EntreContos

Literatura que desafia.

Fuga (Cabritto Gonzales)

Foi um milagre! As árvores altas da floresta diminuíram o impacto. Mesmo com grandes avarias no avião, o piloto saiu intacto da queda. Se os alemães percebessem, teriam lançado uma última bomba sobre o grande capitão, apenas para descartar qualquer possibilidade de sobrevivência. Mas para este, o problema agora seria outro: Como sairia dali? O escuro labirinto formado por troncos grossos e copas volumosas, o impedia de se localizar. Pegou então o que podia na pequenina cabine de comando, e pôs-se a caminhar a esmo, procurando por ajuda.

– Boa tarde, quem vem lá?

– Quem fala comigo nesse mundo desconhecido? – perguntou aflito o aviador.

– Sou um velho habitante da região, punido pelo feiticeiro inimigo. Fui transformado em porco selvagem por ter liderado a rebelião. Estou em fuga. Preciso voltar a minha tribo e sua companhia me seria preciosa. Percebo que tu és um soldado corajoso e tens artefatos que podem servir de armas… Queres a minha ajuda?

– Pois apareças a mim, amigo.

– Estou-me cá. Como vês, não me pareço com quem realmente eu sou.

– Sim, o feiticeiro fez um bom trabalho.

– Tal como os aviões que o abateram, se me virem escapando, incrementarão o meu castigo.

– De que me vale levá-lo?

– Ora, você tem armas e poderá nos proteger. Mas eu tenho astúcia para caçar por nós dois. A caminhada será longa e tu precisarás de alimento.

– Pois então vamos juntos à procura de uma saída.

E enquanto caminhavam temerosos…

– Por favor, levem-me também!

– Mas quem me fala agora?- perguntou o homem espantado.

– Estou aos seus pés, soldado.

– Quem mais está aí senão uma velha mala?

– Sim, sou uma mala… Muito útil a vocês nesse momento. Preciso sair daqui, pois a mim também foi posto um feitiço.

– Mas que terra louca é essa repleta de seres enfeitiçados? Não estaria eu também vulnerável a essas magias?

– Sim, certamente – retrucaram a mala e o porco instantaneamente.

– Se te virem conosco, aviador, serás transformado em algo que jamais imaginou ser – continuou a mala.

– Se tiverem piedade de ti… – completou o javali.

– Mas de que me vale levá-la também?

– Estou na região há muito tempo. Sou mesmo bem antiga. Já passei por muitos caminhos por aqui. Levem-me e mostrarei a melhor saída.

O aviador fitou o animal ao seu lado, que concordou com a proposta. O homem não tinha muito a escolher. Os enfeitiçados tinham razão. Não sairia daquele escuro sem uma boa guia ou alguém eficiente para trazê-lo comida.

– Pois então me deixe segurar a sua alça para que possas nos conduzir.

– Sim, toma-me em suas mãos, mas fiques atento. Não se distraias ou mesmo se distancies de suas armas. Os perigos são muitos. Protejam os olhos dos espinhos menores e sigamos sempre juntos.

– Tu sabes mesmo o caminho de saída da floresta?- indagou o porco selvagem.

– Sei. Tomemos o rumo da alameda mais escura, à direita.

– Mas não conseguiremos ver nada por lá – ponderou o animal.

– É a única saída. Estarei orientando a mão do capitão. Sigam meus apontamentos.

Durante três dias e duas noites não se separaram. O javali demonstrou grande competência em caçar. Fizeram até uma pequena reserva de alimentos e a estocaram na mala. Esta, por sua vez, seguiu com determinação sua função de mostrar os melhores atalhos. Até que chegaram a uma grande praia…

Diante do céu límpido, do mar calmo e do ar levemente salgado, lavaram-se.

– Amigos- disse finalmente o aviador – Eu acho que Deus esteve ao meu favor quando colocou vocês comigo. Mas penso que já me achei. Daqui posso ter um norte e almejar terras conhecidas. Logo me acharão.  Despeço-me e agradeço por me manterem vivo e esperançoso nesse difícil empreitada. Sigam seus objetivos e se salvem também.

O aviador amarrou a mala ao javali, utilizando a corrente que o animal carregava ao pescoço, e os fez desaparecer no escuro da floresta.

Sozinho agora na praia, o homem esperou por muitas horas que o resgatassem. Porém ninguém apareceu. Desesperado, caminhou freneticamente pela areia. E quando suas esperanças começaram a ceder…

– Boa tarde. Fui prisioneiro de uma tribo local. Por vingança, o feiticeiro transformou-me em jangada. E meu filho em cantil. Precisamos fugir daqui. Talvez, se nos unirmos, possamos nos ajudar…

Salvo finalmente, o grande capitão Thomaz S. Northon lideraria a esquadrilha inglesa no embate definitivo com o inimigo. Vitorioso, foi homenageado, condecorado e passou a viver como herói. Em muitas outras vezes sobrevoou aquela floresta, de onde um dia estranhamente, conseguira escapar. Mas não viu sinal de vida. Talvez os feiticeiros locais tivessem dado cabo de seus amigos. Talvez nada daquilo tivesse existido, e tudo não passou de um grande delírio naqueles momentos de completo desespero.

Sossegado em sua casa poucos anos depois, em um trivial almoço de meio de semana, morreu intoxicado. Aos peritos da polícia, o cozinheiro confessou, antes de desaparecer diante de todos os olhos, que o incidente fora causado por ingestão de carne suína, apodrecida por mau armazenamento dentro de uma mala velha. O poder e a ira dos feiticeiros romperam os limites daquela floresta.

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22 comentários em “Fuga (Cabritto Gonzales)

  1. Afonso Elva
    26 de maio de 2017

    E a ajuda devida ao porco selvagem?? Senti falta de descrições e mais cadência no ritmo dos fatos. Tudo acontece muito rápido, mal temos tempo para absorver as cenas.Um ponto forte foi a , de certa forma, Ilha da Fantasia, que seria melhor aproveitada se, pulando o final, o conto se concentrasse mais nela 😉
    Forte Abraço!

  2. Iolandinha Pinheiro
    26 de maio de 2017

    Gente! Que conto é esse!? Voltei a ter sete anos lendo o seu texto. Uma mistura de A Bela e a Fera com Alice no País das Maravilhas, encantador, criativo, divertido! Até os erros na conjugação dos verbos na segunda pessoa do singular pareceram propositais, lembrei imediatamente das conversas do Chapeleiro Maluco e da Lebre da Floresta. O ponto dele encontrar coisas que precisava também me remeteu à Alice que encontrava bolinhos e poções que a faziam crescer e encolher. Parabéns pelo eu conto. Fluidez, criatividade, adequação ao tema, tudo direitinho. Num concurso em que a maior parte dos textos é escrita com uma linguagem apurada e travadora, achar este seu é um bálsamo. Obrigada, autor.

  3. Catarina
    25 de maio de 2017

    INÍCIO com milagre e queda de avião já despertou meu interesse. Mesmo com a farta distribuição de vírgulas desnecessárias, a TRADUÇÃO DA IMAGEM é brilhante e me diverti um bocado com a batida de fábula. Os personagens estão ótimos.
    O fim poderia ser melhor trabalhado seguindo a qualidade do começo e meio. O pulo da jangada direto para a solidificação de um herói ficou meio forçado, mas o EFEITO feitiço do tempo deu uma aliviada. Bom conto.

  4. Mariana
    24 de maio de 2017

    Aposta na ideia simples do aviador acidentado, mas a subverte com elementos fantásticos. Uma proposta interessante. A escrita foi fluída e divertida, sem erros aparentes. A mensagem final foi dada, mas sem grandes mor ll ismos. Um conto agradável e redondo, parabéns ao autor.

    • Mariana
      24 de maio de 2017

      Moralismos* (malditos celulares)

  5. Antonio Stegues Batista
    23 de maio de 2017

    O enredo é simples, a historia de um aviador que cai com seu avião numa terra de feiticeiros que transformam pessoas em coisas. Ficou meio estranho as coisas aparecerem exatamente quando o homem precisava, como a jangada e o cantil com água potável. Creio que a história seria mais longa e o autor precisou cortá-la para caber no limite de 2000 palavras, faltando algumas explicações necessárias para total entendimento da história.

  6. Jowilton Amaral da Costa
    23 de maio de 2017

    Um conto simples, meio que uma fábula, cm uma história média e uma trama surreal. A abordagem da imagem no conto ficou bem interessante, mas, o desenrolar não me agradou muito. Achei tudo muito simples, fácil de resolver. A mala ser o guia na floresta ficou bacana. Já o javali nem tanto. Fiquei na dúvida se entendi o final, as vezes sou meio lerdo. Achei o conto médio. Boa sorte.

  7. Brian Oliveira Lancaster
    23 de maio de 2017

    EGO (Essência, Gosto, Organização)
    E: Inusitado e curioso. Excelente nas entrelinhas. Uma bela história quase-fábula, quase humor-negro. Tem muitas piadinhas sutis e consegue divertir, além de contar com um final de explicação lógica.
    G: Simples, mas gostei bastante. Parece aquelas histórias de livrinhos de feira. O início e o fim dão certo tom mais grave, mas o desenvolvimento é leve. Conseguiu arrancar-me um sorriso, mesmo com a explicação mais realista ao fim, o que tirou um pouco da “mágica”.
    O: A escrita flui bem, precisando de algumas pausas entre algumas frases, mas nada que incomode. Senti um viés de Pequeno Príncipe embutido, mas de forma suave.

  8. Roselaine Hahn
    23 de maio de 2017

    Olá Cabritto, bastante agradável de ler o seu conto a la Scherek, fantasia e criatividade num ótimo tom, apesar de algumas palavras parecerem dissonantes, como na frase “incrementarão o meu castigo”, fiquei com a sensação de que incrementar e castigo não combinam; a leitura do texto em voz alta ajuda a detectar o que causa estranheza aos ouvidos e de tabela, aos olhos. Acho que o último parágrafo destoou do enredo e da ambientação do conto. O resultado final considero positivo. Sucesso pra vc.

  9. Vitor De Lerbo
    23 de maio de 2017

    Uma leitura leve. Encontrar objetos/animais que na verdade são pessoas enfeitiçadas se tornou uma “gag” no texto, o que gera a graça.

    A única coisa que me incomodou foi o excesso de diálogos sem a famosa misancene; em alguns momentos, o texto parece um roteiro, e não um conto.

    Gostei do final, achei que foi uma ótima solução para a ingratidão do homem.

    Boa sorte!

  10. Neusa Maria Fontolan
    22 de maio de 2017

    Conto fácil de se ler, uma boa fantasia.
    Por se tratar de uma fábula, eu não gostei de o aviador ter morrido no final. Ele poderia ter pensado melhor, admitido que fora egoísta e ter voltado pra acabar com o feiticeiro e salvar aqueles que o ajudaram.
    meus parabéns
    boa sorte

  11. Luis Guilherme
    22 de maio de 2017

    Ola, amigo, tudo bem?

    Desde ja, desculpe pelos erros na escrita, detesto digitar no celular ahhaha.

    Olha, teu conto é bem criativo e expande os horizontes da imagem. A abordagem eh bem inesperada. Parabéns por isso! O conto tem uma leveza e pureza dignas das fábulas, mas achei que parou por ai.

    Nao me envolveu totalmente, e achei que as soluções apareceram muito facilmente, bem como o desfecho.

    Quanto à escrita, não encontrei grandes problemas gramaticais ou estruturais.

    Enfim, eh um texto criativo, com uma leveza gostosa, mas que, pra mim, careceu de algo que me prendesse.

    Boa sorte no desafio e Parabens!

  12. Olá, Cabrito,
    Tudo bem?
    Gostei da ideia de contar uma história em forma de fábula. Fábulas costumam trazer junto a si uma moral para a história ao final, mas creio que a morte do personagem principal contribui para esse fechamento no formato.
    Gostei da atmosfera que você criou, causando um estranhamento no leitor não só no que toca os personagens, mas no que diz respeito também à linguagem escolhida para sua narrativa. Quem pensaria em dar vida aos objetos inanimados na figura do desafio? Foi muita criatividade de sua parte, uma ótima “sacada”. Gostei.
    Parabéns por seu talento e boa sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  13. Priscila Pereira
    22 de maio de 2017

    Oi Cabritto, seu texto está muito bom, me lembrou a literatura infanto juvenil, fábula…
    Gostei de todos os elementos da imagem serem personagens falantes e ativos, muito original. Falta uma revisão. Boa sorte!!

  14. Evelyn Postali
    22 de maio de 2017

    Oi, Cabritto Gonzales,
    Gramática – Alguns poucos erros, mas nada que uma revisão mais apurada não resolva. Também porque, os erros não são tantos e nem tão graves. A leitura é corrida e agradável.
    Criatividade – Eu gostei demais porque misturou fantasia e é uma espécie de fábula.
    Adequação ao tema proposto – Está adequado ao tema.
    Emoção – Senti muita raiva da ingratidão do capitão e creio que ele morreu muito tarde. Ele deveria ter sido punido muito antes pelo desrespeito que fez. E como o conto provocou em mim uma emoção, mesmo que deveras negativa, está aprovado nesse quesito.
    Enredo – Começo, meio e fim bem ajustados. Tudo entrelaçado e coerente.
    Gostei muito. de tudo o que li.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

  15. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: assim, assim …

    2. Criatividade: Muito boa. Piloto abatido e perdido na selva e encontra com seres transformados por magia e que o ajudam a sair do local.

    3. Enredo: Partes conectadas e bem montadas. A surpresa fica por conta da transformação das pessoas em objetos e bichos.

    Talvez o desenlace não esteja conectado com o restante do texto. Por que matar o piloto ? Não faz sentido.

    4. Escrita: Boa, sem entraves, a leitura flui fácil e é divertida. Daria um bom livro infantil.

    5. Impacto: médio

  16. Iris Franco
    21 de maio de 2017

    Achei muito criativo!

    Eu achei bem feito o que aconteceu com o personagem principal! Extremamente egoísta, seu conto sintetizou bem: aqui se planta, aqui se colhe.

    O que mais achei legal é que você não colocou aquele final clichê do tipo “foi tudo imaginação”. EU IA ME DECEPCIONAR MUITO!.

    Em matéria de criatividade, seu conto não deixou nem um pouco a desejar.

    Mas, acredito que você não seja daqui e tem alguns erros gramaticais, como a crase em frente de verbo. Mas, todo mundo tem erros gramaticais, evoluímos com o tempo.

    Beijos e obrigada por trazer uma história tão divertida para meu dia! 🙂

  17. Milton Meier Junior
    21 de maio de 2017

    É como se fosse uma fábula. Alguns erros, provavelmente por falta de revisão, mas no geral muito bem escrito, lírico, leve e lúdico. Uma ótima leitura. Parabéns!

  18. juliana calafange da costa ribeiro
    21 de maio de 2017

    Gostei do conto desde o começo, uma coisa meio fantástica, feiticeiros, seres transformados em javalis e malas. Achei engraçado e criativo. Fiquei pensando onde isso ia terminar. Mas foi justamente nisso que me decepcionou no seu conto. O conto terminou muito mal. Um final, quase que colado ali, sem lé, nem cré, sem sentido, como que pra terminar de qualquer jeito em poucas palavras, e olha vc nem tinha estourado a metade do limite de palavras do desafio! Isso derrubou o seu conto no chão, na minha opinião. Vc podia até ter terminado como começou, com o piloto acordando de novo depois do acidente e percebendo que o que se passou foi um delírio, uma “fuga”, e que ele se encontrava novamente perdido na floresta. Teria sido mais digerível do que esse final sem sentido, corrido, sem capricho, meio q jogado ali, onde nem o protagonista mesmo sabe o que aconteceu consigo. Sugiro reescrever esse final, pode ficar muito bom.

  19. Ana Monteiro
    21 de maio de 2017

    Olá Cabritto. Tive alguma dificuldade em entender se você é luso a tentar disfarçar-se de português ou o inverso. E não arrisco uma conclusão. O que poderia melhorar seu conto: uma revisão mais apurada. Tem algumas falhas nascidas dessa ausência. Quanto ao resto, achei engraçada a forma como vai construindo a foto. O seu protagonista mostrou-se bastante egoísta na medida em que só se dispunha a ajudar caso dessa atitude pudesse tirar alguma vantagem. Daí que o final (o ponto mais alto da história) tenha resultado ainda melhor, pois o feiticeiro, além de se revelar como existente, dissipando dúvidas que pudessem subsistir a esse respeito, teve oportunidade de fazer justiça e assim criando uma nova interrogação: teriam sido os outros intervenientes, também eles merecedores do feitiço recebido? A história está perfeitamente adequada ao tema proposto e revela criatividade. Lê-se bem e sem sobressaltos. Boa sorte!

  20. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    21 de maio de 2017

    É um conto que lembra o estilo das fábulas ou contos de fadas. O português lembra o de Portugal. Enfim, foi uma leitura rápida e agradável, cumpriu a parte de entreter, mas nada de surpreendente.

    Parabéns!

  21. angst447
    20 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título resume-se a uma palavras e pouco diz sobre o enredo do conto. Sabemos que existirá uma fuga. Outro conto deste certame utilizou a mesma palavra para intitular sua criação.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado na forma de fantasia, misturando -se a um clima de filme de guerra. Achei criativo, apesar de me remeter à literatura infanto-juvenil.
    Algumas falhas de revisão:
    > para trazê-lo comida.> para lhe trazer comida
    > nesse difícil empreitada. > nessa difícil empreitada
    Também encontrei alguma discordância no uso da pontuação, mas nada grave.
    No geral, o conto é de fácil leitura, devido aos diálogos que agilizam e muito o ritmo da narrativa.
    Boa sorte!

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.