EntreContos

Literatura que desafia.

Ensinadela (171)

Sempre me surpreendi com o nível da estupidez juvenil, e parece que a coisa só piorou nos últimos anos. Esses dias, Pedro, meu filho, apareceu em casa cheio de onda. Dizendo que sua alimentação tinha que ser cem por cento orgânica. Não mereço isso. Foram anos de Hipoglos e fraudas Pampers, anos. E o moleque quer dar uma de Dalai Lama agora. O “Senhor só come orgânicos”. Eu queria saber que porra de comida não é orgânica.

 Seria bom descobrir também, pra quê serve uma aula de ioga que custa R$ 400,00 reais por mês. Posso muito bem sentar no chão da minha própria casa, que é de graça. Além do mais, se esticar não é para macho. Elas que precisam abrir o caminho, não nós. Se você é homem, quanto mais duro melhor. Flexibilidade é coisa de viado.

 Outra asneira do matuto é essa conversa fiada de aquecimento global. O cidadão acha que andar dez minutos de bike até a faculdade faz dele o próprio Jesus Cristo.  Esses frescos que vivem de bolsa do CNPQ deviam arrumar o que fazer, e Janete também. A desgraçada enfiou na cabeça da minha mulher que liberar o brioco dá câncer. Como eu fico? Assim que o casamento dela acabou, e agora quer jogar o meu na vala também.

 A verdade é que eu dei mole. Não iniciei o garoto nas formas de ser macho. Nunca frequentei uma universidade, logo, desconhecia seu poder de “afrescuramento”. Nem posso culpar minha esposa. A tarefa de ensinar a ser homem é, e sempre foi, minha.  Então, nas férias do meio do ano, resolvi que dedicaria meu tempo ao ensino das artes heterossexuais.

 O primeiro passo seria um breve questionário, uma conversa franca, só para medir o déficit de testosterona. Era necessário conhecer muito bem o tamanho do estrago que o BBB 17, e o YouTube, tinham causado às bolas do meu guri.

 Depois de deixar a Dona Encrenca na Marisa – porque a C&A não lembra mais das cheinhas -, chamei o cidadão para a primeira prova.

 Sentamos num boteco perto do shopping, que costumo frequentar. Pedi dois chopes ao meu amigo Zé, e tirei o bloquinho de papel do bolso.

  – Vai beber dois, pai?

 – Vou beber uns cinco, e você também. Sua mãe vai comprar sapato hoje… Já viu né?

 Não existe nada mais complexo no universo do que os pés femininos. Eles não obedecem a nenhuma lei natural, e podem doer a qualquer momento. São como uma bomba relógio – o ISIS não recruta mulheres por causa disso. Nunca existirão os sapatos ideais, muito menos o sutiã perfeito.

 Toda mulher tem uma caixinha de BAND-AID na bolsa. Mas na hora que a bolha no calcanhar dela estourar, não vai ser esse que ela vai usar. A Dona Encrenca gosta de fingir que se esqueceu dos que tem na nécessaire, só para poder passar na farmácia e cheirar tudo que o seu nariz aguentar. Elas gostam de cheirar. Se você não é casado, mas pretende casar, habitue-se a cheirar bem. Na maioria das vezes, feder é pior do que ser pobre, ou ter pau pequeno. Uma bonitinha qualquer pode adorar seu carro, achar seu rostinho uma fofura, pode até se solidarizar com suas causas utópicas e te dar por pena. Mas experimente deitar na cama sem tomar banho para ver o que acontece.  

 – Não tomo fermentados. Engorda!

 – Entendi. Aí vai a primeira lição do dia: Homem não toma. Tomar é coisa de viado. Homem bebe.

 – Primeira lição é?

 Zé é o típico homem com H, do tipo que atende minhas ligações assim: Pode falar, seu merda! Uma singela conversa fiada seria um bom começo, um exemplo prático. Melhor que o questionário que levei no bloquinho.

 Desde o inicio dos tempos, os homens machos ao redor do planeta aprendem a jogar conversa fora. É uma lei natural do cosmos. Meninos de sete anos já praticam a velha tradição, enquanto inventam milhões de caôs sobre como empinaram pipa com cerou, ou apontaram a ponta do pião no esmeril do pai. Tudo regado a suco de caju e cream cracker.

  Um bom papo furado, ou uma saudável conversa fiada, devem seguir dez mandamentos simples. Lições básicas propostas por Jesus antes de transformar água em cerveja – sim, cerveja. E dar inicio ao que foi, há mais de dois mil anos, a maior mesa de bar da história da humanidade. Chegando a envolver mais de quinhentos marmanjos em aproximadamente cinco mil conversas sem importância nenhuma.

 Seguem os mandamentos (se você é macho de verdade, pode pular):

  1º – Não fofocarás. Fofoca é coisa de mulher.

  2º – Sempre pegarás a mesa da calçada. Para ver a mulherada passar.

  3º – Terás no mínimo uma moeda de cobre (R$ 20,00 reais, em conversão livre). Para ajudar no  racha.

  4º – Nunca, em hipótese alguma, encherás seu copo sem encher os dos amigos.

  5º – Beberás de tudo que tenha álcool, menos vinho. Vinho é coisa de viado.

  6º – Nenhuma mentira absurda será questionada. Dirás apenas: Puta merda!

  7º – Falarás de todas as mulheres, menos da sua e dos seus amigos.

  8º – Nunca terminarás um assunto, emendarás em outro. De preferência mais inútil que o anterior.

 9º – Não levantarás para fazer xixi. Homem não faz xixi, homem mija.

 10º – Discutirás, e discordarás, apenas se o assunto for futebol. Se você não conhece futebol, é porque morde fronha.

 Pronto, esse é o mínimo. Antes de sair por aí achando que sabe fumar, com o cheiro daquela amostra grátis que sua namorada ganhou na Boticário, certifique-se de ter todos os mandamentos de có e salteado.

 Zé colocou a cerveja na mesa, como de costume.

 – Ô Zé – comecei a lição do dia

 – Diga.

 – Estava falando com meu filho aqui – Pedro só observava -, que você é um cara superinteligente, coisa de outro mundo mesmo.

 – Num sei, talvez.

 – É sim, mais um pouco de estudo e você seria um suíno!

 O bambi arregalou os olhos, esperando confusão. Zé, macaco velho, respondeu:

 – Tá doido Jorge! Fiz só a quinta série, tenho estudo pra isso não! Se bem que meu pai quase foi prefeito, já te contei essa?

  – Já, mas fala aí.  O garoto não ouviu.

 Olhei Pedro nos olhos, aquela cara de bunda mole nem esboçou um sorriso.

  – Ainda me lembro do discurso dele: Povo de Pinheirinho!

  – Essa é boa rapaz, presta atenção – falei para o padawan.

  – Eu tô aqui nesse palanque, com um ovo só!  Foi só o que comi no café da manhã!  Prometo que vou abrir as novas, e tapar os buracos das velhas! Nossas estradas precisam de mais cuidado!

   Pedro nem tocou no copo.

   – Todo mundo aplaudia meu pai, precisavam ver: Pras mulher desamparada, sem esposo, vou dar o pau!  E o arame, pra cercar seus terrenos!

 Eu já estava com o risador aberto, mas o fraldinha suja… Nada. Mantinha aquela cara de atacante palerma, que corre na área como se tivesse um saco de cimento nas costas.

 – Aí, no final, ele dizia assim: Pra votar é muito fácil, quando vê minha foto atrás da cabine, mete o dedo no botão!

 – Gente, como assim? – disse a gazela, como se as palavras “dedo” e “botão”, pronunciadas na mesma frase, aumentassem a emissão de carbono no planeta.

  – Deixa Zé, os jovens dessa geração só gostam de… Enfim. E a Carlinha, pegou?

 Oitavo mandamento.

 – Ah… Carlinha não quer saber de mim não…

 – Como assim? Mostrou o jerimum antes de fazer o jabá?

 – Nada. Cheguei, me apresentei, na moral.

 – Ué? E não rolou?

 – Não. Falei pra ela que eu sou trabalhador e tal…

 – E aí?

 – Fale que aguento três sacos de cimento nas costas, e embolso oito paredes num dia!

 – Ai meus Deus… Zé do céu…

 – E carrego vinte pratos na bandeja duma vez só!

 – Tá de sacanagem!

 – E ela? – manifestou-se o pequeno pônei, doido para fazer a revolução do proletariado.

 – Ela disse que não precisava dum pedreiro.

 – E você, respondeu o quê? – Zé me olhou com cara de quem diz: O que eu falo para o rapaz? Eu só fiz sinal para que continuasse.

 – Ué, garoto, num é óbvio? Disse que sou garçom também!

 – Só você mesmo, Zé… – pisquei.

 – Nada, o Gilberto também é!

 – O quê? – perguntou o fresco.

 – Garçom e pedreiro!

 Só não caguei de rir porque não tinha merda pronta. Pedro assoprou a franja da testa, do jeito que a mãe dele faz quando quer me dizer: Hoje vamos só dormir, na paz do Senhor.

 – Conversa fiada!

 –  Claro que não! Ô Gilberto!

 – Oi!

 – Tu num é pedreiro também?

 – Sou, por quê? É serviço?

 – Não, só verdade mesmo…

 De repente, como se aquele pinguinho de cerveja conseguisse me deixar zumba, vi minha mulher atravessar a rua acompanhada de uma das Altas Elfas de Valfenda. Carne vermelha da boa, pensei, com direito a camisa do PSOL e tudo mais. Andavam que nem duas amigas do retiro da igreja.

 Se aproximaram rápido, com um quê de ansiedade nos movimentos. Minha mulher já apontava o indicador na minha direção, enquanto a loirinha concordava daquele jeito besta e exagerado, igual esse pessoal que faz workshop de budismo no fim de semana.  

 – Amor, queria te apresentar a Eloá!

 Quando minha esposa pronunciou o nome da cidadã, refleti: Aí meu Deus, ela ganhou um passeio pra Sana em alguma promoção da Azaleia.

 Zé sambou fora.

 – Muito prazer Sr. Jorge, sou a namorada do Pedro!

 Nessa hora esqueci todos os protocolos. Não podia ser verdade.  A tábua de Pedro, ao que aquele mulherão indicava, não levava prego. O moleque só precisava de alguns ajustes mais finos. Uns tapas na orelha, coisa pouca. Talvez assistir uns filmes do Clint Eastwood…

 A felicidade de ser pai, e não chorar no chuveiro, invadiu meu coração. O bundão vinha passando o churros na loirinha, bem debaixo do meu nariz. Como diria meu velho: Quem come quieto, come duas vezes.

 Estava mais feliz do que filhote de labrador. Abanando o rabo por qualquer bobagem. Não latia nem para Janete.

 Mas minha alegria durou pouco. Na verdade, acabou na noite em que minha esposa me mostrou uma loiraça de biquíni no celular.  Faustão anunciava as Vídeo Cassetadas.

 – Conhece? – perguntou, com o celular na minha cara.

 – Não.

 – Thalita Zampirolli!

 – Hum… Bonita ela – fiz pouco caso, a Dona Encrenca ainda não tinha feito a janta.

 – Né? É homem!

 Onde esse mundo vai parar…?

 – Puta merda.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.