EntreContos

Literatura que desafia.

Circe e meu amigo inglês (Henrique Junqueiro)

O que, cargas d’agua, tenho eu a ver com a Grécia? Por ascendência tenho mais de árabe que de europeu. Sou português do Alentejo. Esse porco do Afonso Costa enviou-me, junto com mais cento e quarenta e nove pilotos, à Inglaterra para lutar na RAF. Vejam só a incoerência: “A Inglaterra quer ajudar a Grécia e mandam soldados portugueses para tal”.

Nada temos contra os chucrutes além de sua insistência em invadir nossas províncias africanas, fora isso, somos amigos. A Grécia é problema da Grécia e, se quiserem, da Inglaterra e seus aliados. A Portugal interessam as províncias.

Nosso comandante, um transmontano rígido, atarracado, enérgico e bigodudo fala inglês com muita fluência e nos dará aulas para entendermos pelo menos o básico daquela língua estranha.

        Cheguei àquela caca de ilha escura, fria, nevoenta e úmida, numa manhã de abril de 1916. Fui destacado para integrar o primeiro pelotão de fogo aéreo, subordinado ao trigésimo oitavo batalhão de caçadores da RAF. Meu companheiro de combate era um inglês de Birmingham, molecote loirinho, imberbe e medroso que nem uma gazela, devia ter uns dezenove ou vinte anos. Eu não o censurava por detestar a guerra, essa droga vinha matando gente há dois anos, e nós, os portugueses, não matamos nenhum Ferdinando e nenhuma Sofia. A África, seria por justiça, quase que totalmente de Portugal, mas os alemães queriam nossas províncias, bastava defendê-las e pronto, mas não, o indecente do Afonso Costa resolveu depenar a nação e nos enviou para a guerra, para agradar os franceses e britânicos. Eu acabei na Grécia.

        Nosso pelotão, escoltado pelo trigésimo oitavo de caçadores, voou de Inglaterra a Lisboa, de Lisboa à Tunísia e da Tunísia à Grécia.

Acho que nós, lusitanos, africanos, gregos e todos os outros, com exceção da Inglaterra e França, éramos apenas bucha de canhão. Era o que, lá em Portugal, nós chamamos de cocô.

— Vão na frente que atrás nós vamos também, só não morram rápido demais porque ainda precisamos de vocês, até sujeitarmos os concorrentes italianos e alemães, depois podem morrer à vontade.

Nossa base instalou-se na ilha de Patmos e de lá fazíamos incursões à Itália, a África e aos vizinhos Balcãs. Os boches estavam em todos os lugares, sempre escoltados pelos carcamanos, seus aliados.

         Meu fuzileiro, o garoto inglês temeroso, ria muito quando tentava pronunciar alguma palavra em português, eu ria com ele e brincava com termos ingleses. Em pouco tempo, éramos amigos, embora só nos entendêssemos em termos militares, mas, depois de um ano na frente de combate, a convivência fez com que o idioma inglês não fosse tão estranho para mim e o português se tornasse mais familiar para ele.

Numa manhã de novembro de 1917, nossa carreira de herói foi interrompida. Até então tínhamos enfrentado apenas fogo terrestre, não de baterias, mas de soldados que nos avistavam e abriam fogo com fuzis e metralhas pouco potentes. Neste dia, porém, o fogo de dezenas de metralhadoras veio de aviões semelhantes ao nosso, mas muito mais rápidos. Fomos atingidos por uma rajada de balas e nosso pequeno aviãozinho emborcou, lutei com o manche e consegui erguer seu focinho, estabilizá-lo e aterrissar, aos trancos e barrancos, numa ilha montanhosa e muito arborizada. Quando o avião parou, chamei meu companheiro:

— Beija a mão do papai aqui, ó!  Falei, estendendo minha mão.

O gajo ficou em silêncio e eu me virei para vê-lo.

O raio do garoto estava desmaiado e todo mijado. Com esforço, arrastei-o para fora da aeronave, havia risco de explosão. Levei-o até uma distância segura e deixei que dormisse o quanto precisasse. Ainda era manhã e eu tinha que aproveitar o tempo para fazer o reconhecimento da ilha, estabelecer um rumo a seguir e pedir socorro quando chegasse à civilização. Não tínhamos nem ração  nem água, a não ser a dos cantis.

O garoto acordou e começou a chorar:

— Rodolfo, Rodolfo! We are still vivos?

Yes, my friend, estamos vivos. Levante-se e ande.

Olhando para ele, disfarçando o riso, dirigi meus olhos para suas calças:

— Quer se enxugar?

Son of bitch!  Praguejou, meio envergonhado.

Caminhamos rumo sul. A bússola, os cantis e um fuzil, coletados dos restos do avião, iriam nos guiar e nos proteger até alguma cidade ou vila. Andamos até bem depois do meio-dia, sempre rumo sul, mas não víamos sinal nem de casa, nem de animais pastando, nem de cães ladrando, não vimos absolutamente nada, a não ser alguns porcos a chafurdar nas margens de um córrego. Meu amigo ia ficando para trás e eu o exortava:

— Vamos, rapaz, temos de achar abrigo e socorro. Ande mais depressa, pô!

Olhei para trás a fim de animá-lo e vi que estava à beira do pranto. Seus olhos lacrimejavam e ele lutava para não chorar.

— O que foi, amigo?  Perguntei penalizado.

Ele não respondeu, só olhou para baixo. Segui seu olhar e vi sua farda, acima das costelas, empapadas de sangue. O pobre rapaz havia sido alvejado.

— Por que não me dissestes, seu maluco! Are you crazy? Ralhei com ele.

Teria de acomodá-lo num abrigo e procurar socorro. O abrigo não foi difícil de encontrar, havia inúmeras árvores, escolhi uma entre as maiores. Deitei meu amigo à sua sombra, rasguei a túnica para ver o ferimento e, se necessário, estancar o sangue. Não foi preciso, não havia hemorragia. O tiro fora de raspão, mas fizera um corte profundo até o osso da costela, no entanto a temperatura elevada do projétil cauterizou o talho e evitou um sangramento maior. Sosseguei-o e, aconselhando-o a não fazer esforço nenhum, coloquei o fuzil a seu lado e saí a procurar ajuda. Agora não me importava se a ilha estava nas mãos dos carcamanos, dos boches ou de quem quer que seja. Tinha de socorrer meu amigo.

Meia hora após andar meio que sem rumo, avistei um enorme casarão no meio de um arvoredo. Feliz com meu achado, aproximei-me da porta principal e puxei o cordão de uma sineta, acima de minha cabeça. Não demorou muito e uma dezena de mocinhas incrivelmente bonitas vieram me atender. Ao me verem, seus rostos se iluminaram e suas bocas abriram-se em sorrisos sinceros e contagiantes. Afastaram-se da porta, pronunciaram algumas palavras ininteligíveis e, com gestos graciosos, convidaram-me a entrar. Usavam vestidos transparentes de um tecido vaporoso e sensual. Eram maravilhosas.

De algum lugar que não consegui visualizar surgiu uma mulher muito linda e graciosa, incrivelmente elegante e de andar harmonioso. Parecia ser a patroa, a proprietária da mansão. Imediatamente dirigi-me a ela:

— Tenho de buscar meu amigo, meu amigo está na mata, tenho que resgatá-
-lo. Disse as palavras na minha língua materna, mas ela, depois de uns segundos, sorriu e falou em bom português:

— Claro, meu amado, vamos buscar seu amigo. Sente-se aqui. Disse-me enquanto apontava-me uma poltrona espaçosa e confortável.

Bateu palmas e alguns homens barbados, encardidos e esfarrapados entraram e se atiraram aos pés da mulher, com os rostos voltados para o chão. Ela apenas olhou para baixo e eles saíram grunhindo, roncando e dando gritos animalescos.

— Não se preocupe, eles trarão seu amigo.

— Mas eu não lhe disse onde ele está, como poderão encontrá-lo?

— Meus empregados conhecem cada palmo dessa ilha, fique certo de que eles trarão seu amigo, esteja ele onde estiver.

Quis protestar, mas não tive como, as jovens serviram-me um copo de vinho e uns canapés muito saborosos. Depois que bebi e comi, elas se achegaram e conduziram-me até uma piscina cheia de flores. Banharam-me entre risos e palavras desconhecidas que pronunciavam e riam com mais intensidade. As garotas me deixaram nu, o que me constrangeu deveras, mas num momento me refiz, levantei-me, peguei minha farda do chão e vesti-me. Voltei à sala onde fora recepcionado e a encontrei vazia, isto é, sem ninguém. Sentei-me na poltrona e esperei para ver se aqueles maltrapilhos iriam mesmo trazer meu amigo inglês.

Acabei cochilando. Acordei repentinamente, despertado por uma onda de gritos, uivos e grunhidos. Abri os olhos e meu fuzileiro britânico, ali estava, rodeado de porcos, assustado e surpreso, com os olhos e a boca extremamente abertos, parecia não me ver. As meninas vieram e enxotaram os animais para fora.

— Hello, crazy friend! – Eu disse-lhe.

Ele me olhou espantado e falou-me:

— Não podemos stay here!

— Por que? Vamos, se acalme, vou ver se aqui existe algum meio de comunicação.

As jovens se aproximaram, pegaram meu amigo e o conduziram para a mesma piscina onde eu havia me banhado. Eu acompanhei-o. Lavaram seu ferimento, puseram umas folhas em cima e o enfaixaram. O fuzileiro, depois de limpo, vestiu a farda e voltamos à sala onde uma enorme mesa estava pronta, com variados tipos de comida.

A dona estava radiante de alegria. Sorria e gesticulava para as meninas que a rodeavam, passeando pela sala, transbordante de beleza e felicidade. Vestia uma roupa, uma espécie de clâmide azul-clarinha, etérea e vaporosa. Cabelos presos por um prendedor de ouro, brincos de argolas, braços nus e mãos enfeitadas com anéis exuberantes em todos os dedos. Era o retrato da anfitriã milionária. Esbanjava satisfação. Eu não me sentia feliz e não sabia por quê.

Uma indisposição apossou-se de mim e afastou meu apetite. Pedi, então, a uma das moças, que parecia me compreender e que por várias vezes a surpreendi olhando fixamente para mim, que me indicasse o quarto onde eu e meu amigo ficaríamos. Pedi perdão à dama e retirei-me, sem que ela protestasse. A garota disse chamar-se Alseídes, que era devota de Hermes e que a madame era Circe, filha de Apolo. Deixou-me na porta e, antes de se afastar, sussurrou:

— Vá embora o mais depressa que puder. Não me deu chance de responder ou perguntar, saiu ligeira e formosa rumo à sala de jantar.

O quarto estava cheio de malas, correntes, remos, chapéus e outros objetos que não deveriam estar ali. Muito preocupado com as palavras da menina, atirei-me à cama e acho que, devido à movimentação do dia, dormi até altas horas. Acordei com uma gritaria tremenda, vinda dos fundos da casa, dirigi-me à janela e olhei para o quintal. Abri e fechei meus olhos horrorizado. Dezenas de seres indistintos, mal iluminados por uma grande fogueira, estavam à porta, do que julguei ser a cozinha, e pegavam no ar restos de comida, como cães famintos. Fiquei alguns segundos a olhar aquela estranha cena. De repente, a comida cessou e os seres, como se fossem porcos, saíram a grunhir e a roncar, numa algazarra infame e assustadora. Um deles ficou para trás, pois coxeava de uma perna, assim pude ver que era verdadeiramente um porco, um porco de tamanho descomunal.

Um ruído vindo da entrada do quarto me fez voltar à realidade. Abri a porta e quase caio de susto. Um enorme javali com presas imensas arranhava e esfregava o focinho no chão, como a querer arrancar o piso. Afastei-me amedrontado e vi que o animal carregava a farda da RAF no lombo. O bicho entrou no quarto, grunhiu e roncou sempre a olhar para mim. Parecia querer se manifestar, parecia querer falar. Era, sem dúvida, meu fuzileiro inglês transformado em porco.

Fiquei estarrecido e desesperado para sair dali. Chamei por Santo Antônio de Pádua, o santo de Portugal, e ele me atendeu:

A donzela Alseídes apareceu na porta do quarto com uma coleira de couro, um objeto em forma de cone e um feixe de ervas. Mandou que eu pegasse uma corrente, prendesse na coleira e a colocasse no pescoço do porco. Pegou o objeto em forma de cone, dizendo que era um amuleto que me protegeria de Circe, se acaso ela despertasse e desse por minha falta, prendeu-o na outra ponta da corrente, abriu uma mala, jogou para fora o conteúdo, colocou a farda do meu amigo e o feixe de ervas malcheirosas. Olhou fundo em meus olhos e disse:

— Faça rastro, soldado.

Não esperei segunda ordem, nem me despedi adequadamente, vesti minha capa de couro, pus meus óculos de combate, arrastei meu amigo pela corrente e, silenciosamente, sai na escuridão da noite. Sabe Deus para onde.

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4 comentários em “Circe e meu amigo inglês (Henrique Junqueiro)

  1. Milton Meier Junior
    22 de maio de 2017

    Gostei da história. Muito bem escrita e contada. Não tem muita relação com a foto proposta para o conto, exceto pelo final, mas isso não tira o seu valor. Uma leitura muito divertida e prazerosa. parabéns!

  2. Ana Monteiro
    22 de maio de 2017

    Olá Henrique. Claramente não é português. Mas conseguiu bem o seu intento de encarnar um personagem do meu país. Gostei do seu conto, está bem desenvolvido e não apresenta gafes dignas de menção. Muito imaginativo. Ótima criatividade. Foi bom de ler e sem sobressaltos indesejáveis. O enredo está bem estruturado e é emocionante. Também conseguiu,no final, adequar muito bem ao tema proposto. Vai certamente ficar bem classificado. Parabéns.

  3. Pingback: Circe e meu amigo inglês (Henrique Junqueiro) | EntreContos | O LADO ESCURO DA LUA

  4. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Olá! Olha que bacana como vc trouxe a imagem pra fazer a sua cena final, achei isto bem legal!
    Gostei da historia e da mitologia inserida.. então, conseguimos um conto de mitologia por aqui, que fantástico! Parabéns!
    O texto foi muito gostoso de ler com todas as suas expressões de Portugal..hehe muito bom mesmo.
    Abração

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.