EntreContos

Literatura que desafia.

Avalac (Higor Benizio)

E quando acaricio a cabeça do meu cão, sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.”

Clarice Lispector

 

1

 

Charlotte ajudava a mãe com a areia.

 Uma brisa preguiçosa soprava carregando sacolas e notas antigas que já não valiam nenhum centavo. O mundo estava morto. Ou, no mínimo, em coma profundo. Um velho cagando nas próprias calças, sem poder contar com a ajuda das enfermeiras. Rezaria por uma pane nos aparelhos se pudesse, mas sua cabeça não funciona mais. Nada funciona. Tudo que resta é um arrastar-se lento, infernal, a última falha antes do grande colapso. Peço desculpas Sra. Planeta Azul, mas seu marido não tem muito tempo…

 — Vamos filha, encha a sacola.

 Charlotte pegava algumas porções de terra e ia jogando no saco. Todos esperavam que fosse terra boa dessa vez, as últimas tempestades não trouxeram nada além de morte.

  Prédios altos esticavam-se ao redor, em direção ao céu cinzento. Em algum lugar, uma placa dizia: POSTO ALI, SEU AMIGO DE TODAS AS HORAS! A poeira cobria tudo, desde a lanchonete até as bombas de gasolina, inclusive o letreiro. Sofia, mãe da garotinha que enchia o saco com areia, sabia que aquelas bombas estavam secas há muito tempo. Nenhuma gasolina sairia dali, muito menos álcool ou diesel.

 — Já está bom meu amor, podemos voltar.

 Sofia segurava a sacola numa das mãos, a outra puxava a criança.

 — Mamãe, vamos ter milho até o Natal?

 — Eu não sei baixinha, ninguém sabe…

 Não muito longe de onde estavam, Charlotte avistou um pequeno monólito negro no horizonte. A visão foi suficiente para encher seu coração com aquele ocasional e infantil desespero, que só passa após um alto e belo “Olha lá mãe, tem alguma coisa ali!!”.

 Quando os olhos da menina encontraram os de Sofia, as palavras desapareceram no ar. Sabia que não encontraria nada além de um “Vamos mocinha, se acha que viram a gente, precisamos correr!”. A dureza do entendimento já seria o suficiente para um adulto, em Charlotte, causava danos irreversíveis.

 Em outro planeta, em algum outro tempo, onde os homens de poder tinham um pouco mais de prudência, menininhas brigavam pela prioridade em alimentar um grande pombo acinzentado, gordo como uma galinha de granja. Migalhas voavam enquanto a ave mancava entre uma bicada e outra contra o concreto da calçada. Migalhas alheias ao sofrimento de Charlotte. Migalhas que ela poderia comer.

 

2

 

Avalac guardou a luneta num dos bolsos improvisados do sobretudo marrom. Olhava Timão com pena. Viajar com o javali era garantia de pelo menos alguma companhia, além de um belo pedaço ambulante de carne que não precisava de geladeira. Riu ao pensar que Timão poderia virar cozido caso tudo piorasse ainda mais, mesmo sabendo que dificilmente comeria o animal. Tinham alguma conexão, criada ao longo de muitos arrotos, puns e risadas embaladas pelo som de tempestades de areia.

 — Nada demais meu caro Timão, só uma mulher e uma criança catando terra — disse Avalac, recebendo um Ronc distraído como resposta. Era como se o javali dissesse “Pois é meu rapaz, que merda eu posso fazer?”.

 — Merda nenhuma.

 O vento anunciava que mais poeira viria em algumas horas. Se os dados de Deus mostrassem o 12, o granizo não viria de brinde, caso um belo 7 caísse na mesa, não precisaria fazer alarde, seriam só os raios de sempre, e a tão conhecida poeirinha. Quem quer arriscar um dobro ou nada? Melhor não, não contra Deus.

 Avalac precisava encontrar um lugar seguro para passar a noite, que cairia em pouco tempo. Sua mente buscava uma solução, mas logo voltou a questão que a ocupara nos últimos meses.

 É impressionante como nossos neurônios tem vontade própria. Todos sabem que momentos de extrema concentração podem levar a nada mais, nada menos, que uma musiquinha de comercial de detergente. Algo como “Passou, limpou! Limpou, passou!!”, a tortura começa e nunca tem fim, só uma trégua, aos quarenta e cinco do segundo tempo, quando o juiz já não sabe mais o que está fazendo.

 Afinal de contas, Timão era o javali ou o suricato? Não conseguia lembrar de jeito nenhum. Sabia que existia um desenho, tinha certeza. Algo sobre um leãozinho que perdeu os pais e foi criado por algum Hakuna Matata, ou qualquer coisa perto disso. A imagem do seu pijama azul chegava nítida como o gosto do achocolatado pela manhã. Assistia o programa das nove todos os dias, roubando alguns segundos celebres na poltrona do pai, esperando com ansiedade pelo… Leão Rei? Difícil dizer, e também não importava muito. Seria Timão, um bom nome. Timão, um javali gente fina, pensou divertido. Compraria uma coleira caso encontrasse algum Pet Shop aberto.

 — Mandaria polir seus cascos!

 O javali fingiu que não ouviu, e foi farejar perto de uma grande placa enferrujada, onde o antigo limite de velocidade (60 KM) tinha ficado quase invisível sob a pichação, que dizia em letras sem nenhuma técnica:

 

Quem peidou na farofa? Se souber do FDP, ligue para o Disque Denúncia!

 

 — Vai ligar Timão?  — Avalac não conseguiu segurar o riso. — Eu estou sem créditos!

  Ronc, Ronc, concordou o javali, num tom de “Os meus também acabaram, campeão!”

 

3

 

O lobo mal assoprava, assoprava, mas a casa não caía. O assovio do vento entrava por algumas fendas nas paredes da estrutura. A fogueira queimava bem no centro do que um dia teria sido um ginásio para alunos de classe média alta. Marcas de partidas de futsal e badmintom ainda podiam ser vistas pelo chão, como se fossem rastros deixados por fantasmas. Seres que existiram há muito tempo, tanto quanto Avalac podia lembrar. Olhou suas mãos limpas e agradeceu pela sorte que teve.

 Uma hora atrás, ainda com os óculos que usava para proteger os olhos da poeira, teve de começar a rotineira busca por coisas que poderiam ter alguma utilidade. Vasculhou os armários do vestiário masculino, onde encontrou toalhas limpas e seis latas de desodorante ainda cheias. Cheirar bem, ao contrário do que muitos poderiam pensar, era necessário, apesar de não ser uma prioridade. Feder atraí seres vivos, e seres vivos dão trabalho. Feder diminui o ânimo, e sem ânimo a caminhada é quase impossível. Feder faz as pessoas acharem que você come pessoas, e pessoas não gostam nada disso. Melhor levar o produto, aproveitar a promoção. O patrão ficou louco, pegue tudo que conseguir carregar, falou baixinho para si mesmo.

 O breve sopro de humor foi o suficiente, e seu coração, pelo menos por um tempo, ficou um pouco mais leve.

 Terminado o lado dos meninos, precisava checar o outro, o destinado as meninas.

  O vestiário feminino cheirava muito melhor — o que sempre foi verdade, desde o início dos tempos. A quantidade de embalagens de shampoo chamou sua atenção. Espalhavam-se pelos quatro cantos, cobrindo a maior parte do chão, como num jogo de campo minado, só que as bombas não estavam escondidas. Pegou dois deles e colocou na bolsa. Tudo bem, caso encontrasse água nas torneiras, tomaria seu belo e merecido banho.

 Um rangido agudo preencheu o lugar quando Avalac girou a torneira. Logo após os longos arrotos do cano de metal, e a quantidade impressionante de ferrugem que cuspiu, viu o brilho prateado da água fluir com força. “Seu bilhete está premiado senhor, parabéns!”.

 Uma antiga música floresceu em sua mente, embalada pelo som suave do líquido descendo pelo ralo. Primeiro lenta, depois no ritmo certo, do jeito que o ratinho de toalha cantava, no mesmo tom.

 

“Banho é bom.

Banho é bom.

Banho é muito bom!”

 

4

 

Timão coçava atrás da orelha esquerda, e fazia cara de quem estava satisfeito com a fogueira. Tudo parece quentinho por aqui, diziam os olhos amendoados do animal.

 Brilhando entre tons de amarelo e laranja, devido ao fogo bom, a grande mala de Avalac chamava atenção naquele estranho ginásio abandonado. Não era de forma nenhuma um lugar para malas como aquela. Grande, pesada, uma coisa enorme que qualquer um poderia encontrar na casa do seu avô, ou do seu pai — depende do dia em que você nasceu.

 Todo tipo de coisa se amontoava dentro do malão. Latas de milho dividiam espaço com cobertores velhos e pares de sapato esfarrapados. O único dos objetos que parecia estar em bom estado era um grande caderno de capa azul, que Avalac pegou enquanto tirava uma caneta do bolso.

 — Pensa em dois nomes bons, Timão — disse Avalac, puxando conversa com o javali. — Nome de mulher.

 O animal imediatamente admitiu um tom reflexivo. Encarava o horizonte com o olhar vazio, de quem está pensando em grandes questões. O olhar de gente importante, ocupada, e que não tem tempo para perder com bobagens como bocejos. Afinal, quantas são as dimensões? Qual o tamanho do tamanho? Dá onde veio a palavra “chinelo”? E, pelo amor de Deus, por que ela quer dizer quase o mesmo que “sandália”? Stephen Hawking teria inveja daquela expressão.

 Ao final de dez segundos, o porco selvagem soltou um pum leve como um brisa. O gás saiu inodoro, chiando baixo, tranquilo, pedindo licença com educação. Se porcos assoviassem, seria um assovio.

 — Sof… Sofia! Boa Timão, você é mestre nisso!

 A caneta então deslizou pelas linhas do caderno, preenchendo uma folha amarelada entre pequenas pausas na escrita. O raro sorriso de Avalac fez uma breve visita ao seu rosto, fazendo suas bochechas se moverem como engrenagens antigas e enferrujadas. Timão quase ouviu o ranger do mecanismo.

 — Chamei a garotinha de Charlotte, o que acha? — Timão não precisou responder, Avalac fez isso por ele. — Concordo, é um bom nome. Um ótimo nome, na verdade.

 Sabe Timão?  Às vezes fico pensando se alguém vai ler isso. Essas coisas que eu escrevo, podem ser o único registro escrito da raça humana, como um documento, um achado arqueológico, está me entendendo? Posso me tornar uma espécie de autor referência para a biblioteca dos homenzinhos verdes de Júpiter. Ou, se preferir, o próximo Buda, com direto a estátua e tudo mais. Consigo até imaginar os monstrinhos de Marte colocando latas de milho aos pés da minha imagem esculpida em mármore branco. Fazendo suas preces ao grande Avalac, e seu fiel discípulo, Timão, o javali da sorte.

 Quando eu tinha dezesseis anos, fiquei viciado numa série de livros. Você com certeza não conhece, se chama “A Torre Negra”. Dentro da minha cabeça, tudo aquilo era tão real quanto minha própria vida. Depositei nos livros a mesma fé que os cristãos depositam na Bíblia.

 Entende agora o que estou dizendo?

 Ah, vamos Timão! Preste atenção!

 Os livros contam a história de um sujeito chamado Roland. Um pistoleiro descendente de uma linhagem extinta, o último sobre a terra.  No fim, ele encontra seu destino na busca pela Torre Negra.

 A imagem de Roland, cansado e moribundo, caminhando sobre um mundo morto e devastado, me encantava. Ficava extasiado! Como uma garotinha num show de música pop.

 As palavras de Avalac soavam como uma canção de ninar para o javali, que pegara no sono logo no início. Ouviu alguma coisa sobre Marte, ou Júpiter, não tinha certeza. E depois tudo era escuridão. Sonhos com caçambas de lixo cada vez mais recheadas coloriam sua mente.

 Avalac então ouviu um ronco, e teve certeza de que seu companheiro estava dormindo. Sentiu os olhos arderem, e as lágrimas quentes deslizaram pelo rosto cansado. Ninguém dava a mínima, muito menos a porra do porco. O mundo se transformara numa linda puta, daquelas que não muda seu ar de deboche por mais que o contratante meta. Logo o prazer perde o sentido, e tudo que importa é tirar aquele sorriso da cara dela.  

 O mundo sorria para Avalac, do mesmo jeito que a prostituta. Mostrando seus grandes dentes, rindo dos seus esforços. Partindo seu coração apaixonado. Deixando bem claro que ele era apenas mais um tentado gozar na vagina mais triste de todas. Um ninguém, um zé ruela.

  — Eu sou a porra do Roland agora, está feliz? — Soltou um riso triste, quase um soluço. — Só que a minha torre está no meu bolso, a grande torre de merda! A torre da sobrevivência.

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57 comentários em “Avalac (Higor Benizio)

  1. Bia Machado
    23 de junho de 2017

    Certo, certo. Eu fico pensando o que tem a ver Clarice Lispector, com a mãe e a menina e com Timão também? Help! Descrições muito ricas, isso não há como negar e ainda bem que é assim, já que eu, meio que perdida no meio de um tiroteio, confesso que me deleitei com essa parte. Eu gostaria, sério, de ter a certeza de que compreendi ao menos a maior parte do enredo. E é a segunda vez que tento ler. Da primeira não consegui, voltei hoje e, mesmo sabendo que não captei muita coisa, peço desculpas pela pressa e agora não poder mesmo ter certeza sobre do que realmente se trata. Boa sorte no desafio! PS: Confesso que o nome “Avalac” me incomodou bastante. Principalmente por não ter ideia do porquê dele, perdi essa parte também. Mian hamnida! 😉

  2. Lee Rodrigues
    23 de junho de 2017

    Vamos lá, Afonso!

    O conto é rico na ambientação. Brisa, poeira, banheiros… solidão.
    Achei um tanto exagerada as referências, em dado momento, elas falam mais que a trama em si. Contudo, compreendi que seja uma necessidade do persona manter vivo seu registro de memória; as coisas que viveu, o que gostava e que já não existem mais.

    O antropomorfismo foi bem talhado e faz analogia com o que o excesso de intimidade faz. Estraga momentos mágicos (malditas gases). 😃

    No geral o conto é bom!

  3. Pedro Luna
    23 de junho de 2017

    Não entendi o propósito da história e também achei exageradas as referências, a Disney, King, Castelo Ra Tim Bum. Não que não se possa fazer, mas sei lá, o texto tem um tom pós apocalíptico, começa falando da verdadeira desgraça, tempestade de areia, e do nada vinham essas referências e cenas “divertidas”. Acabou ficando um texto com tom soluçante, e no fim terminei não sendo fisgado pela trama.

  4. Daniel Reis
    23 de junho de 2017

    (Prezado Autor: antes dos comentários, alerto que minha análise deve se restringir aos pontos que, na minha percepção, podem ser mais trabalhados, sem intenção de passar uma crítica literária, mas uma impressão de leitor. Espero que essas observações possam ajudá-lo a se aprimorar, assim com a leitura de seu conto também me ajudou. Um grande abraço).

    Avalac (Afonso Elva)

    ADEQUAÇÃO AO TEMA: tem. Acho. Vide abaixo.

    ASPECTOS TÉCNICOS: o texto tem uma coerência toda própria, da qual não consegui compartilhar. Algumas frases achei engraçadas (“Compraria uma coleira caso encontrasse algum Pet Shop aberto”), outras totalmente fora de contexto ou, simplesmente, colocadas ali para chocar (Quem peidou na farofa? Se souber do FDP, ligue para o Disque Denúncia!). Não quebraram a casca, infelizmente.

    EFEITO: me senti mais burro do que o normal lendo esse conto. Muitas referências que não fazem parte do meu repertório. Acho que apreciaria mais a arte se soubesse do que o autor estava falando.

E Então? O que achou?

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Publicado às 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017 e marcado .