EntreContos

Detox Literário.

Delírio Mortal – Conto (Fernando Bueno)

– Ele está morto ou, por outra, pensa convictamente que está.

– Mas é loucura, doutor Paranhos, eu não posso acreditar!

– A senhora tem toda a razão, dona Cândida: não há termo que melhor convenha para definir o estado mental de seu marido. Ele está sofrendo de um raríssimo distúrbio psiquiátrico, conhecido por síndrome de Hadtzi-Yudofsky…

– Síndrome de quê, doutor?

– De Hazi… Hathz… Ah! O nome não tem tanta importância assim, confesso que nem eu mesmo estou certo da pronúncia exata… O fato é que ele passou a viver num estado de alucinação permanente. O senhor Lourival acredita firmemente que já morreu e até sabe informar a data exata de sua morte: segundo ele, sua extinção ocorreu na tarde do dia 15 de fevereiro de 1965. É interessante, pois, normalmente, datas ligadas a fantasias mórbidas costumam ter um significado, uma ligação com algum fato histórico ou um acontecimento relevante da vida pessoal, essas coisas. A senhora tem alguma ideia?

Dona Cândida tinha, mas quem poderia obrigá-la a dizer que se tratava justamente do dia de seu casamento? Procurou desviar o assunto para questões mais urgentes. Ela não podia ficar em casa com um homem naquele estado. De que lhe servia um marido morto, mesmo psicologicamente, ou pior: vivo e morto ao mesmo tempo?

– E como se resolve isso, doutor? – perguntou, afinal, indo abrir discretamente a porta, a ver como estava o marido na sala de espera.

O médico, acompanhando-lhe os movimentos, procurou tranquilizá-la:

– Não se incomode: eu mandei a Conceição ficar de olho nele. Mesmo porque eu creio que ele não vá fugir. E também não é um caso de amnésia. Ele sabe perfeitamente quem é, o que faz e o que deseja, sua personalidade continua exatamente a mesma. Com a diferença que se considera irremediavelmente morto… O problema é que o domina um sentimento de total despreocupação com a família, as pessoas, o mundo, com tudo…

– Mas, doutor, essa é que é a dificuldade! Ele não cuida de nada, todas as contas venceram, sem que ele desse a mínima, não vai às compras, nem ao menos foi pegar o dinheiro do pagamento… Ainda bem que está aposentado, senão estaria faltando ao trabalho. Fica quase todo o tempo parado, numa imobilidade de dar nos nervos. Como se estivesse morto!…

– É isso aí – atalhou o médico. – Ele tem, conforme me revelou, apenas uma preocupação, só uma coisa o inquieta: ele quer ser enterrado o mais rápido possível. Segundo me disse, “antes que os vermes terminem o seu trabalho”.

– E eu não sei?! Ele vive me repetindo essa besteira. Doutor, isso tudo vem me deixando cada vez mais ansiosa. Já são mais de duas semanas. Quando este pesadelo vai acabar é o que eu vivo me perguntando…

– Resumindo, dona Cândida – interrompeu o médico –, é uma perturbação incomum, raríssima; pelo que eu pesquisei, só doze pessoas no mundo todo – veja bem, no mundo todo!  – se consideram mortas. Pessoalmente, acho que deve haver muito mais… – acrescentou, não resistindo a um gracejo, que nem sequer foi percebido pela mulher, perdida no desamparo que lhe dava a sensação de ainda estar para ouvir o pior.

– Como é de imaginar, o tratamento, num caso destes, é altamente empírico, ele pode tornar à realidade de uma hora para outra, como pode permanecer morto até o final da vida.  – Nesse ponto, o médico ficou em silêncio por um instante, encabulado pelo surrealismo que inadvertidamente impusera à frase. Mas logo recomeçou, procurando disfarçar o desânimo:

– Eu poderia recomendar a internação, porém tenho de ser franco com a senhora: não há muito que a medicina possa fazer por seu marido. O melhor mesmo é ele ficar no ambiente familiar. Pode ser que, de repente, ele retome o juízo. Assim como um fato, uma data ou um acontecimento o levou ao mundo dos mortos, é possível que algo dessa espécie o traga de volta. É preciso ter paciência, dona Cândida, muita paciência…

E assim lá se foi dona Cândida em direção a casa, levando consigo o seu morto-vivo e um profundo desalento.

Parados no ponto de ônibus, depois de um incômodo silêncio, ele se dirigiu suavemente à esposa:

– Candinha.

– Que é, Lourival?

– Eu estive pensando, não fica bem, agora que eu morri, nós dois dormirmos na mesma cama…

– O quê?! O que você quer dizer, Lourival?

– Isso mesmo que estou dizendo – respondeu ele, remetendo à esposa seu mais simpático sorriso. – Os mortos não dormem com os vivos, querida.

– Ah é?! E qual é a sua sugestão para resolvermos esse pequenino problema?

– Que tal se nós comprássemos um caixão e…

– Um caixão?! Você está doido, Lourival?!  – exclamou ela, pasmada, esquecendo por um momento que louco ele realmente estava.

– Eu sei, meu amor, reconheço que o nosso quarto é pequeno – e nem quero o caixão lá, não precisa se preocupar. Eu me ajeito no quartinho dos fundos. Já andei fazendo umas medições, cabe direitinho, e ainda sobra espaço para uma coroa de flores que algum parente… você sabe… desde que não seja muito grande…

– Lourival, você não pode fazer isso. Pense bem, homem, olhe suas mãos, são mãos de gente viva, sinta as veias latejarem. Por favor, não diga bobagens!

Lourival sorriu novamente, toda a sua expressão exalava uma doce condescendência. Tornou a falar:

– Meu bem, meu bem, nós temos de aceitar os fatos. Para a morte, não há remédio. Você está tentando se enganar, mas só consegue piorar as coisas. O meu passamento pode até lhe trazer algum benefício. Você não vivia dizendo que a vida comigo era de amargar, que tinha saudades da liberdade dos tempos de solteira… Devo admitir que a minha condição de morto me fez ver a vida com outros olhos: hoje eu tenho a plena convicção de que a morte pode ser uma solução – muitas vezes, a única – para alguns obstáculos intransponíveis no relacionamento entre marido e mulher.

Enquanto ele assim falava, a mulher o mirava, incrédula, refletindo nas palavras que lhe dissera o médico: “Aquilo podia durar para sempre…”. Ao mesmo tempo, reconhecia que o marido tinha, na verdade, certa razão: se já não era jovem, ainda possuía lá os seus encantos… Além do mais, havia as economias do casal, a apólice do seguro, recentemente renovada… Involuntariamente, começou a pesar os prós e os contras de uma possível viuvez.

Nesse meio-tempo, o Lourival ia empilhando frases e mais frases, que lhe chegavam, sem interrupção, dos calabouços de sua insânia mortal.

– Ontem mesmo, eu fui à funerária. Examinei uns… – olhou embaraçado para a mulher – uns caixões bem jeitosos. Para o quarto dos fundos, você entende?… Tem um de que eu gostei especialmente. Madeira de qualidade, e não é tão caro assim… Se você concordar… A entrega é imediata.

Cândida ia escutando. Olhava para o marido e pensava… pensava…

– Um caixão, você disse, para dormir lá dentro… Com tampa e tudo?… É isso?

– Isso mesmo, querida. Eu não poderia ficar mais feliz, teria um lugarzinho só meu… – disse ele, pensando no além.

– Um lugarzinho só seu… – repetiu ela, pensando mais além.

Entretidos nessa conversa insólita, acabaram chegando a casa.

Exatamente um mês depois, correu pela linha telefônica o diálogo que se segue:

– Alô.

– Alô, dona Cândida, como vai? Eu estava em viagem, fiquei sabendo hoje, pelo doutor Genaro. Ele me relatou o caso. Adivinhei logo que era seu marido. Um distúrbio desses, como lhe disse naquela vez, não é comum. O meu próprio colega, apesar de ser psiquiatra experiente, jamais ouvira falar em algo parecido, pensou até que fosse piada.

– Pois é, doutor… Foi horrível. Ele, em vez de recobrar a razão, foi piorando, piorando cada vez mais…

– Eu realmente não pensei… Não imaginava que as coisas pudessem chegar a tal ponto. Tinha a esperança de que houvesse uma chance de ele se recuperar. Eu disse isso à senhora, está lembrada?

– Disse, disse… Eu sei, o senhor não tem culpa nenhuma. São essas coisas que acontecem. O senhor já deve ter tido notícia dos detalhes: ele queria porque queria dormir num caixão. Eu até que tentei fazer aquela cabeça mudar de ideia, mas qual nada… Não teve jeito. Toda noite, ele se esticava todo; parecia um morto prontinho pra ser enterrado… O nosso quarto de empregada é minúsculo. Havia algumas flores, que eu mesma providenciei, e velas, só depois fui lembrar que elas fazem diminuir o oxigênio… Mas quem podia imaginar que ele fosse tão maluco, a ponto de colocar a tampa por cima? E fez tanto calor naquela noite!… Parece que acabou desmaiando lá dentro, o coitado do Lourival…

– Uma tragédia, dona Cândida! Uma verdadeira tragédia! Hoje em dia, morrer, mesmo que seja só na imaginação, pode ser muito perigoso. Mas a senhora não deve se culpar. Foi uma fatalidade.

– Acho que o senhor tem razão, doutor… Uma fatalidade… Aliás, foi o que me disse o delegado. – E concluiu lacrimosa, num tom em que se misturavam o lamento e a dissimulação:

– A doidice dele acabou virando realidade. Mas não era isso mesmo o que o pobrezinho tanto queria?…

Anúncios

4 comentários em “Delírio Mortal – Conto (Fernando Bueno)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    11 de julho de 2017

    Curioso. Gostei de como as linhas foram se desenhando ate chegar ao final já esperado. Sutil e provocante, com um toque insólito nas entrelinhas.

  2. Bia Machado
    10 de julho de 2017

    Adorei! Só acho que, para ser ainda melhor, as personagens poderiam ser um pouco mais desenvolvidas, principalmente a esposa, para nos deixar com mais dúvidas ainda a respeito do que possa ter acontecido. De qualquer forma, muito bom!

  3. Fil Felix
    7 de julho de 2017

    Por um instante imaginei que ela ficou triste porque, com a falta de oxigênio, o marido acabou voltando à vida e os planos dela sendo arruinados!

    Conto muito bom, com clima de piada. Naquele estilo de ir contando os fatos aos poucos, guardando um final cheio de reviravoltas. Ri em diversas partes, a leitura flui muito bem e não reparei em erros de gramática. Apesar de descontraído e engraçado, o texto pode levantar duas questões que achei interessantíssimas. A primeira, remetendo ao dia em que ele morreu: a data do casamento. Fica bem claro que tanto ele quanto ela já não estavam lá felizes. Há muitas datas que ficam gravadas em nosso inconsciente, seja data de casamento, de namoro, de falecimento de alguém especial, término de namoro, viagem… Enfim, momentos que nos marcam e, de uma maneira ou outra, nos fazem sentir mais ou menos vivos. Neste caso, de uma maneira mais caricata e exagerada, o casamento simbolizava a morte. Quantas pessoas não devem se sentir assim? Presas numa relação, seja do tipo que for?

    O que leva à outra questão interessante: a morte como solução dos problemas. Um assunto bastante delicado, eu diria, que muitas vezes nos censuramos a pensar sobre. No fundo temos a consciência que, em muitos casos, a morte (não necessariamente nossa, mas de outro) poderia significar um alívio para quem vive. Isso pode-se aplicar em diversas situações. No caso do conto, a morte do marido representava uma nova vida para a esposa, que finalmente poderia sair da mesmice e tentar coisas novas. Podemos dizer que a separação seria a solução para que os dois voltassem a se sentirem vivos. Mas, como um monte de coisa na nossa vida, uma decisão muito difícil. Foi preciso a morte chegar para solucionar. Que fique como exemplo de não se seguir, não é?!

  4. Cilas Medi
    6 de julho de 2017

    Tenho aqui as minhas convicções, sem prova, que a viúva ajudou em atender, completa e corretamente, ao pedido do marido. Gostei!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 5 de julho de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .