EntreContos

Literatura que desafia.

Cosmo-Xerox (Fil Félix)

A Grande Lua nos observa, em transe.

Derruba seu véu, o colo desnudo.

Uma cambraia pinga da noite clara, titubeia ao vento.

Cai lentamente sobre a Rua Freitas, número 10.

Envolve uma casa em trama de mil e um fios.

Reveste portas e janelas. E lá fora, silêncio.

 

CIANO

Foi como um estalo rouco. Bárbara olhou para a janela à sua frente, parou de cortar as cenouras e repousou as mãos sobre a pia. Algo lhe passou pela mente, mas não saberia explicar o quê. Pelo canto do olho, teve a impressão de ver um vulto negro em movimento, mas não encontrou nada ao procurá-lo. Virou-se, encarando a mesa com quatro cadeiras, bem ao centro da cozinha. Um homem de pele clara e um enorme nariz a observava, com sua careca reluzindo feito diamante. “Algum problema, amor?”. Ele comentou. Mas ela estava extasiada, como se uma enorme confissão lhe fora feita, ficando sem reação. “Nada… está tudo bem”. E foi aqui que nossa história teve início, como peça de teatro às avessas. Com as cortinas alvas ainda fechadas, um espetáculo privado da vida cotidiana.

Há quanto tempo estavam casados? Sete, oito anos? Não era como uma década inteira de convivência, então porque não reconhecia seu marido naquele momento? Bárbara pensava com os próprios botões. É nessa altura em que confrontos são feitos? Em que se pergunta pelo homem que conhecera no passado? De qualquer maneira, o jantar deveria sair. Terminou de cortar as cenouras, o coentro, as batatas e os pimentões, juntou tudo e despejou em cima do porco do mato que preparava, cobrindo com um pedaço de papel alumínio, abrindo o forno e o pondo dentro. Foi um alívio tirar o avental e finalmente sentar à mesa, olhar nos olhos de… Carlos? Sim. Carlos. Ela começava a lembrar. “Acho que minha pressão baixou, tive uma tontura”. Confessou.

Um silêncio constrangedor acompanhou o casal por alguns instantes, quando foi quebrado pelos gritos de felicidade de uma garotinha, entrando aos tropeços na cozinha e jogando-se ao colo de Bárbara. “Mamãe! Senti tanta sua falta!”. Carlos fitou a criança. “Mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…”. Um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente. Ela tocou a cabeleira vermelha da criança, acariciou seu rosto, virando-o para cima, para enxergá-lo com clareza. “Bárbara, tem certeza que está bem?”. E foi como se o estalo nunca existisse. Garganta molhada. A Dona de Casa encarou Carlos mais uma vez, abrindo um enorme sorriso: “está ótimo. Nunca estive tão bem em toda minha vida…

 

MAGENTA

O restante da noite foi de extrema alegria para Bárbara e sua família. Comeram uma deliciosa torta de limão. Assistiram ao final da novela das nove. Conversaram sobre casualidades e banalidades. Se é que há diferenças entre as duas conversas. Mas ela se divertia com as piadas do marido. E se impressionava com os desenhos que Olívia fez durante o dia, que ainda não tinha visto. Como dizem, de perto ninguém é normal; porém de longe, uma família unida e amorosa.

Carlos foi o primeiro a demonstrar sua vontade de dormir, bocejando alto. “Amor, acho que já vou…”, e então algo de inesperado ocorreu: seu olho esquerdo saltou do rosto e foi ao chão, rolando pelo carpete como bola de gude. “Eita, pai… deixa eu pegar para o senhor”. Olívia apanhou o olho com suas mãos diminutas, entregando-o para Bárbara. “Pode deixar que amanhã eu costuro de volta… O seu também está se soltando, filha. Deixa eu puxar de vez… Peraí… Pronto. Amanhã aproveito e conserto os dois”. Carlos se despediu da esposa com um beijo no rosto, apanhando a filha no colo e subindo para o andar de cima do sobrado. “Eu a ponho pra dormir, enquanto arruma a cozinha”.

Bárbara voltou à cozinha, encheu dois potes com água e colocou um olho em cada um, como se estivesse acostumada a isso. Rotina, sabe? O porco do mato começava a cheirar, mas ela não parecia se importar. Olhando para a janela à sua frente, mais uma vez, organizando a louça na pia para lavar, percebeu uma certa brisa acariciar a cambraia do lado de fora. Porém de branca, passou a ter tons mais avermelhados. Foi quando a campainha tocou. Secando as mãos no avental, se dirigiu à porta, imaginando quem poderia ser àquela hora. E percebeu o vulto negro correndo às suas costas, mas nada encontrou ao virar-se. Abriu a porta e reparou no rapaz curioso estacionado na soleira, de viseira neon, casaco pesado e um sorriso convidativo. Carregava uma enorme maleta numa das mãos. “Boa noite, Bárbara. Me chamo Prometeu e gostaria de lhe apresentar algo, se não for incomodar! Posso entrar?”. Ela tentou se desculpar, informando que o horário não era propício, mas Prometeu agradeceu mesmo assim e entrou na residência, atravessando a sala e sentando-se à mesa e, como por extinto, colocou a maleta sobre ela. “Sente-se, por favor. Há algo que precisa saber.

 

AMARELO

Mas quem o senhor pensa que é, pra ir entrando assim…”. “Sente-se, por favor”. Ele repetiu. Num misto de medo e euforia, ela obedeceu e encararam-se. O estranho abriu a maleta e retirou um extravagante globo de metal, objeto que chamou de Élenchos. “Bárbara, você está sob o véu das Moiras. Você precisa retirá-lo de sua casa o mais rápido possível, antes que a situação piore…”. Seu rosto não possuía expressões, era uma grande tabula rasa. Mas algo nele assustava nossa Dona de Casa e, novamente, a iguaria no forno começava a exalar seu aroma apetitoso. Eflúvios, diria! Como um furacão, Olívia desceu as escadas e correu para abraçar sua mãe. “Não acredite nele, mamãe, é tudo mentira!”. E caiu em prantos, seu outro olho ameaçando pular. “Do que está falando, filha? Você conhece este homem?”.

Olhe ao seu redor, Bárbara. Isso não é real e, lá no fundo, eu sei que você também sabe disso”. “Eu não entendo, Senhor… Prometeu? Você quer dizer que isso é um… sonho?”. O êxtase anterior voltou a pulsar por todo o seu ser, a dúvida pairando sobre a consciência. “Não, isso não é um sonho. Sonhos são feitos de desejos. A malha das Moiras é feita de possibilidades. Ela lhe cobriu e é meu dever pegá-la. Mas você precisa encontrá-la, primeiro. Os fios se materializam conforme as possibilidades que sua vida oferece, das impressões tiradas de você.”

À medida que o aroma incensava o ambiente, Bárbara ficava mais e mais enjoada. Da situação e de si mesma. O que esse homem estava dizendo? Ela não conseguia organizar os pensamentos, que atropelavam uns aos outros. Alguns, inclusive, ela tinha certeza que não eram dela. Olívia, ainda em prantos, tirou seu olho e entregou à mãe. “Me ajude…”, ela balbuciou. Mas Bárbara não teve tempo para absorver a situação, Carlos surgiu imponente à porta, prestes a explodir. Literalmente: suas veias nunca estiveram tão saltadas quanto naquele momento, esbravejando contra o convidado indesejado, seu rosto em chamas. Um único olho. Segurou Prometeu pelo colarinho, jogando-o ao chão. Bárbara abraçou a filha, pegando distância do conflito. Prometeu tentou, sem sucesso, escapar de seu agressor, lançando um ultimato: “Bárbara, lembre-se… Você não tem filhos!”. E foi como outro estalo. Ela, perdida em suas próprias lembranças, deixou uma lágrima escorrer pelo rosto.

 

PRETO

Na confusão, o Élenchos rolou pelo chão e passou a emitir um som agudo. Para Bárbara e Prometeu, não passava de um zunido chato. Mas para Carlos e Olívia, foi como as trombetas finais; os dois tamparam os tímpanos com as mãos e caíram em agonia, se contorcendo de dor. A casa, como um órgão familiar vital, gemia e tremia. A cambraia mudando de cor cada vez mais rápido, tirando impressões e mostrando possibilidades. O instinto materno falou mais alto e ela agarrou a filha em seus braços, ficando as duas acuadas num canto da cozinha. Fios dos mais diversos tipos surgiram das paredes e arremataram o corpo de Prometeu, deixando-o preso. “Lembre-se, Bárbara, só você pode mudar sua vi…”, e antes de terminar sua sentença, um punhado de meadas coloridas encheram sua boca. “Eu estava tão feliz….”.

Mas a felicidade, o que seria? E como alcançá-la? Destino, desejo ou uma possibilidade? Mais e mais linhas surgiam das paredes, enlaçavam móveis e objetos. Algumas puxavam Carlos e Olívia, como marionetes. Uma cena de tapeçaria! Bárbara segurou a filha, ambas chorando. As lágrimas escorriam sobre seu rosto e não conseguia parar de pensar no que escutara antes. Não tinha filhos. Não podia ter, como lembrou no turbilhão de pensamentos. Um cheiro de queimado passou a substituir o aroma de antes. Ela sabia onde estava o problema. Onde tudo teve início. O pensamento de que nunca daria um filho ao marido, o casamento infeliz, o jantar forçado… O ápice do baile de máscaras: o jantar. Ela lembrava. Sua alma queimava e, em prantos, soltou Olívia, que foi drenada pelas tramas dos mil e um fios.

Em meio ao caos, Bárbara levantou e se posicionou de frente à pia, fitando a janela. A cambraia colorida balançando, desfiando-se. Decidiu não pensar muito. Abriu o forno, deixando escapar uma fumaça densa e negra, retirou a forma com a ajuda de um par de luvas e despejou a iguaria no lixo. Ao voltar os olhos à mesa, encarou seu marido. Mas não era Carlos. Outro homem, de cabelos dourados. A fala, porém, foi a mesma: “algum problema, amor?”. O caos se transformou em silêncio e harmonia. O conhecimento lhe foi entregue entre um vácuo do destino e outro. Um insight, diriam, de nossa Xerazade suburbana. Passou uma vida crendo que não poderia ter filhos. Mas percebeu uma nova possibilidade, uma nova história antes de entrar no palco. Uma peça às avessas, cortinas abrindo.

 

Os fios foram cortados. A conexão, perdida.

A Grande Lua em zabumba estelar.

Como puxando a saia de uma virgem, o véu é removido.

Prometeu o guarda em sua maleta e caminha pela rua.

Ao seu lado, o símbolo da masculinidade.

Seja ele de Calidão ou de Erimanto.

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61 comentários em “Cosmo-Xerox (Fil Félix)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Olha, seguinte: eu amei isso tudo, hahahahha! Por mais que tenha a certeza de que alguma coisa escapou, mas o que não escapou foi delicioso. E acho que até devia ter acrescentado mais coisas, que dessem ao leitor mais base. Mas sei lá, será que sempre precisa ter isso? Bárbara é daquelas personagens que dá vontade de você ter criado. Há algumas coisinhas para arrumar, só sei que viajei pelo cosmo com esse texto, nem tive tempo pra reparar (muito) nessas coisas. E
    é daqueles textos que adoraria ter escrito. Parabéns pra você, mensageiro. E a imagem de abertura é linda.

  2. Wilson Barros
    23 de junho de 2017

    A ficção científica aqui é do estilo Ray Bradbury, romântica, poética, suave. É tudo como um episódio de “além da imaginação”, só que poético, vibrante, inefável. Tudo altamente original, em um estilo inovador, próprio. Um dos melhores contos do desafio.

  3. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Cosmo-Xerox (Mensageiro Interplanetário)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: parcial. O sujeito na porta e o javali no forno.

    ASPECTOS TÉCNICOS: gostei muito do tom narrativo, das surpreendentes ações, quase surrealistas, do simbolismo forte das escolhas. Gostaria muito de escrever nesse registro, nessa altura, com essa voz. Pequenos erros de digitação que não atrapalham.

    EFEITO: estranhamento, mas de uma forma boa. A autora (arrisco aqui, teatralmente) soube conduzir a mim, o leitor, até o desfecho satisfatório.

  4. Raian Moreira
    22 de junho de 2017

    Que texto legal, existencialista. Frases bem construidas, tenho que aprender com você hehe. Não houve adequação com o tema, não que percebi.
    No geral gostei muito, esse conto é uma obra de arte, uma poesia mítica. Pra escrever algo assim necessita de estudo, conhecimento, não simplesmente sentar e escver qualquer coisa. Houve planejamento. Parabéns

    • Mensageiro Interplanetário
      22 de junho de 2017

      Que bom que gostou, Raian! Quando terminar, solto a mensagem interplanetária que queria passar. Mas reforçando a ideia do tema, tentei abordar os elementos da imagem de maneira separada. Não numa figura só.

  5. Sabrina Dalbelo
    22 de junho de 2017

    Olá autor (a).
    Eu adorei. Gostei desse looping de sensações criado. Viajei com Barbara, tomei a mesma pílula que deram a ela, e saí da matrix.
    O conto é assim, por camadas, fora da caixa. E muito bem escrito.
    Eu quero ler o que tu escreve. Lindo!
    Eu só não sei como a imagem do desafio pode se encaixar aqui. Eu penso nela e ela não casa com a história. Depois gostaria que tu nos contasse.
    Super abraço.

  6. Wender Lemes
    22 de junho de 2017

    Olá! Para organizar melhor, dividirei minha avaliação entre aspectos técnicos (ortografia, organização, estética), aspectos subjetivos (criatividade, apelo emocional) e minha compreensão geral sobre o conto. Tentarei comentar sem conferir antes a opinião dos colegas, mantendo meu feedback o mais natural possível. Peço desculpas prévias se acabar “chovendo no molhado” em algum ponto.

    ****

    Aspectos técnicos: quando um conto busca a poesia e peca na revisão, fica uma impressão meio chata de pedantismo. Isso não ocorre aqui, uma vez que o lado ortográfico do conto está impecável. O apelo estético aqui é indiscutível, é uma narrativa que se constrói bela em várias camadas – ou várias fiadas, se preferir.

    Aspectos subjetivos: a criatividade é manifestada ao explorar o tema (desconstruindo a imagem e utilizando suas peças separadamente), ao explorar a trama (propondo algo no insólito, no imaginário) e ao explorar a linguagem (dando novo significado às palavras, de acordo com o contexto).

    Compreensão geral: as cores escolhidas me lembraram a inversão de uma imagem colorida em seu negativo. O conto inclusive propõe essa possibilidade, como se aqueles acontecimentos fossem vistos por uma perspectiva invertida, como se o espetáculo tivesse que ser observado pelo palco. Assim é tecida a vida fictícia da protagonista, com as mãos do destino, das moiras, ou de quem escreveu o conto, passeando pelos cantos dos olhos, vultos trabalhando nas sombras. Essa é uma possibilidade, das mil e uma que se desdobram a cada leitura.

    Parabéns e boa sorte.

  7. Rubem Cabral
    22 de junho de 2017

    Olá, Mensageiro.

    Resolvi adotar um padrão de avaliação. Como sugerido pelo EntreContos. Vamos lá:

    Adequação ao tema:
    Boa adequação: porco-do-mato, homem encasacado, mala.

    Qualidade da escrita (gramática, pontuação):
    O texto está bem escrito, em linhas gerais. Vi pequenos erros somente, feito concordância verbal. Por exemplo “Mas Olívia, não fazem nem uma hora…”. (faz)

    Desenvolvimento de personagens, qualidade literária (figuras de linguagem, descrições, diálogos):
    Bárbara foi bem desenvolvida. O esposo, a filha e Prometeu ficaram um tanto genéricos. Alguns diálogos, feito as falas de Prometeu, soaram pouco naturais.

    Enredo (coerência, criatividade):
    Não compreendi muito bem: Bárbara vivia uma realidade manipulada pelas Moiras e Prometeu veio trazer a verdade (o fogo), fazendo com que ela enxergasse os fios
    do que elas teciam? Ou tudo era um pesadelo? Notei algumas influências talvez de Gaiman (Coraline, Moiras).

    Obrigado pela leitura e boa sorte no desafio!

  8. Thiago de Melo
    22 de junho de 2017

    Amigo Mensageiro,
    Parabéns pelo seu texto. Está muito bem escrito e estruturado. Achei que nomear os “capítulos” com cores foi um toque muito legal de sua parte. Os poemas do início e do final também estão muito bem colocados.
    Quanto à trama, achei que ficou bem construída e é possível identificar facilmente a conexão com a foto-tema do nosso desafio.
    Não gostei muito da história em si, mas isso é apenas gosto pessoal. Reconheço um texto de qualidade quando o vejo.
    Um belo trabalho. Parabéns!

  9. Victor Finkler Lachowski
    20 de junho de 2017

    Olá autor/a.
    Seu conto é excelentemente estruturado, poético, estético e refinado, um ótimo jogo de palavras e lindos poemas no início.
    Porém, o enredo é confuso, eu gosto da confusão, mas nesse caso, não me convenceu, pareceu devaneada para preencher a pouco estória.
    Seu conto é narrado e escrito de maneira extremamente profissional, lindo de se ler, mas o enredo ficou a desejar.
    Boa sorte no desafio e nos presenteie com mais obras (por favor, você escreve maravilhosamente bem),
    Abraços.

  10. M. A. Thompson
    19 de junho de 2017

    Olá!

    Usarei o padrão de avaliação sugerido pelo EntreContos, assim garanto o mesmo critério para todos:

    * Adequação ao tema: forçada.

    * Qualidade da escrita (gramática, pontuação): boa, nada que eu tenha percebido ou que prejudicasse a leitura.

    * Desenvolvimento de personagens, qualidade literária (figuras de linguagem, descrições, diálogos): escreve bem, mas escreve de uma forma que não gosto, muitos devaneios.

    * Enredo (coerência, criatividade): se criatividade é devaneio você acertou.

    De um modo geral foi um conto confuso e não valeu a leitura. Até o título é estrabosfóbico. kkk

    Parabéns e boa sorte no Desafio!

  11. catarinacunha2015
    19 de junho de 2017

    INÍCIO com um invejável e obscuro poema. O título está horrível, nada a ver. A trama delicada e sutil me encantou. A TRADUÇÃO DA IMAGEM queimou no forno sem prejudicar as pequenas sutilezas.
    O jogo de cena dos fios e tecidos de pano com o imaginário do destino causou um EFEITO surpreendente.

  12. Luis Guilherme
    18 de junho de 2017

    Ola, amigo, tudo bem?

    Primeiramente, desculpa se sair todo errado meu comentário, sou péssimo en digitar no cel.

    Vamos la: primeiramente, seu conto, ate agora, eh o mais bonito esteticamente dos que li. Tem uma beleza e uma leveza e cores e sensações que me deixaram meio em êxtase. Sensacional! Sensorial e emocional. Qualquer um que se aventure nessa vida doida de escritor sabe o quanto eh difícil atingir isso.

    O enredo me confundiu un pouco, mas nao vou reclamar disso pois, apesar da confusao, achei agradável e poético. Adorei a linguagem empregada, AMEI a estrutura, o movimento das cores. Incrivelmente eu tava lendo um conto, mas tinha a impressão de observar uma imagem em movimento. Parabéns!

    Fiquei com varias dúvidas e divagações, mas nao dúvidas negativas. Acho que o texto me deixou meio reflexivo hahaha.

    Enfim, excelente obra! Parabens e boa sorte!

  13. Pedro Luna
    17 de junho de 2017

    Olá, falando em fios, infelizmente não puxei os certos. Sim, o conto é bem escrito e tem camadas e camadas, achei corajoso também, por ousar deixar para o leitor a missão de tecer essa teia. Porém, nem todos vão conseguir e eu fui um desses. Terminou o conto e não entendi muita coisa, reli e a situação não mudou. No momento estou com meu espírito quebrado devido a problemas e apesar de não querer usar isso como desculpa, pode ser que tenha influenciado nessa parte de ter a mente aberta para entender as delicadezas e nuances. Até peguei detalhes com as Moiras, que me remeteram imediatamente a God of War 2, mas não foi o suficiente.

    Em paralelo, mesmo sem compreender os mistérios da trama, ler foi bem gostoso e as cenas surreais (como a dos olhos, o que me fez achar primeiramente que se tratavam de bonecos) tiveram pelo menos o impacto do estranhamento e dúvida, o que me fez continuar a ler e ver no que ia dar.

    No mais, espero que o autor ou autora não se chateie tanto com minha falta de tato, pois é nítido que fez um ótimo trabalho. É isso.

  14. Givago Domingues Thimoti
    16 de junho de 2017

    Adequação ao tema proposto: Faltou o Javali. Médio
    Criatividade: Alta
    Emoção: Eu deixei para ler esse conto depois dos outros. O surrealismo não me agrada muito. Ainda assim, gostei do texto.
    Enredo: O conto, em si, é confuso. Por mais que a escrita seja muito boa, achei a leitura pouco fluída. A trama em si é muito boa, com uma pegada existencialista. Não sei porque, mas me lembrou o conto “Amor” da Clarice Lispector
    Gramática: Não percebi nenhum erro.

  15. Brian Oliveira Lancaster
    16 de junho de 2017

    EGO (Essência, Gosto, Organização)
    E: Diferente, mas muito persuasivo. Tem uma pegada de fantasia misturada com ficção científica, o que me lembrou imediatamente algumas histórias da era pulp, o que traz uma atmosfera amigável. Tem certa suavidade no suspense e no inexplicável. Tem pouco da imagem, mas é uma abordagem mais profunda.
    G: Gostei da troca de realidade instantânea. Às vezes, menos explicações (e mais sensações) complementam o vazio. Há quem prefira tudo explicadinho, mas onde fica o espaço para a imaginação? Desconheço um pouco do folclore abordado, mesmo assim é um enredo fácil de ser compreendido. Entretanto, não notei muita relevância quanto a aplicação da teoria das cores. Sim, são utilizadas de acordo com seu humor ou situação. Mas ficaram deslocadas ao meu ver – não fez diferença em minha leitura, apenas como uma marcação de passagem de tempo.
    O: Escrita excelente, bem cadenciada e eficaz.

  16. Elisa Ribeiro
    16 de junho de 2017

    Olá Mensageiro. Muito embora tenha lido com prazer e interesse seu conto, a trama me escapou. Vim aos cometários, li-os todos, reli o texto e a trama continua a me escapar. O conto é sensorial e imagético, distrai e encanta, mas repito envergonhada, não alcancei o significado. Parabéns pelo trabalho, que, ao que parece agradou a grande parte dos leitores. Abraço.

  17. Lee Rodrigues
    15 de junho de 2017

    Aí você quer ser mais ágil nos comentários e se bate com um texto desse, onde o autor alinhava de forma tão rica o enredo.

    Não dá apenas para dizer o quanto gostei, ou sinalizar alguns pontos onde poderiam ser melhorados, porque me constranjo em dar pouco quando o autor me oferta muito.

    O autor não só bebeu, mas encheu seu odre numa fonte maravilhosa, aliás, não uma, duas fontes. Neil Gaiman e a mitologia grega.

    O tecido narrativo desvela as complexas e tensas relações da simbologia familiar, em suas diversas vertentes, onde todos os aspectos da extrema felicidade são desvirtuados para o macabro, e o mágico é tão letal quanto belo.
    A protagonista caminha entre a reflexão a respeito de si e do outro, entre as opressões familiares e sociais, entre o desejo, a angústia, o desespero. Rompendo a visão baseada na dicotomia do pertencer ou não pertencer a determinado lado.

    Talvez, e digo isso apenas por gosto, a separação dos diálogos deixasse mais leve a construção.

    Como numa colcha de retalhos, a beleza está na combinação das cores, nos pedaços costurados por mãos que, habilidosamente, entreteceram matéria de extremo fascínio, a mitologia grega e suas imagens arquetípicas de aspecto humanos básicos – paixões, costumes, relações – e seus personagens fantásticos e complexos.

    O jogo de palavras na mistura desses dois mundos, remete o leitor a um entendimento que perpassa até mesmo as intenções do próprio autor ao utilizar tais recursos. Por isso, cada um sentiu de forma diferente, segundo a sua percepção e construção de mundo. Na verdade, o entendimento é algo de foro íntimo, contudo, alguns textos, uns mais que outros, polarizam opiniões.

    Somo todos deuses e heróis da nossa própria história.
    (Sonhos de Íkaros – Luiz L. de Freitas Santana)

  18. Cilas Medi
    15 de junho de 2017

    Eu penso logo existo. Eu leio, logo, obrigatoriamente, devo entender, em detalhes, tudo o que o autor tentou nos brindar com a sua criatividade. Depois, para ser melhor ainda, você lê tudo de novo, o famoso “tim tim’ por “tim tim” (pode ser outra qualquer, claro, já que a oi está perdida como o conto) e descobre que saiu de um lugar para outro sem precisar, corretamente, o que aconteceu. É assim que me senti depois da leitura dessa obra que é um seguimento de nada para lugar nenhum, somente abstrações de um casamento e um porco queimado. Onde está o restante? A mala em um verso, o capote e o javali devem estar escondidos nos olhos perdidos do marido e da filha. O Prometeu? Pois é, ele prometeu esclarecer, mas não cumpriu. Positivo mesmo foi na gramática e na ortografia, sem erros.

    • Mensageiro Interplanetário
      15 de junho de 2017

      Bom dia, Cilas! Cada um possui uma percepção diferente das coisas, sobre qualquer coisa. Algo que eu interpreto, pode ser interpretado diferente por você e com certeza será interpretado diferente por outra pessoa, o que já invalida a necessidade de entender, obrigatoriamente, cada detalhe de algum texto fictício ou filme ou música ou qualquer produção artística. O mundo não é quadrado, é redondo e orgânico. A ideia do conto é justamente trabalhar com esta questão da percepção, das impressões. Claro que tive algo concreto a passar, mas nunca será o mesmo recebido do outro lado. Se a sua percepção foi de que partiu do nada e chegou a lugar nenhum, espero que pelo menos a viagem tenha sido boa!

  19. juliana calafange da costa ribeiro
    14 de junho de 2017

    Caro Mensageiro, o seu conto é bem escrito, salvo um erro ou outro de revisão. A narrativa me prendeu e me envolveu nessa sua história de insights, lendas, mitologias e relações humanas. Confesso q não alcancei a analogia entre as cores (Xerox) e os mitos (Cosmo) que vc traçou. O final, pra mim, ficou muito confuso, nem tenho certeza se entendi corretamente o que vc quis dizer com a sua história. Acho que ficou um pouco como você diz no texto: “Os fios se materializam conforme as possibilidades que sua vida oferece” – mais ou menos como uma teoria quântica das possibilidades de compreender o seu conto. Quem domina bastante a história da Grécia e sua mitologia vai entender de um jeito. Quem tem uma vaga noção do assunto, vai entender de outro. E quem não conhece “patavinas” sobre Moiras, Prometeu, Calidão, Erimanto, Élenchos, fica literalmente “boiando” e as cortinas, ao invés de se abrirem, se fecham sobre o leitor (é claro que ler o comentário do Eduardo Selga ajuda muito!). Mas acho que na literatura vale tudo, vale até escrever para um pequeno grupo. Com relação à imagem-tema, penso que não foi bem explorada, ficou muito “coadjuvante” na história. Parabéns e boa sorte!

  20. Antonio Stegues Batista
    14 de junho de 2017

    O conto é uma narrativa que mistura diversas lendas, o que, infelizmente, não conheço algumas, Lembro do javali de Erimanto, um dos 12 trabalhos de Hércules, das Moiras que determinavam o Destino dos Homens, o Véu da Lua desconheço, o resto não sei. A escrita é boa com um erro retumbante! Também cometi vários! Gostei da estrutura, cenas de uma peça de teatro ficou lega. Também estranhei os diálogos entre aspas. O enredo é muito bom.

  21. Jowilton Amaral da Costa
    12 de junho de 2017

    Achei o conto bom. Acho que as Moiras são três velhinhas que tecem o destino e são cegas e veem por um olho só, que elas revesam, acho que é isso. Tô falando isso por conta de um filme que vi, que se não me engano elas apareceram. Gostei do ritmo, do início e do desenvolvimento, o desfecho me deixou encucado, Fiquei sem saber se a Bárbara estaca realmente sob o encanto das Moiras ou só foi um devaneio enquanto assava o porco do mato. Talvez fosse essa a sensação que o autor pretendia causar no leitor. Vai saber. Achei um probleminha de gramática em diálogo. Não sou muito de citar erros de gramática, é que esse doeu no ouvido.: “Mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…”. Esse fazem tá errado, o certo é “não faz nem uma hora”. Boa sorte.

  22. Ana Monteiro
    12 de junho de 2017

    Quem sou eu para comentar o seu conto? E que interessa se gostei ou não? Ele é um portento! Não, digo mal: o portento é você. Pouco direi pois consigo só poderia aprender. Então vamos lá à avaliação formal. Gramática: notei uma falha “como por extinto”, é instinto, não é? E porque o seu texto tem tanta qualidade, acabo por exigir mais do que a outros contistas e refiro outra frase “E percebeu o vulto negro correndo às suas costas”, esta frase foi a única em que tropecei, há qualquer coisa nela que não funciona bem, talvez bastasse “sentir um” em lugar de “percebeu o” para não ter sentido o desvio que senti. Quanto a tudo o mais, a escrita está perfeita, sendo dos poucos que dispensa revisão; Criatividade: foi um dos contos mais criativos que li até ao momento e em tantos aspectos que nem irei enumerar; Adequação ao tema: passa um pouco despercebida mas está lá toda, dentro do texto encontramo-la de forma parcelada e no poema final desenha-se como um todo; Emoção e enredo: reuniu as duas coisas, algo raro no diminuto espaço dum conto. Enquanto leitora, irei comentar pouco porque me sinto realmente aquém. Você conseguiu enredar-me em duas situações simultaneamente: a todo o tempo eu fui duas, a que lia e saboreava o enredo e a que igualmente lia e admirava o seu autor. Isto é demasiado raro. Sinceros parabéns e nem precisa que lhe deseje boa sorte no desafio. Sorte tem o desafio em contar com a sua participação.

  23. Afonso Elva
    11 de junho de 2017

    Estou realmente cansado de famílias infelizes, casamentos frustados etc. Então , quado um conto começa assim, logo torço o nariz. Ainda vou escrever sobre famílias felizes e casamentos que deram certo! Mas não porque ninguém faz isso (mentira, em parte é sim), mas porque acredito que seja possível e acalma o coração das pessoas.
    No mais, outro conto que eu não entendi. Parece que o tema do desafio é abstração… Vou me repetir (não tem jeito), gosto de liberdade de interpretação, mas sem exagero. Do momento em que o cidadão abre a mala na mesa, pra frente, não sei de nada…
    Forte abraço

  24. Rose Hahn
    10 de junho de 2017

    Olá Mensageiro, sou uma apedeuta em relação a lenda das Moiras, o que prejudicou pacas o entendimento do seu belo conto, fiquei assim, tipo, “tá rolando uma festa bacana e eu não estou no modelito adequado”, mas tudo bem, me esforcei, reli o texto, e como uma cega amparada pela muleta das análises colaborativas dos colegas autores-leitores, consegui me inserir, de penetra, na festinha. Apenas dois erros na escrita: o “fazem” e o “extinto”. No mais, parabéns!

  25. Fabio Baptista
    10 de junho de 2017

    Após ler o conto e os comentários, devo confessar que estou me sentindo um completo imbecil por não ter conseguido gostar tanto quanto os outros gostaram e não ter visto toda a beleza que os outros viram.

    Não quero dizer que o conto é ruim, muito pelo contrário. A escrita é muito boa e a trama pende bastante a atenção, sempre com novos elementos “surreais” aparecendo em cena. A parte dos olhos caindo também me lembrou Coraline, como comentado por outros colegas. E o texto todo tem um climão de Sandman, o que é ótimo.

    Mas acredito que uma completa apreciação exigia um conhecimento prévio que eu não tinha. Conheço o básico da lenda das Moiras, Prometeu e tal… mas provavelmente há bem mais coisa aí do que o básico. E sempre vejo as referências como algo que deve acrescentar ao texto (tipo easter eggs) e não ser parte fundamental do entendimento. O tema só aparece nas frases finais, mas “já valeu” :D.

    – uma enorme confissão lhe fora feita
    >>> “tivesse sido” ficaria melhor do que esse “fora”

    – não fazem nem uma hora
    >>> faz

    – como por extinto
    >>> instinto

    – ela tinha
    >>> cacofonia

    Abraço!

  26. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    10 de junho de 2017

    Uma ou duas vezes neste desafio precisei ler os comentários, e mais uma vez usei deste recurso para apreender o que os nossos camaradas apreenderam sobre este conto. Acredito que tudo ou quase tudo já foi dito e, embora eu possa contribuir com pouco, assim o farei.

    Trata-se de um conto distinto, bem escrito (apesar de alguns errinhos), uma reinvenção criativa e fascinante das moiras e de Prometeu, muito embora fosse quase impossível fugir do destino traçado por elas. Eu ia perguntar o porquê das cores, mas encontrei a resposta nos comentários, se é que a intenção do autor(a) foi realmente a presente nos comentários. Vi que Erimanto (vi no wikipédia, tantas vezes menosprezado) era uma montanha da Arcádia destruída por um javali. Enfim, realmente um conto rico, inteligente e perfeitamente original. Gostei e teria gostado duplamente se eu fosse capaz de apreender por mim mesmo tudo o que foi interpretado sobre a sua história.

    Parabéns!

  27. Fheluany Nogueira
    9 de junho de 2017

    Conto com várias possibilidades de interpretação, pela simbologia contida, pelas referências mitológicas e cromáticas, uma alegoria. Linguagem poética, rica e construção de formato original que se casa com o conteúdo. Parece-me que se trata de um conto com função de linguagem metalinguística e poética, isto é centrado na forma e na mensagem, assim a ficção se alterna à realidade e vice-versa. O assunto, pelo título e narrativa, deve ser mesmo “mundos paralelos”, dimensões alternativas” ou possibilidades, as escolhas que a vida/ficção oferece.

    Um texto muito prazeroso, que mantém o interesse até o final, mas bastante hermético e exige criatividade também do leitor.

    Quanto à revisão, incomodou-me certas concordâncias e troca de sentido de palavra, nada muito significativo. A imagem-tema é visualizada nos versos finais.

    É um dos melhores trabalhos desta edição do Desafio. Parabéns pela participação. Abraços.

  28. Iolandinha Pinheiro
    9 de junho de 2017

    Olá, autor/autora. Gostei muito do seu conto. Não sou nada boa com metáforas e creio que minha interpretação vai fugir do que foi imaginado por você, mas eu também tenho a minha versão =). Seu conto me lembrou muito um desenho sombrio que assisti há alguns anos chamado Coraline. As pessoas do texto, assim como alguns personagens do tal filme eram como brinquedos querendo tapear a personagem principal. Viviam numa realidade paralela e imitavam uma família normal mas, improvisando o que seria uma vida ideal, apenas para seduzir a garota, e induzí-la a ser como eles. As cores que você colocou em seu texto me pareceram a divisão de uma peça em atos, o que me levou a imaginar que o conto todo fosse uma peça,mas não com atores normais, e sim um teatro de marionetes, apesar dos fios me fazerem recordar de uma tapeçaria, um bordado, algo em que os fios se misturassem para fazer uma trama. O Prometeu que aparece no meio do conto não tinha nada a ver com o presente do fogo, como o Prometeu original. Na sua história ele trazia era a luz, a lucidez para que ela despertasse daquele torpor, daquela realidade alterada para dar a ela uma sensação de normalidade, de ter uma família, marido e filha, coisas que talvez fossem o seu desejo subconsciente. No fim, tendo esta tentativa de mantê-la iludida como Ulisses ficou quando chegou à Ilha dos Porcos, foi criado um novo cenário com outro marido para que se conseguisse enredá-la novamente. Parece uma espécie de “mesmo dia” que se repete eternamente, e aí a impressão que eu tinha mudou de peça de teatro para um pesadelo na cabeça de alguém que esta em coma, um sonho que se repete e do qual ela não consegue escapar, por que não existe o despertar definitivo. É isso. O seu conto é o tipo de conto aberto que funciona, já que dá margem à variadas interpretações. Foi um prazer ler você. Abraços e boa sorte.

  29. Felipe Moreira
    9 de junho de 2017

    Lindo o conto. E devo voltar aqui para ler outra vez. Tenho certeza de que na próxima leitura terei uma impressão diferente que a de agora, apenas certo de que é muito bom. Fui ler os comentários e achei divertido o efeito que seu texto causou nas pessoas. A poesia, os simbolismos; é mágico.

    Parabéns pelo trabalho, Mensageiro. Boa sorte no desafio.

  30. Fernando Cyrino
    5 de junho de 2017

    Que coisa mais linda. Estou aqui depois de três leituras literalmente encantado. Será que estou entendendo corretamente essa enxurrada tremenda de metáforas? A cada leitura mais descubro. Dedos coçaram para buscar o que estão dizendo os comentaristas. Pode ser que eu esteja viajando demais nessas citações algumas evidentes e outras mais sutis presentes na história e que seja tudo uma maionese’s trip. Alguns exemplos que me geraram este encantamento: As cortinas que vão se desfazendo, tal qual a vida, mas que ao mesmo tempo vão sendo rendadas novamente, a trama que é sempre feita, o eterno fiar das nossas melhores literaturas anciãs. Os olhos que saltam cansados da dura realidade e ao mesmo tempo em busca de novas realidades: do sonho. A visita inesperada do nosso homem da foto e que traz o sentido da morte. A mãe e seus desejos e frustrações. O javali no forno que passa do ponto e queima. Mais uma metáfora da morte, como o é também o vulto que teima em passar só sendo pressentido mas não visto. A cabeça de diamante do marido, a consciência, a inteligência que brilha… Quero entender mais. Acho que valerá a pena mais uma leitura. Parabéns pela obra de arte. Você me teceu um tapete riquíssimo e muito bonito esta noite.

  31. Olá, Mensageiro,
    Tudo bem?
    Trabalho belíssimo. Poético, embasado, cheio de referências sem se tornar pedante, o tipo de texto que me agrada demais.
    O universo feminino e suas elucubrações acerca de escolhas, corretas ou não, permeia todo esse trabalho desde a imagem escolhida até o tom utilizado na narrativa.
    Você criou uma pintura, melhor seria dizer uma tapeçaria fina com tramas muito bem engendradas, fixando e colorindo em CMYK na tela que é o imaginário de seu leitor. Criando uma cena cotidiana da vida dessa mulher em um momento de crise, quase desespero, quase loucura.
    Como autora costumo fazer muito isso. Olho para um quadro, uma imagem parada, e penso na história por trás daquela imagem. Ops. O desafio aqui trata justamente disso.
    O conto propriamente dito inicia-se com o descortinar do teatro às avessas. Não a cena para ser vista por todos, a exposta ao público, mas a cotidiana, interna dos personagens, a que se encontra nos bastidores, o que não se quer mostrar. Clarisse Lispector fazia muito isso. Explorar o que há de mais recôndito na alma feminina (na humana), através de metáforas e camadas que se sobrepõem, através de simples cenas do dia-a-dia. No caso aqui, através dessa mulher que cozinha. Da comida que se queima quase que propositalmente.
    Durante a leitura, em especial nas cenas onde ela sente uma estranha presença a lhe espiar, a referência que me veio foi a de uma casa de bonecas e, quase que imediatamente, por você falar em teatro, me veio a peça de Ibsen. “Casa de Bonecas” fala justamente de uma mulher vivendo como um bibelô prestes a se quebrar. A explodir.
    Quem é esse que ela pressente a lhe vigiar? O leitor? O marido? A sociedade? Ela mesma por se pautar por regras sociais preestabelecidas para a mulher?
    Quanto às referências aos mitos Gregos, achei tudo sensacional e caberia aqui mais uma longa discussão na qual alguns colegas já se detiveram. Gostaria, no entanto, de dizer que a utilização das figuras da Moira, tecelãs do destino, amarrando a todos em seus fios é mais que pertinente dentro da ideia de aprisionamento ao destino. No caso aqui o casamento, a escolha de se ter ou não filhos, enfim. Optamos e ao optar abrimos mão de inúmeras outras possibilidades. Em Cosmos-Xerox, essas camadas de impressão de possibilidades diversas, em dimensões outras deixou sua protagonista quase a acreditar que isso seria possível. Mas não.
    Vale ainda lembrar os títulos das tragédias que homenageiam o mito de Prometeu. Acorrentado, Libertado e, finalmente o Portador do Fogo, da sabedoria, que em seu texto estaria mais para fogo como “fogo” mesmo. O que incendeia a alma de uma mulher. E, em seu conto, também aquele jantar arruinado de Javali.
    Parabéns.
    Boa sorte no desafio (só para não perder o costume, mas creio que você já acertou em cheio).
    Beijos
    Paula Giannini

  32. Neusa Maria Fontolan
    3 de junho de 2017

    Como comentar a magia envolvente deste conto?
    “Mas ela estava extasiada, como se uma enorme confissão lhe fora feita” – esta frase serve bem para como estou me sentindo agora.
    Tudo é mágico neste conto:
    A fuga para um mundo só dela, um mundo que ela sonhou, onde nem o verdadeiro marido participa. Ela quis ser envolvida pelas tramas das Moiras, ela desejou isso.
    O vulto negro que ela via de relance, seria seu subconsciente tentando alertá-la que aquilo tudo não era real.
    “Num misto de medo e euforia”: medo de deparar-se com a realidade, euforia por sentir estar perto de descobrir a verdade.
    O Élenchos: “A essência do élenchos consiste em dar duplo movimento: render a ignorância e extrair a luz da escuridão.” Assim como a figura de Prometeu, que traz consigo o fogo do conhecimento roubado dos Deuses.
    O javali assando, ela o alimenta com legumes e tempero, como se estivesse alimentando sua fantasia. E exatamente quando Prometeu tenta expor a realidade, a iguaria exala um aroma delicioso, “Eflúvios”, ela se agarra a esse aroma, não quer se separar de algo que a deixa feliz. Mas, “À medida que o aroma incensava o ambiente, Bárbara ficava mais e mais enjoada. Da situação e de si mesma.” Ela começa a se questionar, mesmo que inconscientemente, será que isso é viver? O javali queimando, assim como sua alma queimava a se ver de volta a realidade.
    Mas estar presa a uma fantasia não é viver. Enfrentar suas dificuldades e dar um novo rumo a sua vida, isso seria viver.
    “O conhecimento lhe foi entregue entre um vácuo do destino e outro.”
    Enfim: sem palavras que eu possa me expressar melhor eu te digo, caro autor (a)
    Parabéns, parabéns, parabéns.

  33. Vitor De Lerbo
    3 de junho de 2017

    Esse é o tipo de conto que nos faz perceber que, mesmo com o limite de duas mil palavras, não há limites para elucubrações e referências. Se esse texto possui em torno de 1600 palavras, o subtexto deve ter umas 4 mil.

    Além de ser bem escrito, o conto instiga os leitores a pesquisarem sobre diversos elementos apresentados. Por mais insólita que seja uma história, nós sempre buscamos a razão dentro dela. E ela existe aqui, de fato, ao contrário de muitas peças “hiper-surrealistas”, sem pé nem cabeça – que, obviamente, possuem seu valor artístico, mas não enchem o estômago de leitores famintos por racionalidade.

    Destaco, também, o uso do sistema CMYK, que não está aqui por mero acaso. Em Ciano, cor fria, estática e acalmante, a protagonista tem algo similar a uma vida normal, mesmo com uma leve inquietude no fundo da mente. Isso é provado por meio da última frase do capítulo: “está ótimo. Nunca estive tão bem em toda minha vida…”

    Em Magenta, o(a) autor(a) chega até a brincar com a própria cor dentro de um dos parágrafos. “Olhando para a janela à sua frente, mais uma vez, organizando a louça na pia para lavar, percebeu uma certa brisa acariciar a cambraia do lado de fora. Porém de branca, passou a ter tons mais avermelhados. Foi quando a campainha tocou.” Magenta possui ondas de vermelho e de azul na mesma quantidade, e essa frase indica a que ainda estávamos na parte “azul” de magenta; nada coincidentemente, ao tocar a campainha, passamos para seus 50% vermelho, a cor quente da paixão. E do fogo, o signo mais forte de Prometeu, que entra na vida de Bárbara sem ser convidado.

    O amarelo é a cor que talvez mais se destaque, chegando até a incomodar. Não por acaso, é a cor de atenção nos semáforos, assim como a desse capítulo, que representa o alerta de perigo emitido por Prometeu.

    Preto, a cor do luto, encerra a parte de prosa do conto, e nada simboliza melhor esse capítulo que a frase ““Eu estava tão feliz….”.

    Temos também outras ótimas frases que mostram a habilidade do(a) autor(a) e como nada aqui é por acaso. Logo no primeiro parágrafo, lemos “E foi aqui que nossa história teve início, como peça de teatro às avessas. Com as cortinas alvas ainda fechadas, um espetáculo privado da vida cotidiana.” As cortinas fechadas, aqui, já simbolizam as malhas das Moiras que cobrem Bárbara desde o início do conto.

    Confesso que, no início da leitura, ao me deparar com dois ou três erros gramaticais básicos, pensei que veria apenas um show de nonsense nesse post. Fiquei gratamente surpreso com a habilidade narrativa e os complexos elementos aqui dispostos.

    Boa sorte!

  34. Milton Meier Junior
    30 de maio de 2017

    um excelente conto, muito bem escrito e muito bom de ler. muito criativo a utilização do CMYK e do poema no começo e no fim. também me lembrou um pouco a animação Coraline. gostei muito. parabéns!

  35. Marco Aurélio Saraiva
    29 de maio de 2017

    Muito já foi dito sobre este conto nos comentários abaixo. Na verdade, ele foi muito bem destrinchado pelo Selga e pela Evelyn. Foi uma experiência estranha lê-lo. Eu tive, é claro, que reler o texto inteiro para capturar o que você queria dizer.

    ===TRAMA===

    Muito boa. A busca pela liberdade, pelo “traçar do seu próprio destino”, é colocada de forma muito bela e surreal. A chegada à conclusão final, de que ela pode, sim, tomar as suas próprias decisões sem a influência de um homem, foi boa.

    ===TÉCNICA===

    Você escreve de forma impecável, disso não há dúvidas. Eu SEMPRE torço o nariz para contos assim, surreais e abertos à interpretações, por quê preciso de um tradutor, como o Selga, por exemplo, para entendê-lo. E mesmo que o Selga tenha explicado o conto muito bem, não sei se era esse o seu real significado… e jamais saberei, já que o autor não se pronunciará.

    Vá lá: eu sei que isso faz parte da arte. Mas quando o conto é assim, tão surreal, eu fico confuso e termino a leitura meio irritadiço. Meu pensamento é sempre algo do tipo “se queria passar essa ideia, por quê não a passou de uma vez?”

    Acho que tenho uma pugna pessoal contra a simbologia. Gosto de textos diretos, que nos tocam de forma clara, e que não me deixam pensando “ahh.. será que ele queria falar isso?”. Mas como isso é opinião pessoal, não vou fazer pesar na nota.

    Revisão impecável, escrita perfeita.

    ===SALDO===

    Positivo.

  36. Jorge Santos
    28 de maio de 2017

    Conto perfeito, talvez mudasse algumas coisas na pontuação. A temática lembra Coraline, um dos melhores filmes de animação stop-motion. Também aqui a personagem tem de escolher entre a crua realidade e uma realidade alternativa onde os seus sonhos se realizam. Também aqui há a implicação com os olhos. Gostei também da nomenclatura dos capítulos. Para o menos entendedor, são as cores que compõem o esquema quadri-cromático de impressão ou CMYK (cyan, magenta, yellow, black). Toda a nossa realidade é impressa seguindo este esquema, todos os livros, jornais e revistas. Nota 10, sem dúvida.

  37. Gilson Raimundo
    28 de maio de 2017

    O conto é muito bem escrito, tem pegadas filosóficas, bom desenvolvimento, gostei da teoria das possibilidades e de como viajar por entre elas buscando a felicidade. O que está me incomodando neste desafio é a liberdade quanto ao uso da figura proposta, o porquinho assado depõe contra a figura pujante do herói maldito da figura, para mim o javali icónico não foi bem representado. Quanto à nota: possibilidades.

    • Anorkinda Neide
      28 de maio de 2017

      Gilson… nos comentarios dos colegas foi revelado que o homem com o javali aparece no poema final Prometeu e seu javali Erimanto ou Calidao

  38. Leo Jardim
    28 de maio de 2017

    Cosmo-Xerox (Mensageiro Interplanetário)

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫): propositalmente confusa, exige um cuidado para ser completamente absorvida. Entendi que ela estava presa em uma vida de mentira. O final ainda está um pouco nebuloso pra mim, acho que ela entrou em um loop, cada dia diferente do outro.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa, narrativa excelente e boas construções. Fez uma trama complicada parecer mais simples.

    💡 Criatividade (⭐⭐⭐): uma ideia, sem dúvidas, oriunda de uma mente bastante criativa.

    🎯 Tema (⭐▫): o javali não é parte essencial da trama. O Prometeus parece ser o homem com a mala, mas também sem foco.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫): uma história que me fez pensar bastante e isso é bom, mas o impacto teria sido maior se eu tivesse entendido melhor a trama.

  39. Evandro Furtado
    27 de maio de 2017

    Olá, autor. Sigamos com a avaliação. Trarei três aspectos que considero essenciais para o conto: Elementos de gênero (em que gênero literário o conto de encaixa e como ele trabalha/transgride/satiriza ele), Conteúdo (a história em si e como ela é construída) e Forma (a narrativa, a linguagem utilizada).

    EG: A atmosfera é densa e traz múltiplas possibilidades de interpretação. Carrega consigo um tom de horror surrealista, melhor estilo Buñuel. Há algo de dark fantasy meio Gaiman por aí também, flutuando entre Coraline e Sandman. Por algum motivo, me lembrou Bettlejuice também.

    C: Justamente a possibilidade de várias interpretações torna o texto interessante. Para muitos pode parecer confuso mas, justamente, por trazer esse caráter surrealista, funciona. Algumas cenas são praticamente desconexas do restante, como se o conto, de fato, seguisse o fluxo de um sonho. O desejo da mulher em ter filhos se condensa em um cenário de horror, com olhos saltando e personagens se metamorfoseando.

    F: A narrativa é precisa, apenas uma coisa incomoda. Quando o narrador se torna participativo, isso quebra o clima construído pelo conto. Em si, o narrador participativo não é um problema, muito pelo constrário, pode tornar textos mais ou menos em obras primas, no entanto, considerando a atmosfera construído por esse conto, não funcionou.

  40. Priscila Pereira
    27 de maio de 2017

    Oi Mensageiro, sinceramente, sem ler os comentários eu não entenderia nada, ainda bem que pude lê-los! Achei muito criativo e poético, simples e profundo ao mesmo tempo. Pena que minha ignorancia não tenha permitido aproveitar ainda mais esse texto. Parabéns e boa sorte!!

  41. angst447
    25 de maio de 2017

    Olá, autor, tudo bem?
    O título do conto é interessante e me fez pensar em uma cópia do universo, em mundos paralelos.
    O tema proposto pelo desafio foi abordado de forma implícita. O javali apresentado como catalisador assado, queimado e depois descartado. O homem da capa com a mala, imaginei bem mais jovem do que na imagem-referência. Portanto, o objetivo foi alcançado.
    Confesso que comecei a ler este conto achando que iria me entediar lá pelo segundo parágrafo. Qual não foi a minha surpresa ao me ver engolida pela trama e sem poder me conter até chegar ao ponto final. Isso foi ótimo, poder manter o interesse depois de tantas leituras.
    Reconheci Prometeu da mitologia grega e o resto “colei” dos coleguinhas. Parabéns pelo trabalho atencioso e pela habilidade com as palavras e imagens.
    Quanto à revisão, só me perturbou mesmo o EXTINTO no lugar de INSTINTO. De resto, nada me atrapalhou a leitura.
    O ritmo do texto é muito bom e se mantém harmonioso até o final. Narrativa flui sem entraves.
    Boa sorte!

  42. Gustavo Castro Araujo
    25 de maio de 2017

    Outro conto belíssimo, cheio de referências escondidas nas tramas (da cambraia?) tecidas pelas moiras. Confesso que não teria a capacidade de captá-las todas, não fosse pelo comentário abrangente e explicativo do Eduardo Selga. Creio que para a maioria de nós (para mim, pelo menos), é quase uma obrigação ler esse comentário para entender a dimensão absurdamente fantástica deste conto. Há tanto para perceber, para interpretar que certamente uma só leitura não basta. É preciso retornar algumas vezes para perceber a profundidade da prisão em que a protagonista se encontra, separar sonho de realidade, ou melhor, possibilidades infinitas da realidade. As tramas, os olhos, até o javali assando no forno, tudo contribui para a composição de um enredo em várias camadas, surpreendendo o leitor a cada vez. Provavelmente eu não teria condições de perceber sozinho o quanto este conto tem a dizer – e muito menos a maneira como o autor se propôs a fazê-lo. Uma vantagem tremenda dos comentários abertos é aproveitar o conhecimento, a experiência e a opinião alheia para aprender. Que bom que foi esse o caso. Um conto espetacular. Parabéns!

    • Anorkinda Neide
      26 de maio de 2017

      Então, a Evelyn é ótima, pois ela percebeu tudo sozinha… e me deu umas dicas (no seu comentario) e puxei o fio da meada. ainda nem li o professor.

  43. Eduardo Selga
    25 de maio de 2017

    Do ponto de vista estrutural, o conto, evidentemente ligado ao gênero narrativo e portanto afeito à prosa, se abre e se fecha fora do formato prosaico. Temos, no início e no fim, a presença do poema. Como eu não acredito em acidente, quando se trata de forma textual e quando temos autor(a) evidentemente hábil, como é o caso, acho que vale a pena discorrer sobre o caso.

    Na Antiguidade, e isso se reflete ainda hoje, considerava-se literatura apenas o poema. A prosa era uma espécie de prima pobre, sem nenhuma elegância artística. Assim, o termo “escritor” passou a designar apenas o poeta. Considerando que temos no conto várias referências que nos remetem a esse período, como as Moiras, Calidão, Erimanto e Prometeu, acredito que essa escolha de início e fim relaciona-se diretamente ao princípio da coerência. Não falo de harmonia dos fatos do enredo, e sim da forma reforçando o conteúdo, constituindo, um e outro, uma só unidade.

    O poema é o princípio e a “chave de ouro”. A urdidura prosaica é, por assim dizer, “apenas” o recheio do sanduíche. Muito longe de estar negativando a escolha autoral, acho-a perfeita se levarmos em conta o construto textual.

    Os verdadeiros clássicos narrativos não morrem, ao contrários dos “clássicos” fabricados pela indústria cultural. E se tal ocorre é em função, também, de que o objeto da narrativa é universal e a forma com a qual é tratada se mostra única. Por causa dessa universalidade, os mesmos temas se repetem em todos os tempos históricos, sob diferentes abordagens e formas, fazendo com que diversas narrativas se interliguem, mesmo inexistindo intenção autoral nesse sentido, formando um grande tecido literário.

    Assim, a mitologia grega está aqui. Aliás, é parte umbilical do que se chama “alta literatura”, termo extremamente questionável, mas nesse mérito não entrarei aqui. Temos, com maior importância, acima mesmo da referência ao javali (Calidão e Erimanto), as Moiras e Prometeu.

    As Moiras, em número de três, teciam os destinos humanos, segundo a mitologia, por meio do fabrico e corte do chamado “fio da vida”. O ato dessa tecitura se mostra, em minha opinião, de modo bem explícito no discurso do personagem Prometeu, e implícito ao menos de duas maneiras: no finíssimo tecido conhecido por cambraia que, em dado momento, desfia-se enquanto balança, sugerindo a morte; na intenção da protagonista de costurar os olhos da filha e do marido. Esse detalhe, inclusive, abre espaço para uma interpretação bem interessante: Bárbara (barbaridade, barbárie, barbarizar) não apenas é vítimas das Moiras, conforme diz Prometeu (“‘Bárbara, você está sob o véu das Moiras. Você precisa retirá-lo de sua casa o mais rápido possível, antes que a situação piore…'”): ela é, metaforicamente, uma delas, porquanto se propõe a costurar os olhos, fundamentais para decidirmos nosso destino se os entendermos metaforicamente (olhos=capacidade de enxergar-se, enxergar o contexto e nele se conduzir) .

    O personagem Prometeu não é, nem poderia ser de outra forma, o mesmo da mitologia. É necessariamente outro, mas não é apenas um caso de nome idêntico: há uma proximidade quanto à função exercida. Na mitologia, ele roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, ou seja, se postou como uma espécie de protetor da humanidade. É essa atitude protetiva que vemos no Prometeu do conto quando ele chega à casa da protagonista com um estranho objeto, o “Élenchos”, e seus conselhos um tanto fraternais e que provocam na personagem “eflúvios” que se relacionam ao desejo sexual. Os conselhos podem ser equiparados metaforicamente ao fogo, no que o domínio dele tem de positivo.

    A literatura e as artes plásticas trabalham muito a figura do Prometeu preso a correntes para ter seu fígado devorado por um pássaro e diariamente reconstituído. Pois quando lemos “fios dos mais diversos tipos surgiram das paredes e arremataram o corpo de Prometeu, deixando-o preso” temos uma alegoria desse aprisionamento.

    Outro aspecto estrutural relevante deste conto é a repetição estética, um recurso muito interessante e arriscado, mas que foi usado com maestria. Essa repetição se dá em dois níveis: o frasal, no trecho “e percebeu o vulto negro correndo às suas costas, mas nada encontrou ao virar-se” que é muito similar a “[…] teve a impressão de ver um vulto negro em movimento, mas não encontrou nada ao procurá-lo”; o conteudístico, em que ocorrem diversas repetições que lembram, lida toda a narrativa, o sofrimento repetido do Prometeu lendário, vítima diária da mesma rapinagem causada por certo pássaro.

    Temos, como exemplo de repetição, a entrada de um homem na casa: primeiramente o marido, depois Prometeu; as intromissões estabanadas da filha na cena; os olhos do pai e da filha e que, insolitamente e cada qual a seu tempo, saem do rosto, mais uma vez lembrando o Prometeu grego e seu fígado extraído pela ave de rapina.

    Falando nos olhos fora das órbitas, esse elemento é talvez o maior evidência do insólito, a estética que presidente essa narrativa. Não obstante, não é o insólito que mais grita e sim os aspectos metafóricos e simbólicos de que tenho falado até agora. Isso é muito interessante, pois a estética pela estética tende a conduzir as narrativas para um território sem sabor.

    Muito curioso um fato que pode parecer fortuito, mas que eu entendo haver grande simbolismo: a carne do porco selvagem sendo assada. Ela passa por três etapas, necessariamente ligadas à cena em questão.

    Em seu início, a assadura representa a expectativa da personagem quanto ao homem que, para ela um tanto distante, é seu marido.

    Na segunda etapa denuncia leve e reprimido desejo sexual por Prometeu, do que é exemplo o trecho “mas algo nele assustava nossa Dona de Casa e, novamente, a iguaria no forno começava a exalar seu AROMA APETITOSO. EFLÚVIOS, diria!”. O cheiro, o perfume, sabemos, está intimamente ligado à provocação do impulso sexual, e um dos sentidos de “eflúvio” é “emanação magnética que, para os adeptos do magnetismo animal, passaria do magnetizador ao magnetizado, transmitindo a este a vontade e as impressões daquele”(dicionário eletrônico Michaelis), o que sugere o nosso conhecido e fundamental “tesão”.

    A terceira fase é a carne queimada, representando certo sentimento de frustração da personagem (“ela lembrava. Sua alma queimava e, em prantos, soltou Olívia, que foi drenada pelas tramas dos mil e um fios”).

    Quero ressaltar duas construções frasais ruins. A primeira: “é nessa altura em que confrontos são feitos? Em que se pergunta pelo homem que conhecera no passado?”. Quem SE PERGUNTA não SE PERGUNTA EM QUE, de modo que o trecho ficou confuso; a segunda é “e se impressionava com os desenhos que Olívia fez durante o dia, que ainda não tinha visto”. O trecho QUE AINDA NÃO TINHA VISTO parece referir-se a O DIA, o que certamente não foi a intenção.

    Do ponto de vista gramatical quero ressaltar “mamãe! Senti tanta sua falta!” (TANTO); “mas Olívia, não fazem nem uma hora que te coloquei pra dormir…” (FAZ) e “[…] atravessando a sala e sentando-se à mesa e, como por extinto, colocou a maleta sobre ela” (INSTINTO).

    • Evelyn Postali
      26 de maio de 2017

      Gostaria de fazer uma observação com relação ao roubo do fogo. Se me permite. E, de antemão cumprimentar pelo comentário. O fogo, no meu humilde entendimento, tem o simbolismo do conhecimento. Dar para a humanidade o conhecimento é arrancar o véu da ignorância. Meio óbvio, eu sei, mas para as disputas de poder, quem, assim o faz, ergue inimigos sem fronteira.

  44. Andreza Araujo
    24 de maio de 2017

    Adorei o título do texto e como ele se encaixa na trama, nos sentimentos e nas reações da protagonista. Interessante notar que a imagem-tema só aparece no final, nas últimas linhas. E as primeiras linhas só fazem sentido quando a gente termina de ler o texto, pois num primeiro momento a gente não entende o que seria uma “trama de mil e um fios” (eu, pelo menos! haha).

    Gostei do modo com o javali (no forno) foi usado mais de uma vez para tentar “acordar” a protagonista, chamando-a para a realidade. E no final, Bárbara percebe, enfim, que existe uma possibilidade real em sua vida depois que o véu é removido. O ritmo da narração é muito bom, foi um texto fácil de ler e acompanhar, com uma dose certa de mistério.

  45. Sick Mind
    24 de maio de 2017

    Se eu tivesse conhecimentos prévios sobre javalis e lendas e significados e etc, minha leitura seria bem diferente.
    Comecei a gostar do conto qnd Prometeu surge na história e começa a fazer explicações, pena que ele não teve a oportunidade de nos contar mais. As cenas surreais são até interessantes e o autor(a) não precisou descrevê-las com mil palavras. Vejo potencial nessa conto e na maneira como ele foi montado, mas não tenho capacidade técnica para explicar isso ao certo. Só não gostei do título.

  46. Anorkinda Neide
    24 de maio de 2017

    Guria! voltei pra ler… e pá! as cortinas se abriram! hehe
    Sério, muito lindo e agora eu vi ali nos versos finais, Prometeu e o javali!! uhhuu, claro que a Evelyn ajudou no seu comentario 🙂
    Mas agora entendi os fios das Moiras, as possibilidades, a ilusão, o reconhecimento que pode trazer, enfim, uma mudança.
    Que bonito!
    Digamos q os fios deste conto foram muito bem traçados, eu tinha feito uma leitura rápida, q pecado o meu, nunca mais farei isso. rsrs
    Parabens pelo talento
    Abração

    • Evelyn Postali
      26 de maio de 2017

      Eu quebrei minha resolução de não comentar conto por conto porque li seu comentário depois de ler o conto. E percebi que, como esse conto era abstrato, talvez se pudesse enriquecer a leitura dele nos comentários. Fiquei feliz de poder ajudar na sua interpretação. Esse conto tem uma grande sacada. O poema é quase o conto todo.

      • Anorkinda Neide
        26 de maio de 2017

        sim! depois da tua dica, li o poema com todo cuidado e vi o javali!! ehehe e entao eu li todo o texto, como quem embala um bebê, dae, sim pude visualizar a beleza dele… Muita coisa q entendi e refleti ali eu nao esmiuço no comentario mas é de preguiça mesmo, eu demoro um tempao elaborando os pensamentos dae pra transformar isso em texto escrito requer uma energia q nao me esta disponível atualmente :), sou uma pessoa estranha…

      • Evelyn Postali
        26 de maio de 2017

        Somos todos estranhos ahaha Eu tenho interpretações lentas. Eu comento e depois, percebo outras coisas, e outras… Quando sinto que é necessário, vou completando. Se não, deixo para os outros leitores.

  47. Ricardo Gnecco Falco
    22 de maio de 2017

    Olá autor/autora! 🙂
    Obrigado por me presentear com a sua criação,
    permitindo-me ampliar meus horizontes literários e,
    assim, favorecendo meu próprio crescimento enquanto
    criativa criatura criadora! Gratidão! 😉
    Seguindo a sugestão de nosso Anfitrião, moderador e
    administrador deste Certame, avaliarei seu trabalho — e
    todos os demais — conforme o mesmo padrão, que segue
    abaixo, ao final.
    Desde já, desejo-lhe boa sorte no Desafio e um longo e
    próspero caminhar nesta prazerosa ‘labuta’ que é a arte
    da escrita!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

    *************************************************
    Avaliação da Obra:

    – GRAMÁTICA
    Muito boa. Sem erros notórios ou que atrapalhem o fluir da leitura. Parabéns!

    – CRIATIVIDADE
    Ótima. Um trabalho diferente dos demais. Conseguiu sair da mesmice dos prados, campinas, florestas, cenários apocalípticos ou demais territórios ‘javalescos’, rs! Um trabalho com uma pegada bem teatral, com intertextualidades (todas teatrais, modernas ou antigas) e que conta uma história comum, porém de forma não-linear (adoro!).

    – ADEQUAÇÃO AO TEMA PROPOSTO
    120% de adequação. Os 20% a mais foi por ter colocado o javali dentro do forno e os trajes constantes na foto-tema do Certame sobre a pele de um ‘vendedor’ de porta, com direito a boné brilhante.

    – EMOÇÃO
    Foi trabalhado o interior da protagonista. Seu psicológico; sonhos e frustrações. aparentemente ilógica, a história trata exatamente do emocional de Bárbara que, envolto pelo nonsense descritivo, transmite ao leitor — sem filtros — o que habita no vão do abismo existente dentro de cada um de nós, tocando o intocável e revelando o desfocado pelos véus de nossa (pseudo)razão. Eu curti! 😉

    – ENREDO
    (Muito) mais importância possui neste trabalho o inexplicável do que o tangível descritivamente. Poder-se-ia (mesóclise propositalmente provocativa) dizer que a história se trata de uma mulher à beira da meia-idade questionando-se a respeito de suas escolhas, em meio a aspirações, sonhos e medos que deixam de contraporem-se para, de maneira catártica, soarem em uníssono, trazendo-lhe paz.

    *************************************************

  48. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1. Tema: Adequação inexistente.

    2. Criatividade: Muito boa. Elemento principal é envolvido por névoa de magia, real ou inconsciente, e reproduz seus anseios para a vida que leva, quando é confrontada por terceiro (subconsciente) que a traz de volta à realidade.

    3. Enredo: As partes se conectam tranquilamente, embora o início seja um tanto lento.

    Os clichês abundam ( crise de casamento, ausência de filhos, dúvidas, fantasia), não que isso seja negativo. É apenas uma constatação.

    4. Escrita: Muito boa. Não notei erros, aliás, se estes não forem realmente sonoros, dificilmente os noto.

    Há lirismo no texto, a trama é especialmente enriquecida com o detalhe dos olhos saltando.

    5. Impacto: baixo.

    A falta de adequação ao tema, em minha opinião, prejudica a avaliação de um modo geral. É um bom texto, todavia.

    Boa sorte.

    • Mensageiro Interplanetário
      21 de maio de 2017

      Olár, Olisomar! Adorei a ideia de inconsciente/ subconsciente que comentou! Mas venho me defender haha, quando diz que não existe o tema. Os três itens da imagem estão no texto, o Prometeu, a maleta do Élenchos e o javali como a iguaria causadora da situação. Tanto que, ao ser capturado, caminha junto ao guardião, citando outros dois mitos gregos (o Javali Calidônio e o Javali de Erimanto), colocando a masculinidade em cheque. Então não vejo como inexistente, apesar de não literal. Energias cósmicas pra nós nesse desafio, camarada!! Obrigado!

      • Olisomar Pires
        21 de maio de 2017

        Olá… boa explicação. 🙂

  49. Evelyn Postali
    20 de maio de 2017

    Querido Mensageiro Interplanetário,
    Assim como a Anorkinda Neide disse no comentário, também tenho um palpite de quem é você.
    Gramática – Muito bem escrito. Sem erros. Não notei um sequer, talvez porque me envolvi na leitura por completo. Frases bem construídas. Pontos especiais para o poema.
    Criatividade – Tem algo de surreal, de poético – e não só no poema –, de mágico. Uma mistura de coisas que me encantou por completo e eu não sei dizer, apesar de, em alguns pontos, ser complexo a ponto de não ser claro, direto – mas não se pode esperar isso de um texto assim – Tem algo de alegórico, de onírico, até. E o poema me remete à mitologia helênica e às coisas mais sutis. Também tem a questão das cores: ciano, magenta, amarelo e preto são as cores que formam todas as outras cores na impressão. É um sistema subtrativo cmyk (quadricromia) diferente das cores primárias na pintura, por exemplo, que são três: azul (seria o ciano), vermelho (magenta) e amarelo. Em pintura, essas três cores formam todas as outras cores e todas as relações – harmonias – entre elas no disco cromático. Na impressão é diferente, assim como nas questões da física (luz). Achei pertinente a indicação das cores para cada parte do conto. Elas têm significado bastante diferente.
    Adequação ao tema proposto – Talvez, para uma leitura rápida, não se perceba a imagem do homem, da mala e do javali, mas a meu ver ela está dentro do poema escrito: Prometeu o guarda em sua maleta e caminha pela rua. Ao seu lado, o símbolo da masculinidade. Seja ele de Calidão ou de Erimanto.
    Emoção – Tem aquela densidade da existência, ou a leveza, não sei bem. Faz refletir sobre nossos desejos, nossas escolhas, o que é imposição da vida ou atitude nossa, sorte ou azar. Essa coisa de não termos controle algum sobre nada e, por isso, talvez, nos revoltarmos ou nos resignarmos por completo.
    Enredo – Aí é que está o ponto negativo, mas nem tanto. Negativo não é bem a palavra para ser usada aqui. Por ser muito abstrato faz o leitor se perder no entendimento. E eu vou me repetir aqui e talvez errar feio: o entendimento está no poema: desce do céu o véu de mil e um fios sobre a casa e por ser da magia das Moiras, tudo se transforma naquele lar. Quem retira o véu é Prometeu, defensor da humanidade e seu animal de estimação, o javali – símbolo da masculinidade, da força, do herói.
    Resolvi quebrar a minha resolução de publicar meus comentários somente quando atingisse umas vinte leituras para poder trocar ideias com os demais leitores.
    Parabéns pelo conto.
    Boa sorte no desafio!
    Abraços!

  50. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Guria! Não entendi muito, não…
    Além de que o javali participa deste conto no forno, apenas, pobrezinho..
    Vou reler pra fazer um comentario mais pertinente mais tarde, ok?
    (obviamente q eu tenho uma forte e certeira suspeita da autoria deste texto..hahaha)

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .