EntreContos

Literatura que desafia.

Um passeio noturno – Conto (Ana Maria Assis)

Eu estava andando pela rua de uma cidade turística quando vi um homem falando em um púlpito. Ele usava daquelas perucas brancas de cabelo longo enrolado, aquele “cabelo de época” que vemos em novelas brasileiras, e roupa “de época” também. Esse homem que falava era promotor, e ele falava sobre a corrupção dos juízes, e parece que as pessoas estavam ali para uma apresentação turística e não pra ouvir esse tipo de discurso.

Mas, de repente, uma pessoa chegou pelas costas desse palestrante, tampou o rosto dele com um saco e colocou um outro homem com “cabelo de época” e roupa “de época” no lugar dele, esse segundo homem só fazia elogios à cidade e a tudo.

Quando acabou o discurso, as pessoas começaram a subir em um ônibus, e eu quis ir junto pra ver o que mais iria acontecer nesse passeio turístico. Fiquei curiosa. Eu estava sozinha e entrei no ônibus e ninguém percebeu que eu era uma a mais.

Eu vi dentro do ônibus uma menina negra, pequena, com uma mochilinha colorida nas costas, conversando com um menino, um adolescente. Ele parecia estar tentando conquistar a menina. Mas um guarda, também negro, mas bem alto, abordou a menina e perguntou se ela tinha passagem pra estar ali naquele ônibus, e ela disse que não. Nesse momento o guarda negro a expulsou do ônibus. Ela saiu andando sozinha pela rua de terra, e eu fiquei olhando a mochilinha das costas dela até ela sumir, e depois olhei para o adolescente que estava com ela antes, mas que tinha permanecido no ônibus. Ele achou que eu estava olhando pra ele com interesse, e veio na minha direção, mas eu disse a ele: “O mínimo que você deveria ter feito era acompanhar ela até em casa”. Ele deu de ombros.

Nós passamos por pontes e casas mal construídas, que pareciam estar caindo. O motorista dirigia ligeiro e passava por escadas cheias de água, quase que sobrevoando sobre elas.

Eu percebia que ninguém reparava que eu não tinha a passagem, assim como a menina negra que foi expulsa do ônibus também não tinha, e eu pensava que tinha que me comportar o tempo todo como se eu fosse um deles, um dos que tinham a passagem.

A cada parada, tínhamos que entrar no ônibus novamente, e eu disfarçava e pulava a catraca quando ninguém estava olhando. Eu não achava que iriam me expulsar se soubessem a verdade, eu sentia que iriam me aceitar ali da mesma forma e eu os convenceria, eles não fariam como fizeram com a menina a uns pontos atrás. Mas eu tinha vergonha de não ter as passagens, por isso disfarçava para pular a catraca.

Tinham vários meninos no ônibus, adolescentes. E o guarda negro e um outro, que era gordo, estavam de olho nesses adolescentes. Parece que os meninos incomodavam esses dois guardas, mas eu não os via fazerem nada que pudesse gerar incômodo.

Um dos meninos se aproximou de mim, e perguntou se eu estava sozinha como a menina que tinha sido expulsa, eu disse: “claro que não”, e ri, fingindo não me importar com a pergunta. Eu estava sim, sozinha.

Os guardas me viram conversando com esse menino, e os dois se aproximaram desconfiados. O gordo tirou uma faca da cintura, e disse que a usaria caso precisasse. E o negro me questionou sobre o que eu estava escondendo.

Eu me esforcei para fazer uma fisionomia de sofrimento e medo, pensei que era isso que eles queriam no momento para sentirem mais segurança, eu disse primeiro numa voz bem baixa que não precisava de faca, porque eu iria obedecer. E depois, eu disse que estava realmente escondendo algo, e que eu não tinha eu não tinha as passagens.

O guarda negro, que tinha expulsado a menina de mochila que não tinha passagem, fez um semblante bem triste e foi dando uns passos para trás. Ele foi saindo de perto devagar. O guarda gordo, que já tinha guardado a faca, ficou me olhando. Eu disse a ele que o outro guarda me ignorou e não quis ouvir meus argumentos. Ele disse que aquele guarda “é assim mesmo”. Eu disse que de certo não era uma pessoa ruim. Os dois guardas, enfim, me deixaram em paz e eu fiquei sentada no fundo do ônibus.

A cada parada, eu continuava pulando a catraca disfarçadamente pra voltar ao ônibus, mesmo que os dois guardas soubessem que eu estava sem as passagens, eu continuava com vergonha por não tê-las.

Quando acordei, pensei que em certas ocasiões e na companhia de determinadas pessoas, pode não ser o nosso lugar, mas é preciso ficar enquanto não chegamos ao nosso destino, mesmo quando outros passageiros ficam para trás, e mesmo se for preciso também pular a catraca.

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Um comentário em “Um passeio noturno – Conto (Ana Maria Assis)

  1. Regina Lopes Maciel
    12 de setembro de 2017

    Ana, senti que sua ideia e seu texto precisam ser mais trabalhados. Para mim, até o penúltimo parágrafo nada ainda havia acontecido para se chegar a uma conclusão. Eu ainda esperava pelo desenvolvimento da história, quando ela acabou. Esta saída final de acordar de um sonho é fraca e muito desgastada. Dar a conclusão da história para o leitor também não é legal. O interessante seria construir o texto de forma que o leitor chegasse à conclusão por si só.

E Então? O que achou?

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Publicado às 10 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .