EntreContos

Literatura que desafia.

O Assistente (Edgar B.)

Em novembro de 2013 fiquei desempregado e, em vez de passar a vida diante do computador enviando o currículo para empresas que não me dariam resposta alguma, decidi investir no meu sonho de infância: tornar-me num domador de animais selvagens. O profissional mais conhecido, mais experiente e mais bem pago da área era o mestre K. O seu escritório ficava no centro da cidade, no quinto andar de um prédio de 10.

Muita gente queria também aprender com o mestre, e por isso encontrava sempre três ou quatro pessoas na sala de espera. Não conversávamos além das palavras de saudação; primeiro porque a secretaria aparentemente divertia-se a entreabrir a porta e nos mandar calar como se fossemos meninos de 8 anos, depois, porque ninguém queria arriscar-se a passar informações importantes aos outros concorrentes.

Ela abria a porta por completo por volta do meio-dia, para dizer que o mestre tivera um imprevisto e que não poderia nos atender naquele dia, e que as reuniões teriam portanto que ser transferidas para dali a uma semana.

Ao longo dos sete dias seguintes de espera, eu procurava na internet informações sobre o meu futuro ofício. É que me parecia que quando o mestre finalmente me chamasse eu teria de saber alguma coisa. No entanto, por muito que lesse não fazia a mais pálida ideia de como poderia domar um animal selvagem, nem me imaginava diante de um. Desligava o computador mas voltava a ligar logo a seguir, ao concluir que tudo o que precisava era inspiração. E para isso via a obra do mestre: os elefantes e búfalos que os domara para que não comerem culturas agrícolas, os leões que domou para que se mantivessem nos limites de reservas, etc.

Certo dia decidi permanecer na sala de espera depois do meio-dia. Quando a secretária abriu a porta e assustou-se ao me ver, dei uma desculpa qualquer e disse que me retiraria em alguns minutos. Pouco depois ouvi-a conversando com o mestre, em voz baixa, pelo que não podia perceber nada do que diziam. Que vontade de ir ouvir atrás da porta! Entretanto voltou a abrir a porta e disse olhando para trás de si: “Um deles ainda está aqui”. Levantei-me, certo de que, finalmente, falar com o mestre. Mas ao invés do mestre K, veio ter comigo ela própria, arrastando uma mala enorme, feita uma parte de madeira e outra de ferro. “Em princípio você precisaria de algumas semanas para ter as noções básicas do ofício, mas o caso é urgente e você terá de aprender ao longo da viagem. O teu destino é suficientemente distante para isso. Esteja aqui amanhã às sete horas”, disse, pousando a mala pesada no meu colo e sem uma única vez ter olhado para a minha cara de espanto.

Assim que cheguei à casa abri a mala. Tinha apenas uma corda curta, cerca de um metro e meio. Preferi acreditar que a senhora não me entregara a mala certa, e que em vez de desperdiçar energias tentado descobrir a utilidade de uma simples corda no ato de domar um animal selvagem, devia continuar a minha pesquisa na net.

Por volta da meia-noite conclui que era tarde para entender o que quer que fosse, que o mais prudente era dormir para não me atrasar.

No dia seguinte, a secretária esperava-me na portaria do prédio, na companhia de um homem de meia-idade, baixo, magro e calvo.

O nosso destino era uma cidadezinha de que eu nunca ouvira falar perdida algures no interior do país. E provavelmente jamais saberia de sua existência se um dos seus habitantes, um tal senhor Baltazar, não tivesse perdido o seu javali de estimação. Era um animal completamente inofensivo, disse ele na FM local naquela mesma tarde. Garantiu também que pagaria dez mil a quem ajudasse a trazer o seu bicho de volta. Minutos depois, as quatros ruas da cidadezinha e a praça para onde todas elas convergiam ficaram desertas. Contrariamente ao esperado, as pessoas não tinham ido ao mato procurar o javali, tinham antes se recolhido ao conforto de suas casas. O dinheiro era muito e seria garantidamente pago pois o senhor Baltazar era o homem mais rico da cidadezinha, denunciava-o aliás o seu casarão, comparável apenas ao edifício da prefeitura. Os receios tinham a ver com a docilidade do javali. Era verdade que todo mundo tinha visto o senhor Baltazar passeando o bicho pelas ruas como se de um cão se tratasse, mas consideravam que a façanha resultava de artes mágicas e que o desaparecimento do bicho resultava obviamente do fim dessas artes mágicas.

Ao anoitecer, o prefeito foi ouvido na FM a informar que não pretendia mandar a polícia atrás do javali, conforme estava sendo pressionado através muitas de mensagens de texto que estava recebendo; considerava mais adequado mandar vir da capital um conhecido encantador de animais selvagens.

Eu não era evidentemente o mestre K, apressou-se em esclarecer a secretária. Ele estava enfrentado problemas pessoais que não o permitiriam trabalhar com o brio habitual. Eu era um dos seus assistentes, o mais competente de todos. Fiquei constrangido.

O prefeito era conversador e me pediu para acompanhá-lo pois era forma de manter a longa viagem menos aborrecida e, principalmente, evitar de adormecesse ao volante. Ele estava obviamente curioso por saber mais sobre a vida de um domador de animais selvagens. Repeti algumas coisas que tinha lido na breve e caótica pesquisa na internet, mas apressei-me em mudar de assunto alegando que havia um superstição entre os domadores que nos obrigava a falar o menos possível do nosso ofício.  

De hora em hora o prefeito parava nalguma cidade, para esticar os pés, dizia. Eu permanecia no carro, não queria me separar da mala por um único minuto que fosse.

Chegamos à cidadezinha ao fim de 8 horas de viagem. Já era madrugada. Candeeiros mortiços iluminavam as ruas desertas.

Segundo prefeito, havia uma pensão na cidadezinha, mas devido a agitação do último dia, era mais prudente levar-me à sua casa. Fomos recebidos pela sua simpática esposa, que permanecera acordada a noite toda.

Não liguei o despertador do celular, porque um profissional como eu não deveria precisar de tal artifício para acordar cedo. O que sucedeu, entretanto, foi eu despertar com alguém batendo à porta. Era a voz do prefeito, perguntando se estava tudo bem. Pedi um minuto. Eram quase nove da manhã e eu não tinha outra escolha senão vestir-me e sair. Na sala, a primeira-dama recebeu-me com espanto. É que fazia já calor e eu vestia botas, calças jeans, sobretudo e óculos de aviador.

O prefeito queria a todo custo oferecer-me um ajudante, e só consegui demovê-lo quando estávamos na praça.

Escolhi uma rua ao acaso e a percorri até ao fim.

A mata era fechada. Para avançar tinha que afastar a vegetação, vegetação que voltava a fechar-se à minha passagem. E a mala, porque grande e pesada, dificulta-me ainda mais o trabalho. Tinha média estatura, mas para passar precisa do espaço de um elefante.

Concluí então não tinha quaisquer hipóteses de achar o javali, que mais facilmente eu me perderia na mata.

Por isso andava apenas cinco minutos da rua para o interior do mato e voltava.

O calor cada vez mais intenso. Várias vezes quis livrar-se do sobretudo, mas mudava de ideia ao lembrar-se que a função daquele era proteger-me das garras e dentes do javali. Na minha pesquisa não me lembrara de saber como os javalis atacavam, mas agora julgava que vestir muita roupa devia diminuir os danos de eventuais ataques.

O javali viu-me primeiro. Era meio-dia e eu descansava quase na berma da rua, escondido atrás de uma árvore enorme, quando ouvi um ruído. Levantei-me para fugir e o vi a uns dois metros, veloz, assustador. Não me ocorreu mais nada senão fechar os olhos e esperar que o vestuário me ajudasse em alguma coisa.

Mas o bicho veio esfregar-se aos meus pés, como um gato faz ao seu dono. Esta amizade pareceu-me um mal-entendido, e antes que o bicho nota-se que eu não era o senhor Baltazar tratei de amarrá-lo à árvore com a corda que trazia na mala.

O meu trabalho estava feito. Mas o prefeito quis que eu desfilasse com o bicho pelas ruas da cidadezinha, para tranquilizar o povo e, acima de tudo, mostrar que mais uma vez tomara a decisão certa. Eu não me opus. Na verdade deu-me imenso prazer ver as pessoas saírem de suas casas para me aplaudir.

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4 comentários em “O Assistente (Edgar B.)

  1. Ana Monteiro
    25 de maio de 2017

    Olá Edgar. Calculo que por esta altura você esteja um bocado deprimido pelas críticas recebidas. Sinceramente, tenho visto alguns contos muito mais carregados de falhas sem que ninguém as comente. O seu tem algumas, sim e já estão todas, ou quase, apontadas e, também por isso mesmo não irei deter-me nelas. Excepto uma, perto do final e que está aqui: “Levantei-me para fugir e o vi a uns dois metros, veloz, assustador.” Não é uma falha gramatical nem ortográfica, mas sim de coerência, penso que deveria adjetivar o javali com outra palavra qualquer que não “veloz”, pois, veloz como? o animal está manso, parado, nada sugere movimento. Quanto às outras falhas gramaticais e ortográficas sugiro apenas uma cuidadosa revisão do texto. Passando à apreciação dos outros aspetos a considerar. Temos a adequação ao tema proposto: está lá, ainda que em momentos distintos, ou seja, temos a floresta e os elementos todos da foto mas não em simultâneo. isso conta? vai do critério de cada um, mas para mim não, pois também já vi por aqui desadequações drásticas. Criatividade: acho que tem criatividade. Até no protagonista quando decide o novo rumo a dar à sua vida após ficar desempregado. Emoção e enredo: não tem muita emoção, mas tem enredo mais que suficiente. Não entendo que seja necessário derramar lágrimas, ou colocar javalis a conduzir naves espaciais (espero que ninguém tenha feito isso ou parecerá que estou a criticar esse autor e não é o caso porque se houver essa história ainda não ali) para dar emoção, ação e enredo. O seu conto parece-me bastante bem e, aos meus olhos, não destoa para baixo da média dos demais. Boa sorte.

  2. Ricardo Gnecco Falco
    25 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    O texto sofre com um excesso de falhas, provavelmente oriundas de uma má revisão, como: “…domara para que não comerem…” , “Levantei-me, certo de que, finalmente, falar com o mestre.” , “…estava sendo pressionado através muitas de mensagens de texto que estava recebendo…” , “…evitar de adormecesse ao volante.” , “…havia um superstição entre os domadores…” , “…Várias vezes quis livrar-se do sobretudo, mas mudava de ideia ao lembrar-se que a função daquele era proteger-me das garras e dentes do javali…” , “…antes que o bicho nota-se que eu não era…”, entre outras. Mas, nada que impossibilite a compreensão da história.

    – CRIATIVIDADE
    Boa. Foi o primeiro conto que eu vi com o mote de caça.

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    100%. Temos javali, vestes/apetrechos e a mala, mesmo que de ferro.

    – EMOÇÃO
    Mediana. O tom mais jocoso deu ares joviais à história, mas a mesma careceu de um melhor encadeamento das ideias para que, dando chances aos leitores de se aprofundarem nos fatos apresentados, pudessem realizar a imersão na história. O trabalho ficou mais parecido com um simples relato do que um Conto propriamente dito. Mas tem boas passagens!

    – ENREDO
    Desempregado decide mudar de vida e tornar-se domador de feras selvagens. Meio que às pressas, passa a integrar a equipe de um especialista no assunto, assumindo uma missão em uma cidade do interior onde tais serviços se fazem urgentes. Ao final, tem êxito (mais por sorte) em suas ações.

    *************************************************

  3. Edgar B.
    22 de maio de 2017

    Claro que não levo a mal, Fábio.

    Ocorre-me dizer apenas o seguinte: as falhas gramaticais resultaram das circunstâncias em que escrevi o texto, não da falta de conhecimento. Se o site permitisse faria as correções necessárias.

  4. Fabio Baptista
    22 de maio de 2017

    Olá, autor(a). Tudo bem?

    Então, não me leve a mal, por favor. O que direi é com intenção de ser construtivo.
    A verdade é que seu conto não está nada bom.

    Há muitas falhas gramaticais na escrita (listei abaixo) e o jeito de narrar é muito simplório. Os fatos vão apenas sendo jogados, sem qualquer aprofundamento. Isso não ajuda o leitor a criar vínculo com os personagens, o que é fundamental para que a história desperte empatia.

    Uma sugestão para melhorar nesse aspecto é utilizar diálogos. Com eles, nós, leitores, conseguimos ver melhor a “cara” dos personagens, conseguimos nos afeiçoar mais a eles.

    Assim como a narrativa, a trama é muito inocente, quase ingênua. Tirando o fato do protagonista perder o emprego em 2013, praticamente nada na história soa como verdadeiro (claro, sei que é tudo inventado… mas quero dizer que nada dá impressão de que poderia ser verdade). Por exemplo… o que faria um renomado domador num escritório no 5º andar de um prédio? Esse cara não deveria estar numa floresta? Ou num circo?

    Enfim… a boa notícia é que tudo é uma questão de prática, então, como diria um amigo aqui do site: continue a escrever!

    – secretaria
    >>> secretária

    – mestre K. O
    >>> É bobagem, mas eu tentaria evitar essa sequência. Quando bati o olho pareceu “K.O.” de nocaute.

    – os elefantes e búfalos que os domara
    >>> esse “os” sobrou

    – para que não comerem culturas agrícolas
    >>> na mesma frase anterior, outro erro

    – Levantei-me, certo de que, finalmente, falar com o mestre
    >>> falaria

    – Assim que cheguei à casa abri a mala
    >>> em casa

    – passeando o bicho
    >>> com

    – a façanha *resultava* de artes mágicas e que o desaparecimento do bicho *resultava*
    >>> melhor evitar essas repetições de palavras com tanta proximidade

    – sendo pressionado através muitas de mensagens
    >>> de muitas

    – Concluí então não tinha quaisquer
    >>> que não tinha

    – que a função daquele era proteger-me
    >>> dele
    >>> do que adiantaria um sobretudo contra uma dentada de javali? :/

    – e antes que o bicho nota-se
    >>> notasse

    Abração!

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.