EntreContos

Literatura que desafia.

Com esse nome não pode (Verônica Lira)

Quer saber como testar a paciência da sua nova diarista? Comece implicando com o nome dela!

_Oi, foi daqui que pediram uma diarista? – perguntou a moça, assim que abri a porta.

Primeira etapa essencial quando se entrevista uma pessoa que vai trabalhar na sua casa: dê uma boa olhada na figura! Uma análise completa, porém rápida, senão o momento pode ser mal interpretado pela candidata.

Era uma moça de uns vinte e poucos anos, morena, cabelo liso aparentemente natural (que ódio!), brilhando como se acabasse de passar por um banho de petróleo (mais ódio!). Estava vestindo um jeans desbotado, e uma regata amarela muito simples, com a alça do sutiã branco à mostra. No rosto apenas rímel e batom cor de vinho (o tom mais perigoso do mundo quando se trata de uma mulher de pele morena – ÓDIO MORTAL!).

Resumindo: tinha cara de periguete!

Essa primeira etapa sempre é realizada por mim, e é, talvez, a mais importante de todas, porque não é muito recomendável ter em casa uma mulher que possa ser cobiçada pelos seus namorados ou peguetes.

Respirei fundo, convencendo-me a não reprová-la ali na porta. “Emanuelly, é muito feio julgar as pessoas pela aparência!”, eu disse a mim mesma em pensamento.

_É aqui, sim – respondi. – Pode entrar.

Mal a moça passou pela porta, Cristiana, minha colega de apartamento pediu suas referências, antes mesmo de perguntar o nome da criatura. A entrevista era função dela. E ao conferir as cartas, franziu o cenho, confusa com uma informação básica:

_Aqui diz que o seu nome é Ingrid…

_Sim – disse a moça, parecendo não compreender a estranheza.

_Não, seu nome não pode ser Ingrid – protestou Cristiana.

_Por que não? – indagou a moça, confusa.

_Porque Ingrid é nome de patricinha – respondeu Cristiana, como se essa fosse uma informação tão elementar e óbvia quanto “o céu é azul”!

_Ingrid não é nome de patricinha – rebateu a moça, ofendida. – Ingrid é um nome lindo!

_Exatamente – concordou Cristiana. – Ingrid é um nome lindo. Nome de filha de empresário, ou de protagonista de novela, de artista…

_O que você está insinuando? – perguntou a moça, agora muito ofendida.

_Nada. Apenas estou observando que seu nome não condiz com a sua profissão.

Cristiana disse isso com tanta naturalidade que parecia uma verdade incontestável. Não fosse pelos dois dedos apoiados no queixo, que evidenciavam a brincadeira, até eu teria acreditado que ela deliberadamente estava discriminando a moça.

Como eu sei que minha amiga é extremamente excêntrica quando se trata de pregar peças nas pessoas, decidi não interferir. Afinal, colocar a candidata sob pressão pode ser uma boa tática na entrevista. Dependendo de sua reação, descobrimos exatamente com quem estamos lidando.

_Isso é preconceito – acusou Ingrid.

_Não, querida, isso é bom senso – corrigiu Cristiana, sustentando firme a expressão séria.

_Bom senso, por quê? – indagou a moça, começando a ruborizar de irritação. – Só porque eu sou diarista eu não posso me chamar Ingrid?

_Isso é uma regra básica! – assentiu Cristiana. – Se você tem nome de gente chique, você não pode ser ralé. – Cristiana às vezes me trinca de vergonha quando não pesa as palavras em suas brincadeiras. Desculpem, ela não tem filtro, mas garanto que é gente boa! – Você pode ser modelo, secretária executiva… Pode até ser vendedora de butique. Mas diarista, não pode!

_Rá! – bufou a moça. – Quer dizer que toda diarista tem a obrigação de se chamar Aparecida, Maria da Glória, Luzinete, Penha ou Jurema?

_Pode ser Valdereide também – Cristiana deu de ombros. – Creusa, Ritinha, Francisca… Luzia, então, é o que mais tem!

_Você não pode estar falando sério… – considerou Ingrid, encarando Cristiana com raiva.

_Meu amor, deixa eu te explicar uma coisa – disse Cristiana, ajeitando-se no sofá, e encarando seriamente a moça. – Uma coisa que, aliás, deviam ter explicado para a sua mãe antes de ela te registrar! Existe uma coisa chamada nomenclatura hierárquica… Já ouviu falar?

A moça fez que não, confusa, mas sem desmanchar a tromba.

_Funciona assim – prosseguiu Cristiana. – Se a renda do casal é salário mínimo, pode registrar a filha com os nomes mais comuns: Maria, Creusa, Joana, Janete, Antônia, Francisca, Jurema… Rosa, Margarida, porque pobre gosta de botar nome de flor na criança, né! Nome de flor e de joia: Pérola, Esmeralda, Safira… Deve ser para lembrar que o único jeito de pobre ter uma pedra dessas em casa é botando o nome na criança! Então, até pode, porque a criança já vai se acostumando à realidade, que é escola pública, emprego de balconista de loja de R$1,99, diarista, cobradora de lotação… Porque, não vamos ser hipócritas, ninguém vai para frente com um nome desses…

_Olha, dona… – interrompeu Ingrid, mas Cristiana não permitiu que ela falasse.

_Fica quieta, eu ainda não terminei! Se a renda do casal for dois salários mínimos, até pode registrar a filha como Vitória, Carolina, Bruna, Camila… Entendeu? Já dá para ousar um pouco mais. Agora um nome como o seu, minha querida… Ingrid, só de cinco salários para cima! Porque a pessoa já cresce com aquela esperança de ser modelo, de ser artista… Porque Ingrid é um nome que atrai dinheiro; a verdade é essa: nome sofisticado atrai dinheiro! A pessoa lê um nome desses, já pensa que a dona é uma pessoa bacana, né, alguém que estudou nos melhores colégios, que morou a vida toda nos Jardins, que comeu Kinder Ovo a vida inteira… Porque a pessoa tem que ser milionária hoje em dia para ter esse tipo de iguaria em casa, né?!  É para poucos! A criança ganha um Kinder Ovo de aniversário da madrinha rica, o pai não deixa a criança comer, vende o Kinder Ovo e compra uma casa em Cidade Tiradentes! E com o troco, de repente, para a criança não ficar chorando, ele compra um brigadeiro na padaria para dar no lugar.

_Escuta aqui… – começou Ingrid, irritada, mas não necessariamente exaltada.

Mas Cristiana novamente não se deixou interromper:

_Se eu fosse você mentiria o nome na hora de se apresentar como diarista. Entendeu? Para não passar vergonha. Porque você não usa um nome de guerra? Pode até ser um desses nomes americanizados que estão usando bastante hoje em dia; aquelas invenções de João Grilo, tipo Nathanny, ou Tatiellen, ou Renatally… Tudo com letra repetida, porque pobre adora uma letra repetida e um “y”. Já notou? Quando você vê alguém com um nome desses, não precisa nem a pessoa ser entrevistada pelo censo, porque automaticamente você deduz que a renda familiar é de novecentos reais! É uma família de dezessete pessoas, morando em três cômodos, em Conjunto Habitacional, que vive de salário mínimo e bolsa família…

_Você está passando dos limites! – gritou Ingrid, agora extremamente furiosa.

_Demorou para perceber! – devolveu Cristiana.

E ambas estalamos em gostosa gargalhada. Aliás, foi um alívio finalmente poder rir.

_Quer dizer que isso tudo era brincadeira? – queixou-se Ingrid, sem achar tanta graça.

_Claro, né, querida! – assentiu Cristiana. – Onde você já viu “nomenclatura hierárquica”?

Então a garota também começou a rir.

_Eu queria, aliás, ter filmado a sua cara enquanto eu falava – confessou Cristiana. – Teve um momento que eu pensei que você fosse me dar uma voadora!

_Eu vi – admiti, rindo. – Foi quando você falou da letra repetida. Eu ia até sair de perto, para não apanhar junto…

_Vocês são loucas, não é? – indagou Ingrid, embarcando na brincadeira.

_Não – respondeu Cristiana, apontando para mim –, ela é escritora e eu sou desocupada, mesmo! E gosto de dar ideia para gente maluca. Pelo olhar dela, qualquer dia desses, você vai ler essa história num livro ou ver numa cena de teatro.

Profecia cumprida, Cristiana!

_Agora vamos falar de uma coisa séria – dirigi-me à Ingrid. – Esse seu batom…

Ela me olhou com uma expressão desconfiada, como se quisesse perguntar se era outra brincadeira.

_Nunca mais quero te ver usando isso!

Ela franziu o cenho.

_Não precisa jogar fora – expliquei. – Só não use quando vier trabalhar aqui.

Bem… Depois da entrevista séria, deixamos a Ingrid fazer o trabalho dela. Afinal, só conhecemos realmente uma diarista depois de pelo menos um dia de trabalho. E embora eu ainda ache perigoso ter uma diarista com cara de garota propaganda de cerveja, contanto que ela seja competente, está tudo certo.

Mas, por questão de segurança, não vou me atrever a pedir nem um copo d’água que seja a essa mulher nem tão cedo – porque, diferentemente da minha colega de apartamento, eu conheço os perigos de irritar alguém que mexe com a minha comida. Vai que…

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.