EntreContos

Literatura que desafia.

No Limiar do Amanhã (Antony Aspenror)

Em algum lugar da Terra, ano 1899…”

“- Ouvintes de todo o planeta, aqui é N.A.D.1.E.R realizando a última transmissão de rádio da Terra. Diretamente dos céus iluminados do deserto de Atacama eu vislumbro os últimos instantes de nossa história. A nossa querida lua, aquela que envolveu poetas em seus sonhos e fez emocionar apaixonados pela ciência e curiosos pelo universo, neste momento nefasto, se despedaça acima de nós. A tecnologia das espaçonaves a vapor e a ganância humana nos levaram a explorar o espaço e com ela, sugar todo o minério de nosso satélite natural. As grandes corporações sem escrúpulos em ganhar dinheiro e poder, acabaram por sua imensa irresponsabilidade perfurando seu núcleo que eclodiu como uma panela de pressão a esmigalhando.

Milhares de fragmentos estão suspensos no espaço vindos em nossa direção. Um deles possui o tamanho e formato da Itália. Uma bota intergaláctica que vai nos chutar da existência e está em rota de colisão com o nosso pálido ponto azul. É meu dever chorar por nossa raça. (Momentos de silêncio e voz embargada). O que foi que nós fizemos? Somos a única raça no universo que escolheu a própria extinção destruindo sua única casa. Hoje, bilhões de vidas e uma infinidade de criaturas lindas e indescritíveis deixarão de existir. Para todos que estiverem me ouvindo, saibam que amei minha esposa e filha, muito – (novos momentos de voz embargada), e por estarem distantes vendo os mesmos fragmentos caírem, observo milhares de estrelas cadentes iluminarem nosso céu. Dentro de poucos instantes, não haverá mais resquícios de quem um dia fomos. Porque não cuidamos de nós mesmo? Agora e para sempre é tarde demais para saber. Não importa mais o que fizemos ou deixamos de fazer em nossa existência pois o amanhã não existirá e ninguém mais se lembrará de quem um dia fomos. Sobre nossas cabeças, definitivamente, o céu está caindo… *Estática*”

Naquele instante, distante dali, Dr. Adam Inalim Olecram, pousa seu dirigível monomotor em uma floresta gelada. Do seu interior, revela-se um homem de idade avançada, portando sua antiga roupa de aviador, uma mala e numa das mãos preso por uma corrente, um enorme javali. Seu tempo está acabando e parte ao encontro de um pedido de socorro.

– PAAAAAI! Grita a voz de um jovem rapaz em total desespero. O frio da floresta glacial lhe penetra o corpo, mas é o devastador peso da alma que lhe gela por dentro diante do horrendo evento apocalíptico. Ele caminha trôpego em direção do aviador que a passos largos se dirige ao rapaz.

– A CULPA É MINHA PAI! O rapaz portando um blazer preto e um relógio de bolso do lado de dentro, com o emblema da mesma empresa que perfurou o núcleo da lua, se joga aos braços do pai em busca de conforto.

– Filho meu, eu estou aqui. Ele o abraça. Os reconfortantes braços de um pai são evidentemente um porto seguro em meio a qualquer tragédia, mas no fim do mundo, será que o amor de um pai é o suficiente?

– PAI ME PERDOA! Eu dei a ordem para as perfuratrizes a vapor furarem o núcleo, condenei a todos nós. Sua cabeça se aninha ao peito do pai, mas não importa o que faça, para todo sempre se houvesse uma história a ser cotada no dia de amanhã, Richard seria conhecido como o maior genocida de todo um planeta.

Pelo orgulho e poder, o filho de um renomado doutor em física e grande matemático condenou toda a raça humana. Agora, chora em desespero o eclipsar da Terra. O tempo continua a andar para a destruição total e toda vez que piscamos os olhos, o mundo muda sobre nossos pés.

– Filho, eu te concedo todo o meu perdão, mas você aprendeu com a dor sentindo que mesmo que eu lhe absolva, o céu sobre nossas cabeças continua caindo. – O olhar de amor do pai compreende nos olhos do filho todo o pesar e a dor. Será que pai e filho se conheciam? Será que ambos disseram tudo o que tinham que dizer? Quais perguntas nunca foram ditas e quais respostas nunca foram dadas?

– Eu sou o assassino da humanidade pai, não há mais volta. O remorso e o desespero, latentes nos olhos de Richard lhe revelam a vileza da humanidade sob seu derradeiro castigo.

– Por isso estou aqui filho. Ainda resta uma última esperança! Neste momento, os ouvidos do rapaz se atentam ao seu progenitor que em pleno juízo de sua fala vê seu pai lhe sorrir. Dr. Adam agarra o maior algoz da humanidade e juntamente com o desajeitado javali, os leva para próximo do dirigível.

Numa clareira, o traidor de nossa raça se depara com um estranho objeto. Uma caixa de ferro, cuja porta possui sete engrenagens e uma fechadura circular. Mais ou menos de um metro e meio de altura por dois de largura, um longo tubo enrugado que se conecta na lateral e cima da geringonça, com uma única lâmpada no topo. O utensilio na verdade se parece muito com um estranho cofre.

– Este filho, é o meu porquê de trazer você aqui. Quando criança em minha primeira feira de ciências eu rascunhei este cofre especial. Um desconhecido com um estranho cachorro me disse que é nos pequenos detalhes que se constroem os grandes momentos. Ele me incentivou a não desistir do meu sonho de garoto. Por causa dele, meu projeto se realizou e este é meu presente a você, chamado de Limiar do amanhã, a máquina do tempo vai poder finalmente fazer tudo o que eu deveria ter feito como pai e não fiz. Te salvar.

– Do que você está falando pai?

– Veja filho – Aponta o aviador para a porta do cofre – Uma engrenagem para os anos e os aniversários de nossa própria história, outra para os meses de nossa vaga glória. Uma para os dias que cotidianamente conhecemos, outra para as horas que descuidadamente discorremos. Uma engrenagem para os minutos que passamos a contar e outra para os segundos que nos fizeram perder o ar. A vida e o tempo são importantes demais filho para se jogar fora. Você fará uma viajem, eu te enviarei na minha máquina do tempo para que tenhas uma segunda chance. Sem saber o que dizer o jovem Richard atenta a tudo sem respirar.

– Tome esta mala.

– O que tem nela pai?

– Todo homem carrega consigo sua própria bagagem. Porque contigo deverias ser diferente? Dentro dele te lembrarás quem foi, quem és e quem será no novo mundo. Leve também contigo o javali.

– O javali? Não! vou levar você comigo pai. Porque levaria um javali medonho, fedorento e sem raciocínio comigo?

– Porque toda criatura tem seu valor, até mesmo os piores deles merecem uma segunda chance – Foi quando os olhos do pai encontraram aos do filho e Richard entendeu por si mesmo e sem nenhuma ajuda, de que merecia a salvação tanto quanto o insignificante javali.

Dr. Adam então colocou o filho, a mala e o javali no Limiar do amanhã. A luz dos céus se tornaram intensas e o grande pedaço destrutivo da lua já entrava em nossa atmosfera. O impacto levaria alguns minutos para destruir tudo e tão logo as engrenagens foram girando, o filho lhe fez uma última pergunta antes de fechar a porta.

– Porque pai você não vem comigo?

– Porque a última engrenagem da máquina filho é um segredo que a você ainda não pode ser revelado. Um dia tu conhecerás como também fui conhecido e por fim o segredo será esclarecido. A máquina só liga pelo lado de fora. A morte é uma dívida que todos os homens pagam, mas a você filho, hoje eu saldo esta dívida em seu lugar. Tenha uma boa vida. Faça por valer a pena. Eu amo você.

Quando o jovem Richard sentiu se apertar com o javali, sobre os últimos instantes da fresta da porta se fechando ele viu o iluminar da onda de destruição dizimando seu planeta natal e acabando com a história terrestre num impacto profundo sem precedentes.

O que aconteceria agora? Nenhuma luz a piscar ou sino dentro da caixa de ferro, apenas a escuridão total e o respirar do javali que parecia entender o momento desesperador, ficando imóvel cara a cara com o carrasco da humanidade e se contendo em seu parco lugar.

Por um instante ambos sentiram a caixa de ferro tremer e após um tempo sem medida, imersos no silêncio, homem e besta notam a porta se abrir. “Estamos vivos javali?”, pensou Richard ao sair do cofre do tempo e pôr seus pés num branco corredor de lajotas.

– PAI DEU CERTO! ESTAMOS VIVOS! – Agradeceu aos céus e ao pai por tamanha benção exclamando em voz alta, sem saber onde estava, chorou de saudade do pai.

Voltando a si e carregando o pesado javali pela corrente, o salvo destruidor de um mundo caminhou por um longo corredor. Portas em suas laterais mostravam classes de aula. Logo em seguida em um grande salão que mais parecia um ginásio de esportes, centenas de crianças e adolescentes agitados, apresentavam inúmeros projetos em bancadas bem ilustradas, onde adultos com pranchetas e cadernos preenchiam informações.

De repente um choro contido.

– Ei garotinho, porque está chorando encolhido embaixo deste banco? Com olhinhos vermelhos de lágrimas o garoto respondeu:

– Meus colegas por acharem meu projeto idiota, chutaram minhas coisas e eu perdi minhas pequenas peças que compõem meu trabalho – Olhando mais profundamente para o homem, o garotinho percebe o imenso javali, ali, bufando e olhando o garoto como se o quisesse entender.

– Que estanho cachorro o senhor tem? Aquilo soou deveras familiar ao resgatado viajante do tempo. – Sabe moço, acho que vou desistir do meu projeto, ele nem é tão bom assim. Compadecido pela tristeza do menino, Richard lembrou das palavras do pai. Será que devo ajudar o garoto? Em sua ânsia por ser uma pessoa diferente decidiu, logo após, confrontou o garoto em sua timidez.

– Sabe, é nos pequenos detalhes que se constroem os grandes momentos. Não desista do seu sonho. Se você o desejou ele pode ser real. Ei veja! Suas peças não parecem como peças de um relógio? Apontou Richard para o chão.

– Sim, são as peças do meu cofre relógio! E assim a dupla começou a juntar as peças espalhadas.

– Porque um cofre relógio? Pergunto Richard.

– Porque quero guardar nele todas as coisas de que tenho mais precioso e saber que em tempo nenhum, lugar ou pessoa poderá me roubar o que nele tenho guardado. Ao sentir profunda compaixão e ternura do garoto pela sua lucidez e conhecimento, uma a uma as peças espalhadas foram sendo encaixadas.

– Esta peça menor garoto, a sétima, para que serve?

– Hora bolas, para que serve um cofre se não podemos abrir? A sétima peça é o dispositivo de abertura. E o garoto ajeitou todas as engrenagens onde a sétima era o dispositivo de abertura.

– Adam, venha seu projeto está para ser avaliado. Uma bonita professora em seus óculos de armação prata e portando um bonito vestido vermelho chamou o pequeno engenheiro de longe.

– Garoto, porque não põe também uma engrenagem de abertura pelo lado de dentro? Assim duas pessoas podem manusear o cofre.

– E porque faria isso?

– Assim se um dia você construir um cofre maior, poderá abri-lo pelo lado de dentro também.

O garoto ficou pensativo, refletiu naquela ideia longamente e saiu.

E este é o momento que o coração de Richard teve certeza de que nada no universo é obra do acaso. “Um dia conheceremos como também somos conhecidos pai”, pensou.

Pegando seu cofre relógio o garoto partiu feliz com a professora. Deixou para traz um novo amigo que com lágrimas emocionadas, aprendeu sobre o valor das pequenas coisas, num tempo e espaço distantes, encontrou vida nova no limiar do amanhã…

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Um comentário em “No Limiar do Amanhã (Antony Aspenror)

  1. Ilustre Temp
    20 de maio de 2017

    Ótimo conto! Parabéns (e boa sorte)! segue que se derrubar é pênalti

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.