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Detox Literário.

A janela do segundo andar – Conto (Fernando Bueno)

Era um homem de rotinas, mas naquele dia voltou para casa por uma rua diferente. E nessa rua, entre modernas construções, havia um sobrado, cuja arquitetura arcaica revelava uma dignidade sólida, que parecia esmorecer sob o efeito da progressiva obsolescência.

Era um homem reflexivo, mas naquele dia sua atenção recaiu na janela do segundo andar. E nessa janela havia um rosto. Um belíssimo rosto de mulher, cujos olhos tateavam despretensiosamente o cenário de concreto que tinham diante de si, como se buscassem penetrar-lhe o insosso segredo. Arrebatado pelo imprevisto efeito da beleza irreal daquela figura, seu olhar fixou-se nela por demorados segundos. E fixados permaneceriam, se ela repentinamente não se virasse para ele, parecendo já ter intuído em pensamento o súbito interesse de um estranho. Envergonhado por ter sido descoberto, atravessou a rua simulando pressa e seguiu em frente, embora todo o seu corpo quisesse ficar.

Era um homem racional, mas a partir daquele dia passou a retornar a casa pelo mesmo caminho, parando no mesmo ponto para observar a janela do segundo andar. E, emoldurada pela janela, a formosa visão. Seus olhos intensos voltavam-se para ele, o sorriso discreto fazia-o empalidecer, os cabelos castanhos displicentemente caídos nos ombros rematavam os eflúvios de sedução que pouco a pouco iam minando sua resistência.

Tendo-se completado uma semana desse inusitado namoro a distância, seguiram-se três dias em que ela não apareceu, fato que o deixou louco de aflição, tão enredado já se encontrava nos encantos vespertinos da misteriosa mulher. No quarto dia, ela ressurgiu mais linda do que nunca, revelando no rosto uma inesperada timidez, que parecia não lhe permitir encarar o seu devotado admirador. Ele correu a postar-se logo abaixo da janela, disposto já a fazer qualquer coisa para captar-lhe a atenção. Mas não foi preciso, pois, num movimento delicado, ao mesmo tempo intencional e fugidio, lançou ela ao chão um minúsculo pacote atado com uma fita vermelha. Dentro havia três chaves unidas por um cordão e um papel dobrado onde, em letra sinuosa, uma única frase se lia: “Hoje, às dez”. Olhou para a janela, não a viu mais.

Sentiu-se então sob o jugo de uma potência desconhecida, já não controlava o curso dos seus pensamentos, que vagavam irrequietos pelas fantasiosas terras de um desejo indomável, ante a iminência de estar frente a frente com a destinatária exclusiva de suas inconfessáveis aspirações. Queria vê-la na proximidade de um beijo, tocar-lhe a brancura da pele, possuí-la no limite inconsequente de suas forças…

Na noite sem lua, enquanto caminhava, uma ponta de hesitação ou um resquício de prudência fustigou-lhe o espírito, pois cada aroma noturno, cada ruído fortuito, parecia querer denunciar ao que lhe restava de sensatez a irrealidade daquela aposta insana. Por um momento titubeou, ao experimentar as chaves no cadeado do portãozinho do edifício. Mas foi só um momento… Logo acessava a escadaria para o andar superior, levado por uma excitação crescente. A segunda porta, a segunda chave… Invadiu a semiescuridão de uma sala ornamentada com requintes de ordem e bom-gosto. Adivinhava-se a limpeza absoluta, talvez não houvesse ali nada que não ocupasse o seu justo lugar. E seu coração latejava, sua respiração se tornava ofegante, ao insinuar-se em tal recanto de feminilidade indevassada.

Percorreu o corredor até o último aposento à direita, guiado pela firmeza apaixonada do amante. Abriu a porta com a última chave. Entrou sorrateiro, antegozando o momento. Um perfume sutil afagou-lhe as narinas, a luz mortiça aguçou-lhe as pupilas. Ergueu o rosto lentamente. A disposição dos móveis guardava as mesmas características do restante da casa, com o acréscimo singelo de uma frivolidade discreta.

Seus músculos se contraíram, e um arrepio eletrizou seu corpo, ao dar com a cena que lhe viera à mente por antecipação. A mulher, deitada na cama, olhava para ele, os lábios desabrochando num sorriso de entrega próxima. Apenas um lençol levíssimo velava o objeto de sua ânsia. Aproximando-se, beijou-a sofregamente, ao mesmo tempo que repuxava o tecido, num gesto irreprimível.

Para elas convergiu então o seu olhar… para as pernas daquela enfeitiçante mulher. Que não passavam de dois horríveis gravetos descarnados – sem força, sem vida, inertes. A outra metade do corpo, ao contrário, obedecendo a singular ironia da natureza, vibrava na mais candente sensualidade.

Recuando até a parede, ele mal podia respirar, perdido em meio ao desejo e à aversão, os olhos vagando entre as duas partes antagônicas de um corpo cuja nudez tudo revelava.

À deformidade das pernas, seguiam-se os seios, licenciosamente empinados; a boca rubra, entreaberta; os olhos faiscantes de volúpia. E uns braços estendendo-se para ele – lânguidos e traiçoeiros –, como se conjurassem arrastá-lo, num delirante impulso de paixão…

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2 comentários em “A janela do segundo andar – Conto (Fernando Bueno)

  1. Regina Lopes Maciel
    12 de setembro de 2017

    Fernando, o texto está bem escrito e todo ele antecipa que algo “anormal” irá acontecer (o sobrado velho, as 3 chaves, um homem racional deixando sua prudência de lado, etc). Mas o que acontece é tão pouco, que me provocou uma certa frustração de leitura.

  2. Eduardo Selga
    12 de setembro de 2017

    Não sei se é uma questão de estilo autoral ou um recurso utilizado no sentido de ressaltar a paixão do personagem bem aos moldes do amor idealizado, mas a linguagem parece extraída de um romance do Romantismo, bastante cuidada e preocupada com o efeito estético.

    Se por um lado podemos dizer, ao menos em termos de Brasil, que é uma linguagem antiga na medida em que é muito pouco utilizada nas obras atuais, há que se ressaltar a pertinência de seu uso no enredo em questão.

    Não há estética ultrapassada, no sentido de jamais ser retomada. O que existe são estéticas em desuso, mas que podem perfeitamente retornar, a depender da configuração de certas determinantes sociais, históricas e artísticas. Assim, ao usar uma linguagem que soa exclusividade de séculos anteriores, o autor pode causar no leitor a expectativa de um desfecho convencional. Principalmente porque há uma cena que lembra Rapunzel jogando suas tranças.

    No entanto, o que temos? Um desenlace completamente fora dos padrões românticos que a linguagem sugere. O impacto no leitor da revelação da deficiência física da personagem teria sido menor, acredito, se a linguagem fosse contemporânea.

    Nesse sentido, a mim me parece um conto bem escrito. Ele corre um risco, no entanto: como a escolha lexical e a sintaxe induzem a uma leitura lenta, pode não agradar a certos leitores.

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Publicado às 10 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .