EntreContos

Literatura que desafia.

A divina rotina (Divino)

I

Divino acordou com uma puta dor de cabeça. Não se lembrava de nada do dia anterior, com a exceção de que estava morto. Levantou, se arrumou no automático e correu para pegar a condução. Chegou perto do barqueiro e recebeu um “Bom dia” cheio de cansaço e, logo depois, notou que este usava um uniforme de cobrador de ônibus.

– Bom dia. – Respondeu aturdido. – Sempre achei que Caronte fosse assustador.

– Caronte foi para rua semana passada.

– Sério?! Mas por quê?

– Olha, eu sou novo neste emprego. Não posso me arriscar com fofocas, mas acho que tem algo a ver com essa reforma trabalhista. Caronte resolveu negociar com o patrão e… – Concluiu com o gesto universal de “se fodeu”.

– Você conseguiu um emprego, ao menos.

– Terceirizado. Uma merda, mas é o que tem. Aliás, a passagem, por favor.

– Aqui estão as duas moedas.

– A passagem subiu, são três moedas agora. Não viu a placa?

– Puta que pariu – Divino retrucou baixinho enquanto via a placa remendada com o valor atualizado. Vasculhou os bolsos e constatou. – Só tenho duas. Como eu ia saber que aumentou? Eu não morro todo dia.

– Já ouvi isso antes, o último pessoal que se juntou para reclamar do aumento está num rio de fogo ou de gelo, sei lá. Dessa vez passa. – Indicou a roleta pela qual poderia passar por baixo. – Aproveita que ainda não instalaram uma câmera aqui.

Divino passou desajeitadamente por baixo da roleta sujando-se um pouco.

– Eu fico com essas duas moedas. – Disse o cobrador.

II

Desceu na única parada que havia para descer, logo após cruzar a marginal do rio Estígio. Entrou no portão da sem dar muita atenção para o dizer entalhado em pedra:

“Deixai toda a esperança, ó vós que contratareis.”

Divino não tinha dinheiro para o Uber e teve de caminhar por áreas perigosas no inferno, com vales periféricos e asfalto quente até chegar a uma construção fria e repleta de traços retos. Entrou no salão onde seria avaliado. Pegou uma ficha na recepção e aguardou na sala de espera que estava repleta. Todos olhavam atentamente para a única televisão que havia. Estava ligada no Encontro com Fátima Bernardes.

Divino se desesperou, não sabia se estava atrasado ou muito atrasado. Não encontrou nenhum relógio. Achou uma cadeira vazia e sentou.

– Falta muito para acabar o programa? – Perguntou para um sujeito de aparência cansada.

– Nunca acaba. – Respondeu sem desviar o olhar.

– Nem tem aquele jornal que passa depois?

– Não tem jornal.

– Puta que pariu.

Olhou o número de sua ficha: 34.672.409.749. Depois estreitou o olhar e leu a ficha do homem: 38. Por fim, leu o próximo número no mostrador luminoso, 34.672.409.748. Divino esperou um pouco para ver a velocidade da fila. Depois de duas horas ficou apreensivo, pois como o homem dissera, o programa não havia acabado e, a pior parte, os intervalos comerciais eram apenas de produtos anunciados pela Fátima Bernardes. Então, um som suave o despertou da apatia. O número 34.672.409.749 surgiu no mostrador. Todos olharam para suas fichas e soltaram um suspiro e voltaram a atenção ao programa. Divino foi ao balcão e entregou a ficha para a moça.

– Por aqui senhor. – Apontou de forma impessoal.

– E aqueles, serão atendidos quando? – Divino quis saber.

– Aqui é o onde os que furaram a fila em vida são condenados a esperar numa fila eternamente.

– Mas eu não fui designado para cá.

– Nós aproveitamos a estrutura e colocamos a recepção aqui também.

Admirado com a criatividade que os administradores do inferno, Divino concordou com a cabeça e entrou na sala. Tratava-se de uma sala espaçosa, onde havia uma mesa, três entrevistadores e uma cadeira onde as três figuras de aspecto enérgico podiam vê-lo de corpo inteiro.

–- Bom dia, meu nome é…

– Sabemos quem é. Não vamos perder tempo, por favor. Você quer um emprego, não é? – Disse o entrevistador do meio.

–- Sim, eu…

– Isso foi uma pergunta retórica. Responda apenas perguntas não-retóricas. – Disse o da esquerda e continuou. – Então, você trabalhava em um escritório não é?

Acenou com a cabeça.

– Sabemos que você é muito afeito ao trabalho criativo. Não gosta de  repetições e gosta de viajar. Há um lugar por aqui onde podemos encaixá-lo. Está interessado na vaga?

– Sim, eu gostaria muito…

– Responda apenas a perguntas não-retóricas. – Disse o entrevistador da direita. Caso queria revisar seu contrato, pode voltar aqui e renegociar conosco. Saia por essa porta e encontrará sua estação de trabalho.

III

Não sabia quanto tempo passou desde que o trabalho começou. O treinamento foi uma nuvem distante mas o trabalho era muito fácil. Bastava transcrever relatórios manuscritos para um arquivo informatizado. Levantava-se apenas para deixar o relatório já transcrito numa bandeja e retirar outro para colocar no sistema. Os primeiros foram fáceis e os seguintes também. Os textos eram completamente diferentes um do outro mas pareciam todos iguais, sem sabor, sem estilo, completamente dentro da adequação que o sistema exigia.

Divino ficou horas e mais horas teclando. Olhou poucas vezes para o lado. Até quis puxar assunto, mas seus colegas não pareciam ser de muito papo. O da direita, um sujeito com um bigodinho pontudo, chamado Salvador, digitava sem desviar o olhar. Logo a frente, havia um ruivo sem uma das orelhas, o Vincente. Não viu ninguém com cara de brasileiro a sua frente. Resolveu parar e ir tomar um café. Saiu pelas mesas cheias de rostos procurando uma parede onde pudesse encontrar um cantinho do café, mas as mesas não acabavam.

– Porra, não tem café nessa merda! Quero café! – Gritou em desespero.

– E ai peixe, novo aqui? – A voz com sotaque carioca veio da mesa logo atrás.

– Romário? Você morreu?

– Todo mundo morre, peixe.

– Caralho, a quanto tempo estou nesse emprego? Acho que perdi umas férias aqui?

– Ninguém tira férias aqui, peixe. Aliás não fala muito, não. Aqui é onde quem fez arte na vida é condenado a ficar calado e trabalhando eternamente.

– Então o Pelé, Zico, Garrincha devem estar todos aqui também.

– Sim estão, menos o Pelé. Pelé calado é um poeta.

– Vocês não podem conversar aqui. – Um homem com cara de chefe, jeito de chefe e que só podia ser chefe interrompeu a conversa. – Nem aqui e nem em nenhum outro lugar.

– Foi mal peixe, digo, chefe. – O baixinho abaixou a cabeça e voltou a trabalhar.

–- Eu já não aguento mais isso, não tem nem como fazer uma pausa para o café?

– Gostaria de rever seu contrato? – O Chefe perguntou com um leve sorriso no canto da boca.

– Sim! – Respondeu Divino, petulante. – Quero ver essa história de não ter férias e de não ter café.

IV

Minutos depois estava novamente na frente dos avaliadores que lhe contrataram.

– Então você quer rever seu contrato?

– Sim, eu gostaria.

– Responda apenas a perguntas não-retóricas. – Asseverou o da direita. – Como dizia, você quer rever o contrato. Você tem duas opções.

O entrevistador do meio levantou-se e aproximou-se da cadeira. Divino viu uma placa de identificação em seu terno que dizia Radamanthys. Quando Radamanthys parou na sua frente mostrou os dois punhos fechado, abriu a mão direita e disse:

– Tome a pílula azul e você voltará a sua vida normal de trabalho e não sentirá necessidade de reclamar. – Abriu a mão esquerda. – Tome a pílula vermelha e você poderá continuar a ser questionador e insolente mas vai para um lugar pior que seu posto antigo. – Sorriu ao terminar de falar.

Divino não pensou duas vezes e tomou a pílula vermelha, pois era a que devia ter gosto de morango. Contudo, a sonolência fez seus olhos ficarem pesados e dormiu sem lembrar do gosto da bala.

– Esse aqui escolheu a vermelha. – Disse Radamanthys, um dos três recrutadores do RH do inferno.

– Vindo de sua mão, tanto faz. – Refletiu seu colega Aiacos. – Elas fazem o sujeito ficar muito doido de droga e acordar no portão do inferno.

– O que você usou nessa pílula, água do rio Lete? – Pergunta Minos, chefe dos recrutadores, que se aproximou para ver Divino desacordado.

– Sim a água do Rio Lete, colhida do purgatório e faz quem a bebe esquecer de tudo. – Informou Radamanthys, orgulhoso da ideia. – Eu misturei com LSD.

– Ele vai chegar atrasado de novo amanhã e com uma puta dor de cabeça. – Constatou Minos, o terceiro dos recrutadores.

– Vai, mas podemos descontar do salário dele amanhã e já que você lembrou disso, vou deixar o pagamento de hoje no bolso dele. – Radamanthys pegou três moedas e colocou no bolso de Divino. – Ah, já ia esquecendo. – Tirou uma das moedas. – Ele chegou atrasado hoje.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.