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Literatura que desafia.

A Maldição do Porco (Chico Machado)

Provavelmente, todas as qualidades atribuíveis àquele porco, pudessem ser conferidas a ele, desde o exato dia daquela maldição. Mas o fato é que recebera ele próprio a incumbência de conduzir o animal, de carregá-lo de maneira frequente e, para seu azar, nos últimos dias de forma ininterrupta. É bem verdade que também sustentava algumas extravagâncias. O sobretudo estranhamente combinado com os óculos que lembravam bastante os de aviador; inclusive aquela aparência exótica que por certo era mera excentricidade. Porém, nada que pudesse molestar o porco de maneira mais profunda.

“Porco que é porco, tem modos de porco, grunhe como porco e age como porco”.-Pensaram. Mas aquele ali parecia ignorar completamente esse fato.

Absoluta certeza de que seus modos não causavam nenhum incômodo ao animal, a ponto de despertar naquele suíno uma repugnância parecida com a que ele sentia.

Algo que talvez o outro pudesse estranhar era aquela mala preta e pesada, cujo conteúdo ilícito era um fardo severo e inconveniente: Carregava consigo os restos mortais de outros porcos, pesados o bastante para lhe causarem excruciantes dores físicas. Tinha fortes dores nos braços devido a uma artrose que se pronunciava. O peso da mala lhe ampliava as dores calcâneas. Mesmo assim, não tinha tempo a perder, não era possível parar sequer por um segundo, pois ainda havia muitas tarefas a cumprir, especialmente naquele dia, em que o porco parecia bastante agitado. A mala, apesar de parecer suficiente para esconder o conteúdo, por si só, a julgar pelo seu tamanho, denunciaria muita coisa, sob o olhar de um observador mais atento.

Ele não sabia, mas seu companheiro (o porco) carregava também a própria mala, que talvez, se fosse conhecida, despertaria, em todos, uma série de questões: A mala do porco conteria restos de outros porcos, ou seriam partes de outros desavisados seres humanos? Ocupado demais, com a própria bagagem, que talvez devesse ter sido abandonada há alguns quilômetros, sequer parou para pensar nisso. Entretanto, não o fizera por razões perfeitamente legítimas.

Não sabia quanto tempo demoraria para cumprir sua tarefa. Mas uma estranha peculiaridade conferia àquela situação, uma condição ainda mais curiosa. O sujeito que carregava o javali era intáctil. Os óculos também não lhe permitiam ver absolutamente nada. Nem o animal que carregava, sequer o próprio rosto no espelho. Também não conseguia saber em que posição se encontrava, de modo que era bastante plausível a hipótese de que estivesse andando de quatro, assim como aquele ser repugnante que conduzia.

Aqueles dois  se encontravam numa relação de aparente desequilíbrio, ao menos até onde se sabia. Apesar de simbiótica, escondia um ódio mútuo, que não convinha manifestar. A despeito disso, seria iminente e inevitável, o infindável encontro voluntário com outros homens, outras malas e outros porcos.

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4 comentários em “A Maldição do Porco (Chico Machado)

  1. Olisomar Pires
    21 de maio de 2017

    1, Tema: Adequação presente.

    2. Criatividade: muito boa. Dois seres que se misturam ou um só que pensa ser outro.

    3. Enredo: o estilo do texto exige a confusão. Nesse sentido está muito bom. Não se sabe bem onde termina um e começa o outro, nem se há realmente um outro.
    Um texto realmente interessante, pena que o autor o abreviou em demasia.

    4. Escrita: tranquila, sem erros que pude notar (aliás, nunca noto erros, exceto se forem gritantes).

    A atmosfera criada ficou boa, mas como disse faltou um tantinho a mais.

    5. Impacto: médio.

  2. Marcelo Milani
    21 de maio de 2017

    Grande Chico, estou confuso quanto a maldição. O javali virou homem ou o homem virou javali? Fiquei perdido na narrativa, acho que precisou desenvolver mais coisa. Grande Abraço!

  3. Lucas F. Maziero (@lfmlucas)
    20 de maio de 2017

    Mas que maldição mais extravagante!
    Não gostei muito desse conto. Levantou-se questões que não foram respondidas, como: “Não sabia quanto tempo demoraria para cumprir sua tarefa.” Que tarefa, encher as malas de restos de porco, e na outra mala restos de pessoas?

    E por que o sujeito que carregava o javali era intáctil?

    Parabéns!

  4. Anorkinda Neide
    20 de maio de 2017

    Outros homens, outras malas e outros porcos. poderia ser o titulo deste texto..hehe
    Achei bem corajoso vc trazer um texto curto e com ele uma reflexão, no lugar de uma história. A leitura flui e nos leva junto neste devaneio a que a imagem te conduziu. Achei pertinente e interessante.
    Parabéns
    Abração

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Publicado em 20 de maio de 2017 por em Imagem - 2017.