também fui um assíduo leitor de Carl Segan. No mais, o texto é muito bem estruturado; é uma escrita de quem entende do riscado e suas nuances. Não vou entrar no mérito da trama, porque nada entendo dessa linguagem das robóticas. Vale mais confirmar que gostei muito do conto. Afora alguns pequenos erros, ou falha de digitação: (fazer com que nos matemos nessas viagens – convênce-lo – narinas e olhos e flutuar) Uma releitura resolve fácil.

  17. Evandro Furtado
    30 de setembro de 2017

    Há vários pontos positivos a serem destacados, a começar pela opção de um survivor horror espacial, coisa que sequer havia passado pela minha mente quando comecei o desafio. O autor não se detém em explorar os clichês do gênero, além de trazer outras referências da ficção científica. Nesse meio tem Alien, Interestellar, Arrival e Life. Eles não ficam forçados, no entanto, é aquela combinação bacana que contribui para a criação de um texto coeso para quem conhece o gênero. Em alguns momentos, há uma ambientação próxima a Asimov, também. Apesar da ficção científica gritar, o horror está aí, com descrições precisas e um desenvolvimento de trama tenso e claustrofóbico. Se eu pudesse fazer uma pequena adição, pegaria a cena em que a filha desenha os monstros e levaria ela lá pro começo do texto. Acho que essa linearidade poderia dar um senso de unidade ainda maior para o conto e contribuir para o desenvolvimento em direção ao horror. O final também evoca outras inúmeras obras com essa ideia da perda da individualidade, que, aliás, é um tema recorrente ao longo do texto, primeiro com Miguel, depois com o próprio protagonista.

  18. Ana Maria Monteiro
    28 de setembro de 2017

    Olá Snaut.

    Não faço segredo de que os temas que mais detesto são terror, horror e FC, em suma o que sinto como saindo da realidade minimamente razoável para o absurdo.
    Por outro lado, não creio que algum dia em toda a minha vida tenha sentido terror; medo, algumas vezes, mais que isso nunca. E se nem na vida real, não será com certeza lendo.
    Felizmente, nada disso entra em linha de avaliação. Cada autor tem suas preferências e estilo e é isso que há que avaliar, juntamente, no caso, com a adequação ao tema, que considero presente.
    Felizmente você adicionou família, memórias, sentimentos, ou seja, coisas verosímeis. Isso facilitou a leitura e criou empatia, embora, no meu caso, não propriamente com o personagem principal, mas antes com a sua família, a qual apenas correu o risco (que se verificou) de perder o marido e pai.
    Gostei bastante da parte em que a consciência se vai diluindo, o “eu” se vai perdendo, dá lugar a especulação e interrogações bastante interessantes.
    Você é um autor experiente e a sua escrita é de excelente qualidade, quanto a isso não me restam dúvidas. Aliás, é um facto patente desde o primeiro parágrafo.
    Como sempre, noto os invariáveis problemas com o uso da crase, mas nem creio que mereça a pena apontá-los (dei pela falta de seis).
    Na revisão falhou esta frase: “da Lehman-Strauss tem agido da, mesma forma”, essa vírgula está tão fora de sítio que acredito ter sido um erro de digitação.
    Também reparei que nesta frase a palavra cápsula não está acentuada: “Se está faltando uma capsula”. Não sei se vocês escrevem a palavra sem acento ou se faltou mesmo, caso esteja em falta, vale a pena acrescentá-la depois.
    No mais,como já disse, um conto escrito e conduzido com a excelência de quem sabe o que faz. Parabéns e boa sorte no desafio.

  19. angst447
    28 de setembro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Pelo jeito, temos aqui um(a) autor(a) aficionado por F.C. Não curto muito, mas isso não diminui em nada a habilidade do escritor com o gênero. O problema é que não consegui mergulhar no texto, mantive uma distância por falta de identificação. As lembranças da família puxaram meu interesse vez ou outra.

    R (revisão) – Pouca coisa escapou à revisão. Nada que atrapalhe a leitura.

    R (ritmo) – Talvez pelo cuidado de criar um ambiente bem detalhado, dando explicações sobre tudo, o autor tenha tornado o início mais lento. Os diálogos (poucos) aceleram um pouco a narrativa, que ganha maior fluidez.

    O (óbvio ou não) – Como disse um colega aqui, quando começamos a ler o conto, temos uma sensação de que algo sairá muito errado ali. Quase ouvi o robozinho de Perdidos no Espaço (sim, sou antiguinha) alertando: Perigo, Perigo!

    R (restou) – A certeza de que o(a) autor(a) domina bem o jogo das palavras e gosta muito do tema tratado. Seu processo criativo é bem cuidadoso, focado nos detalhes que possam traduzir o mundo imaginado para essa aventura (futurística?).

    Boa sorte!

  20. Rafael Penha
    27 de setembro de 2017

    Excelente. Magnífico. Aterrorizante.

    Raras vezes vemos um terror espacial, mais difícil ainda é ver um narrado tão bem. As influências de Alien, Event Horizon, 2001: Uma odisseia no Espaço, H.P. Lovecraft são tão acolhedoras quanto sutis e úteis à história. Todas servindo de apoio a originalidade deste conto.

    As noções cientificas demonstram um cuidado na pesquisa, e a simples narrativa já fala muito sobre o background da humanidade, sem perder tempo com explicações diretas. A idéia das sondas nano-robôs pelo espaço é real, e existem atualmente cientistas trabalhando nela, mas foi levada a uma consequência que acredito nenhum deles prever.

    Achei o final um pouco abstrato, mas fez parte da própria explicação, (ou falta de) do que seriam as coisas alienígenas e do triste fim de Marcos. O final do personagem é muito melhor do que uma simples morte. Algo mais sinistro e aterrorizante.
    Excelente conto.

  21. Lucas Maziero
    27 de setembro de 2017

    Olha, achei este conto de ficção científica horripilante, bem construído e desenvolvido. Darei as explicações: com certeza é medonho imaginar acontecer uma invasão desses seres nanorrobôs cá na Terra. Só que tal não se deu, se compreendi bem o final. Acompanhamos apenas parte do desastre pela visão de Marcos, melhor ainda depois de sua “morte”. Bem ali no começo já temos uma indicação de que “monstros vão te pegar”, o que ajuda a criar uma expectativa em saber quando e como acontecerá. Muito embora percamos um pouco do medo do desastre ao saber que tudo se passa “há milhões de quilômetros de casa”. Ficou criativo os conflitos, o desaparecimento da tripulação da estação Hermes (apesar de ser um clichê na FC), o relado do capitão e a morte de seu companheiro Roberto. Uma coisa não ficou clara para mim: que sentido há em enviar espaçonaves até ao planeta Sartorius, uma vez que a empresa Lehman sabia de antemão que gente ia morrer e espaçonaves iam se perder, significando que perderiam com isso tempo e dinheiro; a não ser, é claro, que a empresa estivesse cega quanto ao que estava se passando, aí tudo bem. Seguindo: gostei bastante da ideia de que a consciência da pessoa permanece após o ataque dos aliens, até não restar nada, e mesmo esses pensamentos vagos se fundirem com o todo sem forma dos Semeadores. Realmente, um bom conto, gostei. Sentimos a tensão oriunda do medo pelas cenas na estação e pela morte de Marcos, geralmente o personagem sempre sobrevive. Mas o grosso do terror percebemos pelo que Marcos e os outros sentiram, e não pelo que nós, os leitores, captamos através da leitura.

    Parabéns!

  22. Paula Giannini
    27 de setembro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Gosto muito de tudo que se relacione ao espaço, ETs, viagens interplanetárias… Nos anos 80, eu era leitora assídua da Revista Planeta com todos os seus mistérios, acho que eu era a adolescente fã n.1 de Carl Sagan, na época, um tipo de pop star astrônomo.

    Bem vamos ao conto.

    Ainda que o tema, ou melhor a ambientação escolhida pelo(a) autor(a) não me agradassem, ainda assim, a premissa escolhida seria muito boa.

    Perder a individualidade é um medo que assombra muita gente. Esse tipo de premissa, que faria com que alguns críticos torcessem o nariz (eu não), se inserida, por exemplo, em um texto sobre o Alzheimer, é perfeita para o presente desafio.

    Seu protagonista se encontra no limite do “eu”. Já não sabe se o que vive é real, e, tenta se apegar às poucas memórias e experiências que lhe restam para, de alguma forma, conseguir manter, não só sua sanidade, como também sua humanidade. Dessa forma, as ilusões criadas em sua mente já não lhe deixam certeza alguma de ter vivido ou não, o que acaba de presenciar.

    Gostei da maneira como você conduziu o conto, entrecortando memórias, vida passada, vida presente, ilusões. Dessa forma, também o leitor duvida do que lê, imaginando se a parte lida é real ou apenas uma ilusão do pobre astronauta.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  23. werneck2017
    27 de setembro de 2017

    Olá!

    Eu vejo os comentários dos colegas esperando grandes emoções, algo inusitado ou coisa que o valha. Todas as histórias já foram contadas e só mudamos a forma de contar e enlaçar o leitor. Eu achei o conto muito bom, um terror espacial que engaja o leitor desde os primórdios e faz com que torçamos pelo protagonista, sintamos seu drama e vivenciamos suas agruras. A forma não linear é outro ponto forte, que foge do habitual, a temática – que muitos consideraram batida – foi bem usada e manobrada até o final com maestria. Detectei alguns erros como:
    Eu pairava em meio a luz > Eu pairava em meio à luz
    esperança de que estivesse num pesadelo, do qual despertaria no > esperança de que estivesse num pesadelo do qual despertaria no

    Fora isso, perfeito. Parabéns!

  24. Edinaldo Garcia
    27 de setembro de 2017

    Escrita: Muito bom. O enredo é sensacional. Bem construído, com imagens fortes que saltam aos olhos da imaginação. Personagens carismáticos. Adorei a quebra do convencional. Como é bom ler um conto de terror misturado com ficção científica! Há imersão do leitor no enredo. Tudo muito bem construído. Os elementos brasileiros como o nome da nave deram um toque de charme ao conto. (Não gosto de nada exageradamente americanizado)

    Terror: Bom nível; com um final perturbador. É ressaltado o lado humano do protagonista mediante às recordações, e isso cria laços entre o leitor e ele, fazendo com que nos preocupemos com ele, e isso é a grande sacada de escrever terror. O texto me causou arrepios, tristeza pelo destino trágico do personagem.

    Suspense: Este quesito também não há nada de errado. Muito bem trabalhado. A trama se desenvolve num ritmo excelente. A leitura flui bem, causando curiosidade de sempre querer ler a próxima linha. O final e imprevisível e bem feito.

    Língua Portuguesa: Excelente. Qualidade literária perfeita.

    Veredito: Conto excelente. Picanha assada com limão jogado naquela gordurinha sapecadinha.

  25. Regina Ruth Rincon Caires
    27 de setembro de 2017

    Terror contado nas alturas! Caramba, fico sempre preocupada com tudo que flutua, que decola, que voa. No avião, o medo maior é que para tudo se quebra, a peça está aqui no chão, o conserto é aqui! Misericórdia…
    Vamos ao texto. Muito bom! Teor sinistro, aterrorizante. O leitor chega a prender a respiração, ranger os dentes. Diálogos perfeitos, descrição perfeita, temática perfeita. Tudo tão perfeito que quando leio o diálogo do Miguel, ouço a voz!
    O mais fantástico é a mescla de ternura. Contraponto que prende o leitor. A doçura da filha, a preocupação da mulher, a esperança de que será apenas uma fase mais difícil, que a vida perfeita está próxima.
    Epílogo ideal. A morte chegou, mas a descrição das sensações é lenta, docemente descrita, sensações poeticamente transmitidas.
    Parabéns, Snaut!

  26. Fabio Baptista
    26 de setembro de 2017

    Texto muito bem escrito, com uma narrativa que casa perfeitamente com a história contada. Na revisão só percebi um deslize, uma vírgula traiçoeira em “agido da, mesma”. Também alguns exageros não me soaram legais, tipo “milhões de graus célsius” (a temperatura do Sol, se não me engano, não chega nem perto disso).

    A boa nota ficará mais por conta da competência ao executar o texto dentro da proposta, porque infelizmente o texto não me agradou muito, mais por questão de gosto pessoal mesmo.

    Achei a narrativa meio “fria”, robótica (casa com o conto, mas não me agrada). A trama também me soou batida… eu já escrevi contos com temáticas bem semelhantes e esse plot das máquinas querendo acabar com a vida orgânica é bem conhecido (Matrix, Exterminador do Futuro e… no recém-lançado Marvel x Capcom: Infinite ahuahuaua).

    No entanto, o clima sinistro foi bem construído, o sangue bem dosado e também o suspense.

    Um bom conto, apesar de eu não ter curtido muito.

    Abração!

  27. Andre Brizola
    26 de setembro de 2017

    Salve, Snaut!

    Pra mim, a história mais aterrorizante contada no cinema é justamente uma ficção científica. O primeiro Alien ainda me assombra, e nenhum outro filme nunca conseguiu me atingir daquela maneira até hoje. Os dois gêneros combinam muito bem, justamente porque ambos podem tratar do desconhecido. E o desconhecido pode ser aterrorizante.
    Acho que tem um pouco de Enigma do Horizonte aqui, não? Um quezinho de Clive Barker e Willian Gibson. O que só me faz gostar ainda mais do conto. Só queria que ele fosse maior, pois aí o elemento aterrorizante poderia ser muito mais forte!

    É isso! Boa sorte no desafio!

  28. Rafael Soler
    26 de setembro de 2017

    Parabéns pelo texto! O terror espacial é um dos meus tipos preferidos de história. Os conceitos abordados foram bem interessantes, como o fantasma usado na forma de inteligencia artificial e o lance da consciência coletiva que se formou no planeta.
    O tipo de escrita também me agradou muito, tornando a leitura bem rápida e com um ritmo legal, principalmente nas partes que se aproximaram de uma pegada mais poética.
    Quanto ao terror do texto, achei que ele ficou mais por conta dos conceitos aterradores do que pelas situações em si. Acho que se isso fosse melhor balanceado, o conto seria mais impactante.

    No geral, é um ótimo trabalho, principalmente para os fãs de FC.

    😀

  29. Pedro Teixeira
    26 de setembro de 2017

    Um conto intrigante, com elementos que remetem a clássicos da FC, como “Solaris”. A ambientação e a forma como a Lehman-Strauss age lembram um pouco o primeiro “Alien”.
    A narrativa tem um bom ritmo, e as construções no geral são boas, descontando alguns pequenos exageros. Os trechos de poesia concreta e elementos brasileiros dão um toque diferenciado. Um bom trabalho.

  30. Antonio Stegues Batista
    26 de setembro de 2017

    Enredo: Gostei do enredo, micros robôs que se aglomeram, tornando-se num cérebro artificial, com o intuito de acabar com a raça humana, absorvendo sua essência.

    Escrita: Regular. Achei legal a parte não linear, onde a mente do protagonista se esvai. Esse recurso não linear, deu início a poesia de vanguarda, chamada de Concretismo. Como por exemplo na poesia concreta de Haroldo de Campos:

    se
    nasce
    morre nasce
    morre nasce morre
    renasce remorre renasce
    remorre renasce
    remorre
    re .

    Personagens: Com personalidade, mas as falas me pareceram formais demais, num tom de gente jovem, talvez o autor o seja.

    Escrita: Regular, frases também, boas descrições, boa ambientação e termos técnicos.

    Terror: Muito pouco, quase nada.

  31. Olisomar Pires
    25 de setembro de 2017

    Impacto ao eu-leitor: alto pela qualidade do texto.

    Narrativa/enredo: Viagem espacial em busca de respostas para projeto anterior da própria empresa. A inteligência artificial do projeto evoluiu e age como ser consciente tentando eliminar e conseguindo seus criadores nas figuras dos personagens envolvidos. Muito criativo, uma seara para um sem fim de continuações.

    Escrita: Muito boa. Não detectei erros. O texto flui naturalmente. É leve e envolvente. As descrições e ambientações soaram verdadeiras.

    Construção: As imagens são cativantes e o estilo intimista conseguido com as lembranças da família fazem um contraponto muito importante, pois nos faz torcer pelo protagonista. Embora seja um recurso muito utilizado, foi construído com maestria.

    No aspecto “terror”, confesso não ter sentido aquele arrepio.

    É isso.

  32. Nelson Freiria
    25 de setembro de 2017

    Todos os personagens são masculinos ou recebem nomes masculinos, as mulheres só aparecem na lembrança de um dos personagens, nos castigados papeis de mulher e filha a esperar pelo homem da casa. Poxa!

    Eu comecei achando que preferia ter lido esse conto com uma narração em terceira pessoa, mas as mudanças no enredo deram um bom sentido a primeira pessoa.

    Esse climão de horror sci-fi ficou legal, mas causou aquela sensação de “isso vai dar merda” muito fácil. O conto toca em elementos comuns na FC que são bem legais de explorar, inclusive passa raspando naquele que tem andado (em minha opinião) em maior evidência nos últimos tempos: a linguagem. A única coisa que me fez dar uma torcida de nariz, foi o rápido desenvolvimento da investigação após chegarem a estação. Era ali o momento ideal para desenvolver as expectativas de terror no conto. A partir do momento que o protagonista morre, o terror se torna uma especulação dentro de uma mente boiando no mar cósmico.

    Senti que dava para construir a mesma atmosfera com uma quantidade menor de adjetivos, que apesar de bem escolhidos, em alguns momentos ficaram em excesso. Não pude deixar de notar os erros de digitação.

  33. mariel
    25 de setembro de 2017

    Tri gostei. Como contribuição, mando o link de um site com imagens free que podem deixar seus contos, posts, crônica e blog ainda mais originais: https://pixabay.com/

  34. Zé Ronaldo
    25 de setembro de 2017

    Conto de terror espacial maravilhosamente bem construído! A forma como o texto é conduzido nos diz muito sobre o escritor, demonstrando um exímio poder de engendrar situações e criar personagens fortes e bem definidos.
    O conto todo é construído em cima de ideias já utilizadas em outros textos: a grande corporação capitalista futurista que só visa o lucro, inteligência artificial, vida alienígena hostil que invade uma estação espacial, contudo, apesar de elementos já manjados nesse estilo de escrita, não cai na história clichê, ao contrário, realiza um ótimo e original trabalho literário!
    Os diálogos são bem elaborados e são instrumentos de dinamismo para o bom andamento do texto.
    O uso, também, de três planos de história: o tempo real, a história da estação abandonada e a história da família de Marcos foi outro aspecto muito interessante, também, fazendo curvas no texto que não derrapam o leitor e nem deixa ser um texto monótono e simplesmente retilíneo, com um fio condutor muito direto.
    O final matou a pau! Pior coisa que poderia acontecer, além de morrer, é ter a alma também subtraída. Muito bom mesmo!
    Parabéns.

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Informação

Publicado em 25 de setembro de 2017 por em Terror.