EntreContos

Literatura que desafia.

Roça Hills (Uau Disnei)

Era uma vez um Reino Encantado, onde as cocadas floresciam à beira da estrada e as rapaduras brotavam em frondosas árvores. Um lugar em que todas as pessoas eram bonitas e felizes. Ou não.

Dizem que Deus passou a duvidar da sua Criação após dar zica na linha de produção. E foi então que nasceu o povoado de Roça Hills. Depois disso, o Todo-Poderoso rendeu-se às teorias de Darwin sobre mutações genéticas.

Pensa numa gente feia. Pensou pouco. Oh! Desgraceira de gente de poucos dentes nas bocas de gamelas, de barrigas saltadas, de pescoços de gazelas, olhos arregalados, de bundas quadradas, tetas caídas, de cabelos-carrapichos-sebosos.

Passado o estado de choque, o Criador, com toda a sua complacência e juízo perfeito, mandou às favas a genética de Darwin e enviou um milagre à Roça Hills. Só unzinho. Depois tirou férias na Ilha de Caras por causa do esgotamento nervoso.

 

O dia amanheceu na fazenda de Dona Sinhá Mocreia. O galo cantou, a vaca mugiu, o cavalo relinchou, a galinha pintadinha cacarejou, e o porco, que é sujinho, mas não é burro, fingiu-se de morto. A bicharada estava alvoroçada. Era o dia do casório da filha de Dona Sinhá.

Pensa numa mulher braba.  Eu disse: Pensa! Oh mania besta de terceirizar as ideias.

A matriarca era um dragão de braba, e de feia também, fazendo jus à linhagem de Roça Hills. Andava com os nervos em frangalhos, por causa do casamento de morzão de mamãe com o estrupício de noivo. E gritava mais ainda com os serviçais, e rebolava as ancas gordas pra lá e pra cá, e mastigava os sabugos das unhas pretas, enquanto cuspia fogo nas ventas, e apontava o dedo grosso de roceira pra todos os lados, deixando à mostra o sovaco suado e um bodum de carniça no ar.

Ela queria tudo tinindo antes da cerimonialista chegar. Ansiava não fazer feio diante da sabichona de modas e festas, contratada da capital.

Gracinha Kalil viajou 200 quilômetros montada num jegue de tração nas quatro patas. Conhecia a fama do lugar, tomou uma dose extra de Ritalina. Quando chegou, a fazenda estava um brinco: o arraial enfeitado, as mesas das comilanças montadas, as bandeirinhas penduradas − da porteira até o chiqueiro do porco vadio −, os estábulos lavados, o altar decorado. Uma belezura.

Miss Kalil colocou a fazenda em polvorosa, torceu o nariz, esticou o beiço. Mandou desmanchar tudo. Dona Sinhá, com a habitual cara de quem chupou um limão, murchou como um limão espremido.

A cerimonialista trouxe da capital uma mala turbinada de panos coloridos, pratarias, arranjos de mesas, miçangas, pulseirinhas do Nosso Senhor do Bom Fim e kits de festas: pulseiras neon, colares havaianos, óculos de coraçõezinhos e tiaras de diabinho. Não descuidou dos detalhes, trouxe lembrancinhas aos convidados: bolinhas tailandesas e anestésico anal. Opa! Festa errada.

No fundo da mala havia o santo milagre divino. O milagre salvador dos cabelos de piaçava. Roça Hills conheceu o poder da chapinha. As roceiras ricas enlouqueceram com os penteados passados a ferro quente. As pobres também, de inveja.

Gracinha Kalil deu os últimos retoques na caipirada, ensaiaram em coro os mantras Om e Ram, que ela aprendeu no curso de namastê, a fim de  mandar boas energias aos noivos. A zen paciência enfureceu porque eles embestavam de dizer Ómmm.

− É Ômmm seus porqueiras! – gritava.

Além dos quitutes clichês de casamentos na roça − como a canjica, pipoca, pamonha, quentão, paçoquinha −, tinha também bobó de camarão, strogonoff de carne de sol e Smirnoff Ice, porque Dona Sinhá era chegada numa ostentação.

Convidou a alta sociedade de Roça Hills, queria tapar a boca do povo fofoqueiro e feio, como ela. Pagou uma nota preta à revista Caras & Bundas para publicar uma notinha.

Os convivas foram se achegando, de barrigas saltadas nos paletós engomados, de olhos mais esbugalhados diante de tanta fartura; as moçoilas empoleiradas nos saltos, as bundas quadradas arrebitadas nos vestidos de chita, e as tetas, não teve jeito, continuaram caídas, mas os cabelos… quanta diferença! Ficaram todas chicosas nos cabelos-carrapicho-sebosos-chapados.

O encarregado da pendenga matrimonial, o pastor da Assembleia do Santo Dízimo, chegou montado numa égua puro sangue e pavoneado num casaco de veludo cotelê. Durante a semana dá expediente no escritório muquifo de advocacia, nos finais de semana realiza casamentos a fim de arrebanhar futuros clientes.

O altar estava pronto. Os noivos chegaram na carroça enfeitada de flores do mato, puxada pela eguinha mimosa. Ele, todo almofadinha, na beca de pinguim, com o cabelo piaçava lambuzado de gel escorrido; a noiva no vestido alvíssimo de mangas bufantes, de sorriso brejeiro na boca de gamela sem o lateral direito e o beque central.

Dona Mocreia fuzilava, de olho arregalado-espremido, o moço de braços dados com a sua filhinha.

− Qual o nome do cidadão? – cochichou o pastor ao noivo, enfiando as mãos no bolso à procura do roteiro da cerimônia.

− É Réeeegis.

− O moço cria cabritos?

− Cumé que o sinhô sabe?

O pastor não se conteve e sussurrou, entre risinhos:

− Tô sabendo que ocê não é chegado, né seu safado?  

Dona sinhá, que havia limpado os ouvidos com o dedo mindinho, especialmente pra festança, escutou.

− Cumé quié? Eu sabia! As camisas de franela de bolinha e o disco da Biónce dos inferno, tocando nos meus zuvidos, nunca me enganou! – repetia a velha ensandecida, de cara melecada do suor misturado com ruge.

Esticou as fuças ao pau mandado do serviçal que, de prontidão, botou um trabuco na mão dela. Ela empinou o queixo e o trabuco em direção ao noivo.

− Mãezinha, para! O Réginho tá curado.

− Curado de que morzão?

− Mãe, o causo é o seguinte, existe a cura gay.

− É sim sogrinha, eu tô curado – confirmou o comedor, digo, criador de cabritos.

− Cumé que ocê sabe que tá curado dessa porqueira?

Deu nó nas tripas da velha, por ter vendido três boizinhos e dois cavalos de estimação, a fim de bancar a festa de arromba pra encher a barriga do povaréu que falaria mal de alguma coisa. Bem, cheia estava a barriga da noiva.

−  Mãeeee, eu tô embuchada do Réginho.

O fuxico se espalhou por todo o povoado. As bocas ociosas da alta sociedade, presentes no evento, alvoroçaram-se. A moça do cafezinho da revista Caras & Bundas, promovida à jornalista na cobertura do casório, anotava até as vírgulas.

− Ai deus do céu, inda bem que teu pai não tá mais aqui, senão te matava. A tua sorte é que matei ele antes. Seu dotô, me casa esses dois sem-vergonha, agora!

O “dotô” ruminou: “Que véia murrinha, sô”.

− Réeeegis e Sinhazinha, ocês querem casa mesmo?

− Sim! – responderam os pombinhos.

− É verdade que o moço alcançou uma graça com a cura gay?

− É simmm. Achei que isso era bestagem, porque tava na minha árvre ginecológica.

− Hein?

− É que o meu pai era gay, o meu irmão era gay…

− Credú! Não tem macho nessa família?

− Tem sim sinhô. A minha mãe.

Pausa dramática. Antes que o mimimi comece, é importante esclarecer que o povo dessas bandas nunca ouviu falar da expressão “politicamente correto”. Na verdade, estão cagando pra esse negócio de diversidade e inclusão do Movimento Retilíneo Uniforme LGBT, canhotos lésbicos e afrodescendentes de albinos.

− Então estamos aqui hoje reunidos, os noivos, as mães, padrinhos, pais ausentes, pra casar o seu Régis e a Sinhazinha – disse o pastor apontando aos presentes no altar.

− E vosmecê quem é? − perguntou ao rapaz com jaqueta de couro e capacete na mão.

− Eu? Vim entregar uma pizza, uái.

− Ninguém pediu pizza, é o casório da minha fiá, chispa!  − disse a Sinhá brabeza, de espingarda na mão.

− Eu vô embora só depois de me pagá o frete da carroça.

− Se veio de carroça pra quê o capacete? – perguntou o pastor-advogado-entojado.

− Ah, é do cavalo, tô segurando pra ele.

− Pega umas paçoquinha e te manda – disse Dona Sinhá.

− Segue o baile. Vossa excelência majestade, Sinhazinha noiva, tá emprenhada, é verdade?

− Tô sim, e com muito orgulho, pra tapa a boca desse povinho.

− E qual vai sê o nome do pestinha?

A noiva piscou pro Réginho. Ele já tinha escolhido os nomes e tricotado os sapatinhos.

− Sô sabe que a internet chegô à Roça Hills, né? A gente qué um nome bem moderno. O meu vô se chamava Creversôn, por isso, se for menino, vai ser Facebokesôn – disse o noivo.

− E se for menina?

− Nóis vai homenageá a minha vó Janete, daí vai ser Facebokete.

− Lindo nome, torço que seja menina.

− Chega desse trololó, anda logo seu enxerido, a vergonha tá armentando – bufou Dona Mocreia.

− Seu Régis, agora que o sinhô virou macho, aceita a Sinhazinha como legítima esposa, promete ser fiel, ama e respeita a patroa?

− Sim sinhô.

− Sinhazinha, a senhora aceita o Régis como marido, promete ama e respeita o dito cujo?

− Simmm.

− Então, se ninguém tem nenhuma obejeção contra essa união, eu os declaro…

− Peraí, eu tenho!

Dona Sinhá trancou a respiração, começou a arroxar. Os convidados se entreolharam de olhos muito mais esbugalhados, esticaram os pescoços de gazela em direção à voz que vinha detrás do galinheiro. O sujeitinho foi se aprochegando de mansinho; o povaréu encarou o estraga prazer como se já o conhecessem. O pensamento era o mesmo nas cabeças de porongo: “Cacete, será que a véia muquirana vai liberar a gororoba?”

− Uái, tu não era o moço da pizza? – perguntou o pastor.

− Eu era sô, mas agora eu sou a bicha, pra economiza o cachê dos ator.

Pois, pois, desembucha bicha!

− Esse bofe era meu, jurou ficá comigo.

− Ai, ai, desgramado, tu tá com um baita pobrema, e nóis vai pra delegacia, agora! – falou a velha, de trabuco enfiado na goela do quase ex-genro. − Acho que ocê vai precisar dum adevogado.

O pastor, de bate-pronto, entregou um cartão do escritório ao noivo e cochichou: “Me procura na segunda”.

− Não percisa, eu quero casá, tô curado, eu sô home com “O” maiúsculo.

− Mocinha, acho que ocê dançou, vaza! – disse o paladino da justiça.

O ex-entregador de pizza saiu desenxabido; no caminho, deu de mão numa garrafa de Smirnoff  Ice.

− Seu dotô, acaba logo que eu tô ficando puta.

− Vamos mantê a ordem, a puta aqui é a sua filha.

Ela ficou vermelha feito uma pimenta, enfiou os sabugos das unhas pretas na palma da mão, de vontade de esbofetear a cara dele. Ele engatou uma primeira pra acalmar os nervos do capeta.

− Povo de Roça Hills, emborasmente esse moçoilo tenha mordido a fronha, e agora se diz curado, e provou ser cabra macho, e não tendo mais ninguém pra aporrinhar as ideias, então eu os declaro marido e mulhé.

Os noivos se abraçaram e se beijaram tão demorado, que dava tempo de cozinhar um miojo. A caipirada fazia ola, gritavam, assoviavam, em completa falta de etiqueta, pra desgosto de Gracinha Kalil.

Dona Sinhá Mocreia respirou aliviada; o foguetório varreu o céu de Roça Hills. Teve de tudo na festança − roceiros encharcados de manguaça, o noivo dando show nas coreografias ao som da Macarena e Beyonce, as caipiras sensualizando com pulseiras de neon e tiaras de diabinho, e piriris por causa do bobó de camarão.

Miss Kalil, antes de montar no jegue de volta à capital do Reino Encantado, presenteou o casal com brinquedinhos para a noite de núpcias. A Sinhazinha ficou se achando com o cabelo de piaçava preso nas marias-chiquinhas de bolinhas tailandesas.

Os dois subiram na carroça puxada pela eguinha mimosa, partiram em direção à lua-de-mel na Ilha de Caras. Quando eles chegaram, Deus picou a mula pela porta dos fundos. E dizem as más línguas que “mimosa” foi o apelido dado ao Réginho pelos atendentes do hotel.

E viveram felizes e feios para sempre, ora pois.

Ah! Sinhazinha ganhou uma menina.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.