EntreContos

Literatura que desafia.

No olho do bicho (Xamã)

“Quem sou eu então?

Quem é este que eu sou?

A quem perguntar, senão ao outro?”,

Jacques Derrida.

 

Já era hora, né? Eu tava esperando. Pode sentar, fique à vontade. Tem café. Quer café? Só pegar ali no fogão. Mandei chamar o senhor porque essa noite o bicho vêm me buscar. Medo? Não tenho. O bicho é minha família, é eu também. Sim, uhum, vamos pro mato, eu e ele, pra casa. Cê me olha esquisito, pensa que eu tô é doido, mas sabe, nunca que tive a mente tão sã. Quer saber como que sei que é hoje? Falo. Deixa eu me ajeita.

Faz sete dias desde que ele veio, tava noite, mais escuro que o normal, não tinha uma estrela nesse céu. Aí escutei ele chamar meu nome, depois de tantos anos. Nunca que tinha ouvido, mas sabia que aquela era a voz do bicho. Com o coração na boca, fui ali, naquela janelinha e olhei pra fora, e lá tava ele, bem no meu portão e quando olhei nos olhos dele, foi como se eu tivesse respondido o chamado. Aí ele entrou, e no momento que passou por essa porta, já não tava mais com roupa de bicho. Porque se tem uma coisa que aprendi é que corpo é roupa. Quando ele passou pela porta, tava com a roupa do meu pai. E eu até pensei, meu Deus, por que cê mandou meu pai pra cá, isso é algum tipo de castigo? Mas daí olhei de novo nos olhos dele e vi olhos de bicho.

Ele sentou bem aí, bem onde cê tá, e tomou café comigo, igual cê tá tomando. Depois me perguntou se eu ia vir com ele e eu disse que não sabia e ele falou que no fundo eu não podia escolher, mas que aceitar a travessia era bem melhor. Terminou o café e me deu sete dias, contou que na noite do sétimo dia ia voltar e perguntar de novo se eu ia vir com ele. Por fim se aproximou, chegou aqui, bem no meu ouvido e sussurrou, eu vou te levar pra mata, lá cê vai enriquecer a natureza com a sua incompletude, lá todo mundo é bicho, mas também é pedra, é árvore e é rio. Lá a gente é aquilo que esqueceu.

Sabe que não me dormi mais desde então? Juro pro senhor, todas as noite após a visita do bicho foram de luzes acesas, não por medo, mas porque depois de tantos anos lembrei do ocorrido, evento-chave dessa minha vida de homem, que antes, até então, tava enterrado no fundo da minha memória. E agora lembro, lembro como se fosse ontem, do sangue escorrendo, da dor e do sofrimento pairando no ar.

Olhando pra trás e vendo as coisas com outro olhar, sei que ele fez o que fez porque era homem. Animal nenhum faria aquilo. Maldade assim, não cabe em instinto. Agora cê acha justo todo mundo culpar o bicho? Logo o bicho que foi companheiro dele por tanto tempo? Eu não acho. E por isso nunca aceitei essa injustiça. Sei que bicho não fala a língua dos homens, mas sempre acreditei nele, do início ao fim. Deve ser por isso que ele veio perguntar se eu ia vir com ele. Mas não pense o senhor que eu tô dizendo isso só pra justificar minha atitude de menino. Quero é mesmo contar a história do bicho, dar voz pra ele.

Por que? Te digo o porquê, porque é só quando a gente percebe essas coisas que o mundo realmente pode melhorar, e que se esse é meu último momento aqui, que seja pra fazer algo útil, falar algo que o senhor vai escutar e refletir, palavras que fiquem na tua cabeça na hora de ir dormir, e faça cê mais tarde, passar a mensagem adiante. Quero falar sobre o peso das nossas relações, sobre vozes.

Pra te explicar, tenho que voltar pros tempos de infância, quando eu ainda não tinha aceitado completamente os significados que os homens inventam. Lembro bem do dia que ele chegou, eu tava brincando perto da porteira quando vi o pai trazendo ele. Meu pai voltava de um longa viagem, fazia três meses que estava fora. Corri em sua direção num misto de saudade e curiosidade, pois sempre que ele voltava, trazia algo de novo de umas das terras distantes que explorara. Dessa vez a novidade era o bicho. Vinha numa corrente e era enorme, pensei que fosse um cachorro, mas aquilo tava longe de ser um cão. Lembro que perguntei, ele morde, pai? E meu pai apenas riu e disse, só quando é preciso.

O bicho era diferente, tinha o pelo grosso, um focinho igual de porco e uns dentes grandes que de longe pareciam chifres saindo da boca. Mas o que mais me chamou atenção, foram os olhos, até hoje não sei explicar o porquê.

O bicho viveu com a gente, era tratado por todos como membro da família. E foi, durante três anos, o grande companheiro do meu pai, companheiro de caça principalmente, porque o bicho tinha essa habilidade, era mais ágil e certeiro que a velha espingarda e o facão do pai. Deram pra ele o nome de Gregório, mesmo bicho não tendo nome.

Naquela época eu achava que ele ia ficar pra sempre com a família, mas não foi assim. A tragédia aconteceu num final de semana. Eu tava sentado no muro olhando o mato, aí vi meu pai vindo com o bicho, mas dessa vez tinha algo diferente, meu pai tava na frente, arrastando o animal pela corrente, puxando com força e xingando tudo quanto que é tipo de palavrão. Sabia que quando o pai ficava assim era porque tinha bebido, a mãe tinha costume de dizer, teu pai quando bebe vira outro, e hoje percebo que de certa forma, ela tava mais que certa. Me escondi atrás do muro e fiquei espiando.

Assustei quando ele amarrou a corrente do bicho na árvore e tirou o facão da mala. Eles ficaram frente a frente, parecia presa e predador e depois de gritar imprestável, inútil e tantos outros xingamentos, o pai enfiou o facão em um dos olhos do bicho, que gemeu de dor, e de supetão revidou o golpe. Mordeu a perna esquerda do pai, que caiu no chão, urrando.

Saí de trás do muro e me aproximei, o pai gritava pedindo ajuda, pediu pra que eu corresse e avisasse que ele havia sido atacado, mas não consegui fazer isso, eu tava em choque. Foi aí que olhei pro bicho, ou melhor, ele me olhou e no fundo daquele olho de bicho eu me vi. Eu tava lá, dentro dos olhos dele me olhando. Naquela hora entendi que bicho é gente. O sangue que escorria daquele olho também era meu.

Abracei o bicho e pedi desculpas. Eu sentia o medo dele, a batida acelerada do coração. Meu pai gritou mais alto, olhei pra perna dele, e vi o sangue escorrendo e no sangue dele tinha ódio, sim, eu vi, ódio no sangue e nos olhos daquele que já não era mais meu pai. Fiquei ali com o bicho, nós dois era como um só, um só assistindo a coisa cheia de ódio sangrando.

Quando minha mãe chegou, tempo depois, e viu o corpo estirado no chão, ela chorou muito, pediu pra eu sair de perto do bicho, mas eu não queria largar dele, não agora que ele não podia nem enxergar direito. Só que ela conseguiu separar a gente, eu era só uma criança, não tinha forças pra escolher minhas próprias ações.

E foi naquela mesma noite que meus tios vieram e mataram o bicho, dizendo que estavam fazendo justiça e eu vi eles amarrarem ele e passarem o facão na garganta. Chorei, chorei porque ele olhava pra mim e aqueles olhos de gente perguntavam: Por que? Chorei e todo mundo achou que eu chorava pela morte do meu pai, mas não era por ele. Essas lágrimas, até hoje, são pelo bicho.

Daquele dia em diante, minha mãe nunca mais me olhou com os mesmos olhos, pra ela eu era o culpado pela morte do pai. Com o tempo me tornei um intruso naquela casa. A minha vida só melhorou quando completei dezesseis anos e fui embora. Vim pra cidade, consegui um emprego, comecei a estudar e ganhei gosto pela leitura e a escrita. Durante todo esse tempo, tentei esquecer a morte do bicho, deixar de pensar nesses assuntos e consegui, pelo menos em partes, mas sabia, que um dia ele ia voltar. Agora vejo que o bicho me seguiu por todos esses anos, nas entrelinhas dos meus textos, nos meus sonhos e no meu sangue. Ele me acompanhou a vida toda porque em mim ficou aberta essa fresta de morte, essa dor de bicho, que é dele, mas também é minha. E hoje é o dia, chegou a hora de eu ir vir com ele.

Cê entende agora o porquê te chamei? Não é só uma confissão, é bem mais que isso, é o recado do bicho. Ele quer que eu fale pro senhor e pro mundo que no fundo, as coisas não são o que são, é o homem que tem mania de botar significado nelas e isso tá condenando a gente. Tá deixando a gente cego e caminhando pro fim de nós mesmos. É irmão matando irmão, bicho matando bicho. O senhor, seguindo as doutrina que segue, deve entender minha preocupação. É, eu sei, eu sei que cê vai fazer essas palavras ecoar, não vai?

Hum, olha na janela. Acendeu os vaga-lumes. Vê que a noite já chegou? O bicho veio também, tá ali fora já, tô sentindo o cheiro dele. Respira, ó. Cê consegue sentir? E agora? Ó, já dá pra ouvir. Tá ouvindo?  Tá ouvindo o chamado do bicho?  

Faz tua parte agora, falta pouco pra travessia. Não demora tá, o bicho já vai entrar e daqui a pouco nós vamos. Obrigado, padre. Obrigado mesmo. Amém.

— Por esta santa unção e por sua grande misericórdia…

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12 comentários em “No olho do bicho (Xamã)

  1. Olá, Ivo,
    Tudo bem?
    Não falarei sobre revisão, pois isso já foi dito e sei o quanto sofremos ao ver que os erros passaram despercebidos por nós. Se serve de consolo, revisei 999 vezes e ainda assim passaram erros que foram apontados com precisão de olho clínico pelos colegas.
    Bem, vamos ao conto.
    Não tenho nada contra o panfletário. Acho, inclusive, que pode ser um estilo do autor. Só creio que, se assim for, você tem que assumir isso e tomar os ares que quer tomar em sua narrativa.
    Seu conto começa como um causo de pescaria, passa para uma narrativa folclórica bem ao estilo jovem (literatura de formação) e toma outros ares ao situar os personagens em uma clínica psiquiátrica. Talvez você devesse optar por um dos caminhos e se manter nele, firme.
    Você escreve bem e tem muito potencial. Abordar as lendas brasileiras é louvável e sua causa é também um pouco minha. Não entendo o motivo de se escrever tanto sobre bruxas, vampiros, gnomos, enfim, de outras culturas, sendo que temos tanto material mitológico e riquíssimo por aqui. Que tal começar por você? Tenho certeza que sairão ótimos textos, se é que já não os tem. Entenda, não tenho nada contra outras culturas, admiro-as e elas nos formaram. O que me incomoda é o fato de o Brasil não conhecer o Brasil. Assim como também a você, acredito.
    Assim como outros (li os outros comentários), também esperei pela aparição do javali e da imagem do desafio ansiosamente, mas, sabia que este estaria com o Curupira ou Caipora (para mim são o mesmo personificado em duas vertentes), já que você falava de folclore nacional. Sei que o mito traz consigo um porco-bravo, então, na verdade, o bicho esteve presente em toda a trama, só que aguardando o momento de entrar em cena.
    Achei essa “entrada” um pouco abrupta, mas nada que comprometa. Cada autor faz suas próprias escolhas.
    Parabéns por seu trabalho.
    Espero ver muitos textos seus por aqui.
    Beijos
    Paula Giannini

  2. Olá, Xamã,
    Tudo bem?
    Você criou um texto bem interessante. Gosto da narrativa em forma de diálogo, na primeira pessoa. Este tipo de “fala”, empresta ao texto um ar confessional que vem bem a calhar com sua opção de escolha de personagens.
    A fala regionalista dá credibilidade ao personagem, embora eu ache que o fato de ele ter estudado na cidade e se aproximado da literatura, deixaria essa fala diferente. Esse trecho parece uma incoerência e poderia ter sido suprimida do texto, sem que com isso ele perdesse em nada. Ao contrário. Mas é só uma opinião minha.
    Sobre a trama em si, gostei e por algum motivo o homem morrendo ao lado do filho e do Javali me remeteram a imagens do livro Cem Anos de Solidão. Não sei o motivo. Rsrsrsr Mas foi a cena que montei em minha cabeça.
    A premissa é muito boa. A culpa que o filho sente, mas, mais que isso, sua justificativa ao defender o “inocente” que é golpeado pelo pai sem motivo aparente que não a violência da bebida. Talvez o conto esconda uma segunda camada, onde a criança já sofre muito com tal violência e à agressão ao javali reflita nele como algo que fosse feito a si mesmo. Talvez o Javali seja “a gota que faltava”. Talvez uma imagem onde o porco é o próprio personagem, ao menos psicologicamente. O texto permite muitas divagações e talvez aí resida sua maior qualidade.
    Você tem o dom de envolver seu leitor e a fala bicho é gente, me pegou de jeito.
    Parabéns
    Muito boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  3. Eduardo Selga
    23 de maio de 2017

    A palavra “bicho” está indissoluvelmente associada ao incivilizado, ao inumano. Nesse sentido, não é à toa que designa também, segundo a mitologia cristã, a entidade que seria adversária irreconciliável do ser humano por ser ele “obra divina”.

    É esse viés que me parece muito produtivo ao analisar o presente conto. O tom fantasmagórico que se instala no início aos poucos vai apresentando suas razões que, resumidamente, significa dizer que o bicho do conto (e é curioso observar que em nenhum momento ele é claramente identificado como javali) é uma representação demoníaca, motivo pelo qual temos a presença do padre, o que fica claro apenas no final. Apesar disso, o intento do religioso não é combate à invasão da entidade maligna, e sim aplicar ao protagonista a “santa unção”, ritual destinado aos que estão próximos da morte. Por via de consequência, duas opções se colocam: ou o bicho, enquanto representação do demônio, não existe nem nunca existiu (e nesse caso todo o discurso do protagonista é delírio), ou existe sim, mas o padre não dá a mínima importância em função da doença do personagem.

    A mata mencionada, considerando o caminho interpretativo por mim adotado quanto à palavra “bicho”, perde a literalidade e assume o campo simbólico. Quando a gente lê “[…] chegou aqui, bem no meu ouvido e sussurrou, eu vou te levar pra mata, lá cê vai enriquecer a natureza com a sua incompletude, lá todo mundo é bicho, mas também é pedra, é árvore e é rio. Lá a gente é aquilo que esqueceu” fica claro que a mata e a natureza são espaços dentro dos quais toda a identidade e individualidade são perdidas. Ora, o que chamamos de civilização é exatamente a ruptura com a natureza. Pelo texto, retornar a ela seria, simbolicamente, voltar à barbárie pelas mãos do “inimigo da humanidade”.

    Não estou afirmando que o animal do conto o é apenas na aparência. O que digo e volto a dizer é que ele é uma representação do “Inimigo”, o que encontra antecedente bíblico no Livro de Marcos, que fala de porcos (e javali é da mesma família) possuídos por “espíritos imundos”.

    Essa transferência de sentido para a palavra “bicho” encontra força quando percebemos que no conto existe uma aproximação entre o protagonista e o animal. O olhar dele magnetiza o menino, como se fora uma hipnose. Mais que isso, há uma identidade fluídica entre ambos, do que o sangue animal é símbolo na medida em que o personagem considera que é dele o sangue que vertia do olho ferido do bicho. Se há essa “transfusão” simbólica, e considerando que sangue é vida, concluímos que a vitalidade demoníaca passa a animar o personagem.

    Há uma versão esotérica acerca do demônio que afirma que a entidade propõe para os Homens outro modo de viver, com outra ética e moral; que ele não seria nenhum inimigo; que toda a negatividade a ele atribuída seria “intriga da oposição”, ou seja, Deus.

    Não estou aqui, nem de longe, a defender essa “alternativa”, mesmo porque isso implicaria alto grau de religiosidade, sentimento que não me acompanha. O texto, contudo, indica caminho nesse sentido. Trata-se do trecho “ele quer que eu fale pro senhor e pro mundo que no fundo, as coisas não são o que são, é o homem que tem mania de botar significado nelas e isso tá condenando a gente”. Ou seja, a versão que domina acerca do mundo é uma questão de discurso.

    O trecho “[…] chegou a hora de eu ir vir com ele” apresenta uma construção pouco aconselhável: dois verbos no infinitivo juntos. Os verbos IR e VIR têm sentidos opostos, o que prejudica a compreensão. Esse prejuízo fica um pouco menor se considerarmos que quem vai é o protagonista e quem vem é o animal,. Como ambos se tornam, simbolicamente, um só (“ele me acompanhou a vida toda porque em mim ficou aberta essa fresta de morte, essa dor de bicho, que é dele, mas também é minha”), a proximidade dos dois verbos faz algum sentido, mas ainda assim o resultado não é completamente satisfatório.

    VIR também pode referir-se ao verbo VER no futuro do subjuntivo, mas nesse caso eu acho que o sentido fica ainda mais prejudicado, pois entendo que o verbo não cabe na oração.

  4. Sick Mind
    23 de maio de 2017

    O início é muito arrastado. Senti que dava para sintetizar os seis primeiros parágrafos em bem menos palavras. Para além disso, não há muito o que dizer, pois não apresenta erros ou incoerências notáveis. O tom regionalista não me acrescentou em nada nesse conto, pois consigo imaginar claramente a mesma história sendo contada num tom mais universal e o efeito seria o mesmo. Senti falta apenas de um pouquinho mais de desenvolvimento após o momento que o personagem sai de casa. Quanto a adequação ao tema, achei válido, ainda que não reproduza uma descrição perfeita daquela estranha imagem escolhida para o concurso.

  5. Marco Aurélio Saraiva
    23 de maio de 2017

    Achei o conto bastante confuso, mas acho que minha leitura foi um pouco atrapalhada pelo estilo de narrativa, que se dá através do discurso de um personagem.

    ===TRAMA===

    A trama, vista superficialmente, é simples: o garoto viu o Javali sendo atacado pelo pai quando criança, então viu o mesmo animal matar o seu pai. Ele entendeu que animais também são seres vivos, e chorou quando as pessoas mataram o Javali, que havia se tornado seu amigo. No fim, o Javali vem buscar o personagem principal, então ele chama o padre para contar a sua história antes de ir.

    Ao meu ver, o “bixo” inicial era mesmo um javali da família, mas o “bixo” que vem depois me soa como uma metáfora. Vejo o Javali que visita o homem já adulto como a culpa que ele carregou pelo resto da vida, por ter deixado o seu pai falecer, tendo a oportunidade de salvá-lo. Ele poderia estar nas últimas, sabendo que sua hora se aproximava, então chamou o padre para contar o que aconteceu na sua infância, que ocupa boa parte do conto por uma razão. Ele quer que o padre absorva a sua culpa e repasse-a como lição de moral, para que ninguém mais faça o que ele fez.

    Mas isso é só uma interpretação. O conto inteiro é cheio destes pontos metafóricos, mas muitos deixei passar, sem entender o que você quis dizer.

    ===TÉCNICA===

    Estranha. Como todo o conto é escrito na primeira pessoa, através de um personagem que conta uma história, o texto virou um grande diálogo, sem parágrafos descritivos. A narrativa vem junto com os regionalismos que carregam a fala do personagem principal, o que dificulta a leitura. Além disso, muitas falas não estão separadas por aspas ou travessão: são simplesmente textos, postos entre uma vírgula e outra, que o leitor tem que entender que é uma fala de personagem.

    Esta escolha de fazer um “pseudo-monólogo”, onde o personagem interage com outro personagem “mudo”, cujas falas não estão lá mas que são deduzidas através das respostas do personagem principal, é uma escolha muito difícil de executar. Raros são os contos que optam por este estilo e não se perdem no caminho. No caso, este conto me incomodou um pouco, por quê sequências do tipo “Tem café. Quer café? Só pegar ali no fogão. Mandei chamar o senhor porque essa noite o bicho vêm me buscar. Medo? Não tenho.” são estranhas. Eu sei que há um personagem ali, que não eu, mas não vejo nenhuma interação do mesmo.

    ===SALDO===

    Negativo. A história tem a vantagem de ser aberta a interpretações, cheia de metáforas bem criadas e lições de moral, mas não tem muito impacto de uma forma ou de outra. A técnica usada para escrever o texto não foi muito feliz. Toda a narrativa em tom de diálogo, cheio de regionalidades, me soa muito conveniente. Afinal, o escritor perde o compromisso com a boa escrita, e tem a liberdade de errar a vontade, sob o pretexto de um discurso coloquial. O problema é que as próprias regionalidades não mantém um padrão: Às vezes ele fala “tava”, às vezes “estava”. Às vezes ele fala “num”, às vezes “em um”.

    Acho que este conto é um diamante bruto. Pode ser trabalhado pra se tornar algo muito bom, mas, do jeito que está, não me agradou.

  6. Gustavo Castro Araujo
    23 de maio de 2017

    Um conto simpático que sabe misturar regionalismo com certa melancolia. Gostei desse tipo de sincretismo, em que homens e bichos se misturam. A pegada emocional ficou muito boa, com o reflexo do narrador nos olhos do javali. Senti falta, porém, do outro personagem da foto. Por certo, nesta narrativa, o pai do narrador faria as vezes, mas não achei nada que o identificasse com o homem, fosse pela roupa, fosse pela mala. De todo modo, o conto é bom, tem uma pegada muito interessante, de quem sabe o que está fazendo. Ao final, percebemos que tudo se trata de uma reminiscência, refletida numa confissão na hora da morte. É uma boa sacada, mas creio que ficaria melhor se fosse apenas subentendida, retirando-se por completo a última frase. Bom trabalho!

  7. Evandro Furtado
    22 de maio de 2017

    Olá, autor. Sigamos com a avaliação. Trarei três aspectos que considero essenciais para o conto: Elementos de gênero (em que gênero literário o conto de encaixa e como ele trabalha/transgride/satiriza ele), Conteúdo (a história em si e como ela é construída) e Forma (a narrativa, a linguagem utilizada).

    EG: Regionalista. O conto traz consigo elementos que lembram Meu Tio, o Iauaretê, de Guimarães Rosa. O autor faz uso do tema para criar uma história bastante concisa e reflexiva. Há também caras menções a The Black Cat, de Poe.

    C: O texto é bastante reflexivo. A forma como o personagem-narrador é construída é bastante inteligente. A ele, é conferida essa eloquência quase sobrenatural. O personagem se encontra no exato limite entre o que pode ser considerado genialidade e o que pode ser considerado loucura.

    F: A narrativa é construída de forma brilhante. O autor brinca com o duplo gente/bicho e assim (des)constrói os conceitos de humanidade. As figuras de linguagem usadas ao longo do conto demonstram um claro domínio sobre a língua.

  8. Evelyn Postali
    21 de maio de 2017

    Oi, Xamã,
    Gramática – Gostei muito de como estruturou as frases. No meu entendimento, como é o personagem que narra a história, não há erros de construção. Há regionalismos. Isso só enriquece a história.
    Criatividade – Pegar um fato que aconteceu na infância e desdobrá-lo na hora da morte, foi um pouco clichê, mas tudo bem. Acho que é a forma de se fazer que se desfaz o clichê, no meu ponto de vista. E isso está ok.
    Adequação ao tema proposto – Mais ou menos. Não visualizei direito a imagem do desafio, mas o desenrolar da história me prendeu de um jeito que foi impossível pensar em roupa, mala, e tudo o mais.
    Emoção – Inegável a emoção que brota como resultado da leitura do texto. Tem um entendimento de mundo, de vida, de gente, que nos faz parar e pensar em nossa própria vida, em nosso contexto, onde estamos e como agimos.
    Enredo – Simples, mas eficaz. Um enredo não precisa de mirabolantes reviravoltas para emocionar, para deixar ecoar em nós a mensagem do escritor.
    Parabéns pelo conto!
    Boa sorte no desafio.
    Abraços!

  9. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    20 de maio de 2017

    Ao começar a ler, pareceu-me que o personagem era uma pessoa simplória, evidenciado pelo modo de falar, um artifício um tanto manjado para se contar um causo. Porém, quando cheguei nesta parte: – “Vim pra cidade, consegui um emprego, comecei a estudar e ganhei gosto pela leitura e a escrita.” – aceitei que era um modo de falar coloquial, e não a de uma pessoa pouco instruída.

    O conto tem umas belas passagens, principalmente a do menino abraçando o bicho.

    O final ficou dúbio para mim, mas isso não quer dizer que seja um final ruim.

    Parabéns!

  10. Olisomar Pires
    20 de maio de 2017

    1. Tema: Adequação boa.

    2. Criatividade: Muito boa. Sujeito acredita que irá morrer em breve e conversa com um padre sobre sua interpretação da vida e morte.

    3. Enredo: Muito bom. A estória é bem contada.

    Em primeira pessoa, tem-se o aspecto aconchegante do discurso. Boas imagens e construções dão um toque valioso ao texto ( “tava com a roupa do meu pai.” – “de longe pareciam chifres saindo da boca” – “e no sangue dele tinha ódio,” entre outras).

    A lembrança do fato passado na infância é muito tocante e dá o tom dramático que o texto requer para se tornar crível.

    O que aconteceu para que o pai maltratasse o bicho ? Foi só a cachaça ? são perguntas que angustiam e fazem o conto reviver após lido.

    Escrita: Com sua característica levemente regionalizada, informal, caiu muito bem para o texto.

    Há uma certa incoerência no personagem ao dizer que “tomou gosto pela leitura e escrita”, mas continua a falar incultamente, parecendo mesmo uma criança narrando. Talvez tenha sido impressão minha e se assim o foi, parabéns ao autor pelo efeito.

    De modo geral e no contexto apresentado, não notei dificuldade gramatical.

    A leitura corre tranquilamente. É um belo texto.

    Impacto: Alto.

    A confissão pré-morte do adulto, o gatilho da infância a incomodar, o aspecto poético do texto, se amoldam e conquistam o leitor. Pelo menos a mim.

    Boa sorte.

  11. Ricardo Gnecco Falco
    20 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação, permitindo-me
    ampliar meus horizontes literários e, assim, favorecendo meu
    próprio crescimento enquanto criativa criatura criadora!
    Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e todos
    os demais — conforme o mesmo padrão, que segue abaixo,
    ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    “Meu pai voltava de um longa viagem…”; só percebi este lapso (de revisão, na verdade). Os “erros” gramaticais encontrados foram todos da personagem, não do autor, e fazem parte da ambientação da história.

    – CRIATIVIDADE
    Muito criativo. O texto é bem rico em imaginação e leva o leitor pelas mãos através da história de uma (última) Confissão. A mistura de regionalismo, filosofia e religião deu à história um saboroso — e criativo — brilho. Parabéns!

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    100% dentro do tema. Trajes, mala e — claro — javali estão presentes.

    – EMOÇÃO
    Bem dosada. Uma antiga lembrança que, dado o ‘start’ após tanto tempo sobrepujada dentro da mente do protagonista, explode em um final surpreendente e, pode-se dizer, aterrador. Em uma interpretação mais pendente para o lado terror religioso, seria possível renomear a obra para algo tipo… “Legião”.

    – ENREDO
    Bem trabalhado e mostra o domínio do/a autor/a na condução de sua história, até o desfecho que, como um bom Conto deve ter, fica ‘ecoando’ (grunhindo?) na mente do leitor após o findar da leitura. Parabéns!

    *************************************************

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.