EntreContos

Literatura que desafia.

Quando é tarde para a conversão (Anastácio)

Esse final de semana seria o último em Porto Alegre antes de irmos para uma viagem de dois meses para a Argentina.  Estávamos saindo do cinema, e embora ouvisse alguns comentários empolgados da minha esposa e meu filho sobre o filme da Disney que acabávamos de assistir pela segunda vez, minha cabeça já estava dançando tango com os hermanos. Mas não seriam férias. Quando pequeno eu havia aprendido a caçar com meu pai e com o tempo me tornei referência quando o assunto era caçada. Por conta disso, vez que outra recebia convites para caçadas em diversos lugares do globo, como esse para a Argentina. Geralmente eu fazia vídeos para sites e tirava fotos que seriam usadas em revistas especializadas. Daí eu tirava boa parte do dinheiro que nos sustentava, porém não via isso como um trabalho, eu realmente gostava do envolvimento nesse meio. Claro que se por um lado eu era admirado por caçadores e aprendizes no mundo todo, por outro lado eu era frequentemente criticado por defensores dos direitos dos animais. Às vezes achava que nem mesmo minha esposa aprovava totalmente o que eu fazia, e ao pensar isso vi que ela e meu guri me olhavam. “Sim, gostei do filme dos leões, meu filho”, respondi ao pequeno que já não se contentava apenas com a atenção da mãe.

Pousamos no aeroporto de Ezeiza em Buenos Aires. Era a primeira vez que eu trazia mulher e filho para uma empreitada dessas. Minha esposa era apaixonada pelos shows de tango, assistindo vários vídeos no Youtube antes de partir. Eu estava feliz com sua euforia. Quem veio me receber era um velho amigo que havia morado comigo na Europa na juventude e hoje vivia na Argentina há mais de dez anos, Ignácio. Era dono de uma estância na província de San Juan, onde ficaríamos hospedados. Caçador e pescador, graças a ele pude deixar boa parte dos meus equipamentos em casa, trazendo apenas uma câmera fotográfica, uma filmadora e um telescópio. Bem, o último não era realmente necessário, mas não queria perder a oportunidade de observar o céu em um lugar tão ermo.

A viagem do aeroporto até a estância foi no carro de Ignácio e por um momento me perguntei por que não arrisquei percorrer toda essa distância desde Porto Alegre com meu carro. Guardei a observação, numa próxima vez faria toda a viagem de carro. No caminho lembrei de perguntar sobre uma raça de cão que há tempos me intrigava e eu ainda não havia conhecido pessoalmente. Felizmente ele tinha três exemplares de dogos argentinos na estância. Essa raça havia sido criada, após várias cruzas intencionais, no final dos anos 20. O objetivo era criar um “super cão”, forte, para caçada de animais grandes e leal ao dono. E nossa principal caçada seria uma grande presa realmente, javali. O javali não era uma espécie nativa da América do Sul e se propagava como praga destruindo plantações e pastos das fazendas. Tínhamos autorização para a caça e a intenção do meu velho amigo era de aniquilá-los das redondezas.

E assim fomos conhecendo o interior da Argentina, os moradores locais, degustando ótimos vinhos e comendo assados quase todos os dias. Minha esposa estava maravilhada com todas as paisagens e culturas que estava conhecendo. Eu e os outros caçadores saíamos cedo para desbravar o pampa imenso atrás das nossas caças e voltávamos no fim do dia para adormecer no conforto das casas de fazenda. E parecia que estávamos com sorte. Ou ao menos a equipe estava muito entrosada. Não lembro exatamente quantos javalis matamos, mas comíamos a carne de Javali todos os dias que estivemos por lá. Fizemos dezenas de vídeos, tiramos centenas de fotos. Estava municiado de conteúdo para um próximo trabalho. E eu realmente estava empolgado com o sucesso da nossa viagem. Num determinado momento, cheguei à sala entusiasmado, com uma cabeça de javali na mão, que empalharia e levaria como troféu para colocar em casa. Foi quando eu tive aquela dolorosa sensação de imbecilidade. Minha memória traz cruelmente a imagem do meu filho que, chorando, se agarrou à minha esposa, virou-se e disse: Pai, você matou o Pumba. Seus olhinhos cheios de lágrimas me trouxeram pensamentos de repulsa a mim mesmo. Eu nunca tinha o aproximado tanto do que eu fazia. Mas agora, segurando uma cabeça na mão e lembrando do personagem cômico do seu filme preferido, percebi que nem eu entendia tanto sobre o que eu fazia. Ver meu menino chocado com uma coisa natural para mim, de forma nenhuma representou fraqueza ou vulnerabilidade. Do contrário, me fez refletir sobre no que se baseou minha vida. Mortes, assassinatos…

O devaneio durou pouco tempo. Ignácio adentrou à sala cantando músicas folclóricas em espanhol. Gritando na verdade. Tinha uma espingarda na mão que usava como “par” de dança. Estava entusiasmado também, claro que por conta de uns goles de vinho para mais. Caímos todos em gargalhadas com aquela cena. Peguei a garrafa de cabernet sauvignon chileno e com o mesmo braço agarrei minha espingarda, saindo da sala. Não poderia ser considerado barbaria a vida se alimentar da vida. Ou da morte. Um dia levo o guri para ensiná-lo a caçar.

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7 comentários em “Quando é tarde para a conversão (Anastácio)

  1. angst447
    26 de maio de 2017

    Olá,autor,tudo bem?
    O título do conto me fez pensar primeiro em algo religioso, envolvendo fé e arrependimento.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado em parte: o javali estava presente. Caçado e decapitado.
    Gostei do tamanho do seu texto, sem muita enrolação ou descrições extensas. No entanto, aconselho a diminuir um pouco as frases, pois quando alongadas podem até perder um pouco do sentido.
    “(…) refletir sobre no que se baseou” > isso ficou bem esquisito,viu?
    Os últimos parágrafos foram os que mais me agradaram. Apesar da atitude do pai um-dia-meu-guri-vai-até-curtir, pareceu-me bem coerente ele não se converter ao vegetarianismo movido pelas lágrimas do filho.
    Boa sorte!

  2. Milton Meier Junior
    26 de maio de 2017

    Um conto bem escrito e interessante, embora não faça menção alguma à imagem sugerida pelo certame. Coisa que não me incomoda muito, acho que a intenção final não é essa, é apenas despertar a vontade de escrever. embora tenha a certeza de muitos vão criticar a narrativa por causa disso. Enfim… Um conto enxuto, bom de ler e sem um final piegas. parabéns!

  3. Priscila Pereira
    25 de maio de 2017

    Oi Anastácio, seu conto curtinho está bem escrito e interessante, mas, na minha opinião, não fez referencia nenhuma com a imagem. É uma pena… Boa sorte!!

  4. Ana Monteiro
    24 de maio de 2017

    Olá Anastácio. Um bom conto. Sendo eu abertamente contra a caça,o protagonista ouviria de mim um “nunca é tarde”. Mas sem dúvida que os seres vivos se alimentam de seres vivos. E esse assunto, além de não ser o tema de discussão, é parte substancial do financiamento da sua sobrevivência. O conto acaba por ser dois em um. Temos o relato morno dum ambiente familiar comum, com os momentos que antecedem uma viagem que será um misto de trabalho e lazer. E em seguida a própria estada. Acho que teve pouco enredo e emoção. A reação do filho,muito bem metida na história, foi praticamente o único momento emocionante. Penso que poderia ter enriquecido o conto com o relato de momentos da caçada – penso que seja algo muito emotivo. E como o mundo está repleto de remorsos e arrependimentos, acho que fez muito bem em não alterar o ponto de vista do narrador. Ele faz muito bem em entender que um dia levará o menino para partilhar com ele esse prazer. O menino fará ainda melhor se fizer o pai entender que, afinal, retirar prazer do ato de matar não é coisa boa e que nunca é tarde para a conversão. Não tenho falhas a apontar. Boa sorte.

  5. Mariana
    23 de maio de 2017

    Apesar das frases longas o suficiente para cansarem, me interessei pela história. Algumas vírgulas poderiam ser revisadas também e pontos são legais, acredite. Quanto ao enredo, ele é simples e surpreendentemente firme dentro dessa simplicidade. Uma viagem familiar, a reflexão sobre o homem e a sobrevivência. Gostei bastante.

  6. Fabio Baptista
    22 de maio de 2017

    Conto simples e bem executado. A primeira frase me deixou quase sem fôlego (e olha que sou adepto das frases longas): poderia ter quebrado em duas ou colocado uma vírgula em algum lugar. Tirando pequenas coisas como essa e como um ” me trouxeram / a mim mesmo” no final, está bem escrito e consegue conduzir bem o leitor pelas ações e cenários.

    Confesso que fiquei com medo que o negócio acabasse com uma lição de moral politicamente correta sobre caça e tal. Felizmente não foi o que aconteceu. Essa jogada foi bem executada, funcionou comigo pelo menos – fiquei com sensação de decepção e logo em seguida veio aquele “ufa!”. Ganhou pontos com isso.

    Bom conto.

    Abração!

    • Fabio Baptista
      22 de maio de 2017

      Só depois de clicar no enviar do comentário que me liguei no título do conto… faz todo sentido agora 😀

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.